terça-feira, 17 de junho de 2008

Rebelião 79: Contrastes


Glenda Marques sentia-se mais uma vez entregue à solidão, em seu pequeno quarto no último andar do velho prédio em Copacabana. O minúsculo quitinete estava repleto de livros e cadernos de anotações, alguns deles bem mais velhos que ela mesma. A moça de traços delicados morava ali há mais de um ano, graças ao convite de sua amiga e “professora” Zu, que deixou que a jovem Acólita residisse naquele minúsculo apartamento, antes usado só como uma espécie de depósito informal.

Muitos metros abaixo, a discoteca de reputação duvidosa iluminava a noite quente de verão com suas letras enormes de néon. Alheia ao burburinho da rua estreita, Glenda cansou de folhear a esmo o velho livro empoeirado de capa escura e pousou-o sobre a mesinha do telefone. Era um compêndio de poesias góticas intercaladas com xilogravuras copiadas — supostamente — de antigos manuais de caça às bruxas. Trazia o título nada original de Bruxas, Demônios e Outras Criaturas Malditas, e era assinado por um desconhecido poeta gótico escocês Fred McLafer. Era um dos preferidos da coleção de velharias de Zuleica Silveira, a “Tia” Zu dos Acólitos, cujo pequeno apartamentinho mais parecia um sebo que um lar. Mesmo sem interessar-se por aquela insólita literatura, Glenda passava tanto tempo entre aqueles livros que sempre acabava lendo um ou outro para se distrair.

Uma lufada repentina de vento vinda da janela provocou um verdadeiro turbilhão nas folhas do livro entreaberto, para espanto da moça, que correu para fechá-la. “Estranho”, pensou ela ao perceber que a janela estava fechada. “De onde veio esse tornado?”, pensou Glenda. Quando o vento finalmente cessou — de forma tão misteriosa quanto havia começado — a Acólita percebeu que o livro ficara aberto na página 176, que trazia a gravura de um horrendo demônio, com chifres curtos e espiralados, e enormes asas escuras de morcego. A legenda no rodapé trazia escrito “Ganuvelis, anjo caído, outrora formoso querubim, transformado em nefasta criatura infernal. Prometia enriquecimento rápido a seus seguidores.

Glenda pensou em fechar o livro, mas acabou distraída pelas luzes do quarto, que passaram a piscar num ritmo frenético. Amaldiçoando a instalação elétrica da casa — não era a primeira vez que as lâmpadas na quitinete “pifavam” —, pensou em ligar para Zu, mas percebeu que todas as luzes da rua pareciam oscilar na mesma freqüência. O letreiro de cores berrantes da boate, os postes de iluminação na rua, até mesmo os faróis dos carros, tudo parecia tremeluzir num ritmo cada vez mais rápido. A Acólita começou a sentir-se ligeiramente tonta, e apoiou-se em sua cama para não cair no chão. Pressentindo algo fora do normal, agarrou-se ao objeto pontiagudo mais próximo como se fosse uma arma: um garfo.

As luzes piscaram cada vez mais rapidamente, até que tudo à sua volta parecia banhado em um brilho sobrenatural, como se estivesse aprisionada em um gigantesco caleidoscópio.

Quando pensou que ficaria cega com tanta luminosidade, todo aquele brilho apagou-se tão inesperadamente quanto começara, cedendo lugar à mais espessa escuridão que já sentira.

Em meio às trevas, ela ouviu uma gargalhada, seguida de um estalar de dedos.

Fiat lux! — uma voz masculina pronunciou a frase em latim, que Glenda — graças às aulas de catecismo na infância — compreendeu como sendo o “Faça-se a luz” bíblico.

As luzes voltaram ao seu estado normal, e Glenda viu-se apontando o garfo para um homem desconhecido, sentado calmanente à sua frente. Era baixo, de pele clara, e trajava um terno impecavelmente branco, combinando com todos os acessórios. Até mesmo os sapatos e as luvas eram de uma alvura absoluta.

Ela clamou por seus poderes manifestos, transformando o talher de alumínio numa mortífera adaga tridentada de luz celeste. Foi Zuleica a primeira a batizar Glenda com seu apelido de “Súbita”, pois ela sempre dizia que sua pupila Acólita “agia antes e pensava depois”. Com um movimento enérgico, ela apontou a arma na tentativa de acuar o estranho, mas bastou um simples sopro do homem, para sua adaga pulverizar-se numa miríade de pontos luminosos que esvoaçaram pelo quarto como um enxame de vagalumes.

— Meu bebê, acalme-se. Eu não pretendo fazer-te mal algum.

Súbita sentiu-se tomada por um inexplicado torpor: tentou mexer-se, mas não conseguia sequer mover as pernas. Parecia presa num filme em câmera lenta. Até mesmo suas palavras saíam arrastadas e quase incompreensíveis. Sentiu como se o tempo estivesse sendo gradualmente desacelerado. Somente o indesejável visitante parecia mover-se com agilidade em meio aquela cena de imobilidade mórbida. Ele aproximou-se com um largo sorriso — seus dentes brilhavam como diamantes —, e seus longos cabelos encaracolados, cujo matiz negro reluzia com reflexos azulados, deixavam no ar um perfume inebriante e indefinível. A Acólita sentiu-se inexplicavelmente mais calma, e assistiu paralisada ao homem de roupas brancas caminhar pelo quarto com um ar de curiosidade. Ele deteve seus olhos por um momento na página aberta do livro. Ele pareceu entretido com a ilustração da criatura, e a pausa prolongada indicava que ele estava lendo o texto com atenção.

Ele soltou mais uma gargalhada.

— Sempre me surpreende a ignorância da prole de Adão. Eu passei milênios aprisionado no Sheol, como poderia circular por Adamah prometendo riquezas?

A frase soou totalmente incompreensível para Glenda.

Ele folheou mais algumas páginas.

— Além disso, eu jamais tive chifres ou asas membranosas! Estes tolos medíocres sequer eram capazes de distinguir um Anjo Caído de um Baalim! E mais, bem... vejamos isso...hmmm...

O homem gargalhou mais uma vez, de forma tão escandalosa que Súbita temeu por seus tímpanos.

— Veja só o que disseram do bom e velho Karnah: “Os feiticeiros ansiavam pelos sortilégios de efeito afrodisíaco do demônio Carnas”. Ah, Karnah, um radiante Kerubim reduzido a um paliativo mágico para ermitões impotentes!

Ele interrompeu a gargalhada para voltar sua atenção para a mulher que o fitava quase paralisada. Os olhos dele brilharam como dois sóis.

— Não há tempo a perder — disse ele, e Glenda sentiu-se mais uma vez mergulhando na mais densa escuridão.

* * *

A Acólita acordou em sua cama, com a sensação de que passara vários dias dormindo. Levantou-se com certa dificuldade, e procurou em vão pelo misterioso visitante da noite anterior. O brilho do sol entrava pela janela com tamanha intensidade que até mesmo as embalagens vazias de refrigerante pareciam reluzir como prismas multicoloridos. Ela sentiu algo pequeno esfregando-se em suas canelas, e viu dois pequenos hâmsteres de pêlo dourado correndo pelo quarto. Eles moviam-se em círculos, e ela abaixou-se para tentar pegá-los, mas em vão: eram rápidos demais.

Foi quando sua memória começou a funcionar. Ela ganhara dois animaizinhos assim quando tinha uns oito anos de idade. Seus nomes ficaram sendo Zaca e Zoca, mas tinham morrido há muito tempo. Ela correu atrás daquele que parecia ser o Zoca — pelo menos tinha a mesma mancha branca no traseiro — e levou um belo tombo, após escorregar no assoalho liso. — Zoca! — gritou ela, sentindo-se um pouco infantil. Ela tentou levantar-se do chão, mas não conseguiu. O piso era escorregadio e mole, como se fosse gelatina. Não conseguiu endireitar o corpo. O roedor aproximou-se dela calmamente, e ergueu-se nas patas traseiras.

— Eu sou o Zaca, não o Zoca. O Zoca tem as patas pretas, não a mancha branca — falou o hâmster, para surpresa de Súbita..

— Zaca? Você fala? Vocês não morreram?

— Claro que falamos, Glenda — disse o outro ratinho, juntando-se ao companheiro.

— Por quê? — perguntou a Acólita, confusa demais para aperceber-se do que se passava.

— Porque isto é um sonho, sua imbecil! — gritaram os animaizinhos, em coro.

Glenda Marques foi erguida do chão como se fosse uma criança.

Era o mesmo homem da noite passada, ajudando-a levantar-se do chão.

— Desculpe-me, menina, mas aqui, oculto em seus sonhos, eu estarei seguro. Não posso perder mais tempo.

Os olhos dele reluziam com um brilho intenso, mas foi só quando ele abriu duas largas asas luminosas, que Glenda finalmente entendeu que estava na presença de um Anjo.

— Meu nome é Ganu’el, e por incontáveis eras fui um mensageiro celeste, como todos de minha estirpe, os Kerubim de Asas Brilhantes. Convocado a descer até Adamah para vigiar uma tribo de primatas estúpidos, cometi o erro de me afeiçoar àqueles animais incríveis. Os humanos jamais entenderão como seus dons são sublimes! Eu amei tanto aqueles seres primitivos que misturei-me a eles, mesclando minha aura sutil à carne sensual daquelas fêmeas lascivas. Cometi um pecado mortal — e não fui o único — e fui punido!

O semblante do Anjo alterou-se subitamente, numa metamorfose que mais parecia um processo de decomposição cadavérica. Suas feições tornaram-se distorcidas, enormes chagas abriram-se em seu corpo, os dentes deformaram-se em tamanho e aparência, marcas de pus e coágulo salpicavam sua pele alvacenta. Um dos braços reduziu-se a um toco, e pernas extra brotaram de seus flancos, como membros atrofiados. Os olhos mudaram de formato e tamanho, um deles migrando para o lado, enquanto que o outro inchava tomava parte do rosto. A aparência final era horrível: até mesmo seus trajes elegantes estavam reduzidos a trapos imundos. O contraste com a sua forma angelical não podia ser maior.

— A beleza faz-se feiúra. A luz torna-se trevas. Do Céu ao Inferno: meu prêmio por amar demais foi vegetar na mais implacável de todas as prisões por milênios e milênios. Enquanto os humanos escreviam bobagens e inventavam asneiras sobre mim e meus irmãos, visando apenas caçar e perseguir seus pares menos afortunados, eu jazia na floresta putrefata de Erebus, ansiando por um improvável perdão do Todo-Poderoso. Até mesmo no Sheol, onde a esperança não deve entrar, eu clamava ao Criador por uma nesga de misericórdia.

A voz do anjo assumia agora um tom lúgubre e trêmulo. Terminou seu discurso com um estridente berro em falsete, fazendo com que tudo ao seu redor tremesse. Glenda sentiu uma vontade incontrolável de chorar, e viu que o cenário parecia alterar-se mais uma vez. Tudo parecia fluido e mutável. Os dois roedores transformaram-se em dois pássaros de penas escuras e pernas compridas.

— Mas nem mesmo a Masmorra Eterna foi capaz de nos prender — disse o Anjo, recuperando o tom majestoso na voz. — Há cem anos atrás eu vim para a Terra, eu e alguns de meus irmãos. Dentre eles, o seu pai, Karnah.

— Meu pai? Ele jamais me procurou... — protestou Glenda, pensando em sua mãe, que a criou sozinha com tanta dificuldade. — Por quê? Ele sequer falou comigo! — nesse momento ela não percebeu que deixara de temer o Anjo. Dirigiu-se a ele como se falasse com um homem comum.

— Não é do feitio de Karnah aparecer de forma direta. Ele é discreto, dissimulado, quase como um fantasma — o Anjo acariciou os cabelos de Glenda, transmitindo-lhe uma sensação de paz e tranqüilidade inesperada. — Ele pode ver-te, assim como a todos seus filhos, criança luminosa. Ele age nas sombras, interferindo discretamente em momentos fugazes para favorecer sua prole. Eu asseguro-lhe, menina, que Karnah jamais pensou em te abandonar.

— O que você quer comigo? — Súbita resolveu esclarecer de uma vez por todas o que estava acontecendo.

— Preste atenção — ao dizer isso, o Anjo mais uma vez transmutou-se, retornado ao seu disfarce terreno de antes. — Eu preciso que guardes algo muito importante para os Acólitos. Um perigo tão grande paira sobre nossas hostes que nem um Kerubim ousaria pronunciar certos nomes. Somente aqui, na proteção destas paisagens oníricas, guardadas no íntimo de tua essência imortal, é que devo executar a missão que me foi confiada por meus irmãos.

— Por quê eu? — mesmo entorpecida pela aura de placidez emanada pelo anjo, Glenda sentia-se perdida em meio a tantos mistérios.

— Tu és uma filha admirável, bebê. Teu grande potencial reside justamente naquilo que você considera tua maior fraqueza. Acalma teu coração, não devo demorar mais, presta atenção no meu presente.

Ele meteu a mão no largo bolso lateral do terno, retirando um rolo de papel escrito, de aparência muito antiga. As bordas eram puídas, e as letras pareciam parte de algum estranho alfabeto extinto.

— Este é o Papiro Semiázico. Seu conteúdo é tão terrífico quanto maravilhoso. Por séculos circulou pelas mãos de bruxos, clérigos e filósofos das mais diversas espécies e tendências. Mas em mãos humanas, felizmente, seu real significado jamais pôde ser decifrado. Localizei-o quando vivi incógnito entre os homens, e obtê-lo não foi algo fácil. Desde então venho mantendo-o comigo, oculto em penumbras interdimensionais, mas Karnah e Iraiah, meus irmãos, instaram-me a revelar parte de seu conteúdo a nossos filhos Acólitos. O PAPIRO NÃO DEVE JAMAIS RETORNAR AO PLANO FÍSICO. Foi por isso que decidi ocultá-lo aqui, na camuflagem onírica de uma mente Híbrida.

Glenda parecia não entender nada do que o anjo falava.

— Se isso não pode mais ficar na Terra, como poderemos consultá-lo?

— PROCURA TUA FAMÍLIA, ELA SABERÁ AGIR — respondeu o Anjo, abrindo suas asas.

— Mas eu não consigo entender... como poderemos... — seu balbucio foi interrompido por um gesto de Ganu’el, silenciando-a: — Tua ignorância por ora é uma bênção, criança. Os mistérios estão protegidos, mas tua inteligência irá revelá-los, de forma gradual e segura.

O Anjo calou-se por um momento, e Glenda teve a nítida sensação de que ele estava com medo. A luz emitida pelas asas era tão radiante, que todo o cenário tornou-se uma espécie de tela branca.

* * *

A Acólita acordou em sua cama, e desta vez, consciente de que estava no mundo real, de volta. Nada de chão de gelatina, ratinhos falantes, ou anjos multiformes. Mas ela sabia que tudo fora verdade, e que precisava agir imediatamente.

“Zu. Ela vai saber o que fazer!”, pensou consigo mesma, e tentou telefonar para sua amiga.

Nada. Ninguém atendia.

Decidiu ir até ela. Quando se deu por si estava correndo pela rua, em plena madrugada, desesperada em chegar na casa de Zu, distante algumas quadras dali.

Tão absorta estava em suas preocupações que não olhou para os lados antes atravessar a avenida. Sentiu um braço forte puxando-a para trás, ao mesmo tempo em que um carro passava em alta velocidade, quase raspando em seu corpo.

Caiu no chão, meio desequilibrada, tomada pelo susto momentâneo, e viu um homem velho magricela, com barbas compridas e pele escura. Era um morador de rua, aparentemente embriagado.

— Cuidado com o carro, moça! — disse o homem caolho, mostrando um sorriso banguela. Segurava uma garrafa de pinga na mão.

Glenda endireitou o corpo, desta vez olhou para os lados, e recomeçou sua corrida desenfreada. Sequer pensou em agradecer ao velho por ter lhe salvo a vida. Continuou em seu ritmo acelerado, e desapareceu no quarteirão seguinte.

O velhote ajeitou o corpo esquálido, e ninguém estava por perto para ver que seu olho cego estava brilhando.

“CUIDADO, MINHA QUERIDA FILHA. NEM SEMPRE EU ESTAREI POR PERTO PARA SALVÁ-LA”, após este pensamento, ele aproximou a garrafa do rosto. Dentro dela, silhuetas vagamente humanas pareciam nadar num líquido translúcido. Ele sacudiu o objeto como se fosse uma espécie de troféu, e pareceu por um breve momento conversar algo com os minúsculos prisioneiros daquele insólito receptáculo.

Após isso, calou-se, e simplesmente desapareceu. Felizmente ninguém estava por perto para surpreender-se com isso.

Ganu’el tinha razão. O Anjo Karnah realmente era muito discreto.

Continua...

CONTRASTES foi escrito por Simões Lopes
Arte: Paula Dunguel

Contos Relacionados:

Lendas de Glenda II: Janela Indiscreta

Retorne ao Universo Germinante

segunda-feira, 31 de março de 2008

Índice dos Contos Maytréia

40 Perda e Ganho
39 Sonho Realizado
38 Amazonas
37 Degredo
36 Ordem e Progresso
35 O Edda Apócrifo
34 GuerraReligiosa
33 Escravizando
32 Castelos de Areia
31 O Terceiro Presente
30 Sonhos que Morrem
29 Uma Nova Visão
28 Um Prado Triangular
27 O Segundo Presente
26 Triste Natividade
25 O Rito Dionísico
24 O Presente
23 A Videira e os Ramos
22 O Sofista
21 Os Cinco Minutos
20 Cheque-Mate
19 Quem é Você?
18 Ajuda
17 -
16 Soldados de Deus
15 Dominó
14 Nada Pessoal
13 Espantalho
12 Duelo Invisível
11 Mergulhando no Abismo
10 Caçador de Mim (parte 1)
9 Sinistro Despertar
8 Caminho pelas Vias Estreitas
7 Vida Perdida
6 Tempestade Astral
5 Conseqüências Infantis
4 O Fim do Universo para Charles Simões
3 Conquistando Isaura
2 Reconhecendo os Seus
1 Tempo Passado, Tempo Futuro

Índice dos Contos Rebelião

94 Amigos de Longa Data
93 A Venerável Trilha da Solidão
92 Invocação (parte 1 de 2)
91 Negro Gato
90 Rebeka
89 A Quarta Tentação
88 O Heptáculo de Haniel
87 A Paixão do Deus-Alce
86 O Despertar do Rei
85 Fidelidade Canina
84 Zênite
83 O Convento de Santa Felicidade
82 As Amigas de Tony
81 Lendas de Glenda II: Janela Indiscreta
80 O Último dos Jaguaranas
79 Lendas de Glenda I: Contrastes
78 Licor Rubro
77 Ouro dos Tolos
76 Resplandecente Serenidade
75 Caridade
74 Perene Divergência
73 Tabula Lupercalis
72 Paraíso Perdido
71 Filho do Trovão
70 Um Milhão de Mortes
69 Guerra Fria
68 Tique-Taque
67 Exército de um Homem Só
66 Romano, Venerável
65 Caçando Avatares
64 Distopia
63 Renegados
62 O Quarto Reich
61 Carlos Miguel, Bastardo
60 Cartas Paulinas III Tanatológicas
59 Marcelo Figueira, Paladino
58 Desequilíbrio
57 A Vítima
56 Até que a Morte os Separe
55 Deuses da Guerra
54 Ver para Crer
53 Estrela de Natal
52 Bruna Souza Melo, Primal
51 Vivos e Mortos
50 Cartas Paulinas II Tartáreas
49 A Brandura do Coração Selvagem
48 Alessandro Sanches
47 Irmãos de Golgotha
46 No Coração das Trevas
45 Palavras na Areia
44 Rogério Greco, o Gato
43 Cartas Paulinas I Gargantuanas
42 As Relações Perigosas
41 Luxúria
40 Consulta
39 O Despertar (parte 2 de 2)
38 O Despertar (parte 1 de 2)
37 O Bando, o Baixinho e o Barbado
36 Deus ex Machina (parte 3 de 3)
35 A Última Elegia
34 Lágrimas de Constantina
33 Deus ex Machina (parte 2 de 3)
32 Areias Escaldantes
31 Highway to Hell
30 Voltando da Morte
29 Cada um Luta como Pode
28 Contando Anjos
27 Aprendizado
26 Males Previstos e Imprevistos
25 Cães de Caça
24 Animais
23 Um Conto de Desespero
22 Antípodas
21 Temperança
20 Ira
19 Deus ex Machina (parte 1 de 3)
18 O Alfarrabista
17 Todos merecem uma Segunda Chance
16 Bate-papo de Boteco
15 Vaidade
14 O Pai de minha Filha
13 Morangos
12 Reencontro
11 As Três Marias
10 Quatro Mocinhas Indefesas
9 O Pai e o Filho
8 Evidências
7 Conversa entre Cavaleiros
6 Cobiça
5 Inveja
4 Preguiça
3 Gula
2 Duelo de Gerações
1 Mestres e Aprendizes

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

Rebelião 78: Licor Rubro

Pela janela da sala de jantar eu vejo a cerrada floresta de mangueiras e jaqueiras que cerca o meu sítio. No alto do céu, uma lua minguante pálida desliza através uma cortina de nuvens leitosas. A escuridão da mata contrasta com o brilho de um sem número de pontinhos luminosos, que se observados com mais atenção, revelam ser olhos. Eles piscam num ritmo frenético, como vaga-lumes diabólicos, salpicando com uma débil claridade escarlate as sombras das árvores centenárias.

Eu sei de quem são esses olhos. Sei quem eles são. Na verdade, estou aqui à sua espera. Sinto-os movendo-se por entre as moitas e arbustos com um suave ruído, e à medida que a sinistra matilha passa até mesmo os grilos se calam, envolvendo os arredores de minha casa com uma aura de silêncio sepulcral.

Eu vivo neste mundo por exatos 363 anos, e por muitas vezes — quinze, para ser mais exato — combati criaturas como essas. Venci sempre. Sim, eu sempre triunfei, mas reconheço que não foram vitórias fáceis.

Estes demônios cujos olhos lembram-me a cor do licor que trago silenciosamente neste momento. Sei que dentro de alguns instantes estarei sentindo o hálito gélido daqueles animais impregnando a atmosfera de meu lar, e meus tapetes caros serão emporcalhados por suas patas imundas.

Eles foram mandados em meu encalço por alguém que reputo como covarde, torpe, imundo e reles. Não gosto de economizar adjetivos para exercitar minhas idéias. Alguém tão torpe que não foi capaz de vir pessoalmente para me enfrentar. Alguém que eu mesmo deveria ter aniquilado quando tive a oportunidade.

Mas não o fiz, infelizmente. Uma falha imperdoável para alguém como eu.

A minha vida é longa, mas jamais poderia chamá-la de monótona. Aproveitei cada momento, saboreei cada aspecto de minha conflitante existência. Viajei por tantos lugares, sempre em busca da doce excitação da guerra e do confronto. Engalfinhei-me com beduínos nos contrafortes do Sinai; massacrei mercenários britânicos na Índia; derrotei tanto bolchevistas como nazi-fascistas nas estepes geladas da Rússia, e um impus humilhantes reveses a fuzileiros americanos na Guerra da Coréia.

O fio de minha espada desafiou os mais ousados tipos de demônios, feiticeiros, lacaios e adoradores do Mal. Minha coleção de troféus é invejável até mesmo para aqueles que comungam de minha sina.

Minha bebida está chegando ao fim, e antes do derradeiro gole, sinto vontade de retornar à adega para buscar um vinho ou talvez um conhaque. Não, quem sabe, um uísque?

Tamanha indecisão não é importante agora, pois meus inimigos já cruzaram o pórtico que delimita a entrada de minha varanda. Rastejando na grama úmida, eles não sabem que eu percebi sua chegada.

Sorovo a última gota do licor, e minhas papilas regalam-se um pouco mais com o forte aroma de cereja que estala em minha língua. Neste três séculos jamais me neguei a aproveitar os fugazes prazeres humanos. Tampouco fugi às tentações da carne, que fazem do ser humano aquilo que ele é. Explorei todos os sentimentos que forjaram minha essência mortal, e deles extraí o mais fino dos extratos.

Meu último pensamento relacionado a vinhos e licores se desfaz quando percebo que o primeiro da corja monstruosa forçou sua entrada pela janela de vidro lateral, partindo-a em pedaços e barrando minha passagem até a escada que conduziria à adega. Atrás dele, vejo outra besta surgir, então outra, e mais outra. Paro de contar quando sinto caninos pontiagudos tentarem cravar-se minha coxa. A tentativa não dá certo, graças em parte à minha renovada agilidade, e em parte a um simples golpe de sorte. O ataque conjunto dos primeiros integrantes da alcatéia obriga-me a arriscar uma pirueta que me faz saltar sobre a poltrona de couro e alcançar a pistola automática pousada em minha escrivaninha. A mesma pistola já me salvou a vida por tantas vezes. Numa das paredes, vejo duas katanas presas em seus suportes. Foi-se o tempo em que eu preferia o elegante bailado das adagas e espadas. Na era da tecnologia, eu seria um tolo se abrisse mão do maior poder de fogo em troca da adrenalina do risco maior. É verdade que foi com uma simples adaga que desafiei um grupo de soldados de Napoleão na Holanda, há muito tempo atrás, mas o fedor gelado que incomoda minha narinas agora avisa-me que os animais estão prestes a encurralar-me. Os cabelos de minha nuca arrepiam-se, e eu sinto minha alma transbordar de prazer quando pressiono o gatilho.

À primeira saraivada de balas, segue-se outra. Após explodir a cabeça de um dos monstros, movo-me com rapidez e encho o outro com tantos buracos que não resta mais que uma carcaça em retalhos.

Desgraçadamente, não consigo impedir que uma mordida voraz arranque parte de panturrilha. Forçado a ajoelhar, caio no tapete.

O sangue escorre, abundante, enquanto tento em vão cicatrizar as feridas de maneira provisória. Poças vermelhas espalham-se pelo chão.

Vermelho-sangue. Vermelho-rubi. Vermelho-cereja.

A cor parece perturbar meus sentidos e turvar minha visão. Um Triunfante faz de sua vida uma batalha permanente. Infinita enquanto durar. Jamais entramos numa luta para perder. Jamais. Quaisquer que sejam os inimigos, quaisquer seja o terreno ou as condições. Jamais aceitamos a derrota como resultado.

Pode ser que meu fim esteja próximo. É a maldição do guerreiro, a Morte sempre nos espreita. Mas eu creio que mais uma vez ela estará por perto, mas não me tocará. Corro para o corredor estreito numa tentativa de levar os cães infernais para onde não tenho espaço para atacarem juntos. Rezo por um milagre, enquanto disparo mais uma salva de tiros, abrindo caminho pela massa de sangue e carne. A munição termina, e retiro as duas espadas da parede.

Enquanto o milagre não acontece, eu devo ajudar-me com o que tenho às mãos. Viver é sempre vencer.

A lâmina baila, decepando uma garra peluda. A outra garra dilacera meu ventre.

Viver é sempre vencer.

Procuro pela outra pistola, em vão. Dois animais atacam ao mesmo tempo esmagando-me contra a parede. Sinto o sangue escorrer de meu nariz quebrado. Grossas e vermelhas gotas mancham o vitral que decora meu armário de bebidas. Ignoro a dor de uma costela provavelmente quebrada e salto, pendurando-me no lustre.

Viver é sempre vencer.

O lustre previsivelmente não agüenta meu peso, e eu caio sobre uma segunda leva de demônios. Irracionais demais para combinarem uma estratégia de luta, eles facilitam minha fuga. Meus ferimentos já são severos demais, e não consigo ir muito longe. Eles percebem isso. Eles farejam meu medo.

Em meio aos destroços de meu quarto, as bestas abissais cercam-me mais uma vez. Sua fúria não está voltada só contra a minha pessoa, mas contra a minha casa. Com seus robustos músculos, eles despedaçam meus armários, e seu sopro glacial estilhaça o vidro das estantes. Pilhas de livros são reviradas e moídas.

Meu corpo está debilitado demais, e não tenho tempo suficiente para reparar meus ferimentos. Não sinto mais minha perna, e a costela quebrada arranha minhas entranhas. A Morte está prestes a tocar-me. Rezo mais uma vez por um milagre, que já parece tão improvável.

Um dos monstros rosna e me acerta uma patada na cabeça. Mais uma vez sinto-me invadido pelo brilho vermelho do sangue. Outro deles mastiga um globo metálico do tamanho de um punho.

Pela primeira vez, eu sinto vontade de rir. O milagre esperado chegou, da forma mais inusitada.

Aquele globo é uma granada. De meu arsenal particular. Uma granada cujo pino de segurança acaba de ser arrancado pelos dentes afiados do lobo diabólico.

Eu junto todas as minhas forças para buscar abrigo.

Viver é sempre vencer.

A explosão dilacerar alguns de meus inimigos, deixando-me momentaneamente livre. Ainda corro perigo, mas ganhei alguns segundos preciosos. A taça ainda não está inteiramente vazia. Restam-me algumas gotas do rubro licor chamado vida. Eu ainda anseio em sentir o seu sabor.

Morrer é ser derrotado. Algo que jamais fui.

Restam-me algumas gotas. É o que me basta para mais uma vez buscar a vitória.

Viver é sempre vencer.

LICOR RUBRO foi escrito por Simões Lopes

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sábado, 23 de fevereiro de 2008

Rebelião 77: Ouro dos Tolos


Estéban de Tartessos fora o nome que escolhera quando era bem mais jovem e decidira se unir aos Cavaleiros da Cruz Resplandecente. Seu nome real de batismo não era mais importante, e ele nem gostava usá-lo. Por incontáveis vezes, fora com seu pseudônimo iniciático que ele enfrentara dúzias de inimigos, combatendo (e vencendo) as hordas infernais. Agora não era diferente, pois o homem de cabelos negros e barba crespa, nascido e criado nas praias do sul da Espanha, escalava com certa dificuldade a parede de concreto que ligava dois altos prédios. A madrugada invernal trazia um vento frio e uivante, e Estéban sentia cristais de gelo acumulando-se suas pálpebras.

Nem mesmo tamanho frio e desconforto foram capazes de impedir sua escalada rumo ao topo do paredão de cimento. Com um ágil movimento, rodopiou e venceu o vão de quase três metros entre os dois pisos estreitos de mármore. O parapeito largo circundava uma janela enorme cuja enorme vidraça fumé impedia-no de ver o que acontecia lá dentro. Mesmo sem conseguir enxergar, o cavaleiro sabia muito bem o que estava ocorrendo: uma reunião entre homens muito ricos e poderosos. Homens que aliavam seu grande poder terreno a poderes mais transcendentes, oriundos das esferas celestes e infernais.

Eles eram conhecidos em círculos secretos como Nefilim, seres nascidos do amor proibido entre anjos e humanos. Estéban havia aprendido muito sobre essa espécie maldita com seu grande mestre Gerald de Carthago em um refúgio monástico nos Alpes Suíços, e era a primeira vez que surgia a tão sonhada oportunidade de pôr seus conhecimentos em prática. As relações entre os Cavaleiros da Cruz Resplandecentes e a Ordem Sagrada de São Jorge, apesar de seus objetivos supostamente afins, não eram das melhores, e as diferenças muitas vez contavam mais do que as semelhanças. Os Jórgios de Madri, Barcelona e Sevilha possuíam informações valiosas sobre a presença dos Nefilim nos círculos da alta sociedade de muitas das maiores cidades da Península Ibérica, com tentáculos que incluíam corporações industriais, comércio exterior, e até certas atividades lucrativas nos porões das máfias portuárias. O bom e sensato Gerald, que conseguira através de uma tortuosa negociação obter muitas dessas informações com os próprios guerreiros de São Jorge, não dera muito crédito a boa parte dos relatórios reproduzidos de cópias em CD. Descartara algumas das supostas ligações como exageros ou mistificações. O notório desprezo dos Resplandecentes pelos altos escalões da Ordem de São Jorge poluíra a análise de Gerald com preconceitos — era a conclusão a que chegara Estéban, quando pôde cruzar as informações com mais precisão. O contrabando de ouro através do estreito de Gibraltar, até então uma espécie de feudo de mafiosos galegos, sicilianos e marselheses, havia ganho um novo “rei” nos últimos meses.

Sua real identidade ainda não era conhecida, mas todos diziam tratar-se de um dissimulado empresário mexicano, recém-instalado num condomínio de luxo em Barcelona. De forma incrivelmente eficiente, a gangue liderada por este homem, que alguns chamavam de Quadrilha X, eliminar todos os concorrentes com métodos dos mais variados, alternando assassinatos, subornos, envenenamentos, e até uma certa dose de sorte.

Muitas coincidências aconteceram nos últimos meses: um chefão siciliano fora facilmente capturado após um súbito ataque de loucura; uma gangue que aterrorizava Sevilha acabou após uma guerra interna autofágica; dois grandes empresários que atuavam também nos circuitos ilegais mudaram de endereço, exilando-se na América e até na China; o primeiro escalão inteiro de uma gangue de falsificadores entregaram-se espontaneamente à Polícia, supostamente regenerados.

O próprio Estéban dedicara-se com afinco às investigações, e sabia tanto sobre os bastidores do submundo que não era capaz de dar-se ao luxo de acreditar em coincidências. Se os Nefilim estavam agindo por aqui, com certeza estariam usando de seus poderes sobrenaturais para influenciar — ainda que discretamente — o curso dos acontecimentos.

O Resplandecente olhou para baixo por um breve momento, detendo a respiração. Estava a mais de quarenta metros de altura, e qualquer deslize seria fatal. Alisou o estranho relógio que carregava no pulso, composto por estranhas pedras de cor violeta. Seus pulmões pareciam queimar com o esforço físico, mas isso não o impediu de caminhar pela plataforma de mármore até contornar o primeiro bloco de janelas. Utilizando-se com maestria de uma fileira de calhas para subir mais um andar, posicionando-se bem embaixo da grande marquise que protegia o último andar da torre do edifício comercial conhecido como Antares Center. Puxou a pulseira do relógio, o que desencadeou uma explosão de luz violeta em seu pulso. Aparentemente sem sentir nada, ele ergueu o braço o mais que pôde, mentalizando uma prece e concentrando-se em sua missão. O que antes era uma simples jóia transmutou-se rapidamente numa manopla munida de enormes espigões pontiagudos.

Sentiu o poder do cristal fluir por seu corpo, e calcou com força a janela de vidro negro. As energias místicas da gema violeta vasculharam as salas ocultas em busca de elementos sobrenaturais, transmitindo suas impressões para o próprio Estéban, conectado espiritualmente à sua arma resplandecente. Não havia dúvida que forças arcanas atuavam lá dentro. Pelo menos três entidades circulavam pelo andar às escuras.

Um calafrio percorreu a espinha do guerreiro quando percebeu intuitivamente que sua mente estava sendo monitorada. Uma presença incômoda vasculhava seus pensamentos em busca de respostas, e ele usou o poder da pedra violeta para dispersar o ataque psíquico. Sua presença havia sido detectada, e ele viu-se num caminho sem volta.

Era chegada a hora do combate.

A aura sinistra de seus inimigos podia ser sentida com facilidade, e ele já sabia que eram três e que todos estavam no último andar. O quer que estivessem fazendo, não era uma reunião de negócios, tão pouco uma atividade empresarial corriqueiro. Lançando o corpo para trás, ele deixou-se cair para o pavimento imediatamente abaixo, aterrizar no parapeito com um baque surdo. Tentou abrir a janela, mas sentindo-a travada, viu-se força a usar a manopla para espatifar o vidro e forçar a entrada.

Um salão escuro parecia estender-se por quase todo o andar, e Estéban preferiu correr o risco de atravessá-lo do que ficar numa posição descoberta junto à janela. A luz mística que emanava de sua arma aumentou sua sensibilidade, fazendo com que seus olhos guiassem sua corrida na mais completa escuridão.

Podia sentir que um dos inimigos estava mais próximo, descendo pelo que parecia ser uma escada. Antes que Estéban pudesse planejar sua ação, sentiu-se golpeado por uma força invisível com tanta violência que foi arremessado por cima de uma escrivaninha. O Cavaleiro recompôs-se o mais rápido que pôde, e finalmente identificou o primeiro de seus inimigos, uma elegante mulher de cabelos loiros quase brancos. Seus olhos brilhavam e seu corpo parecia estar envolvido com uma espécie de névoa imaterial. Para a visão treinada do Resplandecente, a névoa parecia salpicar a sala escura com o brilho de miríades de estrelas. Ele sabia que as estranhas asas formadas por esta névoa — que não eram físicas — eram um sinal que comprovava a identificação daquela mulher como um Nefilim.

Um novo ataque telecinético arremessou uma nuvem de objetos na direção de Estéban. Canetas, cacos de vidro, copos, pedaços de borracha e madeira, tudo parecia engolfado num turbilhão de vento que fustigava o portador da manopla. Mais alerta desta vez, o Cavaleiro conseguiu anular parte do impacto dos objetos, e com um novo influxo de energia de sua arma, reverter o ataque, mandando a saraivada de lixo na direção da moça. Surpreendida pelo contra-ataque, ela não conseguiu evitar ser atingida por um copo na testa, e caiu gritando.

O brilho da manopla aumentou, iluminando o recinto com um matiz violáceo. Mais alguém estava presente, mas não estava invisível aos olhos humanos. A luz resplandecente que emanava em espirais revelou a silhueta de um homem grande voando como um bólido. Estéban saiu do alcance de seu adversário e golpeou seu espectro com sua manopla. Um indivíduo muito alto e forte, com feições orientais, caiu no piso metálico de forma desajeitada. Vestia um impecável terno de cor mogno, e estava muito irritado. Usando as sombras como refúgio, ele mais uma vez tentou atacar, desmaterializando-se e movendo-se como espectro protegido pelas trevas. A manobra mais uma vez não surtiu efeito, pois a divina luz da Gema Violeta de Amit sempre protegia o Cavaleiro Estéban de Tartessos.

Agora que os dois primeiros Nefilim haviam sido derrubados, restava o terceiro, o qual ainda não havia se revelado. Sinais muito fracos vinham do andar de baixo, e o Resplandecente pôs-se em estado de alerta.

Uma silhueta masculina materializou-se lentamente bem à sua frente. Era alto, vestia um elegante terno listrado, e as raízes escuras mostravam que seu cabelo louro-escuro era artificial. A sua voz era um tanto quanto fina e ríspida, pronunciava as palavras com um sotaque que o Cavaleiro reconheceu como sendo do México. A forma como pronunciava os cês e zês indicava ser alguém nascido na América Latina. Um pequeno cavanhaque decorava o queixo, e seus olhos enormes emitiam uma espécie de halo ameaçador.

— Não gostamos de intrusos aqui, soldado raso. Volte para o quartel de onde veio... — disse em tom insolente, o estrangeiro.

Estéban cerrou os punhos, apontando a manopla em tom de ameaça: — Depois do que vi aqui, não posso retornar sem ter cumprido minha missão — respondeu, sem perder o controle.

— No andar de cima, temos um carregamento de ouro. Pegue quantas barras quiser e suma daqui — o misterioso mexicano apelou para o suborno. Não parecia disposto a lutar.

O silêncio do seguidor da Cruz Resplandecente parecia mostrar a repulsa dele pela proposta.

— Ora, monge. Reconsidere. Pense em quantos mendigos poderá ajudar com a venda do ouro. Em quantos quilos de comida poderá comprar. Onde está a vontade de ajudar o próximo? Não se fazem mais clérigos como antigamente...

— Poupe-me do seu deboche! — protestou o guerreiro, enquanto ganhava tempo para planejar a melhor estratégia. Sabia que o Nefilim não estava ali, sua arma podia detectar a aura espiritual e sabia que tratava-se apenas de uma ilusão projetada.

Os dois companheiros do Nefilim estavam imóveis, recuperando-se dos ferimentos da batalha, e suas feições relaxadas mostravam que estavam à espera da próxima ação do terceiro amigo, que demonstrava uma certa aura de liderança.

Ele sentiu um quase imperceptível farfalhar, como se um turbilhão de vento entrasse pela sala. O fluxo de energia etérea fez sua manopla agir quase por vontade própria golpeando o ar, como se uma ameaça invisível pairasse por ali. A materialização do mexicano foi tão rápida que mesmo detectando o golpe, Estéban não pôde fazer nada para impedi-lo. O híbrido surgiu do nada, cuspindo um filete de chamas, e desaparecendo novamente.

Estéban caiu no chão com as roupas em chamas. Mesmo utilizando os poderes da manopla, ele não conseguiu anular inteiramente as queimaduras. Se fosse fogo comum, ele com certeza poderia apagá-lo de forma quase imediata, mas aquilo com certeza eram chamas infernais produzidas pelo rebento de um anjo caído.

Com os braços em carne viva, o Resplandecente recriminou-se de sua própria imprudência e tentou em vão golpear seu inimigo, mas este mais uma vez sumira no ar. Ele não podia ficar ali, indefeso, era preciso fazer algo. A manopla irradiou mais uma vez um casulo de luz violeta, transmutando-se numa espada. Sua regeneração era lenta e dolorosa, e por diversos momentos, ele pensou que iria perder a consciência. A imagem falsa do criminoso mais uma vez apareceu diante dos seus olhos.

— Eu odeio lutar, soldado. Para quê a força, se eu tenho tantos outros recursos? Eu não preciso combatê-lo, deixo que outros façam isso por mim.

O Cavaleiro da Cruz Resplandecente golpeou o fantasma com a espada, numa explosão de raiva. Sua frustração aumentava cada vez mais, aliada à vergonha de ser derrotado de forma tão fácil. Preparou-se para combater os Nefilim, mas não via mais nenhum sinal deles. Sozinho e frustrado, ele foi gradualmente perdendo o controle, e suas ações tornaram-se mais impulsivas. Subiu com dificuldade os degraus que levavam ao andar superior, e deparou-se com um depósito de barras de ouro, o que confirmava a bravata do Nefilim. As atividades criminosas estavam rendendo lucros altos, e aquele prédio, sem dúvida, era uma das bases de operação dos mafiosos semi-humanos. O Cavaleiro riscou uma das barras com sua espada, e fez uma rápida análise do material: tudo era falso. Estariam sendo usados em algum golpe? Como iriam enganar as autoridades?

Um alarme muito forte começou a soar pela câmara, quase estourando seus tímpanos. Estéban golpeou com força, cortando a barra de ouro espúrio como se fosse de manteiga. Tomado de uma ira cada vez mais irracional, o cavaleiro debilitado demorou a perceber que um grupo de agentes de segurança estava se aproximando pelos elevadores. O prédio não estava vazio, mas a raiva não o fez perceber isso. Os primeiros seguranças surpreenderam-se com a visão de um homem segurando uma espada — algo extremamente inusitado —, e deram-lhe tempo suficiente para correr até a janela.

“Só preciso escapar pelo mesmo paredão por onde subi”, “Fácil”, “Fugir é preciso”, repetia para si mesmo, tão descontrolado que jamais viria a perceber que estava sendo vítima do manifesto conhecido como Bestialidade. Javier Passaláqua, o criminoso misterioso mexicano, era um Nefilim da linhagem dos Precursores, e incutiu na mente do debilitado cavaleiro a Bestialidade de forma tão sutil, que o pobre Estéban não conseguirá descobrir o logro a tempo. Vítima da perda da razão, ele tenta apenas fugir, como um animal acuado. Ele prepara-se para o salto para a liberdade, convicto de sua agilidade. Os seguranças não conseguem acreditar na cena que presenciam, e ficam estáticos.

“Só um andar”, pensa Estéban, antes de flexionar os músculos. A cicatrização das queimaduras prossegue. Ele salta. Com toda a força, detêm a queda fatal firmando os dedos na borda marquise do 13º. andar. Quando ele percebe a presença da mesma mulher de cabelos claros olhando para ele com ar triunfal, é tarde demais. Um poderoso golpe psicocinético arranca-o do parapeito, arremessando-o de uma altura de mais de trinta metros. A mulher chama-se Esther Navarro, e é uma Precursora como seus colegas.

Em sua última queda, ela solta um rosnado bestial, e seus pensamentos ficam reduzidos a uma cacofonia confusa de emoções espontâneas. Medo. Frio. Dor. Ele pensa em sua arma, a Gema Violeta de Amit. Ela poderia ter removido a presença parasita que turvava sua mente, mas já é tarde demais.

O impacto na chão da viela escura é tão violento que sua bacia é esmagada, sua cabeça explode numa poça de sangue e miolos esparramados.

Um vulto materializa-se junto ao corpo esfacelado. É Javier, abrindo um largo sorriso de triunfo. A espada brilhante que antes refulgia como uma arma dos deuses, agora transmutando-se rapidamente em sal. Debaixo do túmulo de cinzas salinas, o Nefilim remexeu nos dedos retorcidos do cadáver para arrancar o que restara da gema violeta, agora reduzida um artefato petrificado de sal-gema. Com a morte de seu protetor e protegido, o cristal não passa de um mineral inútil.

— Ela agora não serve para mais nada? — pergunta o robusto oriental de nome Timmy Santoleón, filipino e sócio de longa data dos empreendimentos de Passaláqua.

— É apenas uma pedra de sal — responde Javier de forma seca. — Como talismã não vale mais nada, mas eu não iria abrir mão de um troféu tão valioso. Quem sabe eu não descubra o forma de reativá-lo?

— Vai procurar Alfonsus ou Hannibaal? Talvez eles saibam como reverter a petrificação — o oriental demonstrou certa curiosidade.

— Depois eu penso nisso, é hora de prepararmos a “limpeza” o prédio. A morte do Cavaleiro será vista apenas como a morte acidental de um ladrão. Mas outros Cavaleiros mais tarde acabarão descobrindo que um deles morreu aqui. Não quero a infantaria celeste metendo-se na operação “Ouro dos Tolos”. Ligue para Esther, e peça para transferirmos o carregamento de ouro para outra sede.

— Canárias? — sugeriu Timmy, enquanto ligava para sua colega, que ainda devia estar no prédio.

— Pensei em Bahamas ou Aruba. Quanto mais distante daqui, melhor.

Os dois riram e se afastaram, deixando para trás o cadáver de Estéban de Tartessos. Amanhã não haveria nem um barra de ouro mais no prédio, e Javier estaria refastelado em alguma praia ensolarada, hospedado em algum hotel cinco estrelas, em algum remoto paraíso fiscal.

Enquanto isso, os tolos continuariam nascendo e morrendo, indo e vindo, e sustentando seu império oculto.

OURO DOS TOLOS foi escrito por Simões Lopes

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

Rebelião 76: Resplandecente Serenidade


A mulher de porte elegante e membros delicados polia delicadamente uma vasilha de acrílico, enquanto atendia os clientes que mexiam na prateleira de remédios analgésicos. Margarida era seu nome, e os cabelos castanhos emolduravam um rosto moreno com feições levemente orientais. Trazendo em seu sangue várias gerações de miscigenação entre portugueses, italianos, índios, japoneses e africanos, Margarida Acácio das Neves crescera numa família simples de seis irmãos, sustentados a muito custo por um casal de lavradores.

A pequena farmácia de subúrbio de que era proprietária era conhecida nas redondezas pelo eclético estoque composto por remédios alopáticos, homeopáticos, acessórios para cromoterapia, ervas para benzedeiras, florais de Bach e as mais diversas imagens de santos e orixás. Era difícil imaginar algo que não pudesse ser encontrado no Boticário Oriental, nome que a própria Margarida fizera questão de dar à sua loja. Mesmo passados vários anos da abertura da dita farmácia, o nome ainda era motivo de perplexidade para muitos dos vizinhos, que não entendiam o porquê de um nome tão “fora de moda” para um estabelecimento comercial.

Margarida gostava do nome, e assim tocava sua vida. O sustento era garantido, ainda que sem luxos, e sua vida de solteirona parecia toda devotada à sua família de gatos siameses e suas idas freqüentes à pequena Capela de São Lucas, onde passava horas rezando.

— Quanto custa essa pastilha? — perguntou um senhor idoso de fartos bigodes.

— A da caixinha azul ou da caixinha com desenho verde? — disse Margarida, tentando entender o pedido.

Enquanto registrava mais uma venda, Margarida aproveitava para vigiar o garoto de cabelos oxigenados que parecia demorar demais na seção de cosméticos. Ele agachou-se diversas vezes atrás da prateleira, e ela não conseguia perceber o que ele estava fazendo. Ele já havia causado problemas outras vezes, e Margarida estava atenta.

Um frasco de perfume não tão caro estava sendo empurrado para dentro do bolso do casaco com relativa habilidade, e seria relativamente fácil surrupiar mais um dois. O pequeno surrupiador estava tão confiante em sua destreza que não se importou com a chegada de um gato bem gordo de pêlos cor de creme. As extremidades negras comprovavam a raça siamesa do bichano, um dos muitos “queridinhos” da coleção da dona do Boticário Oriental.

Assim que rapaz magricelo deslizou mais alguns objetos para dentro dos bolsos, sentiu as garras miúdas porém afiadíssimas do gato acertarem-lhe a coxa. Conteve o grito, mais preocupado em manter consigo os prêmios surrupiados. Mal tentou sair na direção da porta e levou uma mordida violenta no calcanhar.

O grito foi ouvido por Margarida, e um dos fracos espatifou-se no chão de cimento, espalhando um odor forte de lavanda. Lucinho, um dos empregados da farmácia, dominou com facilidade o ladrão, retomando os outros frascos, e expulsando o menino com um leve safanão. Um PM que passava na calçada chegou para entender a confusão que começava a se formar e Margarida começou a explicar o que acontecera, com uma tranqüilidade fora do comum. A serenidade daquela moça era conhecida por todo o bairro, nada parecia jamais surpreendê-la ou tirá-la do equilíbrio. Costumavam dizer que ela parecia resplandecer com a irresistível tranqüilidade que parecia preencher sua alma.

Enquanto Margarida explicava o acontecido para o policial, seu telefone celular tocou, num som tão baixo que somente sua dona percebeu.

Ela atendeu e limitou-se a ouvir o que era dito.

Desligou o telefone.

Seu semblante estava alterado.

Chamou seus três empregados, Lucinho, Kléber e Marília, e deixou-lhes encarregados de resolver o problema. Dirigiu-se para os fundos da loja, sempre seguida de perto pelos três gatos que deixava circular pela farmácia, e após uns dez minutos de sumiço, reapareceu de roupa trocada e com ar apressado.

Disse que um irmão havia sofrido um acidente e que necessitava de auxílio.

Ninguém seria capaz de adivinhar o real motivo de sua partida.

A conversa telefônica não era um pedido por ajuda

Era uma convocação.

A partir daquele momento, Margarida Acácio das Neves deixava de existir para tornar-se Margarida de Antioquia, Cavaleira da Cruz Resplandecente.

Ela entrou em seu carro velho e partiu imediatamente. Não precisava de nada além do que carregava consigo. Enquanto dirigia para o destino indicado pelo telefonema, ciente da missão que estava fadada a cumprir, pronunciava uma oração quase silenciosa intermitente.

As pedrinhas azuis que furavam suas orelhas como pequenos brincos começaram a emitir um brilho cada vez mais intenso.

Ela saltou do carro, e correu por dentro de uma viela deserta. Um muro de tijolos separava aquele lugar de uma encosta coberta de mato. No alto do morro, uma casa de três andares equilibrava-se na borda de uma pedreira íngreme. Margarida de Antioquia sabia muito bem como chegar até lá.

Certificou-se que ninguém estava por perto, e esfregou a orelha com força, os brincos começaram a soltar faíscas azuladas, e à medida que a luz ficava mais intensa, ela ia puxando os pequenos cristais um a um. Recolhendo-os na palma da mão, ela pronunciou uma palavra solene em algum idioma estranho, e sentiu as gemas fundindo-se em meio ao clarão em um só objeto, uma magnífica gema de cristal azul-claro.

Segurando-a com força na mão, Margarida agachou-se para observar um grupo de ratazanas que passavam correndo por dentro de uma poça de lama. No alto, uma pequena garça voou emitindo um grito triste. Os dons inumanos conferidos pela gema misteriosa aos membros da Ordem da Cruz Resplandecente transformavam sutis sinais e ruídos em verdadeiros mananciais de informação. A Cavaleira fechou os olhos, concentrando-se, e repassou mentalmente seu plano de ação.

A guerreira podia agora interpretar melhor o que a ave tinha visto, e a partir das mensagens olfativas compartilhadas com as ratazanas, podia traçar um quadro do terreno desconhecido que se escondia por trás da parede de tijolos.

A gema brilhou, emitindo um clarão azulado, fazendo os olhos da mulher brilharem em sintonia. Ela ergueu-se do chão sem produzir som algum, levitando de maneira sobrenatural.

Uma forma humana agora subia a encosta do morro em alta velocidade, flutuando como um pássaro, uma dádiva de todos os cavaleiros detentores da Gema Azul-Clara da Águia Celeste.

A casa ficava cada vez mais próxima, e ela podia compreender que aquela era uma mansão luxuosa, e que com certeza escondia inimigos perigosos. Nenhum vigia ou segurança era visível, e nenhuma luz estava acesa na residência. Para um espectador comum, a mansão parecia deserta.

Mas aquela mulher não era uma espectadora comum, e sabia como pouco ler os sinais preciosos que os animais, o vento e a terra carregam. Seus sentidos estavam mais aguçados, e ela podia sentir que energias arcanas estavam em ação lá dentro.

Margarida preferiu voar diretamente para o último andar, pousando numa varanda estreita que decorava a sacada. Uma piscina pequena, cavada na própria laje, estava coberta de musgo, e o chão era escorregadio. O cheiro de bolor empestava a atmosfera noturna. Assim que ela tocou o chão, um cachorro começou a latir. Era um cocker spaniel atarracado, de pêlos dourados, e aspecto inofensivo.

A mulher fez com que o brilho de sua jóia diminuísse, e tentou um contato empático com o cão. Procurou por mensagens sensoriais que lhe permitissem entender melhor quem estava lá dentro. Não conseguiu nada.

Sentiu apenas um vazio gélido.

Aquele cachorro não era inofensivo.

Tampouco podia ser chamado de “cão”.

O animal soltou um rugido rouco e profundo, como se um trovão ecoasse por dentro de suas entranhas. Uma brisa gelada circulou pela varanda, fazendo com que o musgo na piscina mudasse levemente de coloração. Com um espasmo muscular, ele fez com que sua carne inchasse. Grandes tufos negros de pêlo despontaram de seu corpo, tão grossos que mais pareciam espinhos. Uma baba fétida escorria de sua boca, enquanto a metamorfose completava-se. Em poucos segundos o Damnatus, um demônio canino do Inferno, estava barrando a passagem de Margarida de Antioquia, a enviada da Ordem da Cruz Resplandecente.

As mandíbulas do bicho, enormemente distorcidas pela transformação exibiram ferozes presas que buscaram com avidez a coxa carnuda da Resplandecente. A jóia de cristal brilhou mais uma vez, jorrando um feixe luminoso que ao apagar-se tornou-se sólido.

O simulacro de cão não foi capaz de deter seus movimentos com a velocidade necessária, e antes que pudesse emitir mais um rugido, uma espada de metal azulado estava cravada em sua garganta, com a ponta atravessada em seu crânio.

Margarida sorriu, e com um rápido movimento, ergueu sua espada, partindo a cabeçorra da besta em duas metades. Com a arma ainda em punho, deu um salto para dentro do salão que ocupava o último andar da casa. Um grupo de homens esperava por ela.

Eles estavam em maior número. Riram com deboche, confiantes de sua superioridade. Um deles tinha pupilas vermelhas que pareciam queimar em chamas. Um outro, um ancião de cabelos compridos, mostrou os dentes amarelados e gritou algo numa língua morta. Margarida percebeu que enormes vermes esverdeados enrodilhavam-se na cabeleira do velho. As paredes do salão estavam cobertas de pinturas abstratas, que pareciam ganhar vida. Uma substância viscosa e escura escorreu de um dos quadros descendo pela parede. Os pingos que caíam no chão davam origem a tentáculos. Pequenas criaturas inumanas entraram rastejando pelo chão de mármore.

A silhueta heróica da morena erguendo uma espada azul atraiu a atenção daquela dantesca corja. Eles cercaram lentamente a sua inimiga, confiantes em seu poder.

Ela estava sozinha. Eles eram muitos.

Ela brandiu sua espada e entoou um cântico.

Um homem de cabelos loiros e olhos ardentes criou chamas com a ponta dos dedos ossudos. No fundo do recinto, a Resplandecente podia notar a presença de um enorme livro de capa branca com vários séculos de idade. Duas figuras sem traços definidos tomavam conta da Cândida Bíblia de Salomé.

Foi para isso que Ordem mandara Margarida de Antioquia vir até este lugar blasfemos. Ela devia resgatar o tomo sagrado, ou morrer tentando.

Eles chegaram mais perto, bloqueando a passagem da guerreira.

Eles eram muitos. Ela estava sozinha.

Margarida segurou sua espada com força.

Havia muitos inimigos.

Mas não o bastante para detê-la.

Ela canta mais uma vez, com o semblante sereno, como sempre.

A espada baila no ar, deixando um rastro de luz azul-celeste.

O primeiro inimigo cai a seus pés, sem um dos braços.

Agora só faltam mais alguns.

RESPLANDECENTE SERENIDADE foi escrito por Simões Lopes

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