quarta-feira, 26 de dezembro de 2007

Maytréia 15: Dominó


O lugar era pequeno e mal iluminado, mas estava fervilhando de pessoas. Diversas garotas seminuas circulavam por entre as mesas de plástico, enquanto outras dançavam num palco improvisado tirando a pouca roupa que lhes restava. Homens de todas as idades e aparências amontoavam-se em locais apertados à espera de seus “presentes”.

Clemente e Juliano entraram sem serem notados, devido ao amontoado de homens que praticamente interrompiam a passagem de quem se dirigia ao bar. Era a primeira vez de Juliano, muito mais jovem do que seu mestre, que neste momento estava pedindo uma dose dupla de whisky com muito gelo ao barman.

Clemente olhou para o seu copo com um ar meio desapontado, enquanto conduzia seu aprendiz para uma das cadeiras mais próximas à uma das poucas janelas.

— Este é paraguaio legítimo — dizia Clemente, enquanto mexia as pedras de gelo com a ponta dos dedos. Coçou o bigode branco-encardido, e averiguou com muito cuidado o local onde estavam.

— Juliano, eu vou precisar de sua total atenção — era a voz do homem grisalho, pousando a mão pesada sobre o ombro ossudo do rapaz, enquanto transmitia-lhe instruções telepáticas. — Este é o maior antro de prostituição infantil do litoral. Estrangeiros de todas as partes do mundo vêm aqui para se divertir “turisticamente”. Não estou me referindo a adolescentes de dezesseis, dezessete, não. Não estou falando de maioridades de normas escritas. Estou falando de exploração e escravização de crianças. Aquele sujeito ali junto à entrada, bem alto vestido com a camisa florida, é o responsável por um negócio absurdamente lucrativo. Existem garotas de até dez anos aqui, mas estão escondidas nos andares de cima.

O rapaz esfregou o suor que escorria abundante pela testa e pelos cabelos ruivos e espetados, e lançou um olhar dissimulado para as escadas. Duas garotas com roupas coloridas e bem curtas riam de mãos dadas com um homem gordo de olhos azuis, com cara de estrangeiro.

— Estamos aqui para lutar? Como...

— Acalme-se, nossa luta não é física, você está cansado de saber. Vim aqui para ensiná-lo o controle das emoções. As pessoas por aqui estão tão exauridas de seus verdadeiros potenciais humanos, que tornam-se muito vulneráveis a ataques externos — explicava Clemente, ainda de forma telepática. — Você ainda não está preparado para usar este tipo de shiddi, mas eu agregarei sua força à minha, e você irá me auxiliar no meu ataque.

Clemente fechou os olhos por um bom tempo.

Neste momento, uma menina morena de cabelos oxigenados aproximou-se languidamente de Juliano, oferecendo-se. O rapaz pediu para que ela o esperasse no salão ao lado. Ela saiu, sorridente. Ela não devia ter mais que treze anos.

“A miséria humana é muito maior do que nossos meios de combate, mas podemos pelo menos remediar atuando aqui e ali”, eram as palavras de mais uma vez Clemente reverberando na mente de seu pupilo.

O homem grisalho ajeitou a camisa marrom, e inspirou profundamente mais uma vez. Seus olhos agora pareciam os de um leão espreitando a caça. Ele expandiu sua consciência a fim de vasculhar o território.

Numa das mesas, uma menina mostrara claramente um certo ar de repulsa ao homem no colo do qual estava sentada. Ele estava com uma das mãos por dentro de sua blusa, e com a outra esfregava a perna fina da prostituta. Clemente focalizou-se nela, e captou toda a mistura de ódio, repulsa e humilhação que habitava naquela mente. Havia localizado o ponto de partida.

“É como peças de dominó”, explicou mentalmente para Juliano.

Todo o sentimento de repulsa e nojo que a moça nutria por seu “cliente” aflorou como um vulcão em erupção. Ela tentou desvencilhar-se de seu aperto, mas foi segura. A repulsa foi dando lugar ao ódio, cada vez mais intenso, e ela deu um soco no rosto do homem, um policial aposentado de uns sessenta anos.A insistência dele em não largá-la foi premiada então com uma garrafada na cabeça.

Gritando de dor, o homem levantou-se esbravejando, no que Clemente disse a seu ajudante: “Veja como o ódio é moldável!”

O iniciado sentia a raiva como ondas fluindo de um mesmo ponto. O homem começou a derrubar tudo que via no caminho, correndo atrás de sua “pombinha”. No rastro de destruição, os sentimentos eram variados, mas começava a crescer o descontentamento. Um rapaz alto de nome Morildo, possivelmente um dos seguranças do lugar, veio em socorro da moça. Clemente captou os sentimentos turbulentos do policial, e a intervenção de Morildo ofendeu-lhe.

“Eu paguei por ela seu negro safado”, gritou o cliente, e o racismo embutido funcionou como mais combustível ainda para o acirramento dos ânimos. Clemente pode com facilidade insuflar a repulsa mútua entre os dois, e em poucos segundos, Morildo já havia derrubado o outro com um murro violentíssimo. Mas o aposentado, que agora todos ouviam chamar-se Lindimar, tinha alguns amigos ali no bordel, e eles vieram em sua defesa.

A pancadaria tornou-se generalizada. Foi muito simples controlar as emoções num ambiente que atraía pessoas com tantos problemas e frustrações reunidas. Quando privado dos meios necessários para a Evolução, o animal humano só consegue descer à degradação cada vez mais aprofundada, como se fosse um buraco negro.

As meninas corriam dali, com um sentimento genuíno de medo, que pôde ser potencializado sem grande esforço. Em boa parte delas, o sentimento de ojeriza foi tão enfatizado, que dificilmente retornariam àquela vida.

Punhos chocavam-se contra cabeças, chutes partiam costelas, e algumas armas já estavam sendo disparadas. O caos era geral.

Alheios à correria geral, Clemente e Juliano continuavam sentados num dos cantos, agora protegidos pela escuridão, depois que as duas lâmpadas que os iluminavam haviam sido estilhaçadas.

Juliano demonstrava uma grande satisfação em seu sorriso. “Estamos conseguindo, vamos acabar com esse lugar”, era a mensagem que seu mestre podia captar em sua mente desenvolvida.

— Não, Juliano, não há nada por comemorar — ela agora falava com os próprios lábios. Seu ajudante não entendeu a inesperada reação do mestre.

— Como assim? Mas eles...

— Lugares como estes existem às dúzias, e sempre existirão, enquanto houver clientes dispostos a usufruí-los. Enquanto não houver uma conscientização do ser humano, haverá terreno fértil para florescer a exploração, a degradação e a escravização.

— Então, para que estamos aqui, se não podemos vencer? — perguntou Juliano, decepcionado.

— Para mostrar que estamos aqui, agindo. Mesmo que o inimigo seja mil vezes mais poderoso, continuaremos lutando. Mesmo que a fera seja grande e poderosa, ela vai sentir o incômodo das picadas das pulgas.

Tiros ecoavam pelo lugar.Um deles ricocheteou bem atrás de Juliano. O dono do bordel já estava caído no chão, morto, assim como muito dos clientes. O som de sirenes já podia ser ouvido muito distantes ainda.

— Vamos embora, mestre, já está tudo concluído — pediu Juliano, em tom de súplica.

— Não. Deixe eu terminar o whisky antes.

E bebeu mais um trago, calmamente.


DOMINÓ foi escrito por Simoes Lopes

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