Mostrando postagens com marcador Lilim. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Lilim. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

Conto Rebelião 83: O Convento de Santa Felicidade


Fazia muito frio ao ar livre quando Jeanne estacionou o seu carro. Ainda teria que andar mais uns trezentos metros para alcançar o portão do convento, o que não seria um incômodo. A geada fina que cobria a calçada de pedras retangulares dificultava um pouco a caminhada, mas a mulher alta de cabelos cor-de-palha prosseguiu com passos lentos e cuidados.

O cheiro agradável de um guisado de carne indicava que já era hora da ceia noturna no Convento de Santa Felicidade. Jeanne d’Agen ajeitou seu grosso casaco de lã de ovelha e suspirou com força, exalando uma grossa nuvem de vapor condensado. O portão de madeira escura trazia em seu centro um batente de ferro decorado com a cabeça entalhada de um demônio.

Deu três vigorosas batidas, que ecoaram com força.

Após um breve instante, uma senhora de meia-idade, coberta por um hábito branco, veio atendê-la:

— Boa noite, querida amiga, aqui é o Convento de Santa Felicidade. Vivemos para servi-la — disse a mulher, apresentando-se com um largo sorriso.

— Caminho sob a proteção de Santa Margarida de Antioquia, São Miguel Arcanjo e Santa Catarina do Monte Sinai. Muita paz para nós! — respondeu prontamente, com uma espécie de fórmula decorada.

— Estás ungida pelos protetores de Santa Joana d’Arc. Venha comigo, irmã.

Assim que a porta pesada fechou-se atrás delas com um estampido, as duas adentraram um corredor estreito e escuro, iluminado por dois pequenos lampiões presos ás laterais da parede.

— Meu nome é Jeanne de Biarritz, irmã darciana — apresentou-se a senhora, piscando os expressivos olhos negros com uma freqüência que indicava um próvavel tique nervoso.

— Eu me chamo Jeanne d’Agen, irmã darciana — respondeu ela, como se respondesse a uma espécie de senha.

O corredor desembocava numa sala ampla, onde um grupo de crianças esfomeadas acomodava-se em compridos bancos que serviam de assento coletivo em duas enormes mesas de jantar. Os pratos estavam cheios com uma sopa avermelhada e nutritiva, cujo cheiro era maravilhoso. Antes de pisar no recinto, a visitante despiu-se de seu grosso agasalho e trocou-o por um manto branco pendurado num cabide de prata. Vestindo-o com bastante cuidado, enfiou os braços nas mangas acolchoadas com um forro triplo de pano rústico. Sua guia, que vestia um traje semelhante, atravessou o refeitório distribuindo sorrisos e afagos para os pequenos órfãos, e acenou para uma moça alta de olhos azuis que servia comida a uma idosa velhinha cega.

—Nannette, onde está Ophelie? — perguntou ela para a freira mais moça, num tom quase sussurrado.

— Em seus aposentos, trabalhando — respondeu, enquanto levava a colher cheia de mingau à boca da senhora quase centenária.

Jeanne de Biarritz, ou Irmã Brigitte, como devia ser chamada quando na presença de visitantes e quaisquer pessoas que não fossem suas irmãs no Convento de Santa Felicidade, deu meia-volta e conduziu sua nova hóspede por uma escada em caracol que subia até o segundo andar. Após percorrerem um labirinto de corredores, passando pelos aposentos pessoais e subindo mais um andar de escadas, chegaram a um quarto isolado em cuja porta estava entalhada uma rebuscada imagem de Santa Margarida arrebentando o ventre de um dragão feroz, conforme a tradição medieval. A freira anunciou-se com um assovio prolongado.

Não houve resposta.

Jeanne de Biarritz insistiu.

Passaram-se mais alguns minutos silenciosos, até que a porta finalmente foi aberta.

Uma senhora de pele bem morena e olhos claros veio atendê-las, vestindo um avental cinzento. Não parecia contente.

A mulher de olhos negros apressou-se com as apresentações:

— Esta é Jeanne d’Agen, irmã darciana — a frase não provocou nenhuma alteração no humor na mulher avental, que respondeu com ar taciturno.

— Eu sou Jeanne d’Orléans, Mestra Antioquiana — a freira de avental apresentou-se desta forma. — Convoquei-a a pedido de Jeanne de Calais.

Jeanne d’Agen prontamente identificou sua citada benfeitora: Jeanne de Calais trabalhara com ela em Madri, no Convento de Santa Ifigênia, por longos três anos, e conhecia muito bem o seu valor. Se havia sido chamada, é porque a missão era crucial.

Jeanne d’Agen — que nascera no Canadá como Antoinette Pliquet — era uma freira da Legião d’Arc, ordem religiosa que mantinha uma extensa rede de conventos, hospícios e orfanatos espalhados pelo mundo, através dos quais ajudavam os pobres, os abandonados e os enfermos. Secretamente, no entanto, os objetivos da dita ordem consistiam em transformar mulheres em santas guerreiras, inspiradas na figura da gloriosa mártir Joana d’Arc. Ao receber o hábito da Ordem, as mulheres — obrigatoriamente virgens e castas — eram batizadas com o nome iniciático de Jeanne mais um sobrenome baseado em alguma cidade francesa. Deviam integrar a partir deste momento, um dos Três Terços em que a Legião estava dividida: As Sinaíticas, especializadas nas doutrinas e nos conhecimentos secretos que a Legião guardava, atuando como professoras e orientadoras; as Antioquianas, especializadas nos ofícios de metalurgia e alquimia, com os quais fabricavam armas de poderes fenomenais; e as Arcangelistas, como Jeanne d’Agen, guerreiras que dedicavam suas vidas a treinar mente e corpo a fim de combaterem sem temor o Mal em suas várias formas.

— Jeanne d’Agen, Caçadora Arcangelista. Apresento-me de corpo e alma para a missão que os Anjos e os Santos Mártires me confiarem — as duas tocaram os dedos indicadores em sinal de cumprimento. Jeanne d’Orléans carregava no pescoço um pesado crucifixo de ouro branco. Os cabelos curtos, negros e espetados, pareciam ensebados com alguma espécie de gordura. As bochechas estavam cobertas de fuligem, e suas mãos mostravam marcas semelhantes.

— Desculpem-me a recepção indigna, mas estou forjando mais uma arma. Acompanhem-me. Por aqui — apontou com os dedos para uma divisória interna no quarto, junto a uma janela de vidro escurecido. O lugar mais parecia um laboratório ou uma oficina. Prateleiras com frascos transparentes contendo diversas soluções químicas decoravam as paredes. Um grande forno crepitava no fundo do recinto, e duas grandes tinas cheias de água pareciam próximas do ponto de fervura.

— A freira forjadora vestiu duas grandes luvas de amianto e ergueu um enorme tenaz. Com cuidado, mergulhou-o numa das tinas fumegantes, retirando uma adaga de bronze. O metal ainda cálido projetava reflexos avermelhados nas calotas metálicas que revestiam as bancadas laterais. A artesã tornou a mergulhar o objeto na água.

— Uma adaga santa, sete vezes benzida, sete vezes temperada; sete vezes amolada — juntou as mãos em posição de prece. — Devo a minha vida à irmã Jeanne de Calais, e um pedido dela é uma ordem. Aceite este presente de uma amiga sempre fiel.

— Obrigado. Eu posso notar que os Anjos estão presentes neste local, e com esta nova arma, a Vontade de Deus será feita — agradeceu o presente, em tom solene.

A adaga foi mais uma vez retirada de seu invólucro líquido, e ainda aquecida, conduzida pelas garras do tenaz até a Caçadora Arcangelista. Não se importando com o calor escorchante, segurou a adaga com as mãos nuas.

— Eu aceito esta arma, e a consagro em nome de São Miguel Arcanjo, Guerreiro de Deus, Vencedor de Satã, Espada Flamejante dos Santos!

— O calor do metal incandescente provocou um chiado desagradável ao encostar na pele úmida. Sem demonstrar dor alguma, fechou os olhos, realizou uma prolongada oração, no que foi acompanhada pelas duas outras freiras.

Brandiu a arma por instantes no ar, como se traçasse um símbolo específico com as linhas de movimento. Assim que terminou o misterioso ritual, pousou a arma num suporte ladrilhado.

Fora do alcance de sua dona, a arma pareceu brilhar intensamente, e inflamada por um turbilhão de chamas alquímicas, suas formas alteraram-se como se modeladas por uma oleira invisível. Ao fim da improvável transformação, a adaga havia transformando-se num inofensivo pente de dentes metálicos, de aspecto vulgar. Jeanne guardou-a num bolso.

— A quem devo combater, Mestra Antioquiana? — perguntou, já ansiosa em cumprir seus deveres.

— Localizamos o íncubo blasfemo que desencaminhou a Irmã Jeanne de Rodez. Ele se chama Ladaimes, e perambula pela Ilha de São Dimas, na Baía de Guanabara.

— Brasil?

— Sim. Jeanne de Calais indicou-a por que você é fluente em português, espanhol e italiano. Não podemos aceitar que tal aberração ainda caminhe sobre a Terra, depois do que ela fez com uma das nossas.

Jeanne de Rodez fora uma das mais promissoras noviças do Terço Sinaítico, mas terminara por cair vítima do poder de sedução de um íncubo, uma espécie demoníaca do Segundo Círculo do Inferno. Jeanne d’Agen já havia desencarnado dois lilim — o nome hebraico de tais criaturas — como caçadora de criaturas infernais, e sentia-se apta em acrescentar mais um feito à sua coleção de sucessos. Perguntou pelo estado da irmã seduzida.

— Tivemos que enclausurá-la, até conseguirmos desfazer os efeitos da luxúria maligna. Seu estado é lastimável. Transtornada pela loucura arrebatadora, comporta-se como um animal inferior, maldizendo a todas aquelas que ainda tentam auxiliá-la.

— Preciso vê-la — disse a freira guerreira, com muita ênfase.

— Não será uma visão agradável. — argumentou sua interlocutora.

— Eu preciso fazer isto. Saber em que estado a querida irmã ficou só aumentará meu ânimo para a o confronto.

Compreendendo a convicção da guerreira, as irmãs consentiram em guiá-la até a cela da mal-fadada noviça.

A dita “cela” ficava no subsolo. Uma escadaria muito estreita, de pedra, tão antiga que parecia escavada no próprio solo original do casario, conduzia a um conjunto de pequenas celas gradeadas. Uma freira bem alta e corpulenta — seu nome era Jeanne de Cergy — guardava o andar subterrâneo. Por trás das grades, a Arcangelista de cabelos claros ouvia gritos horrendos, misturados a gemidos arfantes. Uma mulher desvairada pronunciava blasfêmias inomináveis e mais parecia mais um animal selvagem.

A caçadora não teve medo de espiar pela grade, e sentiu uma pena profunda daquela pobre alma enclausurada. Aquela que um dia fora uma das mais sábias Sinaítas da Legião, Jeanne de Rodez — nascida Graciana de Lara, na cidade portuguesa do Porto —, rastejava pelo chão frio da cela com os cabelos desgrenhados e a baba escorrendo pela boca entreaberta. Grossas correntes de metal bento prendiam seus ombros a um suporte na parede, e seus braços estavam atados por algemas de couro, evitando movimentos mais abruptos. Presa à parede, o máximo que a mulher conseguia fazer era circular pela cela girando a corrente como um cão encoleirado.

Ao sentir a presença de alguém espiando, ela ergueu-se de cócoras, expondo sua metade inferior desnuda, e soltou uma gargalhada. Com o olhar fixo na Arcangelista, ela deixou escorrer um jato forte de urina pelas pernas.

— Me tirem daqui!!! Suas vacas imundas!!!! Eu quero um homem!!! Um homem!!!!

Jeanne d’Agen meditou um pouco, e rezou silenciosamente por sua ex-colega. A mulher cativa continuou gritando impropérios. Num gesto agressivo, virou-se de costas e rolou no chão. Virou as nádegas para a porta e sacudiu-as naquela direção.

— Vocês não sabem como é bom ter um homem!!! Me soltem e eu vou trazer mil íncubos para nos possuírem!! O que falta pra vocês é uma grande...

A Arcangelista preferiu não ouvir o fim da frase, e com a raiva estampada nos olhos semi-cerrados, fez o caminho de volta galgando os degraus subterrâneos com tamanha rapidez, que suas companheiras não conseguiam acompanhar.

Pediu que fosse levada à Capela do Convento, e lá chegando, deitou-se no chão, de barriga para cima, os braços e pernas estendidos. Enquanto as irmãs darcianas Jeanne de Biarritz e Jeanne d’Orléans fechavam a porta da capelania, Jeanne d’Agen começou a entoar as ladainhas do Cântico de Santa Joana Guerreira.

Retirando o pente do bolso, levantou-o, apontando na direção do teto. Todas as velas da capela começaram a acender-se, uma após a outra, por si mesmas. À medida que as chamas ganhavam mais volume e calor, o cântico prosseguia, e o pente transformava-se mais uma vez na sua forma original de adaga de bronze. Com a outra mão, ela tirou um longo rosário de outro bolso, e balançou-o, apoiando-se nos joelhos. Uma vez ajoelhada, sem deixar interromper a música, rodopiou o rosário até que este assumisse a forma de um chicote dourado luminoso.

Empunhando suas armas benditas, energizadas com a mais pura luz celestial, fixou a vista no teto abobadado da capela, e onde antes só se viam vigas de madeira escura e embolorada, resplandeciam as imagens diáfanas de São Miguel Arcanjo, Santa Catarina do Monte Sinai e Santa Margarida de Antioquia. Com os olhos vidrados pelo êxtase místico, sentiu seu corpo queimando, mas não se deixou dominar pela dor.

— POR NÓS, TU FOSTE QUEIMADA, SANTA JOANA — gritou, e as chamas das velas agora pareciam explodir como as labaredas de um incêndio.

— POR TI, EU SINTO O ARDOR DO FOGO — seu corpo tremia em frenesi.

— O HOMEM SENTENCIOU SANTA JOANA AO FOGO INFERNAL — a pronúncia era límpida, os olhos fixos no assoalho, de onde pareciam brotar chamas.

— MAS DE DEUS ELA RECEBEU O FOGO CELESTE — não tirava os olhos do alto, onde as três entidades incorpóreas pareciam bailar em meio à claridade cegante.

— SÃO MIGUEL ARCANJO REVIGORA MEU CORPO, SANTA CATARINA AGUÇA MINHA MENTE, SANTA MARGARIDA ZELA POR MINHA ALMA.

O cântico foi encerrado por um grito estridente, quase animalesco. As chamas enlouquecidas ziguezagueavam como cometas pela capela, rodopiando ao redor da cabeça de Jeanne d’Agen e reluzindo no metal candente das armas celestes.

— AMÉM.

A capela voltou ao seu aspecto original. Não havia mais nenhum sinal de fogo ou de imagens astrais. A caçadora arcangelista Jeanne d’Agen, ajoelhada, não disse mais nenhuma palavra, não emitiu mais nenhum som.

Quando ela saiu da capela, suas camaradas perceberam que ela já estava pronta para a batalha. Sem dizer nenhuma palavra, ela recebeu de Jeanne d’Orléans as últimas instruções necessárias para localizar o demônio sedutor.

Deixou uma generosa contribuição ao ofertório de convento, e saiu.

As irmãs do Convento de Santa Felicidade, mais uma vez, voltaram a seus afazeres cotidianos: bocas a alimentar, ferimentos a tratar, doentes a consolar.

Fazia muito frio lá fora.


O CONVENTO DE SANTA FELICIDADE foi escrito por Simões Lopes


Volte ao Universo Germinante

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

Rebelião 82: As Amigas de Tony


A fumaça densa preenchia o ambiente, dando-lhe um aspecto quase onírico. Fumantes compulsivos e alcóolatras inveterados acotovelavam-se junto à estreita bancada do bar, onde um grupo de belas atendentes preparava uma vasta gama de coquetéis. Dois bebedores mais exaltados ensaiavam um início de briga, interrompida pela chegada de um parrudo segurança.

Aparentemente alheio à trilha sonora barulhenta e à algazarra perene de vozes alteradas pelo alto teor etílico, um homem de aparência cansada ocupava uma mesinha quase escondida atrás de uma das colunas que sustentavam o teto espelhado. Os olhos injetados de sangue pareciam indicar uma irritação provocada pela atmosfera poluída do recinto, mas o pacato personagem continuava bebericando lentamente da sua caneca. Os dedos da mão direita pareciam tamborilar uma melodia na mesa, e os pés estavam descalços, escondidos no aconchego das sombras.

Duas belas mulheres de olhos verdes e corpo bronzeado, gêmeas idênticas, aproximaram-se sorrindo. As silhuetas esculturais eram realçadas pelos vestidos colantes e brilhantes, e seus olhares irradiavam uma aura sensual.

— Tony, por que você não veio semana passada? — pergunta a primeira irmã, de vestido verde-prateado, com um tom de leve reprimenda.

— Luciane, sou um homem ocupado, infelizmente não pude ir, mas prometo que nada me impedirá de estar lá semana que vem.

A resposta pareceu causar um ardente entusiasmo na dupla de moças, que ficaram com as bochechas coradas. A sensual garota de vestido prata aproximou-se do homem, beijando-lhe a boca de supetão.

— Eu sou a Cristiane, Tony — corrigiu-o, num breve sussurro.

— Desculpe, Cris, eu sempre confundo vocês duas... — disse ele, abrindo um largo sorriso e apontando para a outra gêmea, que vestia um top verde-escuro e uma mini-saia curtíssima.

— O nome dela é Juliane — corrigiu-o mais uma vez, tentando disfarçar com mais um beijo, como se não quisesse ofender o “amigo”.

— Oh, que distração a minha.... — desculpou-se ele, e tomou mais um gole de sua caneca. Suas mãos pareciam trêmulas. A vista, cada vez mais inchada, indicava uma grave irritação ocular, e uma rede de finíssima veias azuladas começava a despontar em sua testa.

A gêmea de vestido mais longo, Cristiane, sentou-se no colo de Tony, sem demonstrar a menor cerimônia, e puxou a caneca para si, sorvendo com rapidez. O gosto não pareceu agradá-la.

—Eca! O que é isso?! — A cara de nojo parecia enfatizar ainda mais a reclamação.

— Leite coalhado, querida. Eu tentei avisar, mas você não me deu tempo — desculpou-se Tony, num tom quase paternal

Com tanto barulho, Tony sentiu que a outra gêmea não conseguia acompanhar a conversa, e chamou-a para junto de si:

— Por que tão longe, Lu? — disse ele, dando uma palmadinha no próprio joelho.

— Ju, Tony, Ju-liane — mais uma vez ele ouviu Cristiane corrigindo-o.

— Ah, minha memória está me traindo. Coisas da idade... — completou com uma gargalhada abafada.

— Você não é nada velho, gatão, deixa de brincadeira — Cristiane deu um beijo estalado na bochecha do homem, que provocou ao insistir que “era muito mais velho do que aparentava”. Juliane não perdeu a oportunidade de aproveitar-se da intimidade, e também deu um beijo no felizardo bon vivant.

— Pra que esperar... — sussurrou ela, enquanto lambia delicadamente a orelha de Tony — ... se estamos aqui agora!

À medida que as gêmeas o acariciavam, os olhos do homem — que não aparentava mais de trinta anos — foram perdendo o inchaço, e as veias em sua testa também sumiam.

— Ah, sempre safada... do jeito que eu gosto. Ele passou a mão — que já não estava mais trêmula — na coxa da outra garota, que pareceu não gostar do elogio à irmã.

— Você gosta mais dela, Tonyzinho? Já esqueceu daquele dia na piscina... — A lembrança lasciva daquela noite de outono pareceu revigorar o homem, tornando até sua voz mais possante:

— Como me esqueceria, Cristina? Eu já cansei de dizer que amo as duas. Sua mão perdeu-se propositalmente no largo decote de Cristiane, que tão excitada estava, nem se incomodou que ele errasse mais uma vez seu nome.

— Vem com a gente, Tony! — suplicaram as duas, tentando tirá-lo da cadeira.

O celular dele tocou exatamente neste momento.

— Um momentinho, gatinhas, é só que eu peço... — seus olhos límpidos agora estavam azuis, o que chamou a atenção de Juliane:

— Tony, seus olhos não eram negros?

— Depende da luz e do clima, Ju — finalmente ele acertou o nome. — Só um momentinho... e eu serei... todinho de vocês.

Ele tirou do bolso o telefone caríssimo, de última geração, e escutou pacientemente por alguns instantes. Abaixou o tom de voz propositalmente.

— Sim, Vívian, eu sei. Recebi... seus presentes, mas não posso aceitar. Devem ter custado uma fortuna! Eu não posso...

Do outro lado da linha, a tal “Vívian” parecia não ter gostado da resposta.

— Sim...não...não é isso... cinco mil?... isso é caro...não, não foi isso que eu quis dizer... — Tony continuava balbuciante.

As amantes de Tony eram muitas: loiras, negras e morenas; ricas e pobres; lolitas e mulheres de meia-idade. Para um sedutor irresistível como ele, os presentes de Vívian de Lorca eram apenas novos itens em sua coleção de “agrados”. Graças a seus dotes sexuais, ele conseguia manter um padrão de vida altíssimo arregimentando uma lista de amantes satisfeitas nos mais altos escalões da cidade. Vívian, a insuspeita esposa de um juiz, sentia-se obrigada a compensar seus prazeres satisfeitos com presentes caríssimos.

— Seu amor é o mais importante, Vívian... — a aparente recusa dos presentes era só parte de uma estratégia de dissimulação: Tony jamais recusava nenhum presente. Na verdade, eram eles que garantiam o seu sustento.

— Amanhã, você vai subir pelas paredes, Vivi! — O homem sabia direitinho como manter uma ninfomaníaca milionária sob controle.

— Hoje? Sinto muito, não dá... — ele lançou um rápido olhar para a dupla de irmãs, mas elas tinham sumido. Em seu lugar, estava uma mulher morena, baixinha e de longuíssimos cabelos encaracolados, presos num rabo-de-cavalo.

— Por favor, Vivi, não chore... deu uma pausa... Olha, estou numa reunião de negócios, mais tarde eu ligo... outra pausa prolongada... eu nunca mentiria para você — o tom afável era irresistível. — Nos falamos em breve... pensei em coisas incríveis pra fazer com você— ele sentiu que a esposa do juiz caíra na teia, mais uma vez — mais tarde te ligo. Tchau!

Ele tentou mais uma vez olhar ao redor, em busca de sua diversão dupla para aquela noite enfadonha de inverno, mas elas Cris e Ju não estavam mais por perto. Tentou com seu olfato aguçado rastrear o odor forte da essência floral que exalava do corpo das irmãs, mas foi em vão.

A estranha mulher continuava parada bem à sua frente, com o semblante amarrado. Vestindo uma roupa cinzenta e levemente amarrotada, larga demais para delinear seu corpo, emanava uma desagradável ausência de sensualidade.

Mesmo sem interesse, ele jamais recusava a companhia de uma mulher. Após uma mesura quase imperceptível, inclinou-se para segurar a mão de sua nova “amiga”, e beijá-la.

Ela retirou a mão com violência. Pronunciando com forte sotaque sulino, a primeira frase provocou um calafrio nos cabelos de Tony.

— Ladaimes, precisamos conversar — o tom ríspido e antipático. Seus olhos negros e vivazes pareciam evitar os de Tony, que agora pareciam mais esverdeados.

— Não sou eu. Quer um drinque? — disse ele, confiante em livrar-se da incômoda presença.

— Ladaimes, eu sei quem tu és. Sei que és um íncubo, e vim aqui para alertar-te de um perigo.

— Saia daqui, você não faz o meu tipo. Você precisa cuidar mais do seu visual sabe... — tentou passar a mão nos cabelos da moça, mas esta repeliu-o com um vigor exagerado para uma mulher tão pequena.

— Meu nome é Baiarda Bach, ­e sigo uma trilha solitária longe do Céu e do Inferno. Já exorcizei dois íncubos que me ameaçaram, Ladeimas e Lemaedis, em Viena, mas há tempo atrás, em Toledo, salvei a vida de Lideames.

As pupilas dos olhos de Tony agora brilhavam num tom púrpura intenso. Com a fisionomia fechada, num tom ameaçador, foi sintético em sua resposta:

— Se sabe quem sou eu, sabe que posso quebrar seu pescoço antes que pronuncie uma única sílaba.

— Sim, eu sei. Aqui está uma prova de que Lideames é meu aliado!

Ela tirou uma lasca pequena de um dos bolsos da jaqueta amarrotada. O fragmento de unha, chamado nos círculos ocultistas de onghia del’incubo, “unha do íncubo”, era um talismã potente, obtido a partir de um pedaço de unha ofertado por um íncubo, ou lilim, como também eram conhecidas estas criaturas infernais. Esta raça demoníaca não possui unhas em sua forma verdadeira, mas seu dom de criar simulacros materiais de aparência humana gerava unhas falsas, que só podiam manter-se enquanto a criatura estivesse viva.

Tony, ou Ladaimes, seu nome verdadeiro, já estava quase convencido da veracidade da história.

— Por que esta tentativa de aproximação, Senhorita Bach?

— Eu sou uma bruxa, e minha investigação constante dos mistérios universais depende de uma extensa rede de “contatos”.

— E agora quer me incluir nesta “rede”, presumo eu — perguntou, com o desdém explícito no tom debochado.

— Se assim quiseres — disse ela, mas pareceu atrair a simpatia do íncubo.

— “Incluir” ou “prender”? — ele fez questão de não esconder sua desconfiança.

— Uma mulher virá atrás de ti.

— As mulheres sempre fazem isso. Por que temeria?

— Esta mulher virá como caçadora, e não como amante — ela frisou bem a palavra “caçadora”.

— Ah! Nenhuma mulher resiste a meus poderes.

— Nem mesmo uma Arcangelista da Legião d’Arc?

Ladaimes fechou os olhos. Parecia estar consultando alguma memória remota em seu cérebro. Baiarda permaneceu em pé, à espera de uma resposta.

O lilim sabia, em sua longa estadia na Terra, que as seguidoras da seita celestial d’Arc eram temíveis guerreiras, mestras nas artes de combater, de planejar e de forjar as mais letais armas bentas. As mulheres na seita que militavam na linha de frente com combate direto eram conhecidas como Arcangelistas, em virtude de seu patrono, São Miguel Arcanjo. Ladaimes já fora alvo de um ataque das Darcianas em Lisboa, na década de 30. Atribuía sua sobrevivência ao mais puro acaso, pois escapara do ataque raivoso de uma mulher que atendia pelo nome de Jeanne de Reims, munida de uma acha dourada e de uma manopla cinzenta de ferro. Inflamados pela energia celestial, o distinto arsenal chegou a decepar uma das mãos do íncubo fugitivo. Graças à sua elasticidade demoníaca, Ladaimes escapou por uma estreita tubulação de esgoto. Só conseguiu regenerar o membro mutilado após longas e dolorosas semanas.

As divagações do íncubo foram interrompidas pela voz aguda da bruxa:

— Posso contar com teu apoio, Ladaimes? — disse ela, sentindo-se já triunfante.

— O que você quer em troca, madame? — por um breve momento, os olhos do lilim brilharam em seu aspecto original.

— Uma onghia del’incubo, meu caro... talismãs são fundamentais em meu ramo...

O íncubo pensou por mais uns instantes.

— E se for uma armadilha? — ele agarrou o braço de Baiarda, num golpe extremamente rápido.

— Use seu poder de sedução em mim... use-o para detectar alguma mentira em meus atos... — Ladaimes surpreendeu-se com a repentina ousadia da bruxa, que acabara de sugerir uma ação arriscada.

— Está disposta a correr o risco? — disse ele, saboreando as possibilidades da ocasião.

— Sim, farei qualquer coisa para provar minha sinceridade. Este é o nosso pacto: um pedaço de sua unha em troca de dez segundos sob o teu poder. Uma vez certificado, seremos aliados.

— Como identificarei a guerreira darciana? — perguntou o demônio.

— Ainda não sei, mas prometo que investigarei através de meus contatos.

Ele passou seu braço musculoso ao redor dos ombros da mulher franzina. Bastou um beijo no pescoço para fazê-la suar em profusão. Relutante, foi deixando-se gradualmente envolver pela magia do íncubo. Ele passou as mãos em seus quadris, e lambeu o suor salgado que escorria abundante em suas têmporas.

— Você é minha inimiga? — fez a primeira pergunta.

— Não — a resposta confirmava as boas intenções.

— Está armando uma cilada?

— Não.

— Você conhece a caçadora? Pode descrevê-la?

— Não.

As respostas agradaram a Ladaimes, que sentiu-se mais seguro, sabendo que ganhara uma nova “aliada”. Já podia libertar a moça de seu charme sobrenatural.

Mudou de idéia — seus impulsos sexuais foram mais fortes, como sempre. Em vez de restaurar a sobriedade da mulher, preferiu brincar um pouco:

— Desabotoe sua blusa. Eu quero ver um pouco mais de você.

— Imersa no controle hipnótico, Baiarda começou a abrir os botões. Livre de qualquer pudor, abriu rapidamente a jaqueta, expondo os seios, enfiados em um sutiã semi-transparente.

— O que é bonito é para se mostrar — disse ele, com a lascívia estampada nas feições de deboche.

— Eu acho que vi um mamilo — disse ele, testando seus impulsos cômicos. Beijando-a ma boca, passou a mão no ventre macio. Uma súbita dor intensa de queimadura interrompeu a diversão. O berro do íncubo chamou a atenção até dos bêbados que circulavam por perto.

— Acho que estamos conversados, Sr. Tony. Mais alguma pergunta? — Baiarda Bach estava novamente no controle da situação. Em sua pele pálida exposta, trazia uma série de símbolos místicos tatuados por todo abdômen.

Tornou a abotoar tudo.

Crux Castarum — disse ele, praguejando e reclamando da dor caústica que fluía pelo seu braço. A simples visão da marca já causava-lhe uma onda de repugnância inebriante. Fechou os olhos, tentando sufocar o nojo.

As marcas tatuadas com esmero formavam o imemorial signo arcano da Crux Castarum, cuja propriedade de repelir íncubos e súcubos foi redescoberta por monjas leonesas no século XIII, que rebatizaram-no com o nome latino. A destemida ousadia da bruxa tinha bases sólidas fincadas num senso cauteloso de prevenção total.

— O pacto está feito, menina. Pode sair agora — um pedaço de sua unha foi entregue como prova da aliança.

Ela se despediu, deixando-o sozinho no salão enfumaçado. Assim que saiu do bar, ela pôde deixar de lado um pouco o ar sisudo de ocultista fria. Por um breve momento, a lembrança do contato com o íncubo causou-lhe uma sensação gostosa, que ela preferiu não inibir.

Afinal de contas, tinha conseguido o que queria: não custava nada saborear a vitória.

AS AMIGAS DE TONY foi escrito por Simões Lopes


Volte ao Universo Germinante

segunda-feira, 7 de janeiro de 2008

Rebelião 41: Luxúria


Há duas semanas elas se encontraram, quase que por acaso, na saída de um dos bares da Lapa. A Bastarda vagava pela noite, cuidando de sua própria vida, errando pelas vielas sujas, escondendo-se entre bêbados e prostitutas. Ela, levando mais uma vítima para sua toca — uma súcubo, filha do pecado, bela como jamais qualquer mulher poderia ser. Vendo a moça de cabelos vermelhos, ela avaliou que teria mais do humor que a sustentaria que o patético ancião que insistiu em pagar pela sua arte. Uma opção de mercado, muito simples.

Sob lençóis de seda, a pele macia das amantes desliza suavemente, uma sobre a outra, num vivo contraste entre a alva fada do fogo, com seus cabelos fartos, vermelhos como cobre queimado, e a pele morena da lilim, seus cabelos negros e lisos. Elas beijam-se com vagar, seus macios lábios femininos se devorando com avidez. Seus corpos, perfeitos, sensuais, entrelaçam-se, confundem-se. Quanto mais a súcubo bebe, mais se excita com essa mulher incansável, também sedenta de prazer, com uma intensidade que jamais um mortal teve. Coxas, seios e línguas, o cheiro suave e almiscarado de seus sexos inflamando seu prazer. A filha de Lilith já está satisfeita, mas alguma coisa está errada, essa mulher, ela não deveria estar viva, não deveria continuar, sedenta e brilhante como uma salamandra. Capturando o olhar de perplexidade de sua parceira, a fada ígnea sorri, e a beija com redobrado prazer, gemendo baixo como uma gata no cio. Suas unhas cravam-se na pele aveludada e cor de oliva da lilim, e o Clamor envolve seus corpos, afugentando as sombras da noite.

Assim ela tem vivido, nestas duas semanas. Ela procura a fada branca, em todos os lugares, quase com urgência, e quando a encontra, se amam com intensidade, as vezes por dois dias inteiros. Mas Bárbara (esse é o nome que lhe deu, quase com piedade) está cada vez mais difícil de se encontrar. Já não está nos becos escuros, já não bebe entre os travestis e viciados. Até os elementais ela já interrogou, ouvindo o ciciar suave de suas risadas no vento. E, ironia das ironias, o desespero torna mais bela a já deslumbrante súcubo. A necessidade desse desejo a inflama como um filho deixado em seu ventre pela Bastarda, e quando a vontade já é insuportável, ela entrega-se a quantos amantes conseguir encontrar, pobres paliativos, mortos muito antes que ela consiga se satisfazer, só servindo para tornar mais dolorosa a ausência de sua fada. A dor desse desejo a arrebata, a inutiliza — agora ela só serviria de piada para seus irmãos, devoradores vorazes do prazer, puras encarnações da Luxúria. Mas nenhum deles jamais experimentou Bárbara, nenhum deles jamais sentiu suas carícias calcinantes nem a ouviu sorrir durante seu prazer, um repique cristalino como de cristais, seus dentes alvos e perolados. Cada lembrança arranca da demônio um suspiro sôfrego e doloroso, o vazio a consumindo por dentro.

Qualquer que fosse seu objetivo ao ser trazida para a Terra, já foi totalmente esquecido — seus conjuradores foram mortos por ela mesma, para evitar que fosse mandada de volta, agora que era um traste inútil. Dava, dessa forma, mais satisfação a nefilim do que quando deitavam-se juntas. Bárbara tinha imenso prazer em vê-la vagar sem rumo pela noite, devorando alguns de seus inimigos ocasionais enquanto seguia seu rastro. Nenhum dos malditos patronos das seitas de místicos poderia apelar para a prerrogativa da ofensa pessoal para ajustar contas com ela, pois cada um deles apenas foi vítima de sua própria lascívia. E era sempre um prazer ver a súcubo em ação...

Quando todos os seus inimigos estivessem mortos, ela mesma daria conta de sua amante rejeitada. A mandaria para o Orco gemendo e implorando por mais amor, mas, enquanto isso não acontecia, Bárbara sentia-se plenamente satisfeita em seu voyeurismo...

LUXÚRIA foi escrito por Renato Simões
Volte ao Universo Germinante