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domingo, 27 de janeiro de 2008

Rebelião 66: Romano, Venerável

— Porra, Romano, outro?

O homem encostado no balcão apenas fez sinal para que o barman enchesse o copo. Queria aconselhá-lo a tomar conta da sua vida, mas sua boca estava por demais dormente para articular qualquer palavra.

— Sério, cara — o barman era um senhor dos seus cinqüenta anos, magro e simpático. — As coisas acabam. As pessoas mudam. É a porra dessa vida. Lúcia nã.....

— Ca...la a boca, Bira! — conseguiu rosnar Romano. Sua mão tateou dentro do bolso, como se certificasse que algo ainda estava ali. — Porra! Um cara vai dormir... o mundo é perfeito! Uma esposa maravilhosa...

— Eu sei, Romano.

— ...e, de manhã, onde ela está? Evaporou! Sumiu! E o quê ela deixou?

— Eu sei, você já contou, um bilhete...

— É, a porra de um bilhete! — suas mãos tremeram, e ele deixou cair o copo, que se estilhaçou em mil pedaços no balcão. O barulho chamou a atenção de três homens sentados numa mesa pouco atrás. A forma como olhavam para uma moça que usava o orelhão do bar, em consonância com seus sorrisos e gestos, despertou os instintos de Romano, ao menos subconscientemente. O álcool, no qual o cérebro nadava, não permitia que ele fixasse o pensamento por mais de cinco segundos.

Bira apressou-se a limpar os cacos, enquanto o bêbado exigia outro copo. Parecia não se importar com a gravata e a blusa encharcadas de cachaça.

— Romano — o barman parou de passar o pano no balcão —, te conheço há quinze anos. Você não é essa merda. Você é um — nesse ponto sua voz tornou-se apenas um fio — policial.

— Isso, esse tipo de merda. Falou tudo — ele levantou bambeante. — Bota logo outra pinga aí!

Ele foi de tropeção em tropeção ao banheiro. A garota passou espremida por ele e logo atrás vieram os três homens, que trombaram nele sem pena. Jogado na parede, ele observou as lindas pernas brancas da moça saindo do bar, seguidas pelos sorridentes homens.

Foda-se. Minha bexiga vai estourar.

Entrou no banheiro pisando na beira da calça, que logo se molhou nas poças de urina. A perícia para abrir o zíper lhe faltava, então fez assim mesmo. Tudo que entra tem que sair. A sensação era boa. Quente.

O brilho da privada lhe lembrou outro brilho. As pernas brancas. Ainda estariam brancas? Ou pintadas de vermelho?

Porra!

Atravessou o bar empurrando as mesas. Como se fazia mesmo? Ah, o distintivo. O bar se abria para um beco escuro. Lá estava a jovem caída, rodeada pelos três. Um lhe segurava os braços esticados atrás da cabeça, enquanto outro deitava por cima dela, mantendo-a com as pernas abertas. O terceiro ria e apalpava os seios fartos já despidos.

Cadê a porra do distintivo?

Romano desistiu de apalpar os bolsos e pulou sobre o que realizava flexões em cima da garota. Os dois rolaram e colidiram com os sacos de lixo, espalhando o cheiro de peixe no ar. Em dois segundos o homem já havia se levantado, enquanto o bêbado mal conseguia se ajoelhar. Os três então começaram a chutá-lo, sem nem deixá-lo respirar. O corpo se contorcia ante os golpes, e um distintivo de metal e uma foto de uma mulher sorridente, abraçada com ele, caíram dos bolsos.

Ah, aí está você.

A surra não cede, mas se alguém com percepção um tantinho acima da média observasse a cena, veria o brilho prateado emanando repentinamente dos olhos de Romano, assim como as asas — magistrais, poderosas, surreais — que brotam de suas costas, provocando uma lufada de vento com sua abertura.

Dois latões de lixo ergueram-se no ar e projetaram-se — não há descrição melhor — sobre dois atacantes, lançando-os no chão. O outro interrompeu a torrente de chutes e arregalou os olhos para o homem já ensangüentado. Por um segundo ele percebeu a luz prata dos olhos dele, e todas as células do seu corpo pareceram estar ordenadas para um único fim: expulsar todo o obscuro conteúdo de seu estômago. Imponente, acometido de espasmos, ele ajoelhou-se e emporcalhou ainda mais o beco.

Logo seus dois companheiros o agarraram pelos ombros e saíram em disparada para as luzes da rua principal, sem nem olhar para trás. Da garota, então, nem cheiro; já há muito devia ter fugido.

Romano levantou-se escorado na parede, enquanto uma energia percorreu sua pele, cicatrizando os ferimentos e dissolvendo em seguida a cicatriz. Em menos de um minuto o único resquício da dura surra é o sangue em seu terno amarrotado. Ele guardou o distintivo e a foto, enlameada, no bolso.

Preciso de um drink, pensou, ao retornar ao bar.

No beco vazio, as sombras se comportaram de modo anormal: moveram-se, juntaram-se, dando forma a uma figura grotesca, uma figura grotesca de chifres.

Você não sabe o quanto.

ROMANO, VENERÁVEL foi escrito por Andre Esteves

sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

Rebelião 61: Carlos Miguel, Bastardo

Ivan aproveitou que nenhum dos três homens estava olhando para puxar o frasco de comprimidos do bolso. Engoliu três de uma vez, rezando para que o bate-estaca em seu peito diminuísse e ninguém percebesse as grossas gotas de suor que desciam pela fronte.

Nunca teria imaginado que o dia terminaria desse jeito. Estava na facção há dois anos e nunca... O dia era para ser de glória. Haviam finalmente pego Azulão, traficante que ousou intervir nos negócios de seu chefe – o simples pensar nele provocava arrepios em sua espinha.

O patrão queria cuidar pessoalmente de Azulão. Por isso eles estavam aqui, em frente a um dos prédios mais luxuosos da Zona Sul do Rio de Janeiro. Ivan nunca havia encontrado o líder da facção e, sinceramente, esperava nunca encontrar. Somente as histórias sobre o homem — se é que era um homem — já eram mais que suficientes para se manter à distância.

Diziam que para chegar à posição atual, havia matado todos os outros traficantes locais — até aí, nada demais. Essa gente vive se matando mesmo. O estranho era a forma como os corpos apareciam: alguns com os tórax abertos, destroçados, como se algo houvesse forçado a saída, ou mumificados, com a pele ressecada e esticada nos ossos, mesmo poucas horas após a morte. Invariavelmente, os cadáveres não possuíam globos oculares.

Ademais, os poucos que o viram costumam se referir à sombra — ninguém com quem conversou podia descrevê-la. Todos, porém, relataram ter perdido uma parcela de sua sanidade ao ver o contorno negro que acompanhava o chefe. “Chefe”, “patrão”, só se dirigiam a ele assim — ninguém sabia seu nome, nem ele parecia se preocupar com um. Por isso os membros do grupo costumavam chamá-lo de “inominado”.

Por essas e outras, Ivan não estava nem um pouco ansioso em encontrá-lo.

Cinco homens saltaram da limusine negra: Ele, Roberto, braço direito do patrão, dois integrantes antigos da facção, e Azulão, algemado e meio que carregado pelos outros. Sua vista estava opaca e seu corpo molenga. Sintomas da droga que haviam lhe injetado.

Ivan não se surpreendeu quando as portas de vidro esverdeado foram abertas sem qualquer resistência. O prédio todo pertencia à organização criminosa, assim como várias outras propriedades espalhadas pelo país e até no exterior. Atravessaram o luxuoso saguão e entraram no impecável elevador. O brilho da insígnia referente ao 33º. andar, último do edifício, lembravam ao homem as labaredas infernais que esperava encontrar quando chegasse lá.

Mas não. Naquele andar havia apenas uma sala de estar recheada de obras de arte e uma solitária porta entreaberta. Talvez fosse imaginação, mas Ivan achou estar vendo uma espessa fumaça negra escapar pelas frestas da porta.

Teve que ser empurrado por Roberto, que se adiantou e atravessou o portal, permitindo a visão de um aposento na penumbra. Podia ver que se tratava de um escritório, com estantes e mesas rigorosamente arrumadas. As paredes, com exceção da entrada, haviam sido substituídas por janelas panorâmicas, brindando a todos com a visão esplêndida do negro oceano atlântico e das luzes das residências litorâneas.

Roberto empurrou o traficante para o assoalho de fina madeira. Puxou do bolso um estojo e dele uma seringa, espetando-o no braço do homem. Imediatamente os olhos dele perderam a apatia; levantou xingando e cuspindo, com as mãos ainda algemadas. Teria partido para a briga assim mesmo, mas o som de passos o conteve, assim como paralisou Ivan.

Saindo literalmente das sombras — o capanga não tinha uma expressão melhor — um homem moreno, talvez um resquício do negrume de onde saiu, vestindo um impecável terno italiano, se aproximou do grupo.

Ivan imediatamente sentiu-se decepcionado; tratava-se de um garoto! Não tinha mais de 25 anos. Ainda assim, atraía a atenção de todos.

— Aí está o traficante que nos causou tantos problemas, senhor — disse Roberto. — Está ao aguardo de sua punição...

O chefe não respondeu. Limitou-se a se aproximar do traficante, que balbuciava palavras sem nexo, uma sombra das injúrias de segundos atrás. Passou a sujar com baba a blusa de malha que usava. Antes que o inominado o tocasse, já havia urinado, criando uma grande mancha na calça jeans.

Foi tocado na testa pelo patrão, tendo o mesmo efeito se fosse ligado a uma tomada: seu corpo todo entrou em convulsões contidas, e as pupilas se esconderam dentro da cabeça, deixando à mostra apenas o branco entremeado de sangue da parte anterior dos olhos.

Ivan fez força para virar a cabeça, mas alguma energia o tolhia qualquer movimento. Foi assim, como uma estátua viva, que assistiu à pele de Azulão esticar sobre os ossos e seus globos oculares pularem para dentro. A visão dos dois buracos negros, insólitos na face já pontuada pela dor, o faria vomitar, se isso fosse possível. Finalmente, após uma década ou um minuto, o inominado cortou a cabeça do homem com uma faca.

Foi então que se virou, e Ivan sentiu — mais do que viu — os contornos negros que o seguiam, indiscutivelmente formada por chifres e o prenúncio de uma fina e bifurcada cauda... Foi então que sentiu a dor no peito. Durou apenas alguns segundos, tempo em que o ar da sala tornou-se espesso demais para descer por suas narinas. Caiu no assoalho, ao lado e na mesma situação da cabeça grotesca do traficante.

— Eu sabia — falou Roberto — que ele era fraco. Por isso o trouxe.

O chefe mal olhou para os corpos. Apenas distribuiu algumas ordens e garantiu recompensas para todos. Rapidamente atravessou o aposento e entrou numa porta parcialmente encoberta por uma estante, disfarçada ainda pelos entalhes da parede. Só existia uma chave para aquela fechadura, e o homem nunca a retirava do cordão que trazia no pescoço.

O quarto não era nem sombra do luxuoso escritório. Poderia ser um closet, a julgar pelo tamanho. Havia apenas um repouso para um livro aberto — a Bíblia —, e, na parede em frente, a imagem de Cristo crucificado. Diante do altar improvisado, no chão, estavam caroços de milho espalhados. O patrão puxou a calça do terno para cima, deixando a mostra a pele fina do joelho. Ajoelhou-se com ferocidade sobre o milho, rezando em voz alta para estancar o sangue que descia por sua canela..

Longe dali, em algum lugar, um rádio tocava o refrão de uma famosa música de anos atrás:

There must be an angel
Playing with my heart.

CARLOS MIGUEL, BASTARDO foi escrito por Andre Esteves

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Rebelião 59: Marcelo Figueira, Paladino

O fogo chamuscava a pele já lacerada da mulher nua e acorrentada a um pilar de pedra natural. Dezenas de outros pilares semelhantes espalhavam-se pela enorme caverna onde ela estava. Rios de lava cortavam o chão, exalando uma fumaça que a sufocava e a impedia de abrir os olhos, rubros de irritação e choro. O cheiro de enxofre impregnava suas narinas a ponto de tonteá-la, caso já não estivesse no limiar dos sentidos.

É. Aqui é o inferno.

Criaturas disformes a molestavam sexualmente, com objetos e formas que aqui não podem ser descritos. Nesse meio tempo, sua pele, músculos e nervos eram castigados pelo chicote de ponta tripla manejado com habilidade pelo torturador. Somente agora ele era visível, seu dorso negro molhado ante o ímpeto aplicado no instrumento de dor. As correntes não agüentaram os espasmos de agonia e a mulher tombou de costas no chão pedregoso, oferecendo o glúteo avantajado e ainda intocado ao torturador. A visão combinada com os gritos dela o fizeram gemer.

Agora era possível ver seu rosto. É ele. Ele era o torturador.

Tudo gira e escurece ao mesmo tempo. Ele está nu e sente o vento machucar a pele. Está muito ferido, com quase todo o corpo em carne-viva. Dois pontos surgem na escuridão, como dois olhos de um ser poderoso. Ele vê que está numa estrada.

Tenta levantar e não consegue; a picape freia a ponto de inclinar para a esquerda, cortando o silêncio da noite com o contundente friccionar dos pneus com o asfalto. O veículo pára a centímetros de seu rosto. A luz forte dos faróis machuca sua vista.

Da picape descem duas mulheres jovens — uma magra e alta, de cabelos ruivos, e outra baixa, com o rosto de proporções imperfeitas. Elas tentaram levá-lo para o carro, mas a força retornava a seu corpo. Com mãos de ébano ele esmigalha o pescoço das duas, sujando de vermelho o tracejado branco da estrada.

Marcelo pula da cama. Outra vez o maldito pesadelo! Invariável, todas as noites do último ano. Ele levantou e abriu a janela, deixando o vento levar embora seus tormentos, como sempre.

As cenas de pesadelo, com exceção das passagens demoníacas e o assassinato das mulheres, haviam sido reais. Há um ano ele foi achado na estrada. O espelho às suas costas mostrava as cicatrizes dos ferimentos que apresentara naquela noite. Fabiana e Simone haviam-no levado para um local seguro e restabelecido sua saúde. Quando perceberam que ele não sabia por que estava na estrada e como havia se machucado, nem mesmo quem era ou onde morava, deram-lhe um nome: Marcelo. Deram, porém, muito mais que isso: com elas descobriu que era um Nefilim, filho de um anjo caído. Treinara poderes e descobrira habilidades. Seu apartamento era repleto de esculturas de madeira e gesso, consideradas soberbas por muitos críticos. Numa das paredes, uma longa espada japonesa emprestava um toque oriental ao ambiente. Mas, longe de ser apenas uma peça de decoração, tornava-se nas mãos de Marcelo um implacável instrumento de morte.

Tudo isso aprendera — ou reaprendera – no último ano. Devido a essas características, foi determinado que ele era um Paladino — uma linhagem que vê a batalha como uma forma de arte.

Tinha uma casa. Uma profissão. A amizade de Fabiana, líder, podia se disser, desta congregação de Nefilins no Rio de Janeiro, assim como a confiança da maioria dos congregados. Tudo que queria.

Ainda assim o mesmo pesadelo: as imagens demoníacas, a tortura, o assassinato de seus amigos. Por que tudo isso?

Ele não sabia — fechou devagar a janela, encostando a testa no frio alumínio, os olhos cerrados —, ou melhor, sabia.

MARCELO FIGUEIRA, PALADINO foi escrito por Andre Esteves

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Rebelião 52: Bruna Souza Melo, Primal

Gostaria que o homem parasse de gritar. Não porque me incomoda. Ao contrário, não consigo entender quase nada do que ele diz. Apenas as palavras “por quê”, “doido” e “mortes” chegam aos meus ouvidos. Nem mesmo a pistola negra – que pela terceira ou quarta vez é jogada na mesa à minha frente – faz meus nervos saltarem.

Talvez porque não tenham mais essa capacidade.

Após esbravejar, chutar a cadeira e enfiar o gélido cano em minha testa, o homem vai embora, como fizeram os outros três nesta noite miserável. Continuo com o olhar fixo e consigo escutar mais uma palavra dita pelo homem, já no corredor: “catatônico”.

Estou mais uma vez sozinho na sala de paredes cruas. Há apenas duas cadeiras, uma delas agora caída, e uma mesa. Não sei se foi há horas ou dias – mas sei que o cheiro ácido de sangue ainda impregna minhas roupas.

Era uma operação comum. O esquema estava sendo executado há meses, sem qualquer incidente. Trazíamos de navio mercadorias do Nordeste, principalmente da Bahia, para o Rio e São Paulo. De lá elas seguiam para o mercado europeu e norte-americano, principais exportadores dos “produtos”. Jonas – o organizador do negócio – era precavido. Grana para os policiais no embarque e desembarque. Grana para os responsáveis pelo porto. Grana para a fiscalização.

Grana. O que não faltava era grana.

E a mercadoria? Animais silvestres capturados nos últimos resquícios de mata atlântica. No início até tive dó dos macaquinhos e das Araras espremidos nos caixotes de madeira – na maioria das vezes socados lá dentro, porque o espaço era pouco. O navio não era muito grande. 80% dos animais morriam durante a viagem.

Mas, como eu disse, grana é que não faltava. Os 20% restantes eram vendidos a preço de ouro. E eu precisava do dinheiro, sabe como é. Afinal, “quem tem pena é galinha”, já diz o adágio popular.

Depois de tantos meses, ninguém estava preparado para o que ocorreu nessa noite (ou pelo menos acho que foi nessa – estou um pouco confuso, e depois que souberem o que eu vi, vão entender o porquê). Havíamos acabado de atracar no porto do Rio de Janeiro. Tudo calmo, como sempre. Ou, pelo menos, era o que a gente pensava.

Jonas, eu vi, foi um dos primeiros a morrer – não consigo tirar da mente a visão do braço atarracado e pintado de vermelho que lhe atravessou o tórax, como se feito de manteiga. A partir daí o mundo tornou-se uma mistura de gritos de horror e respingos de sangue. Lembro de ter corrido do navio para o cais, sendo acompanhado por alguns colegas. A maioria, entretanto, ficou para trás, agarrado por uma força invisível. Um fantasma.

Tropecei e dei com os dentes no duro calçamento do porto. O terror, mas que a vontade, fizeram-me levantar. Foi então que me virei para o navio e a enxerguei – uma criatura, um homem arqueado como um macaco, espalhando a morte na embarcação.

Minhas pernas mal agüentavam o peso do corpo, quanto mais continuar a fuga desenfreada. Não conseguia dar um passo sequer. Ao meu lado, dois colegas pareciam estar na mesma situação. Que pensa o rato da cidade ao se ver diante de uma cobra pela primeira vez?

O macaco então saltou, um salto tão impossível quanto tudo mais naquela noite. Em um segundo o sujeito a minha esquerda era um novelo de sangue e pele. Eu, por minha vez, não senti ser levantado do chão, mas senti a força com que fui arremessado num contêiner um pouco afastado.

Mesmo com a perda parcial dos sentidos, os gritos me anunciaram que o outro colega também não mais existia. Escutei passos vindo até mim. Passos que mais lembravam o lento movimento de patas.

Não era um homem, afinal. Nem mesmo um macaco, embora andasse como um e tivesse um mico no ombro.

Era uma mulher.

Esperei o golpe fatal, o qual não chegou; quando abri os olhos, ela ainda me fitava, uma revoada de pássaros tropicais passando por trás dela. Em outras situações, eu poderia achar insólito o bando de araras vermelhas voando entre os pilares do cinza viaduto. Mas não no momento. Não com a morte a me fitar.

Ela segurou meu queixo com as mãos sujas, as unhas longas escoriando minha pele. Sua voz era semelhante a um guincho, não muito diferente dos ruídos dos vários micos que pulavam de contêiner em contêiner. A ponta da língua, vista de relance quando ela pronunciava as supostas palavras, era cortada, como de uma serpente. Não preciso dizer que não esbocei qualquer reação.

— Você vai viver. Vai viver para contar e dar o exemplo. Tenha orgulho, mortal. Poucos vêem um Primal e saem em condições de narrar o encontro.

Senti uma explosão na cabeça e acho que desmaiei. Quando acordei estava nesta sala, e, pelo que entendo, estão me interrogando. Lá vem outro homem e senta na minha frente, esbravejando e mostrando os punhos. Esfrega no meu rosto várias vezes seu distintivo de metal.

Mantenho os olhos no vazio. Prefiro poupá-los da verdade enquanto posso.

BRUNA SOUZA MELO, PRIMAL foi escrito por Andre Esteves

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Rebelião 48: Alessandro Sanches

Alessandro foi lançado ao chão mais uma vez. Rodopiara no ar antes de estalar com as costas no campo, levantando um grande tufo de grama. Bingo parou ao seu lado e estendeu-lhe a mão, o sorriso sarcástico colado no rosto. Era um homem de mais de dois metros, tão forte quanto um lutador de vale-tudo. Sua pele negra esticava-se em torno de seus músculos ora lustrosos pela quase uma hora e meia de futebol.

O rapaz caído estapeou o braço de ébano esticado, o que fez o juiz ir até eles. A multidão urrava enlouquecida, abafando as palavras do árbitro. Não iam adiantar nada mesmo. Bingo, zagueiro do time adversário com a função de marcá-lo, havia-o espancado durante todo o jogo sem que o juiz tomasse qualquer ação efetiva.

Alessandro levantou e correu para próximo a área, sem se importar com o acréscimo de edemas nas suas já castigadas coxas. Olhou para o placar: zero a zero, 46 minutos do segundo tempo. O árbitro havia dado dois de prorrogação. Final do campeonato e o empate era do adversário. Precisava de um gol, de um maldito gol, mais com aquela muralha alcunhada de Bingo colada nele estava sendo uma missão impossível.

A falta foi cobrada: lançamento na ponta, no que poderia ser o último lance do jogo. Lá estava Alessandro atrás da redonda, vendo, com o canto do olho, o expresso negro avançando também; mas em direção a ele, e não a bola.

O que aconteceu a seguir foi rápido demais para ser compreendido pela ensandecida torcida ou até mesmo pelo árbitro. Na linha da intermediária, o zagueiro investiu com tudo contra Alessandro, que apenas colocou a palma da mão estendida no peito do homem. O pequeno clarão que nasceu do contato podia ser confundido com os milhares de flashes sendo acionados, e só o que todos viram foi Bingo cair ajoelhado no gramado, os músculos poderosos tombados e derrotados.

Livre do marcador, o atacante avançou com a bola dominada e driblou o goleiro. Gol de placa. Mesmo em meio ao tremor que tomou conta do estádio, a visão do cronômetro o deixou sem fala: 46 minutos e 58 segundos.

Os próximos instantes foram de pura alegria, sendo Alessandro levado até a sonhada taça, e Bingo carregado pelos colegas para fora do campo. Após toda a festa com a torcida, já no vestiário tomando banho, o rapaz ainda sentia a eletricidade percorrer o corpo. Divertindo-se com a água batendo em sua pele, antecipava mentalmente a noitada que se abria a sua frente. Ele prezava muitas coisas em sua vida, mais as três primeiras eram inalteráveis: mulheres, mulheres e mulheres, não necessariamente nessa ordem.

Estava louco para ver a cara de babaca de Vladimir. Ia tirar muita onda com o otário. É dar muita bandeira jogar num time profissional. Ah! Queria ver o que o cagão diria agora, sendo ele o artilheiro do campeonato, com a foto espalhada em todos os jornais. Quando saiu do demorado banho, percebeu que estava sozinho; todos já deviam estar atendendo a ávida imprensa.

O astro principal sempre se atrasa, pensou Alessandro. Foi então que se virou, deixando a toalha cair e segurando o pescoço com as mãos, como se sentisse a garganta fechar de repente. Seus olhos esbugalhados estavam virados para uma mensagem escrita em vermelho no azulejo do vestiário.

— Não tenho como evitar — gritou ele para o vazio. — É da minha natureza. Seja quem for, podemos conversar, por favor, por favor....

Os brados ecoavam nas paredes solitárias, alcançando os ouvidos de uma figura caminhando um pouco curvada pelos corredores subterrâneos do estádio. Os gritos provocaram um meio sorriso. Seus dedos estavam sujos de tinta vermelha.

O texto no azulejo foi apagado por Alessandro, que caíra no frio chão do banheiro, mas a frase que tivera ali escrita ficara indelevelmente marcada em sua mente, principalmente a última palavra:

“Eu sei o que você fez, Acólito”.

ALESSANDRO SANCHES foi escrito por Andre Esteves

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segunda-feira, 7 de janeiro de 2008

Rebelião 44: Rogerio Greco, o Gato


— Gostaria de ressaltar o sigilo desse assunto — disse o Senador Miranda, pela terceira vez. — Por isso fiz questão do encontro pessoal.

O homem de cabelos claros e bem aparados do outro lado da mesa sequer mexeu um músculo; de trás de seus óculos escuros, incompatíveis com o interior de um Gabinete em Brasília, retrucou:

— Segredo é o cerne de minha profissão. Não costumo, inclusive, ter contato direto com meus clientes. Não é como trabalho.

Com certeza, pensou o político. Tinha procurado o “gato” durante meses, sem sucesso. As histórias sobre ele, no entanto, o precedem: era conhecido por nunca ter deixado de cumprir um contrato, sempre mantendo a identidade incólume. Nem mesmo o sexo era conhecido, somente a alcunha. Quando o Senador desistiu de procurar, ele o encontrou.

— Eu entendo e peço desculpas. Estou muito agradecido e...

— Não é preciso, se você realmente pode pagar o que disse. Importa-se de passar o alvo?

— Um homem direto — comentou o Político, sorrindo. — Um dos meus.

Ele passou para Rogério um envelope em formato americano, pardo. O homem não levou mais que alguns segundos para folhear o conteúdo. Seu rosto pareceu ficar mais rígido ainda, como se esculpido em pedra.

— Vai custar o dobro.

Miranda abriu os braços. Seu sorriso aumentou na mesma proporção.

— O dobro? Mas...

— Pelo alvo, poderia ser o triplo — ultimou Rogério. Dentro do envelope, estava a foto de um conhecido e poderoso General. Além de atual Ministro do Exército, o homem liderava um movimento de reestruturação das Forças Armadas. A frase mais ouvida em reuniões a portas fechadas era “tomada de poder”, e os analistas políticos já admitiam a possibilidade de uma nova ditadura no País.

— Certo — concordou Miranda, suando. — Vou conseguir o dinheiro. Sabe — o tom de voz ficou bem diverso do anterior, talvez demonstrando certo nervosismo —, sempre fui um aficionado por codinomes e seus significados. O termo “gato”... por quê?

O assassino, já em pé, guardou o envelope no casaco de couro. Fitou por um instante o político.

— Vou executar o serviço — disse.

Miranda acenou com a cabeça, devagar. Rogério foi até a porta e colocou a mão esquerda na maçaneta. Voltou-se de repente.

— Acho que deixei minha caneta em sua mesa.

— Aonde? — o Senador abaixou o queixo e olhou para a mesa, mais escutou um estouro abafado e foi lançado para trás, tombando de lado no tapete persa. Seu ombro direito ardia como se houvesse carvão em brasa sob a pele.

O Assassino andou até o político, uma pistola negra nas mãos. Viu o homem tatear por dentro do paletó, puxando algo prateado. Acionou novamente o gatilho – dessa vez atingindo o antebraço. A arma que Miranda tentou empunhar bateu no chão, e Rogério a chutou para longe.

Agora o Senador rastejava pelo tapete, a manga direita do terno claro totalmente empapada do líquido viscoso que minava dos ferimentos.

— Abreu... Abreu... — tentou gritar, a voz disforme devido a dor que o dilacerava.

Sua meta era a única porta do aposento, a uns cinco metros de seu braço esticado. O Assassino o chutou duas vezes, fazendo-o rolar até lá. Ele se esforçou para chegar à maçaneta, chegando a tocá-la com a ponta dos dedos da mão esquerda.

Novo disparo contido, e a ávida mão deixou de existir numa explosão de vermelho. O político caiu para trás em agonia, observando atônico a ponta do osso à mostra no toco que lhe sobrara.

— Por favor... Por favor...

Como se o homem houvesse proferido a palavra mágica, Rogério abriu a porta. Em cima do tapete da entrada estava um objeto redondo, macabro: a cabeça de um homem bochechudo e careca, os olhos ainda arregalados de espanto. Pertencia a Abreu, o segurança particular do Senador. Ou, pelo menos, era.

Rogério Greco puxou uma cadeira e sentou em frente a Miranda, que começava a mostrar os sintomas da perda contínua de sangue. Sua pele estava tão branca quanto uma folha de papel, e seus olhos reviravam para cima. Um sinal que as alucinações não tardariam a chegar. O assassino retirou o paletó e simplesmente observava. Arregaçou a manga da blusa, deixando à mostra uma tatuagem na parte interna de seu antebraço: “pronto emprego”. Acendeu um cigarro.

— Nem sempre fui um assassino profissional, Senador. Mas homens como você me tiraram o pouco que eu tinha. Tudo pela liberdade de expressão, dizem vocês. Talvez. Na minha época, no entanto, não havia rebelião programada em presídio. Não havia traficante mandando fechar o comércio ou fazendo Blitz feito polícia — ele meneou a cabeça. — Talvez vocês estejam certos. O direito de dizer que o presidente é um beberrão deve valer todos esses transtornos.

Ele encostou a pistola entre os olhos do Político, que chorava baixinho.

— Não se preocupe. O general já está cuidando de tudo. Pena que você não vai estar aqui para ver.

O relógio de Rogério apitou duas vezes, atraindo-lhe a atenção. Ele levantou os ombros para o homem em agonia.

— O trabalho chama — ele retirou a folga do gatilho. — Ah, e para matar sua curiosidade, o gato é um felino que gosta de brincar com suas presas. Daí o apelido.

Houve outro som seco na sala, que ninguém de fora ouviu, graças ao silenciador.

ROGÉRIO GRECO, O GATO foi escrito por Andre Esteves

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Rebelião 39: O Despertar (Parte 2 de 2)


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Lucas estava tendo dificuldades para se equilibrar, como se uma nuvem negra atravessasse sua visão; teve que se esforçar para pensar com objetividade.

Calma. Não adianta nada quebrar a chave.

Só então percebeu o engano. Estava girando a fechadura para a esquerda, quando o correto seria para a direita. Com os dedos escorregando, conseguiu abrir a porta e ganhar a noite fria de julho.

Lucas morava no subúrbio, num bairro de ruas estreitas e intricadas. Conhecia todas como a palma de sua mão e corria destrambelhado pelas ladeiras e esquinas. Estava consciente, entretanto, do borrão negro que acima de sua cabeça pulava de telhado em telhado ao seu encalço.

Como no sonho, pensou em desespero. Já sabendo o que iria acontecer, chegou até uma pequena praça, sem qualquer iluminação artificial. Somente a luz da lua permitia a visão dos vultos de várias árvores.

Ali, como no pesadelo, sentiu as dores nas pernas. Os músculos, com câimbras, endureceram e o levaram ao solo, fazendo-o perder os dentes. Ao invés de procurar em vão se arrastar pelos paralelepípedos molhados de orvalho, fez o impensável: voltou-se e encarou a criatura.

Primeiro os olhos em fogo e depois a boca salivante e abjeta puderam ser vistos. Lucas olhava a besta de frente pela primeira vez. Era um incrível cachorro – embora a expressão “cachorro” fosse totalmente inadequada para classificar aquele pesadelo de quatro patas. Uma montanha de músculos cobertos de pelos negros eriçados e rígidos parecia ser a expressão mais próxima da realidade. O monstro era quase do tamanho do Fiat uno estacionado na entrada da praça.

A trilha de saliva e o rosnado baixo era o prenúncio do que viria a seguir. O garoto estava completamente imóvel, hipnotizado pela bruta singularidade da criatura diante de si. Somente sua mente trabalhava como uma fábrica chinesa, evitando pensar nas imagens de sua carne sendo destroçada que teimavam em rondar sua cabeça. Só pode fechar os olhos e esperar o inevitável, espremendo-se involuntariamente na sombra formada pela árvore mais próxima.

A criatura estagnou e bufou violentamente. As duas bolas de fogo que possuía no rosto voltaram-se de um lado a outro. Chegou à frente, há apenas um metro do rapaz, tão perto que ele perdeu parcialmente os sentidos graças ao fedor. A criatura balançou a cabeça durante alguns segundos e rosnou bem forte, antes de correr em volta da praça algumas vezes e sumir através das árvores.

A circulação voltou aos poucos ao normal. Estava claro que por algum motivo o cão não o tinha visto, o que não podia entender. A sombra que o abarcara não era nem de longe forte o suficiente para escondê-lo, levando ainda em conta que a criatura sabia onde ele estava. Levantou com dificuldade, somente para ter seus músculos retesados novamente – havia mais alguém na praça.

Era um homem alto e magro usando jeans, uma figura que passaria absolutamente despercebida se não fossem três horas da manhã e ele não andasse como se estivesse em sua sala de estar. Na verdade, Lucas não se lembrava de ter visto uma pessoa que parecia tão segura quanto aquele homem. Tentou calcular sua idade, mas não conseguiu.

— Imagino que deva estar assustado — disse a figura quase surreal. — Não se preocupe, vou lhe explicar tudo.

Ele deu uns passos e Lucas fez menção de correr.

— Não precisa ter medo — ele parou em frente ao Uno estacionado, uma das mãos viradas para frente em sinal de calma. — Tenho a resposta que você procura.

Os olhos do Rapaz faiscaram. Ele permaneceu imóvel, próximo à árvore.

— Você não é um mortal como os homens de barro à sua volta — ele apontava para as casas margeantes um pouco afastadas, todas escuras e silenciosas. — Você é filho de um anjo caído, um ser híbrido com descendência tanto do céu quanto do inferno. Um Nefilim, assim como eu.

O homem sorria satisfeito com suas próprias palavras e com o interesse do garoto. Se estivesse prestando atenção de verdade, perceberia que Lucas realmente estava com o olhar fixo – mas não nele.

— Eu fui designado para ser seu tutor. Estou aqui para ensiná-lo sobre o que há fora do pesado véu de trevas que cobre os mortais. Venha comigo e não terá mais dúvidas.

O rapaz encolheu os ombros. Mesmo estando escuro, os olhos treinados do homem perceberam que ele tremia.

— Não precisa ter medo. Na imensidade da criação, com as mais diversas entidades, você achou um igual. Pode confiar em mim.

— Eu confio — disse o rapaz abrindo os braços e levantando corajosamente a cabeça sem sair do lugar. — Venha me dar um abraço.

O homem não deu três passos. Assim que se moveu a enorme criatura negra pulou de uma árvore atrás dele, abocanhando-o por cima da cabeça. As presas o perfuraram na altura dos pulmões nessa primeira fechada de boca, misturando-se o líquido pulmonar amarelado com a espessa saliva da besta. Ela levantou o horrendo pescoço, retirando os pés do homem do chão e espremendo-o por sua traquéia, num quebrar de ossos tal que mexeria com os nervos até de um legista.

Lucas espreitou por alguns instantes o espetáculo de sangue e carne sendo lançadas pelo ar. Havia percebido pelo reflexo no vidro da frente do automóvel que o homem escondia na mão esquerda uma adaga prateada enquanto o distraía com a direita. Tanto a mão quanto as armas encontram-se agora na barriga da criatura, que virou sua monstruosa fuça para Lucas.

O rapaz nem se atreveu a fugir; seria só prolongar a agonia.

Algo ocorreu antes do ataque, entretanto, algo tão repentino e inexplicável quanto tudo naquela estranha noite: O ventre inchado da criatura explodiu, espalhando as entranhas pelo calçamento. Praticamente cortada ao meio, a ligação entre as patas traseiras e o resto do corpo passou a ser feita somente pela espinha dorsal, agora exposta. Com a criatura tombada, o flamejar dos seus olhos foi se apagando como uma lâmpada sendo desligada aos poucos. Por um instante, o garoto quase pode vislumbrar algo de racional naquele olhar, mas foi só por um instante. Logo uma fumaça compacta e negra saiu da carcaça, e a luz dos olhos esmoreceu por completo. Em segundos a criatura desintegrou-se como se mergulhada em ácido. A massa se dissolvia por si própria, formando bolhas que consumiam os músculos antes rígidos e poderosos. Quando as luzes das casas começaram a ser acesas, não havia mais nada ali.

Lucas se abaixou novamente nas sombras, que agora o abraçavam como um cobertor.

Ainda não estou pronto para confiar em ninguém, pensou.

O DESPERTAR foi escrito por Andre Esteves

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Rebelião 38: O Despertar (Parte 1 de 2)


A escuridão circundante era meramente ilusória, pensava Lucas. Não obstante cobrisse seus olhos de trevas, não impedia a propagação dos rosnados baixos e constantes que lhe arrepiavam a pele. Nem mesmo bloqueava o fedor insuportável que invadia sem piedade suas narinas. Um cheiro nauseabundo de carne podre misturado com enxofre tão forte a ponto de tonteá-lo.

A Criatura estava próxima agora. O rapaz vinha correndo há tempos, e suas pernas não mais obedeciam a seus comandos desesperados. À beira da fibrilação cardíaca, tombou ao solo devido ao descontrole motor. Estava dominado por câimbras que o faziam rolar de pura dor. O choque do rosto com o chão havia arrancado um ou dois dentes, provocando uma nascente de sangue em sua boca.

O rosnado ficou mais próximo. O rapaz sabia – mesmo em agonia – que o cheiro adocicado do líquido viscoso inebriava os sentidos da besta.

Ele então a viu. O ingrato negrume foi cortado por dois pequenos círculos flamejantes – dois olhos rubros que pareciam absorver todo o oxigênio ambiente. A iluminação proporcionada por eles permitiu a visão da boca negra e comprida, as presas brilhando à luz vermelha e a saliva que escorria por elas até o chão.

Era apenas questão de tempo agora. Por mais que Lucas apertasse os olhos e a mandíbula no esforço, seus músculos endurecidos não permitiam o mínimo movimento. Em instantes a baba amarelada e malcheirosa não caía mais no solo, mas em suas pernas e em seu peito. Sem apresentar qualquer resistência, sua pele foi dilacerada e digerida aos poucos – a besta não tinha qualquer pressa, parecendo deliciada com os gritos estéreis do garoto...

Ele acordou numa poça de suor. Ainda lutou durante alguns instantes com o vazio, como se finalmente seus músculos tivessem resolvido obedecer. O mesmo pesadelo. Todas as noites do último mês, desde que completara 18 anos. No início conseguia despistar a criatura, mas a cada noite ela chegava mais perto. Hoje, pela primeira vez, ela o havia alcançado. Tinha sido devorado. Podia sentir seu corpo dolorido, como se realmente algo de real houvesse ocorrido.

Um estrondo cortou o silêncio da madrugada. A janela de madeira havia se aberto violentamente, permitindo a passagem da fria brisa noturna. Os nervos do rapaz já estavam em frangalhos, mas o barulho serviu como um choque de mil volts em sua espinha dorsal. Pulou da cama e investigou as janelas. Os batentes, sem qualquer ferrugem e ainda reluzentes, estavam totalmente retorcidos.

Aquilo só podia ser interpretado de uma forma. Ela estava ali.

O medo tomou conta de seu corpo. Disparou do quarto e entrou na primeira porta que viu no corredor. Somente ao escutar o familiar ronco, tão contundente quanto uma britadeira trabalhando na madrugada, ele caiu em si: o desgraçado do gordo deitado, que infelizmente era seu pai, não ia ajudar em nada. Pelo fedor, havia passado as últimas horas se enchendo de cachaça, sua única atividade quando estava em casa.

Por alguns segundos, na tensão da situação, pensou encontrar sua mãe naquele quarto. A mãe que não conhecera, pois falecera por ocasião de seu nascimento. Lucas gostava de fantasiar que a via em seus sonhos, na forma de uma mulher ruiva sempre silenciosa, mas que transmitia uma sensação indescritível de paz.

Nem esse alento ele possuía mais; a mulher fora substituída pela criatura peluda. Estava sozinho.

Sem problemas. Tinha se preparado para isso.

Literalmente engolindo o medo, voltou ao quarto e abriu seu armário. Puxou um livro de páginas amareladas pelo tempo e uma mala com vários artefatos. Alisou a capa e as letras douradas ali impressas: “Livro negro de São Miguel”. Abriu na página 227, cujo título era o “exorcismo do demônio”. Puxou um pena negra da mala e um vidro com líquido vermelho escuro. Molhou a ponta da pena e reproduziu no chão do quarto o pentagrama desenhado na folha. Em cada ponta recitava estranhas palavras, acendendo velas bicolores – preta e vermelha – em cada uma delas.

Postou-se de joelhos no centro do círculo e virou-se para a janela. O vento parecia estar mais forte. Rasgou um plástico transparente e dele retirou uma massa mole e encharcada de sangue, quase do tamanho de uma bola de futebol: um coração bovino.

Ele se preparava para aquele momento há algumas semanas. Desde o início dos pesadelos, pressentiu que cabia a ele se defender de alguma forma.

Ia provar que o inferno estava escolhendo a pessoa errada.

Segurou a sinistra peça de carne acima da cabeça e iniciou discurso na mesma língua ofídica de momentos atrás. As janelas bateram mais uma vez; o abajur em cima do criado-mudo foi lançado contra a parede, aumentando a confusão; as gavetas da cômoda se abriram, formando um ciclone de papéis pelo quarto. Até o lustre balançava ao sabor do vento, batendo no teto e espalhando no já conturbado ar os estilhaços das lâmpadas quebradas.

Lucas suava tentando não errar uma palavra. Titubeou, entretanto, quando percebeu que as roupas de cama flutuavam a esmo, quase tocando o fogo tímido das velas que fraquejaram com seu engasgo.

Elas então se apagaram.

A situação mudou num instante. A força do vento passou a ser tal que retirou da parede um espelho de corpo inteiro, lançando-o contra o rapaz. Os fragmentos do vidro quebrado laceraram seu corpo enxuto, obrigando-o a cair para trás e sair do círculo. Como tivesse se chocado contra o pára-choque de um carro, bateu com as costas na porta do armário, quebrando a madeira e caindo como um boneco disforme entre as roupas amontoadas.

O medo, fiel companheiro, se fez presente novamente. Sentindo o coração sair pela boca, pulou de três em três os degraus que levavam até a sala. Enquanto tentava desesperado virar a chave e abrir a porta, esquecido de qualquer ferimento, percebeu sua nuca se eriçar como nunca havia feito antes. O fedor de podre não permitia ao rapaz qualquer dúvida sobre o que se encontrava no aposento contínuo a sala, a cozinha.

Porque essa fechadura desgraçada não abre?

Com o rabo dos olhos, percebeu a luminescência vermelha atrás dele – olhos injetados de sangue. Apertou com maior premência a chave, e sentiu o entortar do objeto; ao mesmo tempo, o odioso rosnado tocou seus ouvidos.

A escuridão imediatamente pareceu ficar mais espessa.

(Parte 2)

O DESPERTAR foi escrito por Andre Esteves

quarta-feira, 26 de dezembro de 2007

Maytréia 18: Ajuda

Vou matar essa vagabunda!

Carlos avançou sobre a mulher, desferindo-lhe uma bofetada ouvida pelos vizinhos no andar debaixo. Ninguém se atrevia a subir; todos conheciam o casal e seu modo peculiar de passar o tempo em que ficavam juntos em casa.

A força do golpe jogou Luana sobre a mesa, deixando cair no chão a faca que segurava. Sem se deixar abater pelo líquido quente que escorria pelos lábios recém-cortados, lançou sobre o marido o vaso que ali servia como adorno. O objeto – que de outra forma se despedaçaria no rosto de Carlos – atingiu a parede atrás dele graças a um surpreendente movimento de quadril. Surpreendente porque o homem tropeçava tanto em suas próprias pernas que só por um milagre ainda se mantinha de pé.

— Filho da puta! — a voz de Luana era mais cortante que os cacos do vaso espalhados pelo chão — Você nunca mais encosta em mim.

A mulher trancou-se no quarto, correndo na frente do marido, feito nada difícil tendo em vista o estado dele, facilmente perceptível pelo hálito carregado do líquido ígneo que ingerira há pouco.

Esmurrou e chutou a porta, criando alarde maior no edifício, mas a porta resistia. Escutava do lado de fora o som de Luana abrindo o armário e as gavetas, provavelmente lançando roupas numa mala.

Ela só sai daqui morta. A imagem de um instrumento prateado invadiu sua mente. No porta-luvas do carro, estacionado na frente do edifício. Ele era policial, mas não entrava com a arma em casa. Não depois que passou a desconfiar da mulher e a tomar umas cachaças “para clarear as idéias”. Pensava que a proximidade da pistola podia causar uma desgraça, em uma de suas brigas constantes.

Mas não pensava mais. Seu cérebro, como uma esponja boiando numa piscina repleta de 51, se recusava a frear os instintos animais que o dominavam. Desceu se escorando nos corrimãos os quatro andares, sentindo-se observado pelas frestas das portas.

Eles que não se metam, senão mato todo mundo nessa porra.

Ao sair à rua e abrir o porta-luvas, a visão da Taurus carregada o fez abrir um sorriso. Devido à posição, curvado sobre os bancos e com metade do corpo para fora do carro, o maço de cigarros caiu no bolso da camisa e o distraiu. Escutou um ruído de terra sendo remoída ao lado do veículo. Talvez pela necessidade de nicotina ou pela curiosidade gerada pelo barulho, fechou o porta-luvas e acendeu um cigarro. Sua esposa não tinha como fugir.

O ruído era proveniente do trabalho de uma velha descalça, suja da cabeça aos pés. Somente ao observar a roupa encharcada da mendiga foi que Carlos se deu conta das poças espalhadas pela rua e de como devia ter chovido alguns momentos atrás. A velha introduzia a mão nua em um bueiro e retirava a terra preta e mal-cheirosa misturada com detritos que o entupia. Com aquela sujeira fazia montinhos junto ao meio-fio, catando ainda as folhas e papéis que sujavam a calçada. Outros dez montinhos já haviam sido feitos, e a calçada, nesses pontos, encontrava-se completamente limpa, apesar da enxurrada de há pouco.

— Ela está fazendo isso desde as quatro horas —atreveu-se a dizer pela janela um garoto que morava no primeiro andar, antes de ser puxado com força pela mãe, que sem olhar para fora cerrou o batente.

Carlos olhou o relógio: meia-noite e meia. Como tem gente maluca nesse mundo. Virou novamente para o veículo, o cigarro quase no fim, o brilho vermelho novamente lhe assaltando os olhos. Foi então que percebeu, de soslaio, um detalhe estranho: as unhas da velha. Era policial há muito tempo e sabia muito bem que uma mendiga não poderia ter as unhas tão bem pintadas como as dela. Era claro que não estava há muito nas ruas – no máximo dois dias. Devia ser um caso de perda de memória. Talvez a família estivesse procurando. E daí? Não é problema meu.

Ele acendeu outro cigarro. Sentiu-se estranhamente sóbrio.

Acercou-se da velha e puxou assunto; ela realmente estava biruta, não falava coisa com coisa, mas lembrava do nome. E do nome todo.

Meu nome é Luzia da Silva Souza Brandão.

— Mas onde você mora, dona Luzia?

A velha demorou a responder, os olhos opacos e fixos. Olhos de uma boneca.

— Eu... sou da roça, meu filho, trabalhei muito com essas mãos ... minhas sobrinhas são professoras... eu sei cuidar de milho... o cachorro também fui eu que...

— Dona Luzia, o que quero saber é onde mora...

Mas não adiantava. Ela não dava qualquer endereço, seja dela ou de parente, número de telefone ou nada. Apenas recitava um monte de baboseiras sem nexo. Para testar, o rapaz perguntou várias vezes o nome dela. Pelo menos nesse dado ela parecia segura.

Luana saiu do prédio, uma enorme mala nas mãos. Carlos havia sentado com a velha, que se mostrava totalmente dócil, nuns blocos de concreto que havia na rua. Talvez a estranheza de ver seu marido sentado na calçada com uma velha mendiga tenha suplantado sua raiva, porque Luana se aproximou com a face marcada de dúvidas.

Carlos puxou o celular e fez sinal para que a mulher conversasse com a velha. Falou com um colega de trabalho, pedindo dados sobre o nome Luzia da Silva Souza Brandão.

Enquanto isso, Luana tentava arrancar informações da velha, tendo o mesmo sucesso que Carlos: nenhum. Este desligou o telefone e ambos dialogaram sobre o que fazer. Começava a chover levemente. A mala, Luana colocou no bagageiro do carro. A madrugada avançava e um deles lembrou-se de uma emergência psiquiátrica num hospital Municipal. Colocaram dona Luzia no banco de trás do veículo. Ela estava um pouco mais apresentável, pois haviam lhe arranjado calçado – um chinelo velho de Carlos – e uma blusa bem larga. Luana ajudou a trocar a roupa molhada. A velha não abandonava, no entanto, o olhar perdido. Assim que se acomodou no veículo, adormeceu.

O casal sentou na frente e Carlos dirigiu até o hospital. A médica de plantão estava relutante em aceitar Luzia; disse não se tratar de uma emergência médica e que o hospital estava lotado; duas notas de cinqüenta, no entanto, fizeram surgir vaga e a promessa de que o serviço social, no dia seguinte, encaminharia a velha para um asilo. Quando Carlos e Luana saíram, ela já estava dormindo numa maca, medicada e completamente seca.

­— O gesto de vocês foi muito bonito — comentou o segurança. — é difícil ver disso aqui. Ninguém ajuda ninguém hoje em dia.

O casal sorriu e andou devagar até o carro. Não foi possível discernir de quem partiu o gesto, mas logo estavam de mãos dadas. Daí para o abraço e pedidos de perdão misturados com lágrimas foi um pulo. A mala com a roupa estava esquecida no bagageiro do carro, enquanto o tempo parava de correr para o homem e mulher que se acariciavam.

— Eu nunca mais vou beber... — prometia Carlos, quando foi interrompido pelo toque insistente do celular. Num meio sorriso, ele quase se desculpou por ter que atender.

Era o tal colega de trabalho. Ele havia conseguido informações sobre Luzia e estava muito agitado. Quando terminou de falar, foi à vez de Carlos fraquejar, deixando o celular cair de sua mão trêmula.

Luana lutou para retirar dele alguma explicação. Após muita insistência ele disse algo, porém em voz de falsete, como que para si mesmo:

— Sabe a pesquisa sobre Luzia da Silva Souza Brandão? Meu amigo está com a certidão de óbito dela nas mãos. Ela está morta, Luana, morta!

*************

Uma senhora aparentando 60 anos saiu andando do Hospital Municipal. Não tinha mais o passo vacilante que entrou, muito menos os olhos imóveis. Agora eram duas bolas de vivacidade, duas esferas relampejantes que denotavam a sabedoria supostamente armazenada no órgão atrás deles. A médica nem o segurança notaram sua passagem; só o fariam se ela quisesse. Permitiu-se apenas um sorriso ao ver o casal se beijando no estacionamento. Estava com muita pressa.

Afinal, ainda havia muita gente para ser ajudada...

AJUDA foi escrito por Andre Esteves

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