quarta-feira, 26 de dezembro de 2007

Maytréia 11: Mergulhando no Abismo


As ondas de energia astral chocam-se violentamenente em meus escudos de energia, mas isto não impedirá o prosseguimento de minha missão de exploração. Flutuo pela região que Kyler denominou provisoriamente de 134-19-17811, e sigo cuidadosamente o mapeamento realizado por Kyler e Nakata. Os doze marcos territoriais estabelecidos por eles ajudam-me em minha orientação. Em seu relatório de 1911, Joseph Kyler afirmava ter avistado nesta área uma espécie rara de elemental que ele batizou de Pseudo-Salamandra Rubra, mas sem dar maiores detalhes. Embora minha varredura neste setor já dure muito tempo, e seja extremamente minuciosa, não encontrei nenhum vestígio destas criaturas. A única presença elemental que registrei foi uma aglomeração esparsa de pequenos cogumelos astrais de consistência translúcida, totalmente inertes e inofensivos para nós, viajantes astrais. As tais Pseudo-Salamandras foram descritas por nosso colega inglês como enormes lagartos de cor vermelha brilhante, com inúmeras antenas carnudas brotando de suas cabeças sem olhos.


O enfraquecimento súbito de meu campo de energia indica que minha exploração do Plano Astral já durou tempo demais. É hora de retornar. Focalizo toda minha concentração no árduo caminho de volta. Sinto as coordenadas dimensionais mudando em minha volta à medida que uso com extremo cuidado as propriedades do objeto místico que uso como guia para tais jornadas.


Acordo em minha cama, banhado de suor, com o corpo dolorido e trêmulo, o frio intenso me fazendo bater os dentes. Se Charlotte estivesse aqui estaria me repreendendo violentamente, acusando-me de viajar sem os devidos cuidados.


Charlotte, minha adorável mestra francesa, me ensinou tudo o que eu sei, e sou muito grato pela sua preocupação comigo. Graças a ela tornei-me um veterano em viagens astrais, e estou muito seguro daquilo que faço. Todas as precauções necessárias foram tomadas. Não há o que temer.


O homem de barba rala e feições precocemente envelhecidas levanta-se de sua cama, dá alguns passos rápidos e fecha a grande janela de madeira, bloqueando o vento frio que invadia o cômodo. Martín Gómez é seu nome, e vive sozinho num casarão cujo amplo sótão abriga um incrível laboratório. Por toda as partes, espalham-se mesas com tubos de ensaio, cadinhos e insólitos instrumentos metálicos. Ele vai até a geladeira, e esvazia rapidamente uma xícara de café fraco e gelado. Sua mente está ocupada em apenas recordar o que vivenciou em sua última viagem. Viajar no Plano Astral é como mergulhar num abismo infindável. Mais uma vez Martín senta-se em sua escrivaninha de madeira e começa a escrever em seu caderno de notas. A descrição detalhada das maravilhas da Região 134-19-17811 irá durar a madrugada inteira. Somente quando os primeiros raios do sol entrarem pela janela estreita é que o espanhol conseguirá concluir sua tarefa, e voltará à sua cama para repousar. As descobertas mais recentes o enchem de orgulho, e ele dormirá embalado por sonhos de grandeza.


Enquanto isso, na aparente insignificância de um dos incontáveis tubos de vidro de seu laboratório alquímico, algumas bolhas começam a se formar. As primeiras são minúsculas e transparentes, mas à medida que o tempo passa, elas tornam-se cada vez mais densas e turbulentas.


De dentro do recipiente, em meio ao líquido borbulhante, emerge uma diminuta criatura. Sua cabeça é de um vermelho-escuro, e recoberta por pequenos apêndices carnoso. Assemelha-se vagamente a uma lagartixa sem olhos. E é menor que uma moeda.
Mas sua fome... é imensa.


"Se você olhar para dentro do Abismo, o Abismo olhará para dentro de você."
Friedrich Nietzsche, filósofo alemão

MERGULHANDO NO ABISMO foi escrito por Simoes Lopes

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