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sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

Rebelião 60: Tanatológicas

Na porta de Rita de Almeida Campos, na cobertura de um luxuoso prédio de apartamentos no Leblon:

"O calor desta selva evoca lembranças de Barcelona.

Estou na cidade, procure-me.

P."

***

A campainha toca. Nem preciso ligar para a recepção e perguntar porque minha visita subiu sem ser anunciada. Abro a porta.

— Olá, Rita.

Um tapa sonoro me acerta o rosto. Vestido preto justo, sem ser vulgar. Cabelos anelados, longos.

— Galego imundo...

Limpo o filete de sangue no canto de minha boca.

— Posso perdoar você por isso. Minha mãe sempre me disse que as mulheres batem por amor. Acho que aprendeu isto com a sua, também.

Ela ensaia um segundo tapa. Seguro sua mão e a jogo para dentro do quarto.

— Só não posso perdoá-la por me chamar de "galego".

Ela cospe em mim. Mulher voluntariosa. Dá uns tapas sem propósito. Recebo todos. Ela pára arfando, os lindos dentes, brancos, brancos, atrás dos lábios escuros. Meus olhos a percorrem de cima a baixo. Arranco seu vestido com as mãos e puxo o sutiã sem cuidado. Uma presilha abre um corte pouco baixo de sua axila. Ela me beija, a língua quente, ávida, girando em minha boca. Termino de rasgar suas roupas. Ela arranca as minhas.

Um cavalheiro jamais comentaria o que se passou em seguida.

Mas, ao fim de tudo, satisfeito como um cão, sinto um nojo de minha humanidade que me dá ganas de surrá-la por me fazer sentir assim. Ela percebe isso. Sempre percebeu.

— É meu modo de puni-lo, Precursor.

O olhar petulante e desafiador. A língua levemente colocada entre os dentes, lábios carnudos, generosos... mas que diabos...

Novamente, como um cavalheiro, devo me calar.

***

Sob uma rosa-chá, na cabeceira o lado da cama onde repousa a Venerável Rita de Almeida Campos:

"Rosa-chá, porque a paixão já foi satisfeita. Fica a ternura de nossa amizade e um pedido: Konstantin Efremov. Preciso falar com ele, e só você pode trazê-lo.

Na minha casa ou na sua?

P."

***

Restaurante do Copacabana Palace, às 12h30. O garçom aproxima-se do conhecido hóspede com um envelope em mãos:

— Com licença, Sr. Paulo.

O hóspede recebe o envelope sem perguntas e despede o garçom.

"Paulo,

Assim como os ladrões, você chega sem ser anunciado e parte na calada da noite. Mas não me recinto por isso. Embora não haja qualquer ternura no relacionamento doentio que existe entre nós (e que você preferiu chamar de "amizade") estou curiosa para saber qual a nova diatribe que está aprontando.

Venha à minha casa amanhã, ao entardecer. Creio que a gerência de hotéis internacionais ainda não seja tolerante com ocultismo e tanatomancia.

Aguardando a festinha,

R."

O hóspede guarda o envelope no bolso de seu paletó, termina sua comedida refeição e bebe um cálice de vinho do Porto. E Sai satisfeito para o calor ardente do meio-dia.

***

O carro era negro, com vidros escuros. Parou em frente ao velho prédio, onde se lia na fachada: "Sebo". O Precursor subiu a escada estreita, ouvindo a madeira dos degraus ranger sob seu peso. A livraria ficava no andar de cima do sobrado. Um gato preguiçoso sacudia o rabo, devagar, deitado sobre uma pilha de livros bolorentos. Num mural de cortiça, anúncios de cursos de Gnose, Teosofia e Espiritismo. Um homem de meia-idade, cabelos grisalhos, desalinhados, e grossos óculos fazia palavras-cruzadas atrás de um balcão de madeira.

— Tenho um bilhete para o dono.

O homem levanta seus olhos da revista, sem interesse, mas estranhando as finas vestes de seu visitante.

— Sou eu mesmo.

— Não, não é — responde tranqüilamente o nefilim. Ele tira uma moeda de ouro de seu bolso, gravada com o emblema da coroa portuguesa, e a joga sobre o balcão — Eis o óbulo de Caronte.

O homem observa a moeda e levanta a portinhola do balcão que o separa do visitante,o convidando a entrar. Uma porta de madeira velha, coberta de pintura descascada, é aberta e ambos seguem por um corredor úmido e escuro. No fim, através de uma cortina de contas, um brilho bruxuleante lançava fantasmagorias rubras nas paredes.

Era uma sala pequena e abafada, apenas com um pequeno basculante, um altar de madeira roída, frente ao qual estava um velho, uma escrivaninha e uma mesinha com velas acesas. Um velho, de costas para a entrada, com as mãos espalmadas sobre o altar perguntou à sua entrada:

— O que quer, Paulus?

— Preciso de um favor de seu patrono, simoníaco.

— Seus favores são caros...

— Já deixei alguma dívida aberta?

Sem se virar, o velho aponta com a mão esquerda a escrivaninha. Há duas gavetas: de uma delas, Paulus tira uma folha de papel almaço e uma caneta esferográfica. De outra, uma vela de cera ocre. E põe-se a escrever:

"Ahasverus,

Vós, que jamais encontrais descanso sobre esta terra, e cujos olhos viram demais, e cujos ouvidos ouviram o indizível, dignai-vos a atender meu apelo: devo mover-me neste orbe como fazes, dos espectros o vetusto fantasma; que nem mesmo o Genitor meu, pelo sangue plenipotente que tem, me possa encontrar neste mundo."

A carta é entregue ao velho e colocada aberta sobre o altar. Nada é dito, o ancião sequer olha a folha à sua frente. Alguns segundos e passam sob o crepitar lento das velas, a respiração regular do homem, e o clima de modorra da sala é bruscamente rompido com a queima espontânea da carta. O fulgor repentino exibe caracteres de uma língua esquecida na parede frente ao altar. A vela nas mãos do Precursor se acende, e o velho fala, extático:

— Terás tua dádiva por seis dias.

O Precursor coloca a vela sobre a mesinha e retira um diminuto aparelho celular de seu bolso.

"Sem sinal".

Paulus sorri e recoloca o aparelho no bolso. Deus criou o mundo em seis dias. Ele tinha este tempo para saber como começou o seu.

Aqui começam os Atos de Pavlvs.

CARTAS PAULINAS III: TANATOLÓGICAS
foi escrito por Renato Simões


Volte ao Universo Germinante

Rebelião 50: Tartáreas

Antes de envolver mais gente nisso, prefiro ter certeza de que não posso fazê-lo sozinho. Estudei muito as artes da necromancia, principalmente com Veneráveis, de modo que me acho razoavelmente capaz, sendo um Arquiduque Precursor de variados poderes, de conjurar o espectro de Konstantin Efremov. Segundo muitos de meus mentores, "o plano de existência dos espectros não conhece as convenções de tempo ou distância, sendo possível conjurar-se o espectro da rainha Vitória no Himalaia — tudo o que é necessário é uma forte concentração" (CASTILLO, Juan. Necronímia: introdução às artes Veneráveis da Espiritomancia. Madri: 1952, p. 35). Contudo, sempre que uso meus poderes necromânticos, só consigo invocar os miseráveis que viveram no solo onde estou, de forma que, por mais que odiasse a idéia, viajei para Kansk, o lugar onde pretensamente viveu nosso bom padre. Ainda em Moscou, no aeroporto, precisei usar Gnose para poder me comunicar com a fauna local. Sempre é desagradável para mim falar idiomas eslavos, de modo que fiquei muito mau humorado. Paciência.

A viagem de Moscou a Kansk foi tão desagradável quanto eu poderia esperar, mas finalmente cheguei ao meu destino. Constatei, para meu desagrado, que os miseráveis de dentes amarelos que viviam naquele lugar falavam um dialeto ainda mais obscuro da língua padrão, de modo que precisei de Gnose outra vez. Certamente Efremov fala um dialeto ainda mais hermético, em função do anacronismo, o que me obrigará a mais um uso de Gnose. Paciência.

Aluguei um bangalô naquele lugar miserável, e ao cair da noite, pus-me a trabalhar. Estiquei as folhas de pergaminho na mesa após limpar os farelos de pão e excrementos de barata de cima dela. A alvura do papel contrasta fortemente com o tom escuro de podridão dos móveis do lugar. Este é o melhor papel que o dinheiro pode comprar, com uma capacidade maravilhosa de absorção, feito para escrever-se com penas. Seria necessário um papel assim, principalmente quando se usa uma tinta mais densa que nanquim. Minha provisão contava com quinze folhas alvas e sem vincos — as coloquei ao alcance de minha mão esquerda e apaguei as luzes do quarto, acendendo apenas uma vela aromática, que iluminava minha mesa de trabalho. Ainda segundo CASTILLO, "a liturgia de conjuração não passa de um foco para a concentração do necromante. Porém, quanto mais elaborada, mais focada estará sua mente, aumentando suas chances de sucesso" (op. cit., p. 54). Estava tudo ótimo, na minha opinião. Aspirando o odor agridoce que a vela espalhou pelo ar, comecei a liturgia de Necromancia, ou pelo menos a variação que criei dela. Fiz os primeiros chamados pelo Espectro de Efremov, enquanto enchia um prato de alumínio amassado com meu sangue. Imediatamente o quarto ficou frio, e notei que sombras surgiram de todas as partes, farejando meu sangue imortal. Eu previa isso — as grandes concentrações manáticas em meu sangue atrairiam os fantasmas famintos de toda região. Paciência.

As sombras rodopiavam ao meu redor, mas toda vez que tentavam aproximar-se da tigela, atingia uma delas com um Ferrão Mental; como eu desconfiava, a natureza psíquica destas criaturas era vulnerável a este tipo de ataque. Peguei uma caneta-tinteiro em minha mala e comecei a escrever, com o sangue, no papel:

"Procuro a sombra do padre Konstantin Efremov. Algum de vocês pode mostrá-la a mim?"

Uma sombra grande, amorfa, aproximou-se do papel, e todas as outras se afastaram temerosas. A coisa drenou o sangue, fazendo com que as palavras desaparecessem, como se varridas pelo vento. Em seguida, uma substância cinzenta começou a espalhar-se pelo papel, formando letras toscas:

"Eu vi Konstinn patri." Volto a rabiscar o papel com meu denso humor:

"Pode trazê-lo aqui?" — novamente as letras desaparecem, e percebo que meu interlocutor está ficando mais definido.

"Nãu". Olho para a escrita tosca. Seria esse um maldito semi-analfabeto ou teria dificuldade para lembrar da grafia certa das palavras?

"Por que não? Ele está longe?"

"Nãu longi, prezzu". Maldição, mil vezes maldição!

"Por quem?" — quase cai novamente na bobagem de falar em termos de distância, como há pouco, com o espectro.

"LLUZZZ". Não gostei disso. O papel está em frangalhos, de modo que o coloco de lado e pego outra folha.

"Não pode ser mais específico? Que luz?" — rezo internamente aos Triarcas que ele não esteja falando de Lúcifer. Isso arruinaria minhas chances de sondar a chegada dos Descaídos.

"Stranha... nãu sei dzer".

"A luz está aqui ou além da fronteira?" — o sangue desaparece do papel e a sombra toma contornos bem visíveis: parece um enorme cossaco, cujas roupas estão rasgadas, mostrando vísceras pendentes através de chagas pútridas. Sua barba está suja de sangue, e seus olhos injetados brilham rubros.

"Aqiii". Medito sobre estas informações. Este miserável não pode me oferecer mais nada, de modo que libero seu acesso à tigela com o resto de meu sangue. Ele cai sofregamente sobre ela, que começa a rodopiar sobre a mesa com um estranho ruído metálico. O sangue dentro dela começa a dispersar-se numa nuvem carmesim que se espalha dentro do espectro, dando-lhe mais cor e forma; seus irmãos rodopiam desesperados, farejando o licor que lhe deu tanta força. Para minha surpresa, novas palavras formam-se no papel:

"Mi da mayyss!" — este último "mays" se repetiu algumas vezes, até o fim da folha, quando a mesa foi virada. Observei impassível o rosto do fantasma: ele passava sua língua abjeta pelos lábios numa careta de volúpia, enquanto flexionava as mãos como garras. Como meu sangue lhe deu uma força da qual nunca experimentara (ou lembrara), o desgraçado achou que poderia arrancar mais de mim. À força. Sem paciência.

"Claro" — com meu estilete abro um corte na ponta de meu indicador, que imediatamente dá origem a um filete escuro de sangue. Ele se aproxima com… antecipação? cautela? alegria? — não importa. Antes que me toque, regenero o corte e afundo meu dedo em seu peito, tocando seu coração morto. Em seguida, invoco Captura da alma — se usado contra os vivos, este Manifesto Abissal drena sua vitalidade e a converte em Maná para mim; contra um espectro, drena sua energia psíquica com as mesmas conseqüências. Ele esbugalha os olhos e começa a se debater, sentindo seu precioso ectoplasma tornar-se mais fino e frágil. Quando terminei, ele estava num estado pior do que quando chegou: era uma sombra fraca, quase translúcida, mais parecendo o vapor que se desprende de uma chaleira.

"Ele não tem sido muito gentil convosco, não é mesmo?" eu lanço para os outros espectros presentes. Após um segundo de hesitação, todos se lançam contra ele, arrancando o pouco de energia que ainda contém. Pode parecer crueldade, mas os gritos de um fantasma são belos, parecendo uma mistura de solo de barítono com o eco grave de um órgão. Muito exótico.

Dou as costas para a turba de cadáveres, recolhendo as anotações desta noite. Não posso dizer que ela foi totalmente infrutífera, em virtude de minhas descobertas, mas não me agrada a perspectiva de colocar mais um nefilim nisso. Infelizmente, parece que realmente precisarei dos Veneráveis, visto que meus conhecimentos necromânticos, apesar de vastos, não se comparam aos dos mestres. Com meu celular, ligo para o aeroporto de Moscou, perguntando os horários dos vôos para Portugal. Não irei diretamente ao meu intento, não ainda. É necessária muita cautela ao lidar-se com Veneráveis — o choque entre os protocolos de nossa cultura patriarcal com sua organização matriarcal podem ser extremamente prejudiciais aos meus planos.

Saio do bangalô e respiro o frio ar da noite. Com algum esforço, posso chegar a Moscou a tempo de conseguir o primeiro vôo.

"Você não escapará de mim, Efremov. Nem a morte pode mantê-lo a salvo de Paulus."

Agarro minha maleta — a única bagagem que trouxe para este lugar — e ganho as estrelas com os maravilhosos dons herdados de meu Pai.

As cartas paulinas continuam.

CARTAS PAULINAS II: TARTÁREAS
foi escrito por Renato Simões


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segunda-feira, 7 de janeiro de 2008

Rebelião 43: Gargantuanas


... A pedrinha que se soltou rola morro abaixo, e coloca outras pedrinhas em movimento...

From: Paulus_Archduke@nfl.com

To: lrivet@nfl.com

Sent: Wednesday, February 04, 2004 12:41 AM

Subject: Trabalho

Caro Louis,

Sei que há muito tempo não temos contato, mas a agenda de um Precursor às vezes não permite o luxo de contato entre amigos, e quem dirá de um Precursor na minha posição. Contudo, um interessante material veio a cair em minhas mãos, e acho que você seria a pessoa certa para traduzi-lo: é do início do século XX (1908, para ser mais exato), está escrito em alfabeto cirílico, provavelmente russo. É, com certeza, original. Claro que estou disposto a recompensar seus esforços — não que se fale em pagamento entre amigos —, apenas um pequeno reconhecimento de seu talento.

Aguardando sua resposta,

Pavlvs.

P.S.: Cheque sua conta.

From: lrivet@nfl.com

To: Paulus_Archduke@nfl.com

Sent: Wednesday, February 04, 2004 05:30 AM

Subject: Re: Trabalho

Caro Paole,

Se não é meu Pré-Corsário predileto! Ora, Paole, o que você não me pede pagando que eu não faça rindo? Além do mais, não se sinta acanhado — nós não somos amigos! Por isso, pode se sentir à vontade para me pagar quanto quiser. UAU, você é mesmo generoso! O que está esperando? Se estiver conectado (e pelo valor que depositou em minha conta, acho que está sentado na ponta da cadeira esperando minha resposta) pode mandar o texto. Ainda não criaram um idioma que o velho Gargântua não conseguisse traduzir.

Mais feliz depois de ganhar o seu dinheiro,

G.

From: Paulus_Archduke@nfl.com

To: lrivet@nfl.com

Sent: Wednesday, February 04, 2004 05:36 AM

Subject: Texto

Você torna as coisas mais fáceis, Rivet. Gosto disso.

Segue o arquivo anexo.

From: lrivet@nfl.com

To: Paulus_Archduke@nfl.com

Sent: Wednesday, February 04, 2004 12:32 PM

Subject: Re: Texto

Você ainda está aí? Fez bem em não mandar isso a um mortal... a carta é de um tal Konstantin Efremov, um padre ortodoxo russo. Paul, ele viu os Descaídos! Ele testemunhou sua saída do Sheol, e acho que deu de cara com Sansaveel. Não sei porque não o mataram. Segue a tradução em anexo.

Que o Velhinho nos ajude...

From: Paulus_Archduke@nfl.com

To: lrivet@nfl.com

Sent: Wednesday, February 04, 2004 12:38 AM

Subject: Re: Re: Texto

Isso fica entre nós.

Após a leitura da tradução me afasto do monitor, e um milhão de pensamentos transitam simultaneamente em minha cabeça. Com um pouco de disciplina, eu os resumo a apenas um — se Efremov já viveu, então seu espectro ainda está por aí. Ah, que tesouro! Saber em primeira mão da chegada dos Descaídos... ter a informação original, não o que nos foi repassado pelos Primogênitos, que ainda ruminavam as mentiras de nossos pais!

Deposito mais uma generosa quantia de dinheiro na conta daquele sibarita marginal, na esperança de que feche sua boca gorda. Infelizmente, vou precisar colocar mais alguém nisso, se quiser chegar à verdade.

Quando se fala nos mortos, é impossível não se pensar nos Veneráveis...

As cartas paulinas continuam

GARGANTIANA

... A pedrinha que se soltou rola morro abaixo, e coloca outras pedrinhas em movimento...

From: Paulus_Archduke@nfl.com

To: lrivet@nfl.com

Sent: Wednesday, February 04, 2004 12:41 AM

Subject: Trabalho

Caro Louis,

Sei que há muito tempo não temos contato, mas a agenda de um Precursor às vezes não permite o luxo de contato entre amigos, e quem dirá de um Precursor na minha posição. Contudo, um interessante material veio a cair em minhas mãos, e acho que você seria a pessoa certa para traduzi-lo: é do início do século XX (1908, para ser mais exato), está escrito em alfabeto cirílico, provavelmente russo. É, com certeza, original. Claro que estou disposto a recompensar seus esforços — não que se fale em pagamento entre amigos —, apenas um pequeno reconhecimento de seu talento.

Aguardando sua resposta,

Pavlvs.

P.S.: Cheque sua conta.

From: lrivet@nfl.com

To: Paulus_Archduke@nfl.com

Sent: Wednesday, February 04, 2004 05:30 AM

Subject: Re: Trabalho

Caro Paole,

Se não é meu Pré-Corsário predileto! Ora, Paole, o que você não me pede pagando que eu não faça rindo? Além do mais, não se sinta acanhado — nós não somos amigos! Por isso, pode se sentir à vontade para me pagar quanto quiser. UAU, você é mesmo generoso! O que está esperando? Se estiver conectado (e pelo valor que depositou em minha conta, acho que está sentado na ponta da cadeira esperando minha resposta) pode mandar o texto. Ainda não criaram um idioma que o velho Gargântua não conseguisse traduzir.

Mais feliz depois de ganhar o seu dinheiro,

G.

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Sent: Wednesday, February 04, 2004 05:36 AM

Subject: Texto

Você torna as coisas mais fáceis, Rivet. Gosto disso.

Segue o arquivo anexo.

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To: Paulus_Archduke@nfl.com

Sent: Wednesday, February 04, 2004 12:32 PM

Subject: Re: Texto

Você ainda está aí? Fez bem em não mandar isso a um mortal... a carta é de um tal Konstantin Efremov, um padre ortodoxo russo. Paul, ele viu os Descaídos! Ele testemunhou sua saída do Sheol, e acho que deu de cara com Sansaveel. Não sei porque não o mataram. Segue a tradução em anexo.

Que o Velhinho nos ajude...

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Sent: Wednesday, February 04, 2004 12:38 AM

Subject: Re: Re: Texto

Isso fica entre nós.

Após a leitura da tradução me afasto do monitor, e um milhão de pensamentos transitam simultaneamente em minha cabeça. Com um pouco de disciplina, eu os resumo a apenas um — se Efremov já viveu, então seu espectro ainda está por aí. Ah, que tesouro! Saber em primeira mão da chegada dos Descaídos... ter a informação original, não o que nos foi repassado pelos Primogênitos, que ainda ruminavam as mentiras de nossos pais!

Deposito mais uma generosa quantia de dinheiro na conta daquele sibarita marginal, na esperança de que feche sua boca gorda. Infelizmente, vou precisar colocar mais alguém nisso, se quiser chegar à verdade.

Quando se fala nos mortos, é impossível não se pensar nos Veneráveis...

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... A pedrinha que se soltou rola morro abaixo, e coloca outras pedrinhas em movimento...

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Sent: Wednesday, February 04, 2004 12:41 AM

Subject: Trabalho

Caro Louis,

Sei que há muito tempo não temos contato, mas a agenda de um Precursor às vezes não permite o luxo de contato entre amigos, e quem dirá de um Precursor na minha posição. Contudo, um interessante material veio a cair em minhas mãos, e acho que você seria a pessoa certa para traduzi-lo: é do início do século XX (1908, para ser mais exato), está escrito em alfabeto cirílico, provavelmente russo. É, com certeza, original. Claro que estou disposto a recompensar seus esforços — não que se fale em pagamento entre amigos —, apenas um pequeno reconhecimento de seu talento.

Aguardando sua resposta,

Pavlvs.

P.S.: Cheque sua conta.

From: lrivet@nfl.com

To: Paulus_Archduke@nfl.com

Sent: Wednesday, February 04, 2004 05:30 AM

Subject: Re: Trabalho

Caro Paole,

Se não é meu Pré-Corsário predileto! Ora, Paole, o que você não me pede pagando que eu não faça rindo? Além do mais, não se sinta acanhado — nós não somos amigos! Por isso, pode se sentir à vontade para me pagar quanto quiser. UAU, você é mesmo generoso! O que está esperando? Se estiver conectado (e pelo valor que depositou em minha conta, acho que está sentado na ponta da cadeira esperando minha resposta) pode mandar o texto. Ainda não criaram um idioma que o velho Gargântua não conseguisse traduzir.

Mais feliz depois de ganhar o seu dinheiro,

G.

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To: lrivet@nfl.com

Sent: Wednesday, February 04, 2004 05:36 AM

Subject: Texto

Você torna as coisas mais fáceis, Rivet. Gosto disso.

Segue o arquivo anexo.

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To: Paulus_Archduke@nfl.com

Sent: Wednesday, February 04, 2004 12:32 PM

Subject: Re: Texto

Você ainda está aí? Fez bem em não mandar isso a um mortal... a carta é de um tal Konstantin Efremov, um padre ortodoxo russo. Paul, ele viu os Descaídos! Ele testemunhou sua saída do Sheol, e acho que deu de cara com Sansaveel. Não sei porque não o mataram. Segue a tradução em anexo.

Que o Velhinho nos ajude...

From: Paulus_Archduke@nfl.com

To: lrivet@nfl.com

Sent: Wednesday, February 04, 2004 12:38 AM

Subject: Re: Re: Texto

Isso fica entre nós.

Após a leitura da tradução me afasto do monitor, e um milhão de pensamentos transitam simultaneamente em minha cabeça. Com um pouco de disciplina, eu os resumo a apenas um — se Efremov já viveu, então seu espectro ainda está por aí. Ah, que tesouro! Saber em primeira mão da chegada dos Descaídos... ter a informação original, não o que nos foi repassado pelos Primogênitos, que ainda ruminavam as mentiras de nossos pais!

Deposito mais uma generosa quantia de dinheiro na conta daquele sibarita marginal, na esperança de que feche sua boca gorda. Infelizmente, vou precisar colocar mais alguém nisso, se quiser chegar à verdade.

Quando se fala nos mortos, é impossível não se pensar nos Veneráveis...

As cartas paulinas continuam

CARTAS PAULINAS I: GARGANTUANAS

foi escrito por Renato Simões

Volte ao Universo Germinante

Rebelião 42: As Relações Perigosas


Cheguei há duas semanas na minha quinta em Sintra, e precisei de quase doze horas para regenerar meu braço e alguns cortes feios que fizeram com que meus Pitt Bulls Terrier não me reconhecessem. Quem fez aquela gárgula sabia o que fazia, e fez muito bem feito. Fica-me o gosto de saber que terá de fazê-lo outra vez, e a decepção de comprar novos cães. Alguma coisa me diz que não foi o velho Bolton quem preparou aquela surpresa para invasores — ele era um homem muito culto, mas jamais soube de um bruxo que morresse de infarto aos setenta e oito anos. Já vi Guardiães animarem enormes carvalhos como se fossem grandes constructos de madeira...

Não, estou ficando paranóico com a idade.

De repente sinto um movimento às minhas costas — ando o tempo todo com o Manifesto Radar em atividade, e assim sinto qualquer coisa à minha volta num raio de quinze metros; um pouco de paranóia é uma coisa sadia — e ataco com muita força usando um Ferrão Mental que seria capaz de matar um ônibus de mortais. Ele resvala em algum tipo de defesa psíquica e explode todos os vitrôs de minhas janelas. Alguns deles são mais velhos que eu.

"Por favor, Sr. Paulo, não estou aqui para brigar."

Giro displicentemente na cadeira em que estou sentado, ainda folheando um Liber Joannis Sapientiae e olho meu interlocutor. Devo acrescentar que estou irritado. Apenas uns poucos amigos visitam esta quinta, e em especial minha biblioteca, e este é um perfeito desconhecido. Olho seus olhos azuis e frios, sua coma negra bem penteada e presa em um longo rabo-de-cavalo. Ele está vestindo um terno preto Alencastri — sei porque é ele quem faz também meus ternos — e mantém suas mãos cruzadas à frente do corpo.

"V. Sª. invadiu o solar de minha família e levou alguns de meus livros — por favor, apenas deixe-me concluir — mas não é por isso que estou aqui". Seu português é muito fluente, e ele fala com um sotaque quase luso, mas percebo na inflexão de algumas consoantes que ele é britânico na verdade. Saxões, melhores de se lidar que eslavos e gauleses.

"A que devo sua visita, Sr..."

"William Charles Bolton. O cavalheiro cuja morte presenciou era um de meus netos, e o responsável por parte de meu acervo literário. Na verdade, os livros que estão em seu poder são cópias — não se preocupe, as fiz com apenas alguns meses de diferença em relação aos originais. O que me interessa nisso tudo, senhor, é sua pessoa".

Nos avaliamos com cuidado. Sua aura ondula mansamente como o mar sob um céu prestes a estourar em tempestade, e apesar de sua relativa tranqüilidade, os bloqueios mentais que mudam de configuração a todo momento mostram que ele está perfeitamente en garde e muito tenso. Ótimo, porque eu fico perigoso quando estou irritado. Não escondo meu poder, nem o mascaro: com um movimento de minhas mãos, os vitrôs quebrados se recompõem, ajustando-se aos seus lugares de origem nas janelas. Acho que nos entendemos, e cada um está na posição em que se pode manter.

"Continue, por favor, Sir Bolton."

"Quando se está sob este céu por muito tempo, uma coisa que percebemos é que a mudança é tediosa. Embora ela pareça dinâmica no calor dos acontecimentos, o distanciamento seguro de alguns séculos mostra que nada mais é que um mosaico que gira algumas vezes, mas continua o mesmo. O senhor esteve em Dublin, no Irish Eyes Pub, em 12 de abril de 1968, correto?"

"Sim, correto."

"Sei disso, com certeza, porque uma explosão matou todos os freqüentadores do bar naquela noite, à exceção de dois. E só sei que você sobreviveu porque eu estava preso nos escombros quando o vi afastar as pesadas toras em chamas. Com o olhar."

Até aqui, pensei que fosse algum investigador paranormal tentando parecer algo mais. Começo a mudar de idéia. Fui horrivelmente extravagante com os destroços do salão do pub pois achava que estava sozinho. Só uma testemunha ocular poderia saber que eu usei telecinese para me livrar das vigas.

"Procurei o senhor por muito tempo depois daquilo. Sem sucesso, é claro. Até que o senhor esbarrou em mim. Li as últimas reminiscências de meu guardião destruído, e o senhor pode imaginar que uma pessoa com os recursos certos poderia chegar até aqui."

"Sem dúvida, Sir Bolton. Contudo, embora esteja impressionado com sua habilidade, nada do que me disse esclarece seus objetivos, ou seu interesse em mim. Não é saudável interessar-se tanto pela minha pessoa — se o senhor teve recursos para me encontrar, certamente também tenho recursos para que ninguém mais o encontre, por isso, sejamos claros e diretos."

"Como disse, não estou aqui para lutar", ele fala com tranqüilidade. Não preciso mais provocá-lo. Se existe um coisa que aprendi em minha vida é que pessoas que não aceitam provocações são as mais perigosas. "Tudo o que quero, Sr. Paulo, é olhar para a multidão e ver, para variar, que outro rosto olha para mim com familiaridade. Os de minha casta geralmente não suportam a companhia uns dos outros, e a eternidade pode ser deveras enfadonha sem uma conversa decente e um pouco de brandy entre semelhantes. O que me diz?"

Um imortal solitário? Ele não é nefilim, e todos os meus sentidos místicos me dizem que também não é anjo ou demônio — de fato, não vejo qualquer conexão entre ele, Sheol e Shamaim. E pode haver vantagens...

"Se há uma coisa que não posso recusar, Sir Bolton, é brandy e um dedo de prosa. Algo mais?"

"Sim. Todos os livros que adquiriu em minha biblioteca são seus — considere-os um presente de cortesia — menos o Renatorum. Não posso correr o risco de que ele venha a cair em outras mãos. Além do mais, ele não tem qualquer utilidade para o senhor. Trago comigo outro item que talvez o interesse mais — eu o encontrei enquanto tentava achá-lo."

Um estojo de pergaminho surge sobre a mesa. O abro e sinto o cheiro familiar de mofo e velhice. Sou versado o bastante no reconhecimento destes itens para saber que ele é original, e deve ter uns cem anos. Pode ser a receita de bolo de um frade franciscano, ou pode ser algo decente, capaz de prender minha atenção. Isso está começando a ficar interessante.

"Certo", estalo os dedos e o Renatorum voa da estante até as mãos de Bolton. Mais um ponto para minha intuição: microfilmá-lo foi uma boa idéia. Ele acaricia o livro e sorri.

"Acredito que foi um bom primeiro contato, Sr. Paulo. Da próxima vez que nos virmos, que seja como convidados, e não invasores. Gosto do ar da Península Ibérica, por isso, talvez nos vejamos novamente em breve."

"Será um prazer."

Ele faz uma reverência sutil e desaparece em seguida, levando o Renatorum. Abro o pergaminho com cuidado, curioso em ver do que se trata. Alfabeto cirílico, caligrafia caprichosa. Parece russo. Outra vez, um idioma eslavo. Por que ele me trouxe este documento em língua bárbara? Saberia ele...

Não, certamente não. Não perderei tempo tentando achar alguém por aqui que possa traduzir isso — pelas suas insinuações, é bem provável que tenha algo a ver com as nove famílias. E conheço alguém perfeito para o trabalho. Por algum motivo, sinto que tudo isso vai além de mim... e não posso me furtar a por em movimento a roda dos acontecimentos.

Continua nas Cartas Paulinas

AS RELAÇÕES PERIGOSAS foi escrito por Renato Simões

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quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

Rebelião 18: O Alfarrabista


O velho está sentado numa confortável poltrona, folheando um livro antigo de capa verde. Pela janela, ele pode ver os bosque de árvores baixas que cercam a mansão. Uma leve neblina emoldura a típica paisagem inglesa. Jordan Bolton é extremamente zeloso com sua biblioteca, um legado secular que acompanha há várias gerações sua família. Existem pessoas que pagariam qualquer fortuna para ter algumas das obras raras que enfeitam suas prateleiras. Mas nenhum dinheiro do mundo faria os Bolton abrir mão de sua coleção.

Súbito, uma pontada dolorosa no peito, faz Jordan Bolton largar o livro, que cai no chão atapetado sem fazer muito barulho. A dor aguda o paralisa. Ele se contorce, tenta respirar, mas é inútil. O coração pára de bater.

A mancha de luz que o luar projeta na parede agora delineia a silhueta de um homem. Ele paira no ar, observando o quarto com atenção. Seus pés finalmente tocam no tapete, ele se inclina sobre o corpo do velho, pegando o livro caído com muito cuidado.

- Que ironia. Morrer justo agora, quando era eu quem devia matá-lo.

Folheia carinhosamente o livro, abrindo um largo sorriso de avidez. Aumenta a intensidade do foco da luminária, apontando-a para a estante mais próxima.

- Isto é um verdadeiro tesouro!

Títulos de obras raríssimas lhe saltavam aos olhos: Opus Renatorum, a versão latina da obra do feiticeiro bizantino Anastasios Morea, autoproclamado descendente de Simão o Mago, sobre seus encontros com membros de sociedades místicas; o fantástico Signa Geminorum, uma compilação de fórmulas alquímicas tão secretas, que os autores, os irmãos Ludovic e Eliézer Cordeleon, inventaram um silabário hieroglífico para escrevê-lo; De Malitia Versipellium, uma descrição pormenorizada dos Versipelles feita pelo enigmático ocultista castelhano J.X.L.; Daemonarchia Sotonae, uma compilação minuciosa dos demônios do Nono Círculo feita pelo pervertido monge inglês Alanus Amauricus; a obra-prima do alquimista português Tristão d’Oliveira, o De Arcanis Olivariae; Bellator Triumphans, um conto apócrifo atribuído ao centurião romano Numa Servilius Tardus. Em suas mãos, o livro de capa verde era o divertido Viagens de Vittorio dei Santi, um frade italiano que descreve as estranhas criaturas que encontrou em sua peregrinação à Terra Sagrada.

Paulus desembrulha uma manta plástica, e embrulha cuidadosamente suas mais novas aquisições. Sai flutuando do mesmo jeito que entrou, dirigindo-se suavemente na direção da estrada que margeia a mansão dos Bolton. Já está pensando na glória que o espera como recompensa pelas inestimáveis “aquisições”.

Se ele olhasse para trás neste momento, veria que uma das gárgulas do telhado está seguindo-o com os olhos de pedra. E sorrindo.


O ALFARRABISTA foi escrito por Simoes Lopes

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Rebelião 15: Vaidade


Com pouco esforço elevo-me cerca de 30cm do chão. Concentro-me mais um pouco e eles se tornam 30m. Abaixo de mim, Günter sorri com satisfação. Ele é um suíço dos Alpes, e fala um dialeto obscuro do alemão carregado de sotaque. Se não fosse por um Manifesto que descobri recentemente, Gnose, que me permite absorver conhecimentos alheios por um curto período de tempo, até mesmo nossa comunicação seria impossível. Eu odeio esta língua bárbara de fonemas aspirados, cheia de grunhidos guturais.

E odeio a inocência imbecil e meio selvagem deste Guardião.

"Aprendi com você, e você comigo. Poderei copiar sua Bíblia esta noite?"

"Claro, assim que acrescentar estes Manifestos e a forma como desenvolvê-los. O que acha de chamarmos este de Dom de Simão?"

"Hmm... é adequado. Simão é o mago que levitou, certo?"

“Sim.”

"Sabe, vê-lo aqui... já faz algum tempo desde que vi um nefilim pela última vez. Achava que estava sozinho... e agora saber que as Linhagens estão organizadas, que estamos estabelecendo formas de contato no mundo todo. É realmente fascinante!"

"Sim, é." Este selvagem me entedia. Graças aos Triarcas os Guardiães não têm uma organização séria.

"Mas fale-me de sua Linhagem. Já ouvi falar de vocês... Precursores. Adotam nomes latinos e são muito formais... querem romanizar-se?" — ele acrescenta isso com um sorriso que, imagino eu, deva achar divertido. Acho patético.

"De certa forma. Gostamos do espírito romano, de seus ideais de força e civilização. Achamos que é esta nossa missão."

"Criar uma civilização para os nefilim?"

"Não. Os nefilim não precisam de civilização — eles já têm poder. A civilização é, principalmente, para os fracos e selvagens. Animais, em geral, precisam ser pastoreados." Meu interlocutor pareceu não gostar muito de minha última observação, visto viver entre estes homens de barro.

"Pastorear as massas através da força. Um conceito darwinista um tanto gasto e repetitivo, não acha?"

"Acho, mas apostamos em idéias que funcionam. Somos pragmáticos, a originalidade é para Paladinos."

"E a diplomacia, para Visionários." — ah, finalmente uma fagulha de espírito! Talvez, se o provocar por, digamos, uns trinta anos, surja um nefilim forte do fundo dessa casca humana indulgente.

Mas nós, é claro, não teremos este tempo.

"Você então não viaja com os Escribas — é esse o nome, não? — aquela Congregação que está catalogando os Manifestos?"

"Não... mas pretendo apresentar-lhes o meu trabalho. Gostamos de ser úteis."

"Ou da fama. Imagino que em alguns anos seus nomes serão venerados e respeitados entre os mais jovens de nossa espécie." Eu teria dito nossa estirpe, mas não espero muita sutileza de meu primo pobre.

"Creio que esta seja uma conseqüência do que fazemos. Nossa intenção real é fortalecer a coletividade."

"Nem todos vocês são latinos, não é mesmo? Vocês é que escolhem seus nomes?"

"Não, nem todos somos latinos — há asiáticos, saxões e mesmo ameríndios entre nós — e sim, escolhemos nossos nomes. O Primaz chama-se Aurelius em homenagem ao autor das Meditações, um imperador que ele muito admira."

"Paulus... a quem está homenageando? Não me lembro de um imperador com este nome." Hmm, devo dizer-lhe? Normalmente isso seria perigoso... mas a tentação é grande. E acho que ele é obtuso o bastante para que a idéia não lhe ocorra logo.

"A São Paulo, é claro. Ele é provavelmente o homem mais inteligente do Novo Testamento."

"Ora, por quê?"

"Ele, judeu e cidadão romano, caçava os cristãos — até matou Estevão apedrejado — mas, veja bem, com o tempo ele percebeu que só matava vasos. O conteúdo é que era importante, e não se mata idéias com pedras."

"E o que há de admirável nisto?" A conversa está ficando complexa demais para ele que, maçado, se senta e começa a folhear meu exemplar da Bíblia.

"Ora, como não podia matar a idéia, ele se apossou dela. Ele transformou uma meia dúzia de preceitos simples numa religião-filosofia que controla a vida de uma boa parte do mundo, hoje. Sem Paulo de Tarso, não haveria o cristianismo como o conhecemos."

"Ah, sei." Já nem está mais me ouvindo. Tão fácil que chega a ser doce.

"Gosto de sua forma de pensar... ele não procurou originalidade, mas soube manipular o caminhar dos eventos a seu favor, e hoje é um santo. Veja só, de assassino a apóstolo, de pecador a precursor venerado da religião de meio mundo!"

"Há, há, então acho que agora é hora de você apedrejar Estevão e tornar-se apóstolo! Muito boa essa, não é, Paulus?"

"Paulus…?"

VAIDADE foi escrito por Renato Simões