Mostrando postagens com marcador Danilo Faria. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Danilo Faria. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 7 de janeiro de 2008

Rebelião 40: Consulta


Anderson e seu novo companheiro aproximavam-se da porta. Parecia uma casa como outra qualquer no bairro, com seu muro alto e gradeado, um pequeno jardim na frente e sua varanda que se mostrava bem aconchegante ao se perceber a rede pendurada nela. Antes de tocar o interfone, Anderson avisa:

“OK, garoto... fique firme do meu lado e não precisa se assustar, certo? Você está para ver algo que não é muito comum... a não ser que seja do elenco de filmes como “Os Outros” ou “O Chamado”... Ei! Não arregale os olhos assim: você é um Nefilim, certo? Um “Filho de Decaído”, um ‘Híbrido’ ou qualquer outro epíteto idiota que tenhamos inventado para nós mesmos. Além do mais, você está sendo treinado pelo titio Anderson aqui, o que é a maior garantia que você poderia ter... acho.”

Ignorando a expressão apavorada no rosto do neófito; Anderson toca o interfone. Enquanto espera pela resposta dá uma piscada de olho para ele. Finalmente, no interfone, uma voz masculina de timbre forte ressoa:

“Anderson, seja bem vindo, a Pitonisa o espera...”

“Beleza...” Anderson se vira para o garoto. “O bom de visitar gente como a Pitonisa é que não precisamos marcar com antecedência.”

O interfone é desligado e a sirene toca no portão; seguido de um estalo e um ligeiro afastar da porta. O jovem aprendiz observa que a segurança é bem disfarçada, mas intensa: câmeras de segurança, cercas eletrificadas e cães ajudam a evitar visitas indesejadas. Anderson, como que adivinhando o pensamento dele, fala:

“É meio paradoxal essa coisa de tanta segurança moderna num lugar que – por dentro – lembra a casa da família Adams. Mas, acredite, nada melhor que misturar a velha e boa magia com a tecnologia para esse tipo de coisa.” Depois, murmura baixo: “Se bem que para quem é bom mesmo isso não adianta nada...”

Eles entram e o aprendiz passa a entender melhor o que Anderson quis dizer. Lá dentro, a simpática casa se transforma. Com uma escuridão reinante em todo o local, o ar se torna mais frio. Coisas pareciam se mexer na penumbra mas o jovem somente conseguia vê-las com o canto dos olhos. Outras pareciam sussurrar e arrastar pelas paredes, como se vivessem num universo em que a gravidade as jogava para os lados ao invés de para o chão. Um homem negro, enorme e de olhar assustador, os recepciona com um ar nada simpático:

“Anderson...”

“Adebise!” Sorri amplamente Anderson. “Como vai? Garoto, este é o Adebise...”

“Meu nome não é Adebise...” ruge ele “... você sabe muito bem...”

Anderson se volta para ele: “Mas você nunca me disse o seu verdadeiro nome! Qual seria?”

A mudez do homem amplia a sensação de desconforto no local. Anderson parece não ter notado. Vira-se para o jovem e solta uma piscadela.

“Viu? É o que eu disse: Adebise.”

O jovem aprendiz poderia jurar que por fora a casa não parecia tão grande. Seguindo por corredores e mais corredores, todos entremeados de celas de onde saíam as cores e sons mais estranhos pelas frestas das portas (alguns sons lembravam gritos de quem estava sendo torturado, outros uma canção como a de várias sereias... ele não sabia o que seria mais assustador) eles entram num amplo salão dominado por uma luz vermelha. Em meio aos detalhes de correntes penduradas e o cheiro desagradável de animais e sangue seco, o aprendiz percebe ao fundo uma enorme estátua deformada de um ser com corpo de homem e a cabeça de uma mosca. Ele começa a tremer e sussurra baixinho:

“Oh, meu Deus... isso aqui é um templo de magia negra...”

“Claro que é!” Diz Anderson, também baixinho (mais para mostrar respeito que para tentar esconder algo) “O que você esperava? Uma reunião de vendedoras da Avon? Aliás, se me permite um conselho, evite a expressão que acabou de falar enquanto estiver aqui, ok?”

“Mas estamos perdidos... é um lugar de magia negra!”

“Sim, sim, eu já sei. Não sou tão burro. Mas... e se eu te dissesse que conheço lugares que dizem servir ao ‘cara lá de cima’ que são mais assustadores do que aqui?”

O garoto olha para ele com um ar de descrédito. Anderson olha para ele enviesado:

“O que é? Eu tenho cara de alguém que brinca com isso?”

Neste momento, o garoto percebe que das sombras abaixo da assustadora estátua, uma silhueta começa a se formar. Parecia uma mulher envolta em véu de noiva, só que era uma noiva vestida de vermelho. O homem corpulento que os havia acompanhado até aquele momento faz uma mesura respeitosa. Debaixo do véu vermelho que escondia o seu rosto, uma voz que parecia a de três mulheres falando ao mesmo tempo se pronuncia:

“Olá Anderson... seja bem vindo.”

Anderson, também faz uma mesura e o neófito fica sem saber se era de deboche ou não.

“Pitonisa... creio que não preciso apresentá-la ao meu parceirinho aqui...”

A estranha figura parece ignorar o comentário.

“Meu noivo ainda deseja conversar com você pessoalmente, detetive.”

“Eu agradeço o interesse, mas prefiro não ter sócios.”

“Você seria livre, Cria dos Traidores. Não haveria Danação para você...”

“Claro, claro...” se vira para o jovem apavorado “aposto que ele diz isso para todos” volta-se novamente para a Pitonisa “...me dê mais alguns séculos para pensar, ok? Vamos ao que viemos fazer aqui.”

Enquanto dizia isso, Anderson se aproximava lentamente da Pitonisa. Com medo de se afastar de seu Tutor, o Neófito o acompanhava em seu movimento de maneira quase inconsciente. Conforme foi se aproximando, ele percebeu um outro vulto deitado próximo da figura de véu. Parecia um garoto de uns 5 anos encolhido, dormindo. Neste momento, Anderson comenta:

“Cresceu o garoto...”

“Ele ainda não definiu sob que sexo virá...” respondem as três vozes em uníssono “... talvez seja um casal de gêmeos.”

“Que lindo! Me avise com antecedência para o presente do chá de bebê... vamos ao que interessa agora?”

A figura no véu deixa sua cabeça cair para trás, inspira profundamente e – de repente – joga a cabeça para frente de novo, como se estivesse em transe. O jovem começou um princípio de convulsão, com o corpo completamente dominado pelo medo. Mas seu descontrole completo viria com o que acontece a seguir.

Inesperadamente, o garoto que parecia dormir salta para frente e flutua no ar. Seus olhos se abrem e ele começa a falar. Dos orifícios de seu rosto, uma luz espectral avermelhada dança para fora como chamas bruxuleantes. Era como se ele tivesse lava ao invés de órgãos dentro dele. Sua voz ressoa como um trovão rouco, vindo do fundo de um abismo sem fim. Seu corpo permanece esticado e tenso, como se estivesse preso por correntes invisíveis.

“Preste atenção, Cria dos Traidores, pois eu só direi uma vez...”

O jovem aprendiz começa a gritar desesperadamente para sair dali. Seu corpo estava em convulsões profundas e ele chorava descontroladamente. Anderson suspira e solicita ao homem que os acompanhava:

“Acho melhor que ele saia...”

Com um sorriso que era uma mistura de pura zombaria com autêntica crueldade, o homem encaminha o jovem para uma porta lateral. Quando se vê na varanda, ao lado da rede que balançava placidamente com o vento, o jovem começa a vomitar e agradecer aos céus por ver a luz do dia de novo...

Lá dentro, o recado é dado. Como sempre, de maneira dúbia; pois não se recebe a ajuda do demônio sem que ele tenha alguma vantagem por trás disso. Ao se terminar, Anderson fala:

“Bem, agradeço. Creio que o pagamento será o mesmo de sempre...”

“Não desta vez...” diz a voz tripla da Pitonisa novamente “... este é um caso especial, como você bem sabe!”

Anderson não gostou nada do que ouviu. Ele deveria ter perguntado antes, mas a presença do garoto o distraiu destes detalhes. Após um suspiro profundo, ele pergunta:

“Ok, ok. Eu fui um mané. Qual seria o pagamento então?”

“Isso já está sendo providenciado..”

O garoto levitando sorri. A Pitonisa retira o seu véu, olha para Anderson e sorri também. Anderson se controla para não sair balbuciando e chorando também como o garoto com o que vê. Apenas diz:

“Cacete! Me tira logo daqui... não me faça passar vergonha na frente do garoto!”

* * *

Já na rua, Anderson conversa com o garoto mais suavemente.

“Tudo bem?”

O Neófito sacode a cabeça afirmativamente, mas meio que relutante.

“O que era aquilo?”

“A Pitonisa? Dizem que era humana, até que ficou noiva. Na verdade alguns dizem que eram três humanas e outros que era uma humana que se mesclou a outras noivas anteriores que morreram... o garoto é o seu filho, que nascerá ainda, após a consumação do casamento. Dizem que o casamento já está marcado, mas só os noivos sabem da data exata! Deve ser um festão. De qualquer forma, um dos ‘presentes’ de seu noivo foi uma capacidade muito especial de saber das coisas que acontecem e acontecerão...”

“E... e quem... é o seu noivo?”

O Nefilim mais velho olha para o mais jovem com um olhar de aviso.

“E você quer mesmo saber agora?”

Após olhar para seu Tutor, o jovem responde: “Não...” ele então sorri “... não. É melhor ficar nisso por enquanto.”

Anderson se sente melhor; era hora de outra piada para relaxar um pouco.

“Ei, vamos! Assim eu vou ser obrigado a dizer ‘você está demitido’, pô!”

O garoto olha para ele, esperançoso.

“Como assim? Eu posso deixar de ser um Nefilim?”

Anderson revira os olhos.

“Tá brincando? Se isso fosse possível, quantos Nefilim você acha que existiriam? Acredite, ser demitido – para um de nós – é a pior coisa que pode te acontecer...”

“Como assim?”

“Puxa, você não entende uma piada? Eu to falando da Danação.”

O olhar incrédulo do jovem disse tudo.

“Você não sabe o que é Danação?” O garoto nega com a cabeça “Mas que saco de Congregação safada que não faz nada!”

Ele passa o braço pelo ombro do jovem.

“Certo. Eu vou te explicar; o que – tenho certeza – vai te apavorar mais ainda. Mas vamos fazer isso enquanto comemos... esse papo todo de magia negra dá uma fome danada.”

Ele dá uma piscadela para o jovem.

“Mas você é quem paga, certo?”

CONSULTA foi escrito por Danilo Faria

Volte ao Universo Germinante

Maytréia 31: O Terceiro Presente


Escrevo estas palavras sob o testemunho de Alá, o Misericordioso, aquele que esteve no Início e estará no Final dos Tempos. Sob sua grandiosidade, este humilde servo narra os acontecimentos que marcaram sua juventude e — a partir daí — sua vida.

Eu era um jovem e arrogante líder há trinta anos atrás. O nome de minha tribo era sussurrado pelos passantes no deserto com temor e reverência. Em nossas passagens, vimos o pôr-do-sol de diversas formas e o seu nascer nas mais diversas paisagens. Nada temíamos e todos nos temiam, e aos infiéis com palavras que nunca diziam o que demonstravam dizer garantíamos o castigo do Criador, pois eles ofendiam aos Seus olhos (que Alá seja misericordioso para com nossos erros!). Tudo e todos se afastavam ou se escondiam diante de nosso grito de guerra. Menos o deserto e o sol, estes eram perenes e imperturbáveis para com nossas ações. De vez em quando eles juntavam-se para mostrar que nada pode ser orgulhoso diante da Obra do Todo-Poderoso. Quando isto acontecia, o sol se impacientava e agitava aos ventos, que em sua fúria se juntavam ao deserto e tentava nos engolir. Estes eram momentos de orar e implorar pela misericórdia divina, pois não havia prepotência humana que se mantivesse diante da ira das areias que já engoliram cidades inteiras.

Na época em que narro estes acontecimentos a tempestade já durava dias. Ela estava à nossa frente, o que nos mantinha alertas mas confiantes, pois esta se afastava à medida que caminhávamos para o oásis que sempre nos recepcionava. O primeiro susto veio exatamente quando descobrimos que o oásis que sempre havia resistido às mais diversas intempéries estava desaparecido. Isso era uma notícia ruim e os primeiros sussurros sobre a ira de Alá ou de como Ele “nos havia virado a face” começaram a percorrer minha tribo. Eu precisava de exemplos e o primeiro dos meus guerreiros que surpreendi comentando isto recebeu as chibatadas que serviram de alerta para todos (já tinha ouvido crianças e mulheres comentando, mas não agi — elas não conseguiriam resistir e não podemos castigar alguém que segue sua natureza).

Viramos para o sol poente na tentativa de contornar a tempestade, que parecia não arrefecer, e encontrarmos outro oásis que estaria a mais dois dias de distância. Foi com grande alegria e alívio que chegamos nele e pudemos descansar.

Infelizmente, a tempestade mudou de direção e nos alcançou na primeira noite que lá estávamos.

Foi com um aperto no coração que acompanhei a mais terrível de todas as tempestades que enfrentei. Ela atravessou a noite e começou a se tornar difícil resistir aos seus desmandos. Minha favorita, Jade, sumiu naquela noite para nunca mais aparecer, engolida pela fome voraz do deserto. Parecia não haver ninguém na tribo que não tenha perdido alguém que amava naquela noite. Os sussurros sobre o castigo de Alá se tornaram gritos que se perdiam na noite dentro de gargantas que engoliam pó quando tentavam inspirar ar.

Foi a mais terrível das noites, que seria acompanhada pela mais estranha das manhãs.

Não acreditei quando acordei de manhã e vi que a tempestade nos cercava como um gigantesco colosso, uma muralha de cor ocre e cinza que nos isolava do resto da Criação. Parecia que o Todo Poderoso em pessoa havia resolvido nos intimidar, cansado das lições não aprendidas com os movimentos anteriores dos ventos e das areias. Achávamos que nosso fim viria quando aquela gigantesca muralha que desapareceu com o brilho do próprio sol desabasse sobre nós ou — numa visão mais assustadora — nosso isolamento permanecesse como um exemplo de até onde a arrogância humana pode irritar a Aquele que é eterno.

Só que quando a manhã passou, aconteceu a mais surpreendente das situações.

Um homem caminhava do deserto em nossa direção.

Imediatamente imaginamos que fosse um temível djinn, vindo nos tentar em nossas horas de pavor com plano de nos fazer virar as costas para o próprio criador com suas palavras macias de desejo e poder. Os homens se prepararam para o ataque. Não os culpo: eles precisavam descarregar suas frustrações e um homem surgindo do meio de uma tempestade parecia tentador naquele momento.

Mas algo em mim fez com que a ordem para que não atacassem fosse dada. Quando se aproximou de nós, o peregrino — que parecia tão seguro à distância — praticamente desabou aos meus pés e sussurrando me disse:

“Só existe um Deus...”

Não fugi da resposta:

“... e Maomé é o seu Profeta.”

E ele desmaiou.

* * *

Meus homens estavam divididos. Havia os que enxergavam um djinn no estrangeiro e achavam que deveríamos matá-lo, outros enxergavam um alquimista e pensavam no mesmo fim. Parecia que apenas eu ainda via uma possibilidade de que ele fosse apenas humano, com seus defeitos e qualidades. Não que ele merecesse confiança e não que eu não quisesse matá-lo; mas pelo menos ele morreria como um humano em minha consciência e não como um monstro ou um bruxo.

Sei que Alá me perdoará eternamente pela minha presunção. Eu era jovem então e achava que sabia de tudo, que teria todas as respostas. Confiava na força e na astúcia ao invés da inteligência e experiência. Acredito que o Misericordioso também protegerá aos meus homens e anciões. Afinal de contas, estávamos sendo duramente castigados e aquele homem demonstrava ter atravessado a mesma tempestade misteriosa e terrível que parecia bradar pelo nosso fim. Como não pensar que ele poderia ser um amaldiçoado com a presença eterna da tempestade? Como não desconfiar de que ele seria o responsável pela existência dela?

Quando a decisão foi tomada, ele já havia acordado. Eu o encontrei sentado no alto de uma duna, olhando pensativamente para a muralha que a tempestade formava. Assim que cheguei, ele me saldou respeitosamente mais uma vez:

“Eu lhe devo a minha vida, portanto acho justo que queira tirá-la. Se esse é o desejo de Alá, não me oporei.”

“Como já pode ter certeza da decisão?”

“E, por acaso, não falo com Ash-Sharrastani, o terrível líder desta tribo, aquele cujo nome é sussurrado pelos pais para assustar as crianças à noite? Não estou diante do maior de todos os defensores do Livro Eterno e Sagrado? Estarei enganado?”

“Não. Tu acertas.”

“Devo então deduzir que um destino diferente espera por aquele que surge repentinamente em meio a uma tempestade como nunca vista antes?”

E eu — que não temia homem algum — me senti um tanto confuso e intimidado diante daquele. Desviei-me da resposta:

“Posso então saber o nome daquele que me reconheceu e surgiu diante de minha tribo?”

“Djabir Ibn-Hajjan Gerber, um servo satisfeito do Criador Eterno.”

“Pode também me dizer como conseguiu sobreviver a esta tempestade? E como surge no momento em que ela assume uma forma jamais vista?”

“Eu sobrevivi até agora pelos desígnios do Criador Eterno. E, como me perdi de meus companheiros, não sei informar o motivo pelo qual surjo aqui exatamente neste instante. Que se pode saber dos desejos de Alá? Mas permita-me corrigir: como pode o grande líder ter tanta certeza de que esta tempestade é única?”

Naquele momento, eu me preparava para dar a sentença. Contudo, como se adivinhasse o que estava pronto para ouvir, ele perguntou:

“E por que razão pretendem me matar?”

“Os anciãos acreditam que você foi enviado por Alá como prova de nosso castigo eterno. E também acreditam que ao matá-lo estaremos provando ao Senhor de Todas as Coisas nosso arrependimento. Talvez nos liberte assim...”

Ele fica pensativo por um momento. Quando fala, carrega uma tranqüilidade que vi em poucos homens conscientes do seu fim:

“Estranha lógica. Como saber se na verdade fui enviado para salvá-los? E que, ao me matar, não estarão matando a salvação?”

“Ou que não fará a menor diferença para a tempestade a sua morte?”

Ele me observou com suas órbitas brilhando dentro da face. Não demonstrou, mas parecia bastante satisfeito. Não sei o motivo, mas a mim pareceu naquele momento que ele estava mais satisfeito com a minha percepção do que ocorria do que com o fato de que isso lhe daria uma chance de sair vivo. Na verdade, ele me parecia alguém capaz de escapar tranqüilamente de qualquer tentativa de nossa parte para destruí-lo. Então, ele entrou com um assunto que me pareceu estranho à época:

“Sabe, a Criação de Alá tem muitos reinos. Alguns nós visitamos durante os sonhos. A maioria da humanidade não sabe, mas batalhas gloriosas e horríveis pelo destino dela ocorrem neste lugar. Em alguns momentos raros, a tempestade provocada por estas batalhas pode tocar o nosso mundo...” Olhou sério em minha direção. “... talvez isso tenha acontecido agora.”

Eu retruquei da maneira mais suave que pude:

“E alguém que luta por nós pode se ferir e cair de volta em nosso mundo, não é mesmo?”

Ele ficou em silêncio por um longo tempo. Sabia que o que me dissesse poderia afetar a minha decisão.

“Existem batalhas pelas quais vale a pena lutar.”

E sentamos em silêncio, olhando a assustadora muralha que se erguia e urrava a nossa volta. Então, tive um lampejo e perguntei:

“E por quê o trabalho de proteger uma simples tribo do deserto?”

Ele se permitiu um sorriso.

“Porque toda vida é sagrada. E porque alguém pode ter um papel a cumprir... apenas Alá sabe.”

Minha decisão estava tomada.

“Da necessidade de algumas batalhas, eu entendo. Parta com a benção de Alá. Não poderei mantê-lo aqui, mas acredito que você saberá como evitar a tempestade melhor do que nós.”

Ele sacudiu a cabeça afirmativamente.

“Que o Misericordioso lhe abençoe por isso. Mas não terei sido um bom convidado se não lhe presentear e acordo com sua hospitalidade...”

Tirou um anel de ouro que carregava no dedo e me entregou.

“Espero que me permita a ousadia de lhe passar um pouco de minha parca experiência. Não sei se este presente lhe tornará a vida melhor... mas com certeza fará com que saiba se portar em todos os momentos.”

Olhei a inscrição no anel:

TUDO PASSA.

Quando me voltei para ver meu interlocutor, este apenas se levantou e me disse:

“Apenas Alá é Onipresente... aceite isso e serás feliz.”

E ele se foi.

* * *

A tempestade terminou naquela tarde mesmo. Simplesmente se desfez no ar. Para minha tribo, contei que o misterioso homem havia desaparecido e deixado o anel no lugar de seu desaparecimento junto com a promessa de que a tempestade acabaria e que Alá nunca deixou de olhar por nós ou por qualquer de Suas criações.

Desde então, sonhei muito com batalhas onde inimigos de Alá e da humanidade tentam a qualquer custo nos escravizar. Em meus sonhos mais angustiantes, vejo quando estes inimigos ganham; com a Criação em pedaços e com seus vencedores devorando uns aos outros pelos espólios da guerra. Nos mais tranqüilizadores, a vida floresce e seguimos para mundos paradisíacos dominados pela fartura e fraternidade.

Por duas vezes vi meu amigo — um amigo de breves instantes, é verdade — lutando bravamente pelo que acreditava ser um mundo melhor. Numa das vezes, ele se virou para mim e sorriu de uma forma que não vi quando em nosso mundo.

Hoje, minhas idéias são debatidas com fervor que a transitoriedade provoca. Sinto-me tranqüilo. Mesmo estas idéias passarão um dia. Hoje sei que tudo o que tem início tem um fim.

E agradeço a sabedoria do Supremo por isso.



O TERCEIRO PRESENTE foi escrito por Danilo Faria


Volte ao Universo Germinante

Maytréia 27: O Segundo Presente (baseado em uma história hindu)


Hira era linda. O frescor e tom de sua pele, os movimentos suaves que tentava esconder e os olhos rasgados lhe impregnavam de uma sensualidade estonteante para os homens. Mas, infelizmente, ela considerava isso um fardo, pois seu objetivo era alcançar o Nirvana. Hira era uma monja.

No Budismo que ela seguia, o desapego aos acontecimentos era o elemento essencial, poderia se dizer que era a raiz da doutrina. E Hira dominava bem seus sentimentos e pensamentos. Conseguia penetrar nos âmagos mais profundos dos recessos sem fim daquilo que sua mente ilusoriamente era.

Contudo havia um acontecimento que definitivamente a perturbava: Hira não podia ir à feira, pois todo o seu controle perdia-se lá. Sua beleza sempre provocava comentários e gracejos pouco educados dos feirantes locais. Era exatamente nestas visitas à feira que ela ficava perturbada a ponto de maldizer sua própria beleza. E seu Mestre constantemente a selecionava para fazer as compras. Apesar de suas tentativas de fugir do serviço, raramente ela conseguia evitar ser selecionada para este — pelo seu ponto de vista — torturante trabalho.

E, naquele dia, não foi diferente. Ela realmente esperava ser aliviada daquele tormento naquele dia em especial, pois acreditava que talvez seu Mestre pudesse considerar que ela não precisava daquela provação naquele dia especificamente, pois, afinal de contas, era seu aniversário. Ela não costumava se apegar a estas datas, mas secretamente admitia que se sentia melhor com a idéia de que este fator pudesse ser considerado e um alívio concedido.

Portanto, foi com o coração apertado que ela se retirou do templo e desceu um pedaço da encosta para fazer as compras. Para piorar, seu Mestre a enviou sozinha desta vez, com a desculpa de que precisava do seu irmão que sempre a acompanhava para outra tarefa. Pelo menos as compras eram poucas e a visita seria rápida.

O principal elemento de descontentamento para Hira nas idas à feira era um feirante em especial. Sempre suado e cheirando pessimamente, com uma aparência cruel e profundamente mal educado, ele costumava ser o portador das observações mais grotescas a respeito da beleza de Hira e do que faria com ela se esta assim deixasse. Além disso, costumava ser aquele que instigava os outros feirantes próximos com as piadinhas sujas que soltava.

E lá estava ele. E lá estavam as suas gracinhas. E lá estava sua aparência repugnante. Só que havia dois elementos novos: Hira estava mais sensível devido ao seu aniversário e ele tentou tocá-la.

Como já é de certo conhecimento geral, um monge oriental segue um certo padrão que difere bastante dos monges ocidentais. Não vamos nos aprofundar aqui, mas um deles é que eles aprendem defesa pessoal. E costumam aprender muito bem...

Quando o feirante tenta tocar em Hira, ela vira-se e agarra sua mão torcendo o pulso. Enquanto o feirante engasga e retorce o corpo automaticamente na tentativa de evitar a dor que o ângulo estranho de sua mão provoca, Hira o atinge violentamente com um pontapé no queixo. O movimento e o barulho da mandíbula deslocando imediatamente chama a atenção de todos em volta. Em meio ao desespero provocado pela dor e a humilhação de estar apanhando de uma mulher, o feirante tenta alcançar uma faca em sua barraca, mas é impedido pelo pulso que ainda se encontra torcido nas mãos de Hira. Esta, quando percebe a intenção do feirante o atinge com outro chute violento, desta vez no peito... e solta a mão dele.

A mistura do golpe com a perda repentina do apoio no pulso — mesmo que dolorido e retorcido — fez com que o homem caísse por sobre a própria barraca, derrubando a mercadoria no chão.

Hira então olha ao redor. Todos a encaravam com temor (será que ela também via uma reprovação em seus rostos?). O feirante usava a mão que ainda não doía para levantar na direção dela, a mão espalmada e o rosto apavorado indicando que para ele chegava.

Então, a noção de tudo o que havia feito caiu como um raio em cima dela.

Imediatamente, surgiu em seus olhos uma enorme vontade de chorar. Ela controlou ao máximo esse ato e se retirou dali, sem comprar nada.

Ao chegar no templo, ela percebe que o irmão de seu Mestre se encontrava em visita, o que aumentou sua vergonha em ter de explicar o que aconteceu. Quando este perguntou a ela onde por que não trouxera as compras, ela perdeu completamente o controle e se pôs a chorar. Seu Mestre lhe chamou a atenção severamente e mandou que ela se retirasse para meditar, que só retornasse quando estivesse devidamente equilibrada.

E mais uma vez ela se retirou, amaldiçoando sua beleza.

* * *

Quando ela se sentiu equilibrada o bastante para falar com seu Mestre, percebeu que o irmão deste ainda se encontrava lá. Era um caso interessante esse do seu irmão, pois enquanto seu Mestre se tornava um seguidor do Budismo, seu irmão era Hindu. E, no entanto, eram extremamente amigos. Hira sempre se perguntou como eles conseguiam conciliar os dois pontos de vista diferentes e viverem harmoniosamente.

Certa vez ela ouviu outro monge comentando que eles não eram irmãos de sangue (apesar de que, para Hira, assim pareciam), mas que por serem ligados a “coisas maiores” tinham uma ligação de irmãos. Outro dia ouviu um deles comentando sobre serem Alquímicos Shudras e uma reunião na Loja ou uma conversa parecida.

Talvez isso explicasse sua união ou talvez não. Mas, para Hira, a presença do irmão de seu Mestre sempre era seguida de uma certa expectativa, pois percebera há algum tempo atrás eles conversando sobre como ela poderia se tornar uma postulante a alguma coisa.

E, para sua vergonha, era seu aniversário e ela havia perdido o controle.

Mas, quando o seu Mestre a viu equilibrada novamente e pronta para a bronca, este apenas sorriu. Meio que sem entender direito, Hira recebeu um bastão de presente de aniversário, indicando sua passagem de grau. Seu irmão, também sorridente, falou primeiro: “Feliz aniversário”.

“Obrigada, senhor...”, responde ela, ainda encabulada. Virando-se para seu Mestre, ela começa: “Mestre, estou aqui para...”

Ele a interrompe com um gesto de mão.

“Você está aqui para ganhar seus presentes de aniversário!”, ainda sorrindo, ele mostra o bastão para ela. “Pedi que seu irmão — que normalmente lhe acompanharia até a feira — para fazê-lo. Há muito amor nele.”

“Obrigada.”

“Mas creio que devo pedir desculpas pelo meu comportamento de hoje...”

“Não precisa. O feirante já a perturbava a muito.”

Surpresa com o fato de que seu Mestre sabia o que ocorria ela olha para ele. Seu irmão continua:

“E ele merecia uma surra muito tempo.”

Aquilo a deixou ainda mais surpresa, ela não havia ainda contado nada para ninguém. O irmão de seu Mestre continuou:

“Fiquei gratamente surpreso ao descobrir seu aniversário, mas nada trouxe... o que declinaria uma falta de educação. Portanto, com a permissão de meu irmão escrevi meu presente no seu bastão.”

Tão atordoada estava ela que não havia percebido que existia algo escrito no bastão. Ela o vira e então lê.

ONIPOTENTE SÓ BRAHMAN. NÃO CULPE, ATUE.

Lágrimas começam a embaçar seus olhos. Ela recupera o controle e percebe que eles ainda mantinham o sorriso (seria de sua tentativa patética de se controlar?). Seu Mestre então fala:

“Por que culpar a sua beleza? E por que culpar o feirante? As experiências da vida são para serem vividas. Não culpe ninguém nem a si mesma... apenas viva.”

Ela sentia uma vontade terrível de abraçar aos dois, e como se lessem seus pensamentos eles a envolvem em um grande abraço. Ela chora baixinho um pouco, com o alívio do peso da culpa saindo de seus ombros.

“Vamos comemorar o seu aniversário...”, diz seu Mestre, “... e amanhã você irá a feira de novo.”

Diante do olhar dela, ele responde, exibindo um sorriso de Mona Lisa:

“E se o feirante desrespeitar você novamente, bata-lhe com este bastão. Mas sem culpá-lo e sem se sentir culpada... apenas consciente de que está ensinando um irmão ...”

E ela os acompanha, com os dois presentes que ganhou.

O SEGUNDO PRESENTE foi escrito por Danilo Faria (baseado em uma história hindu)

Maytréia 26: Triste Natividade


Ele observa com orgulho o grupo de jovens que se retira da sala. Em todos eles os olhos brilhavam com a empolgação dos novos aprendizados que lhes foram passados. Não eram muitos, mas eram a nata, eram a elite. Alguns ficam para conversar após a aula. O interesse deles nos conhecimentos transcendentais e a clara demonstração de apreço pelo mestre eram um alento para o seu espírito. Ele sentia-se bem, útil e feliz.

Ali, preparava guerreiros na luta pela dominação da Realidade. O mundo precisava ser libertado e ele sabia que isso não seria conseguido sem luta. É verdade que ainda não havia sido definida a função da Loja que havia acabado de fundar. Mas ele sabia do que a Divindade precisava agora: soldados. Aqueles que se sacrificariam na gloriosa batalha pela libertação da humanidade e sua Iluminação.

Uma jovem Postulante faz uma pergunta sobre Egrégoras a qual ele responde animado. Durante a pergunta se lembra do encontro com a Egrégora da Loja uma semana antes. Seu dom raro e especial que lhe permitia ver a Egrégora na forma de uma bela e cativante mulher o ajudava muito. Foi assim que ele começou a descobrir o caminho para o seu dharma.

Mas há uma semana ele levou um susto. A Egrégora apareceu e disse simplesmente que já havia decidido qual seria a função da Loja.

“Ela será uma Loja de Ensino”, disse a personificação com sua voz suave e apaziguadora. Na mente dele a imagem da Loja se formou imediatamente — era sempre assim em suas conversas com a Egrégora.

“Me perdoe... mas não acha que precisamos de soldados para a Guerra Oculta?”, perguntou humildemente.

“Sim. Mas devemos dar a cada um o que lhe é devido. Você atraiu construtores e planejadores e não guerreiros. O mundo não é feito apenas de soldados.” Em sua mente ele “vê” os seus alunos Postulantes.

“Peço novamente seu perdão... mas existem representantes de todas as Tendências em nossa pequena Loja.”

Ela sorri e uma grande luz se espalha em seu sorriso.

“Mas mesmo um Xatrya pode construir e planejar. Foi isso o que atraiu. Se atrai coisas diferentes, terá coisas diferentes.” Na mente dele desfilam as imagens de soldados construindo pontes sobre rios, médicos trabalhando no campo de batalha e militares em fábricas diversas. E novamente a imagem de sua Loja e dos Postulantes se sobrepondo.

E sorrindo a imagem de Liberdade se vai.

Aquilo o deixou um pouco perturbado. Havia trabalhado tanto para montar um exército como nenhum outro. Via a civilização americana sendo construída através de batalhas honradas e sacrifícios heróicos de seus soldados. Seus meninos, seus Postulantes. Não podia acreditar que as coisas não seguiriam de acordo com o planejado.

No início se conformou. Era o desejo da Divindade, não cabia a ele discutir. Afinal de contas, aquilo estava perfeitamente alinhado com o seu dharma. No final, o que importava era o cumprimento dele e sua conseqüente Iluminação. Contudo, dentro dele algo resistia. Era tão magnífica a idéia de construir a Civilização Americana retirando todos os que impediam seu despertar! Sendo honesto consigo mesmo, ele não conseguia enxergar outro caminho.

Mas então ele percebeu que a própria Egrégora havia mostrado uma saída. Quais foram mesmo as últimas palavras dela?

“Se atrai coisas diferentes, terá coisas diferentes.”

Tudo ficou maravilhosamente claro, então. Era só uma questão de trabalhar energias diferentes para atrair seres diferentes! Era tão óbvio. Ele fez uma prece de agradecimento à Divindade e dormiu o sono dos justos.

E ali estava ele respondendo à jovem que inquirira sobre Egrégoras. Observava nela o futuro que a esperava e como ele seria grandioso. Sentia orgulho disso. Por isso estranhou a sensação que lhe passou o sorriso dela quando se despediu.

Ela disse “adeus”, ao invés de “até logo”. Ele pretendia corrigi-la, mas esbarrou no sorriso que ela emitiu. Era um sorriso brilhante, que passava uma idéia suave e apaziguadora. Era um sorriso que conhecia bem e que gostava muito. Era o sorriso de Liberdade.

Enquanto sua Postulante se afastava, ele se perguntava o por que dessa sensação. Mas logo afastou os pensamentos. Tinha que continuar seus planos e fazer o que devia ser feito. Algumas modificações nos rituais e em alguns elementos distribuídos em pontos estratégicos da Loja provocariam as mudanças. Talvez até mesmo uma mudança no nome dela. Aos poucos, todos se encaixariam — é verdade que haveria aqueles que não conseguiriam se adaptar, mas paciência; as coisas são assim. De qualquer forma, ele voltava a sentir o velho orgulho pelo seu trabalho.

E assim, com “orgulho” sendo a palavra-chave de sua queda, ele seguiu seguro de si e esquecendo-se da Egrégora que acabara de se despedir dele. Outras tomariam o lugar dela e talvez nem percebesse. Ou, mais provavelmente, uma parte dele percebesse sendo logo abafada e jogada de lado, com justificativas lógicas e indiscutíveis. Sem perceber (ou percebendo e ignorando solenemente), desceria degrau por degrau para um brilhante e maravilhoso fundo do poço; seguro de que sabia o que fazia. Quem ousaria discutir? O que ele planejava era o certo e isso era perfeitamente discernível para qualquer um que tivesse um mínimo de inteligência. Não sabia ele o que era melhor para a humanidade?

E assim, orgulhosamente, nascia mais um Cinzento.

TRISTE NATIVIDADE foi escrito por Danilo Faria

Maytréia 24: O Presente


Eram duas e estavam a repetir um ato milenar. A avó esfregava suavemente em alguma pedra a roupa que lavava no rio, a neta observava. A neta era noiva e tinha 18 anos, a avó era viúva e não vamos comentar sua idade, pois é feio falar da idade de uma dama depois de uma certa altura da vida. No início, a neta se propôs a ajudar a avó lembrando da máquina de lavar que tinha na casa da mãe, mas esta retrucou afirmando que se uma mulher não pudesse mais lavar as suas roupas, o que ela faria? A neta então só observou, se perguntando o porquê de ter sido chamada até ali.

Durante um tempo a avó nada disse. Rompeu então o silêncio com um “Quando você casa mesmo?” e voltou a mergulhar nele quando a resposta foi “Dentro de três meses”. A neta começava a se sentir incomodada com o silêncio, pois normalmente sua avó era falante e brincalhona. Perguntava-se se havia feito algo de errado quando finalmente percebeu o sorriso dela em sua direção.

“Você está preocupada?”

“Desculpa, . Eu fiquei preocupada com a possibilidade de ter magoado a senhora...”

“Me magoado? Não... não, minha doçura. Eu apenas estava pensando aqui em como dar o seu presente de casamento...”

“Meu presente? Mas , não precisa...”

A velha senhora repousa um olhar divertido na sua neta. “É claro que precisa! Onde já se viu mulher que não se importa em ganhar presentes?” Sorri mais abertamente. “Olha minha filha; o seu futuro marido — que é um bom homem, Deus o sabe — pode vir com aquelas coisas de cuidar da cabeça dos outros e dizer que tudo é libido — para mim é só uma outra forma de dizer que tudo é sem-vergonhice — mas isso é só na cabeça dos homens. Para uma mulher, tudo é beleza e vaidade... e ganhar presentes envaidece qualquer uma.”, pisca um olho para a neta. “Não existe sensação melhor do que a de segurar um embrulho e querer saber o que tem dentro, né?”

As duas começam a rir o sorriso secreto que as mulheres trocam a sós quando percebem que os homens não conseguiram ainda entrar em seu mundo real. A neta comenta então: “Está bem, . Onde está? Eu não vi você trazer nada...”

“Ah, esse tipo de presente? Esse eu só vou dar no dia. O seu pai fez questão de comprar um para que eu lhe pudesse dar — sabe que sua velha avó não tem muito dinheiro. O outro que tenho é muito melhor...”

A neta fica intrigada mas nada responde, esperando. Sua avó começa:

“Eu morei 10 anos na cidade grande, sabia? Claro que sim, eu já falei isso antes, que tolice de velha faladora a minha. Foi lá que eu conheci seu avô. Deus, que homem bonito e orgulhoso. Assim que olhei para ele eu pensei ‘este é o homem com quem vou casar’. Ele tinha os dois grandes elementos que um homem precisa para conquistar uma mulher: fazia eu me sentir segura quando estávamos diante do mundo e parecia um menininho indefeso quando estávamos a sós. Sei que parece confuso, mas vejo no brilho dos seus olhos que você entende o que digo. Mas estou fugindo do assunto de novo!”

“Quando morei na cidade grande, eu tinha amigos. Amigos... muito especiais. Eles me ensinaram muitas coisas. Eles me ensinaram que todos na vida têm um papel. Todos, sem exceção. Alguns ficam sabendo deste papel, a maioria não. Os que ficam sabendo têm uma chance maior de... conhecer Deus. E Deus reserva dons especiais para estes seus filhos, que não são melhores que os outros mas conseguiram chamar a atenção Dele pelos seus esforços.”

“Mas Deus também exige mais destes filhos. Ele então coloca um anjo que os vigia o tempo todo. Este anjo ajuda ou pune àqueles que estão nesta trilha. As coisas passam a acontecer para eles e recebem dádivas ou punições de acordo com o cumprimento ou não da Vontade Divina. E a primeira preocupação deste anjo é mostrar qual é o papel de que falei antes. Deus, em Sua sabedoria não permite que os anjos falem a mesma língua dos homens, portanto eles devem se comunicar da maneira que podem.”

“Antes que eu me desvie mais do assunto, deixe-me terminar. Um dia, eu ainda era jovem e bonita como você e estava na janela do sobrado em que morei na cidade quando vi um senhor muito bonito e elegante, com um belo e caro terno, sapatos bem lustrosos e um penteado impecável. Seu chapéu era de uma elegância incomum e seu andar era o de um homem que sabe o que faz da vida. Eu talvez o tivesse esquecido se não acontecesse o que aconteceu depois. Um menino, pés descalços, roupinha esfarrapada e carinha triste parou este homem para pedir esmola. O homem sorriu contrito e afirmou não ter um tostão, despachando o menino.”

“Ah, aquilo me irritou. Como pode um homem tão bem vestido não dar um único trocadinho para um menino necessitado? Me chateou tanto que quando eu percebi lá de cima da janela que dois malandros conversavam na esquina e olhavam para o homem, eu não avisei. Achei que ele merecia o que estava para acontecer. Eles abordaram o homem, tiraram sua carteira e — Deus sabe como também fiquei surpresa — perceberam que ele realmente não tinha um tostão.”

“O pobre do homem pôs-se a explicar que estava voltando de uma entrevista de emprego. Que pegara o único terno que ainda tinha e foi e estava voltando a pé por não ter o da passagem... e não havia bonde para a sua casa. Os malandros se irritaram, felizmente uma dupla de policiais chegou a tempo e os malandros tiveram que fugir. Mas não sem antes passarem o canivete no pobre homem que saiu ileso, mas com o terno estragado.”

“Fiquei vendo o pobre homem chorar como uma criança por ter seu único terno de procurar emprego estragado e percebi que poderia ter evitado isso. Mas, na minha irritação, não o fiz. E meu anjo me mostrou isso. Foi quando percebi o peso real do kharma maduro.”

Diante da expressão confusa da neta de ver um termo oriental surgir na boca da avó sempre tão simples, a senhora sorriu de novo e respondeu rápido: “Existem pequenos erros do dia-a-dia e nossos anjos nos permitem cometê-los, mas eu cometi um bem grande naquele momento...” Seu sorriso se amplia. “Contudo, foi bom assim. Aprendi a grande lição que me mostrou o meu papel na vida.”

A neta ficou observando sua avó por um tempo. Então, não conseguiu mais manter a curiosidade: “Vó, a senhora falou em kharma...”

“Minha querida, com tanto para te ensinar e você se preocupa com isso?”, alisa o rosto da neta com um carinho genuíno. “Nem seu avô percebeu o mundo que conheci...”, um laivo de saudade bateu em seus olhos, “... e foi melhor assim. Que homem maravilhoso”, completou, sorrindo abertamente.

Então tirou um pedaço de papel do bolso do avental. “Assim como eu trouxe seu avô para cá, seu marido irá levar você para a cidade. Não conte para ele que tivemos esta conversa — é um bom homem, mas não entenderia. Se te interessar, visite este endereço e diga que eu te enviei. Não devem se lembrar mais de mim, mas diga que meu nome está no livro... você sabe a data em que estive na cidade. Não quero falar em voz alta para não me lembrar do quanto estou velha”, sorri novamente. “Você tem potencial, minha querida. O potencial que não vi em sua mãe, você irá entender se for aonde indiquei.”

“Mas vó, como pode se sentir culpada? A senhora não podia fazer nada...”

“Nada?” Os olhos dela manifestam um brilho estranho. “Acho que posso afirmar que imaginei uma saída diferente para aquela situação a cada manhã. Mas talvez tenha sido melhor assim, meu anjo soube me ensinar a lição certa.” Assumiu uma rara expressão triste em seu semblante. “Espero que o pobre homem tenha sido feliz... e que o que fiz depois o tenha ajudado.”

A neta não sabia o que dizer. Então afirma emocionada: “Obrigada, , pelo presente!”

“Isto? Oh, o endereço não é o presente. Você pode ir lá ou não conforme o seu desejo. O verdadeiro presente foi a lição que recebi naquele dia. Ali, apesar de ter sido duro e doloroso às vezes, foi o momento que comecei a deslumbrar o meu papel. Aquela lição me guiou para tudo o resto da vida.”

A neta perguntou: “E qual foi a lição?”

A avó solta um sorriso cândido e diz: “Que Onisciente somente Deus. Portanto, não julgue ninguém... nunca.”

Ela volta a limpar a sua roupa no rio. A neta fica por um tempo pensando no que lhe foi dito. Então, ajoelha-se ao lado de sua avó e começa a esfregar as roupas na pedra.



O PRESENTE
foi escrito por Danilo Faria


Volte ao Universo Germinante

Rebelião 36: Deus Ex Machina (parte 3 de 3)


Parte Anterior

RECAPITULANDO: Thiago, um Guerrilheiro e Gilda, uma Venerável (duas das Linhagens que representam os Nefilim em nosso mundo) invadiram um laboratório da RAM, na tentativa de encontrar um amigo de sua Congregação. Este amigo era Clow – outro Nefilim, só que da Linhagem dos Acólitos – que fora presumivelmente capturado por elementos desta organização. Os técnicos da organização tentaram transformar Clow numa espécie de ciborgue de combate; o que falhou devido a incrível capacidade regenerativa dos Nefilim. Usando de subterfúgios, os três amigos conseguem fingir uma luta e se isolar numa sala. Clow foi encontrado, tudo o que eles precisam agora é sair dali e encontrar o responsável por essa afronta...

Os seguranças da RAM costumavam ser bem treinados – em especial aqueles que trabalhavam num setor daqueles – mas eles realmente não esperavam encontrar o que viram ao arrombar a porta.

Uma linda garota ruiva olhava para eles com uma expressão estilo “ninfeta”, a alça do vestido caindo do ombro e o dedo indicador da mão esquerda sendo mordiscado. Ela estava sentada no tablado, com as pontas dos pés tocando o chão. Sua mão direita repousada entre as pernas e os ombros encolhidos completava a visão surpreendente e imprimia um ar indefeso para ela.

Apenas por um segundo, o comandante do pelotão vacilou. Mas foi o suficiente. A sugestão em sua mente não encontrou resistência e ele emitiu a ordem:

- Todos de bruços no chão! Rápido!

Treinados para obedecer, os agentes agem sem pensar. Quando o comandante percebe o que aconteceu, tenta corrigir. Mas é tarde. Da escuridão, surgem mãos que o imobiliza, tapa sua boca e retira as suas armas. Usado como refém, o comandante é obrigado a ouvir a ordem vinda de alguém bem alto ao seu lado:

- E coloquem as mãos atrás da nuca. Se todos permanecerem deitados e quietos, ninguém se machuca.

- E acreditem: machucar é o que esse cara mais gosta. – explicita Clow.

Gilda começa a pegar as armas dos soldados. Um ou dois agentes ainda tentam levantar a cabeça para entender o que ocorre, mas são imediatamente desencorajados por chutes dados pela Nefilim.
- Que tal, ao invés de dar uma de “ajudante de filme de ação de segunda”, você fazer a sua parte, Clow? – Ela incita, um tanto irritada.

Clow olha rapidamente para sua amiga, mas se concentra. Apenas os dois amigos conseguem ver o surgimento de duas asas de luz nas costas dele. Contudo, eram luzes sinistras, enegrecidas, onde criaturas espectrais se retorciam em eterna dor. Ele fala, mais sério:
- Passem logo.

Os outros dois se entreolham, ligeiramente intimidados, e passam por cima dos agentes deitados. Uma névoa negra começa a se formar no ar e aos poucos vai crescendo. No final, uma verdadeira barreira negra cobria a todos os agentes deitados.

Estes simplesmente não conseguiam enxergar nada. Thiago então fala:
- Deixa comigo agora.

Na frente da névoa, uma imagem de Thiago ainda mantendo o comandante como refém aparece. Gilda fala, por sua vez:
- Ouçam bem, pois só estou com saco de falar uma vez. Essa escuridão vai se dispersar em breve. Ela serve para que vocês não vejam para onde vamos. Mas nosso amigo com seu comandante como refém vai permanecer. Portanto, não se levantem até que ele os libere. Vamos evitar mais aprendizados dolorosos, certo?

Então, os três caminham pelo corredor com seu refém. Eles nada falam até que dobram dois corredores, seguindo a orientação de Gilda.
- Certo... - diz Clow para ela - ...qual é o problema, Garota? Você ficou irritada de repente. Não precisava machucar os caras.

Eles estavam apenas cumprindo ordens...
- Eu apenas estou de saco cheio disso tudo! E esse lixo de carne podre fica querendo nos usar como... como coisas, sei lá!
- Eles não são “carne podre”, garota... são seres humanos.
- E nós estamos acima deles.
- Nós temos nossa herança humana também...
- Mas ainda assim estamos acima deles.

Nesse momento, Thiago interfere:
— Maluco, você não vê que ela está irritada com sua idéia de ter que fazer o papel de “ninfetinha sensual” para distrair os soldados? Eu te falei que era melhor sair quebrando os idiotas...

Clow reflete por um momento e então fala, sério:

— Peço desculpas. Mas pensem bem. Se partíssemos para a luta teríamos apenas um risco grande de nos ferirmos, gastarmos maná, não conseguir chegar aonde pretendemos.
— Falando em gastar maná, estou precisando dar uma recarregada de energia vital...

O comandante do pelotão, que até aquele momento ouvia tudo calado, se apavora e começa a querer se debater. Thiago ri.

— Não se preocupe, maluco. Nós não somos vampiros...
clow se aproxima de Gilda.

— Peço desculpas mais uma vez... foi uma maneira de evitar conflitos desnecessários e eu sei que, ao contrário de nosso amigo, você aprecia isso... – então um sorriso debochado aparece em seu rosto - ... além disso, você fica um tesão pô. Eu tive a tara de ver essa cena! — Gilda não segura a risada.

— Tá certo, tá certo, seu palhaço. Vamos achar esse desgraçado que responde por tudo isso, então... temos apenas que pegar o elevador privativo – ela olha então para uma câmera no corredor – Então, vamos ter que abrir o caminho à força?
— Por favor, diga que sim. Diz Thiago com um sorriso aberto cujo olhar furioso distorce.

O elevador se abre. Do auto-falante sai a voz:

— Por favor, podem deixar meu funcionário no corredor mesmo. Ninguém vai impedi-los de chegar ao meu escritório...

— Ah, tá. E o Papai Noel e o Coelhinho da Páscoa estarão nos esperando junto com você.. – diz Clow - ... a gente vai ficar com ele, por enquanto.

Eles entram no elevador. Este sobe até sair do nível subterrâneo e passa por um tubo de vidro que permite ver todo o pátio da impressionante instalação. Pára no ponto mais alto de todo o complexo. Quando as portas se abrem, eles vêem um luxuoso e amplo escritório, com janelas amplas, carpete importado forrando o chão, um grande bar, uma pequena mesa de reuniões, além de quadros e estátuas abstratas do mais fino gosto. Clow comenta:

— É para Precursor nenhum botar defeito...

Um homem se encontrava sentado atrás de uma ampla mesa. Os cortes de seu terno e de seu cabelo eram impecáveis.

— Entrem senhores... e senhora. Ah, e agora que já se encontram aqui, que tal deixar meu funcionário partir? Acredito que eu seria um refém mais valioso, não? – olha para Clow e Gilda – E pelo que pude perceber vocês desejam evitar que alguém se machuque desnecessariamente. Thiago é quem responde:

— Claro.

E entrega o refém para Gilda levar até o elevador. Neste momento, ele dá um salto impressionante (suas asas de metal, visível apenas para quem tem a visão mística, resplandecendo as suas costas) em direção ao homem.

Mas esse rechaça o ataque com incrível facilidade.

Sem nem mesmo se levantar, ele estica a palma de sua mão rapidamente e acerta o peito de Thiago. Um zunido estranho é ouvido, Thiago grita e é jogado para trás, caindo sobre o carpete. Seus reflexos treinados de Guerrilheiro o fazem dar um rolamento de costas e ficar rapidamente de pé assim que toca o chão.
- Mas que diabos...?

Clow desaparece. Reaparece ao lado do homem. Desaparece novamente. Aparece nas suas costas. Desaparece. Na frente novamente. Desaparece e – por último – reaparece nas suas costas. O homem permanece sentado calmamente. Clow então acerta uma tremenda coronhada com uma das armas que foi tomada dos agentes na nuca dele. Sua cabeça tomba para frente e ele não solta um ruído.

Levanta então a cabeça lentamente, sorrindo.
- Ele não é humano! - Essa afirmação fora feita por Gilda, assim que deixou o refém algemado e amordaçado no chão.
Clow então recua um pouco e olha para a cintura da coisa. Seus olhos se arregalam em espanto.
- Empresário é o cacete! Você tem razão garota...

Os outros dois contornam a mesa e observam o detalhe de que o andróide somente foi construído da cintura para cima. Suas expressões, movimentos e o fato de que este se encontrava atrás da mesa os havia enganado a todos. O robô se volta para Gilda:
- Você havia dito que era superior aos humanos. Mas nós, humanos da RAM, somos capazes de ir a alturas que você nem imagina. Em breve, poderemos dar movimento e durabilidade para estes andróides a um nível inimaginável. Se vocês são mais que humanos, nós somos verdadeiros “deuses na máquina”!

Thiago rapidamente se recupera:
- Vamos embora daqui. Ele está nos distraindo para que mais seguranças cheguem. Esta porcaria é controlada a distância e nós não vamos encontrar ele mesmo...
- Então vamos causar uma distração também... – diz Gilda - ... Thiago, você não precisava de maná? Eu também. E aposto que Clow...

Thiago sorri e dá a mão a amiga. Clow faz a mesma coisa, mas antes de se concentrarem ele diz:
- Bom, espero que ninguém se machuque...

Thiago responde, com um sorriso cruel: - Que ninguém se machuque é o cacete!

Os três se concentram e invocam o maná. Invocam com tudo o que podiam, absorvendo toda a quintessência da vida existente no local. Quando os seguranças invadem o lugar, relâmpagos e ventos poderosos destruíam o escritório. Todos foram jogados para fora, varridos como objetos leves numa tormenta. Alguns ainda viram raios que saíam o andróide parcialmente destruído em direção aos dois rapazes e uma garota que – de mãos dadas – flutuavam no olho do furacão.

Mas eles não pararam por aí.

Absorveram tanta energia em um único momento, que todo o complexo foi afetado. Quando a energia caiu, os geradores reservas simplesmente não funcionaram. E a RAM pagou o caro preço de se envolver com seres que têm o Céu e o Inferno coabitando em suas entranhas.

* * *

Foi fácil para eles fugirem em meio ao caos que se instalou. Criaturas que estavam servindo de cobaia fugiram, elevadores pararam, computadores pifaram (alguns explodiram seus monitores), lâmpadas estouravam nos seus bocais, setores que tinham portas eletrônicas ficaram trancados enquanto o ar-condicionado central parou, entre outras coisas.

Nos jornais, uma “falha técnica” foi indicada como a causa de tamanho problema. Alguns deputados queriam criar uma comissão para investigar o que ocorreu (o que significava que muito dinheiro seria perdido com esse movimento) e feridos com seus parentes exigiam explicações e/ou ressarcimento.

Todavia, os principais protagonistas deste evento não estavam preocupados com isso. Tanto na Congregação da cidade como entre os diretores da RAM, movimentos e preparativos eram feitos. Os dois lados haviam ido longe demais para que isso terminasse assim. A poeira teria que baixar primeiro, mas a retaliação viria; isso todos sabiam. Deuses encarnados e deuses em máquinas eram preparados.

No horizonte, uma tempestade se anuncia.

DEUS EX MACHINA foi escrito por Danilo Faria

Volte ao Universo Germinante

Rebelião 33: Deus Ex Machina (parte 2 de 3)


Parte 1


RECAPITULANDO: Thiago, um Guerrilheiro e Gilda, uma Venerável (duas das Linhagens que representam os Nefilim em nosso mundo) invadiram um laboratório da RAM, na tentativa de encontrar um amigo de sua Congregação. Este amigo era Clow – outro Nefilim, só que da Linhagem dos Acólitos – que fora presumivelmente capturado por elementos desta organização. Só que ao encontrar seu amigo, os dois tiveram uma surpresa desagradável: uma experiência o havia transformado em uma espécie de ciborgue. Os dois amigos sabiam que a RAM secretamente tentava capturar e estudar os Nefilim (mesmo sem saber ao certo o que estes eram), mas a visão do amigo reduzido a um resto do que era antes, tratado como uma coisa sub-humana, os chocou profundamente.

- Cobaia 37, confirmada a ordem: elimine os intrusos!


A reação fora imediata à ordem dada pelo misterioso ser que falava através do comunicador na parede. Clow – ou a “Cobaia 37” – movia-se com uma certa agilidade, apesar das próteses. Ao se virar primeiro na direção de Gilda, um zunido estranho surgiu na altura de sua cabeça e uma espécie de mini-canhão veio deslizando de trás de seu pescoço e por cima de sua cabeça, estacionando exatamente na altura de seu olho esquerdo.


Atordoada com a visão, Gilda não se move, tornando-se um alvo fácil para o seu amigo robotizado. O disparo sônico só não a atinge por causa de Thiago, que acionando sua incrível velocidade, desliza como um borrão pela sala e tira a Venerável do caminho do disparo. Este acerta em cheio o teclado que serve para digitar o código de entrada através da única porta existente, destruindo-o

.
- Sua louca, acorde! – brada Thiago – Agora é hora de combater e não de ficar feito uma pateta...


Ele então percebe, seu movimento repentino pegou sua amiga de surpresa e ao deslocá-la ele provavelmente quebrou seu pescoço. Se ela fosse humana, estaria morta. Como era metade filha de um anjo (mesmo caído) ela apenas estava desmaiada. Thiago se vira furioso para Clow. Na verdade, ele estava mais furioso com a ingenuidade deles – entrando assim em uma armadilha tão óbvia –, com a visão que o homem por trás do comunicador tinha deles e com o fato de sua amiga estar desmaiada devido à sua ação desastrada. Mas era Clow que estava ali para apanhar, então era o que ele iria fazer.
- Cara, eu tava pensando em aliviar um pouco com você... pela nossa amizade. Mas não vai dar! Agora aguenta!


Imediatamente, Clow faz um movimento robótico estranho. Ele gira os braços e arqueia as pernas como um lutador de artes marciais se preparando para a luta. Com uma das mãos faz um rápido movimento, chamando Thiago para a luta, imitando Bruce Lee! Seria engraçado se não fosse trágico. Thiago ri. Primeiro, de forma espontânea, depois vai modificando sarcasticamente.


- Você não tem a menor chance contra mim, defensor de carne podre!


Ele parte como um raio, numa velocidade espantosa, na direção de Clow. Mas este, além dos aparatos mecânicos, também tinha suas capacidades herdadas e então, ele simplesmente... desapareceu. E apareceu em outro canto. Desapareceu novamente. E reapareceu em outro canto. Piscando dentro da sala, ele parecia o efeito especial ruim de um filme de segunda. Mas isso teve sua utilidade. Thiago ficou sem saber aonde esse movimento terminaria e quando Clow surgiu atrás dele, um pouco à direita, ele estava desprevenido.


Imediatamente a mão direita de Clow, coberta por uma manopla tecnológica, começou a faiscar com grande quantidade de eletricidade. A voz do Acólito sai robótica:


- Tenho ordens para destruí-lo.


O ato de falar salvou Thiago do choque. Seus reflexos de combatente sempre exigidos pelos de sua Linhagem dominaram seu corpo, que reagiu antes que este pensasse. O Guerrilheiro se agacha e dá um rápido rolamento, fazendo com que a manopla fatal alcance a parede. Imediatamente, a descarga percorre os delicados circuitos que coordenam as mais diversas funções tecnológicas da sala. O efeito disso é sentido em dois acontecimentos: a luz se apaga e o comunicador se torna um chiado persistente.


Neste exato momento, uma placa do ombro de Clow cai, mostrando seu ombro descoberto por baixo. Ele olha para a placa no chão, para o ombro, para Thiago e exclama:


- Ops!


No mesmo instante, Gilda se levanta, Thiago relaxa a guarda e Clow assume uma aparência perfeitamente normal, com próteses se soltando e caindo constantemente de seu corpo. Clow fala novamente:


- E aí, pessoal, tudo beleza?


Thiago dá um passo à frente e aperta o amigo em um grande abraço. Meio que esbarra nele no escuro, o que provoca um gemido em Clow.


- Seu canalha! Que susto nos deu!


Clow responde: - Peraí, tá meio escuro aqui... deixe-me cuidar disso!


No mesmo instante, uma luz suave e com um brilho sobrenatural começa a vibrar em sua mão, iluminando o ambiente. Desta forma, os amigos puderam se ver e ficou claro para todos que nenhuma peça implantada sobrara no corpo do Acólito. Todas estavam no chão.


- Essa capacidadezinha de regeneração que a gente tem é do car...


- Já entendemos, Clow... – cortou Gilda, antes que o palavrão saísse – ...o seu sistema de regeneração não aceitou os implantes!


Clow não parece ter percebido o fora que estava dando. Nem Thiago, que simplesmente comentou:


- Cara, se você não faz o movimento estilo “Bruce Lee”... – vira-se para Gilda – ... e ela não me comunicasse com sua incrível habilidade de telepatia, eu teria te arrebentado todo!


- Ei, duvido! Mas de qualquer maneira, quando percebi o que os idiotas da RAM queriam, achei que seria divertido deixar eles tentarem... – sorri – ... controle neurológico do sistema nervoso é o cacete! Quando me trouxeram para cá, percebi que era por causa de vocês e assim que a “dupla dinâmica” entrou, mandei um recado mental rapidinho para nossa amiga...


- ...e como eu vasculhei sua mente quando te vi naquele estado, percebi logo o que ocorria. – Gilda sorriu – Depois, foi só fingir o desmaio para ser ignorada enquanto agia avisando você, Thiago, para que a luta fosse coreografada o bastante para nos isolar aqui. Agora vamos achar o desgraçado por trás dos microfones!


- Como? – Pergunta Thiago.


- Simples, eu estava conversando com um espectro enquanto vocês fingiam que lutavam e ele me contou onde localizar o nosso amigo. Decorar o mapa que conseguimos foi um bom negócio afinal!


Clow retruca: - Manda o seu fantasminha levar a gente lá...


- Não posso... – responde Gilda – ... você o espantou quando acionou a Centelha Ofuscante.


- Ah, tá...


Um barulho de maçarico começa a vir da porta. Thiago comenta.


- Hum... acho que o chefão mandou invadir. – garras começam a surgir em suas mãos – É hora de usar a minha tática e brincarmos um pouco com o pessoal...


- Que tática? – pergunta Gilda.


Um sorriso sinistro se forma no rosto de Thiago, o sorriso selvagem de quem gosta daquilo que está prestes a provocar, mesmo não sendo muito legal.


- A tática do terror...

Continua...

DEUS EX MACHINA (parte 2) foi escrito por Danilo Faria

Retorne ao Universo Germinante