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sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

Rebelião 73: Tabula Lupercalis

Há muito tempo que Roma não tinha um inverno tão rigoroso, e aquela noite era a mais fria do ano. Leopoldo Carpone e Annabella Saverio ainda estavam acordados, debruçados sobre a enorme escrivaninha de madeira antiga, com uma série de pergaminhos antigos em frangalhos cuidadosamente dispostos sob uma proteção transparente. Os outros arqueólogos, Elia e Gioconda, já tinham sido vencidos pelo sono e estavam em seus quartos dormindo.

Desde o início nas escavações na catacumba, Annabella jamais se sentira tão perto de decifrar os documentos como agora. O dia fora marcado por uma sucessão de descobertas, e o que parecia ser um indecifrável quebra-cabeças agora começava a fazer sentido. Leopoldo conferia alguns caracteres alfabéticos num velho glossário, enquanto Annabella repetia suas mais novas conclusões, com um orgulho indisfarçá-vel.

— Estávamos seguindo o caminho errado. Ontem, eu finalmente consegui desvendar aquelas incongruências do nosso modelo inicial. Não estamos lidando com um só alfabeto, mas com vários. Baseando-me em certos detalhes de estilo e outras sutilezas, consegui decompor os textos cuneiformes em duas diferentes séries. A primeira realmente está em sumério, como desconfiávamos, e a segunda num alfabeto similar, mas que seguramente não é o mesmo.

— Uma derivação mais recente do cuneiforme sumério? — perguntou Leopoldo.

— Não. Pelo meu estudo, acredito que seja uma forma mais arcaica ainda — completou a frase com um sorriso.

— Impossível! Um alfabeto mais antigo? Isto seria das maiores descobertas da Arqueologia atual!

— Pois é, acho que estamos nesse caminho...

— Mas os sumérios não usavam pergaminhos, somente tabuletas de argila. Além disso, como isso foi parar numa catacumba romana?

— Eu sei que estamos diante de enormes paradoxos. Mas eu e Elia descobrimos hoje mais pergaminhos numa câmara secreta na ala sul. E com eles achamos algumas tabuletas em pedaços. Os pedaços conferem com o texto manuscrito.

— Você e Elia continuaram a escavação hoje? Por que não me avisaram de nada? — protestou Leopoldo, coçando os fartos bigodes castanhos.

— Você tinha viajado até Florença, pensamos em ligar para você, mas eu quis fazer uma “surpresa”... — os olhos castanhos da moça pareciam brilhar.

Leopoldo deu um beijo demorado na companheira, com quem mantinha um namoro há duas semanas, e viu que esta estava segurando um dos fragmentos na mão. Annabella chegou a esboçar um protesto quando Leopoldo arrancou apressadamente de suas mãos a pequena lasca de argila, mas deixou que ele visse por si mesmo.

— Cuidado, Leo, a placa é frágil.

Annabella podia compreender a empolgação de seu colega. Carpone era o mais jovem da equipe de arqueólogos, e também aquele que chegara há menos tempo no instituto.

— As descobertas de Elia revelaram ser diversos conjuntos de fragmentos, nos quais identifiquei preliminarmente textos em sumério, em etrusco e latim arcaico, além de três línguas desconhecidas. Achamos também mais pergaminhos, a maioria em latim. Leo? Está me escutando?

Leo estava de costas, examinando uma das placas de argila. Lançou um olhar envergonhado para sua namorada, e pediu que ela continuasse.

A cientista passou a mãos pelos cabelos negros e muito curtos, e esfregou o pingente brilhante que sempre usava.

— Minha teoria é que trata-se de uma espécie de Pedra de Rosetta, temos provavelmente o mesmo grupo de textos, traduzidos em diversas línguas. Parece-me que foram sendo traduzidos e copiados com o passar dos séculos. Graças aos conhecimentos de Gioconda em línguas itálicas, já conseguimos decifrar um dos fragmentos de pergaminho.

A afirmação da mulher fez com que seu companheiro deixasse a placa na mesa, e se aproximasse com o maior interesse.

— E o que dizem estes textos? Manuscritos proto-cristãos das catacumbas? Leopoldo apertou a mão de sua amante com força.

— Pode ser. Mas parecem ter sido de alguma seita gnóstica ou de algum culto judaico aberrante, talvez até adeptos de alguma religião híbrida. Gioconda compilou o que parece alguma espécie de narrativa mítica sobre criaturas lendárias — a moça puxou um caderno de capa alaranjada de dentro de uma gaveta, e começou a ler as anotações de sua colega. Leopoldo ouvia tudo em silêncio.

— O Rei... está pouco legível...parece ser Baiarsa, ou Baiarsag, de Gomorra, teve um reinado longo e era muito temido pelo seu poder. Graças às demônias que adorava, sacrificou o próprio filho, e cercou-se de uma legião invencível de homens-fera.

— Bersa — era Elia que estava de volta, não tinha conseguido dormir, e decidiu voltar aos estudos. — Bersa é o rei de Gomorra citado na Bíblia, cuja forma hebraica mais correta seria Birsha’, com um “ayin” no final. Elia Ubaldo Frizzo era gordo e usava óculos, e era muito baixo. Sua chegada não agradou muito a Leopoldo, que ficou mais sério.

— Sim, faz sentido — concordou prontamente a arqueóloga—, mas deixe-me continuar: Os anjos de Deus foram enviados para punir as cidades malditas de Sodoma e Gomorra. Seus nomes eram Surial, o Sherafim do Sol, Ragüel e Azrael. A cidade foi inteiramente destruída e seus habitantes mortos. A legião de lobisomens tentou refugiar-se no Templo de Hekath e Gomory, cujas colossais estátuas de prata foram derretidas pelo calor intenso do fogo celeste. Sete crianças foram as únicas sobreviventes, todas com a semente infernal dos demônios germinando em suas almas. Elas fugiram, espalhando-se pelas regiões mais frias do norte. Devido ao terror pelo qual passaram em sua fuga, passaram a desprezar o Sol, a Morte e a Prata.

Elia segurava agora uma caneca de vinho. Ouvia tudo com atenção, embora já soubesse de quase tudo, mas Annabella havia conseguido descobrir mais detalhes.

— Outro fragmento diz que os lobisomens quiseram reerguer Gomorra, e que com dois irmãos gêmeos, guiados por Akka, uma das primeiras mulheres-lobisomens, construíram uma grande cidade. Um irmão acabou matando o outro, e o sobrevivente depois desapareceu. Os planos de criar a Nova Gomorra falharam. A história não é muito clara. Há muitas lacunas. Fala de um lobisomem que migrou para o extremo norte da Europa, assumindo o nome de Bersarachis

— Um nome derivado de Bersa, sem dúvida — complementou Elia Frizzo.

— Gioconda acha que é a origem do nome “Berserkr”, que os vikings davam a homens possuídos por uma força animal devastadora — explicou Annabella.

Leopoldo ergueu-se, com ar de cansado. — Puxa, tantas descobertas na minha ausência! Estou exausto, vejo que não precisam mais de mim, vou dormir.

— É, vejo que Annabella progrediu muito hoje, nos vemos amanhã. Também estou indo dormir — era Elia que falava agora, meio “contaminado” pela preguiça de seu amigo.

Annabella continuou analisando as anotações de Gioconda, e resolveu trazer mais alguns pergaminhos para o escritório. Não consegui pensar em dormir, tinha que ir até o fim.

Os ponteiros do relógios já indicavam as 3:34 da manhã quando Leopoldo retornou ao escritório.

— Acordado de novo? — perguntou a moça.

— Você não vem dormir? Estou sentindo sua falta — disse Leopoldo, lançando um olhar libidinoso para ela. Estava sem camisa, e havia uma enorme cicatriz em seu braço esquerdo.

— Você se machucou, querido? — ela perguntou, preocupada.

— Nada de mais, foram os arames perto da janela... só isso...o que você está escrevendo aí?

— Novidades! Novidades! Annabella soltou um belo sorriso, mas parecia sentir um pingo de sono. — Os textos não lhe soaram familiares?

— Não...eu...

— Ora, Leo, francamente! Não sei como não percebemos isto antes! Dois irmãos gêmeos, guiados por uma mulher-loba, construindo uma cidade... é a lenda da fundação de Roma! Rômulo e Remo, cuja ama tinha o nome de Acca Laurentia!

— Temas míticos recorrentes, querida. Isto se repete... — não chegou a completar a frase.

— E tem mais, veja o que eu descobri, pesquisando na Internet, bem agora: Gomorra em hebraico se escreve ‘Amora...

— Sim...e?

— Se escrevermos ‘AMORA ao contrário temos AROMA’...ROMA! Roma foi a Nova Gomorra para esta seita! E o nome latim dos lobisomens era versipellis, significa “pele trocada”, mas não poderia relacionar-se com um radical mais antigo vers-, bers-, ligado a Bersa? Em proto-itálico...

— Xiii.... — Leopoldo cobriu os lábios de Annabella com o dedo. — Hora de descansar este cerebrozinho maravilhoso. Ele começou a beijá-la, e a desabotoar sua blusa.

— Aqui...os outros...

“Todo mundo já está na cama”, cochichou Leopoldo, “é hora de nos deitarmos também”. As mãos dele já avançavam no sutiã, puxando com tanta força, que arrancou os fechos.

— Uau! Gostei disso! — falou ela ao ouvido do amante.

— Querida, pode tirar o pingente? As pontas são meio afiadas, pode machucar. Você não vai precisar dele agora — ele agora apertava as nádegas dela com força.

— Claro... — ela tirou o colar de prata e jogou para debaixo da mesinha.

Ela a jogou no chão com muita violência. Sua mão cobriu sua boca, apertando-a e comprimindo sua cabeça.

Sua voz tornou-se um rugido. Dentes amarelados e enormes brotaram da boca, enquanto uma juba de pêlos castanhos e ásperos envolvia seu corpo, que agora ganhava mais músculos.

Uma língua comprida e pegajosa lambeu o rosto e os seios pequenos de Annabella. — Você não sabe como foi difícil me conter para não matá-la antes!

— Vocês descobriram as Tábuas Lupercais, algo muito valioso para o meu povo. Não chore, seus amigos já estão mortos. Só falta você agora, minha deliciosa “ovelhinha”.

Annabella não arriscou a menor reação. Falou lentamente:

— Cuidado com a ovelha.

O monstro sentiu um golpe poderoso rasgando suas entranhas. Uma espada flamejante surgida do nada partiu o crânio da aberração ao meio. Enquanto ele sentia seu corpo ardendo, podia ver salamandras saltitando por entre as labaredas. Um segundo golpe da espada cortou suas pernas.

Annabella ergueu-se, e com um golpe preciso deu cabo da vida daquela monstruosidade.

Ela já havia percebido quem ele era, graças à ajuda de alguns amigos, e enquanto ele o tempo todo pensava estar enganando-a, na verdade era ele que estava sendo enganado.

Ela juntou todos os pergaminhos e tabletes numa caixa, pegou sua bagagem e fugiu pela manhã. Era hora de procurar pelo seu amigo Acólito e decifrar o restante.

Leopoldo Carpone não havia sido o primeiro, e provavelmente não seria o último versipellis a ser morto pela Bastarda Annabella.

A Tabula Lupercalis estava em boas mãos agora.

TABULA LUPERCALIS foi escrito por Simões Lopes

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segunda-feira, 7 de janeiro de 2008

Rebelião 39: O Despertar (Parte 2 de 2)


Parte Anterior

Lucas estava tendo dificuldades para se equilibrar, como se uma nuvem negra atravessasse sua visão; teve que se esforçar para pensar com objetividade.

Calma. Não adianta nada quebrar a chave.

Só então percebeu o engano. Estava girando a fechadura para a esquerda, quando o correto seria para a direita. Com os dedos escorregando, conseguiu abrir a porta e ganhar a noite fria de julho.

Lucas morava no subúrbio, num bairro de ruas estreitas e intricadas. Conhecia todas como a palma de sua mão e corria destrambelhado pelas ladeiras e esquinas. Estava consciente, entretanto, do borrão negro que acima de sua cabeça pulava de telhado em telhado ao seu encalço.

Como no sonho, pensou em desespero. Já sabendo o que iria acontecer, chegou até uma pequena praça, sem qualquer iluminação artificial. Somente a luz da lua permitia a visão dos vultos de várias árvores.

Ali, como no pesadelo, sentiu as dores nas pernas. Os músculos, com câimbras, endureceram e o levaram ao solo, fazendo-o perder os dentes. Ao invés de procurar em vão se arrastar pelos paralelepípedos molhados de orvalho, fez o impensável: voltou-se e encarou a criatura.

Primeiro os olhos em fogo e depois a boca salivante e abjeta puderam ser vistos. Lucas olhava a besta de frente pela primeira vez. Era um incrível cachorro – embora a expressão “cachorro” fosse totalmente inadequada para classificar aquele pesadelo de quatro patas. Uma montanha de músculos cobertos de pelos negros eriçados e rígidos parecia ser a expressão mais próxima da realidade. O monstro era quase do tamanho do Fiat uno estacionado na entrada da praça.

A trilha de saliva e o rosnado baixo era o prenúncio do que viria a seguir. O garoto estava completamente imóvel, hipnotizado pela bruta singularidade da criatura diante de si. Somente sua mente trabalhava como uma fábrica chinesa, evitando pensar nas imagens de sua carne sendo destroçada que teimavam em rondar sua cabeça. Só pode fechar os olhos e esperar o inevitável, espremendo-se involuntariamente na sombra formada pela árvore mais próxima.

A criatura estagnou e bufou violentamente. As duas bolas de fogo que possuía no rosto voltaram-se de um lado a outro. Chegou à frente, há apenas um metro do rapaz, tão perto que ele perdeu parcialmente os sentidos graças ao fedor. A criatura balançou a cabeça durante alguns segundos e rosnou bem forte, antes de correr em volta da praça algumas vezes e sumir através das árvores.

A circulação voltou aos poucos ao normal. Estava claro que por algum motivo o cão não o tinha visto, o que não podia entender. A sombra que o abarcara não era nem de longe forte o suficiente para escondê-lo, levando ainda em conta que a criatura sabia onde ele estava. Levantou com dificuldade, somente para ter seus músculos retesados novamente – havia mais alguém na praça.

Era um homem alto e magro usando jeans, uma figura que passaria absolutamente despercebida se não fossem três horas da manhã e ele não andasse como se estivesse em sua sala de estar. Na verdade, Lucas não se lembrava de ter visto uma pessoa que parecia tão segura quanto aquele homem. Tentou calcular sua idade, mas não conseguiu.

— Imagino que deva estar assustado — disse a figura quase surreal. — Não se preocupe, vou lhe explicar tudo.

Ele deu uns passos e Lucas fez menção de correr.

— Não precisa ter medo — ele parou em frente ao Uno estacionado, uma das mãos viradas para frente em sinal de calma. — Tenho a resposta que você procura.

Os olhos do Rapaz faiscaram. Ele permaneceu imóvel, próximo à árvore.

Você não é um mortal como os homens de barro à sua volta — ele apontava para as casas margeantes um pouco afastadas, todas escuras e silenciosas. — Você é filho de um anjo caído, um ser híbrido com descendência tanto do céu quanto do inferno. Um Nefilim, assim como eu.

O homem sorria satisfeito com suas próprias palavras e com o interesse do garoto. Se estivesse prestando atenção de verdade, perceberia que Lucas realmente estava com o olhar fixo – mas não nele.

— Eu fui designado para ser seu tutor. Estou aqui para ensiná-lo sobre o que há fora do pesado véu de trevas que cobre os mortais. Venha comigo e não terá mais dúvidas.

O rapaz encolheu os ombros. Mesmo estando escuro, os olhos treinados do homem perceberam que ele tremia.

— Não precisa ter medo. Na imensidade da criação, com as mais diversas entidades, você achou um igual. Pode confiar em mim.

— Eu confio — disse o rapaz abrindo os braços e levantando corajosamente a cabeça sem sair do lugar. — Venha me dar um abraço.

O homem não deu três passos. Assim que se moveu a enorme criatura negra pulou de uma árvore atrás dele, abocanhando-o por cima da cabeça. As presas o perfuraram na altura dos pulmões nessa primeira fechada de boca, misturando-se o líquido pulmonar amarelado com a espessa saliva da besta. Ela levantou o horrendo pescoço, retirando os pés do homem do chão e espremendo-o por sua traquéia, num quebrar de ossos tal que mexeria com os nervos até de um legista.

Lucas espreitou por alguns instantes o espetáculo de sangue e carne sendo lançadas pelo ar. Havia percebido pelo reflexo no vidro da frente do automóvel que o homem escondia na mão esquerda uma adaga prateada enquanto o distraía com a direita. Tanto a mão quanto as armas encontram-se agora na barriga da criatura, que virou sua monstruosa fuça para Lucas.

O rapaz nem se atreveu a fugir; seria só prolongar a agonia.

Algo ocorreu antes do ataque, entretanto, algo tão repentino e inexplicável quanto tudo naquela estranha noite: O ventre inchado da criatura explodiu, espalhando as entranhas pelo calçamento. Praticamente cortada ao meio, a ligação entre as patas traseiras e o resto do corpo passou a ser feita somente pela espinha dorsal, agora exposta. Com a criatura tombada, o flamejar dos seus olhos foi se apagando como uma lâmpada sendo desligada aos poucos. Por um instante, o garoto quase pode vislumbrar algo de racional naquele olhar, mas foi só por um instante. Logo uma fumaça compacta e negra saiu da carcaça, e a luz dos olhos esmoreceu por completo. Em segundos a criatura desintegrou-se como se mergulhada em ácido. A massa se dissolvia por si própria, formando bolhas que consumiam os músculos antes rígidos e poderosos. Quando as luzes das casas começaram a ser acesas, não havia mais nada ali.

Lucas se abaixou novamente nas sombras, que agora o abraçavam como um cobertor.

Ainda não estou pronto para confiar em ninguém, pensou.

O DESPERTAR foi escrito por Andre Esteves

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Rebelião 38: O Despertar (Parte 1 de 2)


A escuridão circundante era meramente ilusória, pensava Lucas. Não obstante cobrisse seus olhos de trevas, não impedia a propagação dos rosnados baixos e constantes que lhe arrepiavam a pele. Nem mesmo bloqueava o fedor insuportável que invadia sem piedade suas narinas. Um cheiro nauseabundo de carne podre misturado com enxofre tão forte a ponto de tonteá-lo.

A Criatura estava próxima agora. O rapaz vinha correndo há tempos, e suas pernas não mais obedeciam a seus comandos desesperados. À beira da fibrilação cardíaca, tombou ao solo devido ao descontrole motor. Estava dominado por câimbras que o faziam rolar de pura dor. O choque do rosto com o chão havia arrancado um ou dois dentes, provocando uma nascente de sangue em sua boca.

O rosnado ficou mais próximo. O rapaz sabia – mesmo em agonia – que o cheiro adocicado do líquido viscoso inebriava os sentidos da besta.

Ele então a viu. O ingrato negrume foi cortado por dois pequenos círculos flamejantes – dois olhos rubros que pareciam absorver todo o oxigênio ambiente. A iluminação proporcionada por eles permitiu a visão da boca negra e comprida, as presas brilhando à luz vermelha e a saliva que escorria por elas até o chão.

Era apenas questão de tempo agora. Por mais que Lucas apertasse os olhos e a mandíbula no esforço, seus músculos endurecidos não permitiam o mínimo movimento. Em instantes a baba amarelada e malcheirosa não caía mais no solo, mas em suas pernas e em seu peito. Sem apresentar qualquer resistência, sua pele foi dilacerada e digerida aos poucos – a besta não tinha qualquer pressa, parecendo deliciada com os gritos estéreis do garoto...

Ele acordou numa poça de suor. Ainda lutou durante alguns instantes com o vazio, como se finalmente seus músculos tivessem resolvido obedecer. O mesmo pesadelo. Todas as noites do último mês, desde que completara 18 anos. No início conseguia despistar a criatura, mas a cada noite ela chegava mais perto. Hoje, pela primeira vez, ela o havia alcançado. Tinha sido devorado. Podia sentir seu corpo dolorido, como se realmente algo de real houvesse ocorrido.

Um estrondo cortou o silêncio da madrugada. A janela de madeira havia se aberto violentamente, permitindo a passagem da fria brisa noturna. Os nervos do rapaz já estavam em frangalhos, mas o barulho serviu como um choque de mil volts em sua espinha dorsal. Pulou da cama e investigou as janelas. Os batentes, sem qualquer ferrugem e ainda reluzentes, estavam totalmente retorcidos.

Aquilo só podia ser interpretado de uma forma. Ela estava ali.

O medo tomou conta de seu corpo. Disparou do quarto e entrou na primeira porta que viu no corredor. Somente ao escutar o familiar ronco, tão contundente quanto uma britadeira trabalhando na madrugada, ele caiu em si: o desgraçado do gordo deitado, que infelizmente era seu pai, não ia ajudar em nada. Pelo fedor, havia passado as últimas horas se enchendo de cachaça, sua única atividade quando estava em casa.

Por alguns segundos, na tensão da situação, pensou encontrar sua mãe naquele quarto. A mãe que não conhecera, pois falecera por ocasião de seu nascimento. Lucas gostava de fantasiar que a via em seus sonhos, na forma de uma mulher ruiva sempre silenciosa, mas que transmitia uma sensação indescritível de paz.

Nem esse alento ele possuía mais; a mulher fora substituída pela criatura peluda. Estava sozinho.

Sem problemas. Tinha se preparado para isso.

Literalmente engolindo o medo, voltou ao quarto e abriu seu armário. Puxou um livro de páginas amareladas pelo tempo e uma mala com vários artefatos. Alisou a capa e as letras douradas ali impressas: “Livro negro de São Miguel”. Abriu na página 227, cujo título era o “exorcismo do demônio”. Puxou um pena negra da mala e um vidro com líquido vermelho escuro. Molhou a ponta da pena e reproduziu no chão do quarto o pentagrama desenhado na folha. Em cada ponta recitava estranhas palavras, acendendo velas bicolores – preta e vermelha – em cada uma delas.

Postou-se de joelhos no centro do círculo e virou-se para a janela. O vento parecia estar mais forte. Rasgou um plástico transparente e dele retirou uma massa mole e encharcada de sangue, quase do tamanho de uma bola de futebol: um coração bovino.

Ele se preparava para aquele momento há algumas semanas. Desde o início dos pesadelos, pressentiu que cabia a ele se defender de alguma forma.

Ia provar que o inferno estava escolhendo a pessoa errada.

Segurou a sinistra peça de carne acima da cabeça e iniciou discurso na mesma língua ofídica de momentos atrás. As janelas bateram mais uma vez; o abajur em cima do criado-mudo foi lançado contra a parede, aumentando a confusão; as gavetas da cômoda se abriram, formando um ciclone de papéis pelo quarto. Até o lustre balançava ao sabor do vento, batendo no teto e espalhando no já conturbado ar os estilhaços das lâmpadas quebradas.

Lucas suava tentando não errar uma palavra. Titubeou, entretanto, quando percebeu que as roupas de cama flutuavam a esmo, quase tocando o fogo tímido das velas que fraquejaram com seu engasgo.

Elas então se apagaram.

A situação mudou num instante. A força do vento passou a ser tal que retirou da parede um espelho de corpo inteiro, lançando-o contra o rapaz. Os fragmentos do vidro quebrado laceraram seu corpo enxuto, obrigando-o a cair para trás e sair do círculo. Como tivesse se chocado contra o pára-choque de um carro, bateu com as costas na porta do armário, quebrando a madeira e caindo como um boneco disforme entre as roupas amontoadas.

O medo, fiel companheiro, se fez presente novamente. Sentindo o coração sair pela boca, pulou de três em três os degraus que levavam até a sala. Enquanto tentava desesperado virar a chave e abrir a porta, esquecido de qualquer ferimento, percebeu sua nuca se eriçar como nunca havia feito antes. O fedor de podre não permitia ao rapaz qualquer dúvida sobre o que se encontrava no aposento contínuo a sala, a cozinha.

Porque essa fechadura desgraçada não abre?

Com o rabo dos olhos, percebeu a luminescência vermelha atrás dele – olhos injetados de sangue. Apertou com maior premência a chave, e sentiu o entortar do objeto; ao mesmo tempo, o odioso rosnado tocou seus ouvidos.

A escuridão imediatamente pareceu ficar mais espessa.

(Parte 2)

O DESPERTAR foi escrito por Andre Esteves

quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

Rebelião 21: Temperança


Barbudo estava sentado, contemplando as estrelas, quando tudo começou. Ele se sentia triste e melancólico, porque as luzes da cidade ofuscavam o céu. No interior, a colcha escura do firmamento ficava salpicada de pequenos furos luminosos; aqui, uma claridade baça dava ao céu noturno um tom doentio e fantasmagórico. Foi quando ele a viu — era uma menina magra e suja, com olhos brilhantes, intensos. Ela sorri, mostrando dentes amarelos, e baixa uma das alças de seu top, deixando um seio à mostra. É só um pedaço de carne que mal cobre seus ossos, mas por algum motivo isso o deixa muito excitado. Mas alguma coisa está errada, terrivelmente errada. Ela passa uma língua escura sobre os dentes, como se isso devesse ser algo bem sensual. Aí Barbudo entende: feromônios. Seu faro sensível conseguiu captar conscientemente o que a maioria dos homens de barro só percebem a nível subconsciente, e por isso acabam caindo na armadilha — estes não são feromônios humanos. Esta é uma loba em pele de cordeiro. Ela caminha na sua direção, gingando seus quadris ossudos, quando ele se levanta em guarda, totalmente em prontidão. A coisa pára, com um ricto de ódio no olhar. De repente, sua pele começa a esticar como borracha, até que se rompe em alguns pontos, deixando tufos grossos e hirsutos de pêlos aparecerem. Antes que o nefilim possa reagir, o Versipellis ataca, o arremessando a dois metros de distância — suas costas batem num poste baixo de metal, o fazendo envergar. A lâmpada cai no chão com um estouro barulhento, e nas choupanas próximas os mortais apagam as luzes. Provavelmente estarão se escondendo em baixo de suas camas — o bom senso lhes diz que é apenas mais um tiroteio entre traficantes, mas seu instinto sussurra em seus ouvidos que são titãs, deuses monstruosos se enfrentando. A mulher-coisa começou uma risada estridente como o ganido de uma hiena, mas parou quando viu Barbudo se levantar, as costelas quebradas voltando para o lugar, os olhos brilhando freneticamente.

Existe em seu peito uma cavidade escuro e rija, do tamanho de um punho, dentro da qual mora algo — é a coisa mais próxima de Deus que Barbudo conhece. Ela é como as tempestades que derrubam as árvores e limpam o ar; é como a loba que luta até a morte por seus filhotes, ou como o tigre saltando sobre o fogo. É lava e tremor, e corre por suas veias, vitalizando seu corpo, tornando-o forte. O miserável homem cresce, desdobra-se: seus músculos estalam por baixo de seu couro lustroso e brilhante, enquanto chifres de alvíssimo marfim brotam de sua cabeça, curvilíneos e pontiagudos. Seus pés rompem os sapatos rotos, e são cascos fortes e pesados. Uma crina negra desce de sua cabeça e une-se à sua barba lanzuda. A besta rosna incrédula — a fera ergue-se e a encara. Mais uma vez, o Versipellis investe contra Barbudo, mas encontra seus chifres ao invés de seu peito. Num movimento rápido a besta é arremessada para cima, dois furos profundos, um em sua garganta, outro em seu ombro. Antes que ela toque o chão, a fera invoca Tenacidade, centuplicando sua já prodigiosa força. Quando ela aterriza, rachando o asfalto com seu peso medonho, a fera já está sobre ela, com punhos rijos como bolas de demolição esmagando seus ossos. Seus cascos arrancam pele e fraturam membros — a fera espuma e ruge, castigando a besta antinatural. Mais uma investida e seus chifres a arremessam a meio quarteirão de distância. Ele observa sua oponente descrever um arco longo e demorado contra o céu, e quando ouve o baque surdo de sua queda, salta com os punhos cerrados. A coisa tentava levantar-se quando ele a atingiu, cascos e punhos de uma só vez, e uma gofada de sangue quente e viscoso manchando seu pêlo lustroso. A besta se contorce, como se algo estivesse saindo de dentro dela, até que um par de mãos abre caminho através de seu peito. A menina magra e suja se arrasta, alquebrada e ferida até a quase morte, para fora de seu corpo sobrenatural.

Tão rápida quanto surgiu, a fúria de Barbudo se vai, porque assim são as coisas na natureza — não há excessos. Ela veio quando era necessária, e partiu quando não precisava mais dela.

"E… eu era… um monstro tão bonito… tão feroz…" — sua voz é quase um sibilo chiado através de uma glote partida.

"Não havia beleza. Ferocidade não é crueldade. Você estava doente". O olhar da moça pareceu então muito triste e cansado, como se finalmente tivesse se dado conta de que adorava a uma coisa falsa e suja. Contemplando aqueles olhos (baços como o céu urbano) Barbudo entendeu o que os Acólitos falam da humanidade. A brevidade de suas vidas cheias de dúvidas, o terrível sentimento de solidão, de abandono, as perguntas lançadas contra um cadáver de louça pendente num madeiro, e as respostas que nunca vinham... tantas oportunidades de errar, e tantas pedras no caminho. Ele sentiu uma profunda piedade por aquela raça de perdidos, com todos os motivos do mundo para cair.

"Há muito... tempo... não articulo... palavras..."

"Gostaria que eu a tirasse dessa situação?"

"Não... não. Deixe-me... aproveitar a claridade... enquanto... as sombras..."

Ela nunca chegou a terminar esta frase, porque num gorgolejo de sangue e dor ela sufocou suas últimas palavras. Uma coisa escura como breu escorreu de seu corpo para as sombras. Barbudo sabia o que era — os Visionários e Precursores os chamavam Damnati, danados, feras abissais que tomam os vivos. Numa gargalhada rouquenha o monstro voltou para o inferno, e Barbudo sabia que não havia ido só.

Os Veneráveis dizem que algo dos humanos sobrevive à morte de seu corpo, e esse algo é imortal de uma maneira que mesmo os nefilim não são. Barbudo não sabia se era esse algo que o mastim infernal tinha arrastado consigo para o Sheol, mas enfim, não importava. Se isso era realmente imortal, mesmo os piores tormentos do Tártaro seriam apenas um momento, um pequeno instante, numa existência que se estenderia ao infinito. Esse pensamento é acolhido por sua mente com grande conforto — por baixo de toda dor e tristeza, toda alegria, paixão e júbilo, a natureza se mantinha em paz.

Tudo estava bem.

Barbudo olha novamente para as ruas, e lhe ocorre que realmente a Natureza é muito sábia. Talvez os humanos não tenham feito mais que trazer as estrelas, que estavam tão distantes, para mais perto, onde poderiam ser contempladas. Sujo com o sangue de uma abominação, ele se senta no topo de uma comunidade de miseráveis e esfomeados, e observa o lençol de luzes que se estende por toda cidade, coriscando suavemente como as estrelas escondidas no céu.

É tudo tão lindo, tão empolgante.

No meio do clamor da luta pela vida, da morte e da violência, Barbudo encontrou a única coisa que está em silêncio no meio de um universo louco de som e luz, em constante conflito e mudança.

E acariciando suavemente este sentimento em seu peito, ele está em paz.


TEMPERANÇA foi escrito por Renato Simões

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