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sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

Rebelião 58: Desequilíbrio

O som do fósforo sendo riscado foi seguido pelo despontar de uma chama amarelada, débil demais para permanecer acesa. A segunda tentativa foi mais eficiente, e o clarão foi forte o bastante para verificar como eram as marcas no portão de madeira.

Após observar aquilo com muito cuidado, a japonesa de estatura baixa e pernas grossas aproveitou a mesma chama para acender um cigarro. Seus cabelos estavam tingidos de um cor-de-rosa pastel, um traço peculiar que dera origem ao apelido pelo qual ficara conhecida, ou seja, “Algodão-Doce”. Tizuko Yamamura, nascida em 1945, aparentava ter pouco mais de 20 anos de idade, e vestia uma jaqueta sem mangas por cima de uma camiseta preta. Puxou um bloquinho encardido de um dos bolsos e começou a anotar alguns pensamentos. Segurava numa das mãos um pingente de cristal azulado, com caracteres hebraicos gravados nas faces do brilhante.

Os indícios eram fortes e incontestáveis: algo de sobrenatural estava ocorrendo naquele bairro, especialmente naquela casa abandonada. As inscrições no Cristal Azul de Zorobabel refulgiam com um leve brilho amarelado, indicando a presença de poderes infernais ativos nas redondezas. A madeira velha porém resistente tinha sido feita em pedaços por alguém de força muito acima do nível humano. Três pessoas já eram dadas como desaparecidas, e duas outras haviam sido encontradas mortas nesta rua. Um Acólito local — Lance Merman era seu nome — percebeu que havia algo muito estranho ocorrendo e mandou um e-mail para Gargântua, que imediatamente localizou Algodão-Doce, uma das melhores pesquisadores de toda a Linhagem. Especialista em investigar eventos paranormais e confrontar ameaças de todos os tipos, Tizuko tomou rapidamente um avião e seguiu de Tóquio para Saskatchewan, no Canadá. Com as indicações de Lance, a japonesa de cabelo rosa não teve nenhuma dificuldade em localizar a tal rua “maldita”.

Lance, aliás “Rastejante”, como era mais conhecido, insistiu em acompanhar a investigação de Algodão-Doce, mas Tizuko sempre preferiu agir por conta própria, e dispensou qualquer auxílio. Cá estava ela, parada em frente ao prédio abandonado, sem se importar com a geada cobria as ervas daninhas que persistiam em crescer no chão estéril.

Algodão-Doce decidiu acionar a sua Prontidão, a fim de detectar a presença de alguma entidade, mas o ataque inesperado foi tão rápido que ela nem precisou de seus sentidos místicos para entender o que acontecia. Uma escuridão absoluta envolveu-a por completo, mergulhando-a em trevas tão compactas que pareciam estar sólidas. Tal artifício não seria capaz de deter uma Acólita tão experiente quanto ela, e com a Centelha Ofuscante, ela conseguiu dissipar parte de seu negro envoltório. Quando voltou a enxergar, percebeu que duas baratas enormes caminhavam por sua perna.

O horror que sentia aos insetos fez com que acabasse tropeçando e caindo num buraco do assoalho. As baratas agora não eram duas, mais algumas dúzias, e cobriam seu corpo com uma avidez nojenta. A legião de insetos parecia estar multiplicando-se à uma velocidade impossível, o bastante para ela intuir a sua origem: Sussuro de Samael, um manifesto abissal característico dos Nefilim, da mesma forma que a Escuridão de Tehom.

Antes que Algodão-Doce conseguisse elaborar mais algum pensamento claro, uma nova onda de trevas invadiu o cômodo vazio, e junto com ela, algo rugindo e gritando. A japonesa foi arremessada com toda força contra a parede, e caiu no chão sem respirar. Sentiu algumas costelas quebradas, e tentou conjurar uma Espada de Gabriel, mas as baratas continuavam engolfando seu corpo num vagalhão de pernas e cascas mal-cheirosas. O medo tomou conta da corajosa Nefilim, que sentiu sua fobia a insetos crescer num rompante asqueroso. A conjuração da arma celeste vacilou, e sentiu garras monstruosas rasgando seu peito, e arrancando parte de seu braço.

Três formas espectrais ergueram-se do chão, bruxuleando em horríveis semblantes disformes. Três pessoas mutiladas estavam à sua frente, gritando palavras de agourentas.

“Ele vai matá-lo como matou a nós!”, gritava um dos fantasmas, enquanto o outro segurava a própria cabeça decepada com uma das mãos esquálidas.

Fobia e Corporificar Fantasma. Tizuko detectou imediatamente mais dois poderes infernais. Quem seria esse Nefilim?

As trevas sumiram por um instante, e ela pôde ver claramente o seu oponente, o que provocou um grito de horror.

Um homem enorme e obeso, inteiramente nu, cambaleava com os ombros arqueados, e enormes braços terminando em mãos grosseiras com unhas desmesuradamente grandes. O corpo estava coberto por enormes feridas e por uma espessa camada de pêlos ruivos, que juntavam os cabelos e a barba numa formação tão compacta que quase recobria seus enormes olhos azuis.

— Não, você não! — gritou Tizuko, chorando. — Eminência?!!!

Aquele monstro disforme que estava li parado, babando e grunhindo como se fosse um animal irracional, já fora um Acólito no passado. Everett Walker era seu nome de batismo, e na Linhagem foi conhecido como Eminência devido à sua imponência e cultura. Era simpático, bem-humorado e caridoso. Junto com Algodão-Doce e Oedipus, fora tutelado pelo Pianista, na própria cidadela secreta de Heliópolis. Uma seqüência de acontecimentos infelizes levara o atormentado Everett aos limites de seu equilíbrio, e ele foi o primeiro Acólito a ceder às tentações do Sheol, tornando-se um diavolo, uma besta irracional mantendo os poderes de um Nefilim. Algodão-Doce já enfrentara os mais diversos tipos de inimigos em todas as partes do mundo, mas jamais tinha lidado com isso.

Nada era pior que enfrentar um próprio ex-amigo.

A criatura que já foi Eminência soltou um grito feroz e golpeou sua vítima, com força suficiente para partir as placas do assoalho. Quando preparava para saborear o próprio triunfo, percebeu que Algodão-Doce havia desaparecido por completo.

A decepção o fez guinchar mais uma vez, com a baba escorrendo pelos cantos da boca.

No segundo andar do prédio, um vulto começou a tomar forma em pleno vazio, solidificando-se rapidamente. Era a Nefilim que voltava à sua forma real. O manifesto celestial Dispersão do Silfo salvara a sua vida mais uma vez. Sua preocupação imediata era concentrar-se para acelerar a cicatrização dos ferimentos, e fez um torniquete para deter o sangramento do braço decepado. Sua situação tornava-se crítica. Foi quando lembrou-se do que estudara uma vez nas anotações da Polaca Voadora: os diavoli tornam-se seres tão caóticos e incontroláveis que não podem ser mandados sozinhos de volta a Adamah. Se havia um Nefilim abissal, devia haver algum humano responsável pela invocação servindo de guia para o demônio.

Ela podia ouvir seu ex-amigo gritando e esmurrando no andar de baixo, não podia mais perder tempo. Ativando sua Gnose — o que fez com certa dificuldade, pois os ferimentos prejudicavam sua concentração —, Algodão-Doce conseguiu detectar linhas de força mística brilhando de forma sinistra. Ela podia perceber um elo de energia infernal atravessando a casa, ligando o Diavolo a alguém — algum bruxo, sem dúvida — em outro cômodo. A ação estava clara em sua mente.

Mais uma vez vaporizou seu corpo e seguiu rapidamente até a direção de onde vinha a aura maligna. Materializando-se com cautela, ela percebeu o homem de feições esquálidas e cabelo cor de palha que sentava-se num sofá mofado. A Gnose tornava visível a silhueta espectral de uma criatura horrenda de chifres espiralados pairando e envolvendo o corpo do feiticeiro. Eminência estava agachado no chão, coberto de suor e sangue coagulado, como se fosse uma espécie de cão de guarda.

O Diavolo virou a cabeça rapidamente, e retesou os músculos, quando viu a moça oriental brandindo uma espada de luz em sua direção. O salto foi perfeito e ele usou seu próprio corpo como um aríete esmagando-a junto à parede com barulho abafado. A moça caiu com o crânio esmagado no chão, o que fez a fera humana urrar de júbilo.

— Eu aprendi com você, Eminência — o monstro foi surpreendido pela voz da mulher subitamente aparecendo na direção oposta. A seus pés a imagem do cadáver de Tizuko desvanecia-se no ar, e quando ele virou o rosto. Pôde ver o bruxo morto, caído com os olhos revirados aos pés da Acólita. Nos ombros da japonesa brilhavam duas enormes asas de luz, visíveis para os olhos inumanos do Diavolo.

O nefilim insano quis atacá-la, mas uma grande chama envolveu seus pés,e ele sentia seu corpo queimando em agonia. Os olhos de Algodão-Doce brilhavam, e ela percebia claramente o que estava acontecendo. Sem a “âncora” humana do feiticeiro, o Diavolo não podia permanecer na Terra, e estava retornando ao Sheol.

— Foi você quem me ensinou a usar o dom da Consciência Vazia, querido mestre — disse a mulher, aos prantos. Infelizmente eu não estou forte o bastante para matá-lo agora, mas acho que voltaremos a nos encontrar.

Nos pontos onde o Diavolo pisava, o chão parecia derreter e transformar-se num plasma efervescente que envolvia o seu corpo, removendo-o dolorosamente da dimensão terrestre.

— Como eu lutei para salvar sua alma, Eminência! O quanto eu batalhei para evitar que você sucumbisse à Queda!

Quando as chamas envolveram por completo a atormentada criatura bestial, ele pareceu balbuciar: — ULGDN...DUSSSSS

Tizuko Yamamura, vulgo Algodão-Doce, deixou a casa abandonada, satisfeita por ter derrotado mais um desafio. Estava exausta e ferida, e precisaria de muito tempo para regenerar o corpo enfermo.

Em sua mente um pequeno som, como o tinido de um minúsculo sino ressoou. Ela não deu importância.

Era doloroso confrontar um ente querido que seguira a trilha da Queda.

Mas sem perceber, ao descuidar-se do próprio equilíbrio para enfrentar tão difícil missão, ela dera o primeiro passo, ainda que na direção oposta.

A trilha da Ascensão.

DESEQUILÍBRIO foi escrito por Simoes Lopes

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segunda-feira, 7 de janeiro de 2008

Rebelião 43: Gargantuanas


... A pedrinha que se soltou rola morro abaixo, e coloca outras pedrinhas em movimento...

From: Paulus_Archduke@nfl.com

To: lrivet@nfl.com

Sent: Wednesday, February 04, 2004 12:41 AM

Subject: Trabalho

Caro Louis,

Sei que há muito tempo não temos contato, mas a agenda de um Precursor às vezes não permite o luxo de contato entre amigos, e quem dirá de um Precursor na minha posição. Contudo, um interessante material veio a cair em minhas mãos, e acho que você seria a pessoa certa para traduzi-lo: é do início do século XX (1908, para ser mais exato), está escrito em alfabeto cirílico, provavelmente russo. É, com certeza, original. Claro que estou disposto a recompensar seus esforços — não que se fale em pagamento entre amigos —, apenas um pequeno reconhecimento de seu talento.

Aguardando sua resposta,

Pavlvs.

P.S.: Cheque sua conta.

From: lrivet@nfl.com

To: Paulus_Archduke@nfl.com

Sent: Wednesday, February 04, 2004 05:30 AM

Subject: Re: Trabalho

Caro Paole,

Se não é meu Pré-Corsário predileto! Ora, Paole, o que você não me pede pagando que eu não faça rindo? Além do mais, não se sinta acanhado — nós não somos amigos! Por isso, pode se sentir à vontade para me pagar quanto quiser. UAU, você é mesmo generoso! O que está esperando? Se estiver conectado (e pelo valor que depositou em minha conta, acho que está sentado na ponta da cadeira esperando minha resposta) pode mandar o texto. Ainda não criaram um idioma que o velho Gargântua não conseguisse traduzir.

Mais feliz depois de ganhar o seu dinheiro,

G.

From: Paulus_Archduke@nfl.com

To: lrivet@nfl.com

Sent: Wednesday, February 04, 2004 05:36 AM

Subject: Texto

Você torna as coisas mais fáceis, Rivet. Gosto disso.

Segue o arquivo anexo.

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To: Paulus_Archduke@nfl.com

Sent: Wednesday, February 04, 2004 12:32 PM

Subject: Re: Texto

Você ainda está aí? Fez bem em não mandar isso a um mortal... a carta é de um tal Konstantin Efremov, um padre ortodoxo russo. Paul, ele viu os Descaídos! Ele testemunhou sua saída do Sheol, e acho que deu de cara com Sansaveel. Não sei porque não o mataram. Segue a tradução em anexo.

Que o Velhinho nos ajude...

From: Paulus_Archduke@nfl.com

To: lrivet@nfl.com

Sent: Wednesday, February 04, 2004 12:38 AM

Subject: Re: Re: Texto

Isso fica entre nós.

Após a leitura da tradução me afasto do monitor, e um milhão de pensamentos transitam simultaneamente em minha cabeça. Com um pouco de disciplina, eu os resumo a apenas um — se Efremov já viveu, então seu espectro ainda está por aí. Ah, que tesouro! Saber em primeira mão da chegada dos Descaídos... ter a informação original, não o que nos foi repassado pelos Primogênitos, que ainda ruminavam as mentiras de nossos pais!

Deposito mais uma generosa quantia de dinheiro na conta daquele sibarita marginal, na esperança de que feche sua boca gorda. Infelizmente, vou precisar colocar mais alguém nisso, se quiser chegar à verdade.

Quando se fala nos mortos, é impossível não se pensar nos Veneráveis...

As cartas paulinas continuam

GARGANTIANA

... A pedrinha que se soltou rola morro abaixo, e coloca outras pedrinhas em movimento...

From: Paulus_Archduke@nfl.com

To: lrivet@nfl.com

Sent: Wednesday, February 04, 2004 12:41 AM

Subject: Trabalho

Caro Louis,

Sei que há muito tempo não temos contato, mas a agenda de um Precursor às vezes não permite o luxo de contato entre amigos, e quem dirá de um Precursor na minha posição. Contudo, um interessante material veio a cair em minhas mãos, e acho que você seria a pessoa certa para traduzi-lo: é do início do século XX (1908, para ser mais exato), está escrito em alfabeto cirílico, provavelmente russo. É, com certeza, original. Claro que estou disposto a recompensar seus esforços — não que se fale em pagamento entre amigos —, apenas um pequeno reconhecimento de seu talento.

Aguardando sua resposta,

Pavlvs.

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To: Paulus_Archduke@nfl.com

Sent: Wednesday, February 04, 2004 05:30 AM

Subject: Re: Trabalho

Caro Paole,

Se não é meu Pré-Corsário predileto! Ora, Paole, o que você não me pede pagando que eu não faça rindo? Além do mais, não se sinta acanhado — nós não somos amigos! Por isso, pode se sentir à vontade para me pagar quanto quiser. UAU, você é mesmo generoso! O que está esperando? Se estiver conectado (e pelo valor que depositou em minha conta, acho que está sentado na ponta da cadeira esperando minha resposta) pode mandar o texto. Ainda não criaram um idioma que o velho Gargântua não conseguisse traduzir.

Mais feliz depois de ganhar o seu dinheiro,

G.

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Sent: Wednesday, February 04, 2004 05:36 AM

Subject: Texto

Você torna as coisas mais fáceis, Rivet. Gosto disso.

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Sent: Wednesday, February 04, 2004 12:32 PM

Subject: Re: Texto

Você ainda está aí? Fez bem em não mandar isso a um mortal... a carta é de um tal Konstantin Efremov, um padre ortodoxo russo. Paul, ele viu os Descaídos! Ele testemunhou sua saída do Sheol, e acho que deu de cara com Sansaveel. Não sei porque não o mataram. Segue a tradução em anexo.

Que o Velhinho nos ajude...

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Sent: Wednesday, February 04, 2004 12:38 AM

Subject: Re: Re: Texto

Isso fica entre nós.

Após a leitura da tradução me afasto do monitor, e um milhão de pensamentos transitam simultaneamente em minha cabeça. Com um pouco de disciplina, eu os resumo a apenas um — se Efremov já viveu, então seu espectro ainda está por aí. Ah, que tesouro! Saber em primeira mão da chegada dos Descaídos... ter a informação original, não o que nos foi repassado pelos Primogênitos, que ainda ruminavam as mentiras de nossos pais!

Deposito mais uma generosa quantia de dinheiro na conta daquele sibarita marginal, na esperança de que feche sua boca gorda. Infelizmente, vou precisar colocar mais alguém nisso, se quiser chegar à verdade.

Quando se fala nos mortos, é impossível não se pensar nos Veneráveis...

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Sent: Wednesday, February 04, 2004 12:41 AM

Subject: Trabalho

Caro Louis,

Sei que há muito tempo não temos contato, mas a agenda de um Precursor às vezes não permite o luxo de contato entre amigos, e quem dirá de um Precursor na minha posição. Contudo, um interessante material veio a cair em minhas mãos, e acho que você seria a pessoa certa para traduzi-lo: é do início do século XX (1908, para ser mais exato), está escrito em alfabeto cirílico, provavelmente russo. É, com certeza, original. Claro que estou disposto a recompensar seus esforços — não que se fale em pagamento entre amigos —, apenas um pequeno reconhecimento de seu talento.

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Sent: Wednesday, February 04, 2004 05:30 AM

Subject: Re: Trabalho

Caro Paole,

Se não é meu Pré-Corsário predileto! Ora, Paole, o que você não me pede pagando que eu não faça rindo? Além do mais, não se sinta acanhado — nós não somos amigos! Por isso, pode se sentir à vontade para me pagar quanto quiser. UAU, você é mesmo generoso! O que está esperando? Se estiver conectado (e pelo valor que depositou em minha conta, acho que está sentado na ponta da cadeira esperando minha resposta) pode mandar o texto. Ainda não criaram um idioma que o velho Gargântua não conseguisse traduzir.

Mais feliz depois de ganhar o seu dinheiro,

G.

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Sent: Wednesday, February 04, 2004 05:36 AM

Subject: Texto

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Segue o arquivo anexo.

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To: Paulus_Archduke@nfl.com

Sent: Wednesday, February 04, 2004 12:32 PM

Subject: Re: Texto

Você ainda está aí? Fez bem em não mandar isso a um mortal... a carta é de um tal Konstantin Efremov, um padre ortodoxo russo. Paul, ele viu os Descaídos! Ele testemunhou sua saída do Sheol, e acho que deu de cara com Sansaveel. Não sei porque não o mataram. Segue a tradução em anexo.

Que o Velhinho nos ajude...

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Sent: Wednesday, February 04, 2004 12:38 AM

Subject: Re: Re: Texto

Isso fica entre nós.

Após a leitura da tradução me afasto do monitor, e um milhão de pensamentos transitam simultaneamente em minha cabeça. Com um pouco de disciplina, eu os resumo a apenas um — se Efremov já viveu, então seu espectro ainda está por aí. Ah, que tesouro! Saber em primeira mão da chegada dos Descaídos... ter a informação original, não o que nos foi repassado pelos Primogênitos, que ainda ruminavam as mentiras de nossos pais!

Deposito mais uma generosa quantia de dinheiro na conta daquele sibarita marginal, na esperança de que feche sua boca gorda. Infelizmente, vou precisar colocar mais alguém nisso, se quiser chegar à verdade.

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CARTAS PAULINAS I: GARGANTUANAS

foi escrito por Renato Simões

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Rebelião 34: Lágrimas de Constantina


Tudo aconteceu quando eu ainda morava na França, onde fui um conhecido “rato” de sebos parisienses. Enquanto chafurdava na poeira de uma passagem estreita, dei de cara com o símbolo vermelho gravado na capa escura de um livrinho antigo. Folheei rapidamente, percebendo algumas linhas manuscritas em latim, e resolvi comprar. O dono do sebo se surpreendeu pelo meu interesse e me vendeu por um preço baratíssimo. Levei-o para casa, largando-o numa pilha de livros no criado-mudo. Dias depois resolvi dar uma olhada no livro, e tive a desagradável surpresa de descobrir que ele estava totalmente em branco. Fiquei perplexo: tinha certeza absoluta de ter visto os manuscritos. Além disso, o símbolo na capa estava quase apagado, e as folhas pareciam ter se deteriorado rapidamente. Voltei ao sebo para devolver o livro (talvez tivesse havido uma troca na hora da compra) mas o sebo não estava mais lá. As portas estavam fechadas e lacradas, e não havia nenhum sinal nem do livreiro nem dos livros.

Voltei para casa desanimado, atirei o livreto no sofá e fui tomar banho. Ao sair do banho, reparei que a figura na capa estava de novo com um tom vermelho-vivo. Abri-o devagar, e lá estavam os escritos! (nota: devo usar exclamação nesta frase?) Levei-o à minha escrivaninha e comecei a traduzir. Traduzo textos em latim, clássico ou vulgar, grego antigo e gótico. E agora estou aprendendo hebraico (aqueles que precisarem de traduções sabem onde me encontrar).

O manuscrito tinha como título Lachrymae Constantinae, isto é, “as lágrimas de Constantina”. Sua autora era uma misteriosa freira italiana do século XIII, de nome Constantina (obviamente). Um rápido parênteses: há poucos meses, chegou a minhas mãos o resultado de uma pesquisa minuciosa feita pela minha querida e curvilínea tutora, a Polaca Voadora, na qual ficou elucidado que a dita freira foi acusada de bruxaria, relações demoníacas, o de sempre. Voltando ao livro: grudei nele e passei a noite inteira lendo e fazendo anotações.

No dia seguinte, acordei de “ressaca literária”, e o livro estava novamente em branco. Resolvi ser paciente (todos sabem como eu cultivo uma forma quase mórbida de paciência) e esperar, esperar, esperar (repetição enfática). Numa espera que durou nove dias, o texto “reapareceu”, mas aí já tinha pela sua frente um acólito devidamente preparado e pronto para a labuta: comecei a traduzir, página por página. Infelizmente quando o sol nasceu as linhas sumiram de novo, e tive de recomeçar a minha espera. Resumindo: os escritos apenas se tornam visíveis “quando querem” (alguém que bole uma explicação melhor), numa periodicidade que não consegui prever. Só compreendi que os aparecimentos se dão sempre durante a noite. As folhas que transcrevi estão em anexo.

A dita freira conta que foi seduzida por um homem chamado Galfaredde (numa das citações, por cima há uma anotação em caligrafia diferente como o nome Galphared). Ele era um Aishim, um homem a quem os anjos delegam poderes celestiais. Os manuscritos trazem uma detalhada descrição deles.

Segundo ela, “seus olhos brilhavam como fogo, seus cabelos eram brancos e brilhantes”. Os Aishim atendem às ordens do anjo Sandalfon (o termo que ela usa é serafim, designação católica dos Haioth Haqodesh). Não entendi direito todos os poderes que ela descreve, mas incluem invisibilidade, intangibilidade, força e agilidade sobre-humanas.

Constantina explica que Sandalfon tem muitos seguidores espalhados pelo mundo, e vivem como monges ou frades, divididos em quatro funções: Semeadores, Pescadores, Pastores e Ceifadores. Eles cuidam dos Aishim ao longo de sua vida, que parece ser geralmente bastante longa. A vida deles é dividida em quatro “Idades”.

1) Idade do Trigo – as crianças pequenas (de ambos os sexos) são procuradas pelos Semeadores, que transmitem a estas uma partícula do poder de Sandalfon. A vida da criança prossegue normalmente.

2) Idade do Peixe – Os Pescadores recrutam os que começam a manifestar os poderes.

3) Idade do Cordeiro – os Aishim são ensinados pelos Pastores a usar seus poderes de forma correta. Recebem um nome inspirado pelo próprio Sandalfon (Os nomes aparentemente são em alguma língua angelical, não consegui decifrar seus significados).

4) Idade do Joio - Caso uma das três etapas não se conclua, ou o tal humano se corrompa no processo, surgem os Ceifadores, que retiram o poder do Aishim. O humano permanece vivo, mas a extinção do poder causa um enlouquecimento progressivo.

Acho que o amor entre a freira e o Aishim foi a origem das acusações de bruxaria, e segundo ela própria conta, os Ceifadores foram atrás de Galphared por considerá-lo corrompido pelo pecado. Acho que para os Ceifadores foi a moçoila que seduziu o rapaz. Na continuação há várias páginas de poemas de amor da freirinha para seu amado desaparecido, alguns dos quais bem “picantes” por sinal (estão em anexo também, divirtam-se).

Estou esperando que as letras reapareçam para que eu traduza o restante e entenda o final da história. O Acólito Mosquito me confidenciou que enfrentou um destes seres na década de 60. Aconselho sermos cautelosos no contato com estas criaturas. Podem ser uma ameaça.

Uma Tripla Saudação ao Glorioso Velhinho! Que seu faraônico nariz tenha sempre dedos para coçá-lo!

Alegria/Conhecimento/Amizade.

Ass: ACÓLITO GARGÂNTUA

LÁGRIMAS DE CONSTANTINA foi escrito por Simoes Lopes

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quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

Rebelião 17: Todos merecem uma Segunda Chance

Fui apenas um colessionador de fracaços

Istou partindo desSa pra melhor

Adeus mundo cruÉU

O bilhete era uma coleção de clichês, com horríveis erros de português. Ele então se olhou no espelho pela última vez. O reflexo era de um homem pequeno, esquálido, de cabeça raspada. Apontou a arma contra o queixo. Disparou.

E tudo se apagou.

No meio da escuridão foi surgindo um túnel de luz, e no final estava um homem, com enormes asas brilhantes. Sorrindo, ele dizia: “Não morra, meu filho. Você tem uma bela missão pela frente. Volte!”

Sentiu-se deitado, com os braços dormentes. Foi abrindo os olhos lentamente. Sentia uma dor aguda no rosto. À sua frente, sentado na cadeira, estava um gordo de óculos e cabelos encaracolados.

— Estou morto? — perguntou.

— Poderia estar. Mas felizmente sua pontaria é tão ruim quanto a sua ortografia. Há um enorme ferimento na sua bochecha, mas já está começando a cicatrizar. Não toque.

— Aaiiii ! – gritou, quando passou a mão no rosto e sentiu a ardência.

— Eu disse para não tocar...

— O que está acontecendo? Onde estou?

— Pergunta errada, devia ser “Quem sou eu?”. Por onde devo começar? Você não é o que pensa: você é um Nefilim, como eu. Seu pai era um anjo, e você tem poderes sobrenaturais. Estou aqui para ajudá-lo a conviver com seus poderes. Desculpe pelo atraso. Eu deveria ter chegado aqui uma hora mais cedo. Meu nome é Louis Rivet, mas pode me chamar de Gargântua.

— Heim? – gritou à medida que se sentava. O ferimento já estava bem menor.

— Sua mãe foi seduzida por um anjo, esta é a sua verdadeira origem. Você não é humano. Existem anjos espalhados pelo mundo fazendo filhos, e uma das linhagens são os Acólitos, como eu e você...Ei...preste atenção! O que está fazendo?

Ele pegou de novo a arma e apontava desta vez para o ouvido.

— Essa segunda vida é muito pior que a primeira.

Gargântua arrancou a arma das mãos do homenzinho.

— Deixa disso, homem! Isso é jeito de agir! Você é um Acólito, caramba!

— O rapaz tentou se desvencilhar, mas era difícil escapar dos mais de cem quilos de Gargântua. De repente, o olhar dele se iluminou.

Pela janela entrava uma morena maravilhosa de olhos verdes tão impressionantes quanto o decote do vestido colorido.

— Ufa! É ele, Gargântua?

— Sim. Está querendo se matar. É um osso duro de roer.

Com a chegada da moça, as feições do jovem mudaram por completo, abria um sorriso de orelha a orelha. – Você também é uma Acólita, como eu? Oi, meu nome é Lino. Foi saindo abraçado com ela.

— Eu sou Capitu, precisamos inventar um apelido para você. Os Acólitos têm uma missão muito bonita, sabe?

— Não sei, mas estou adorando aprender, pode falar!

Gargântua ficou parado no quarto, sozinho.

— Isso, divirtam-se! Vou ficar aqui esperando até que alguém venha dizer “Obrigado por salvar a minha vida, irmão!”, ou “Obrigado por me dar uma segunda chance!” ou, melhor ainda “Obrigado por me salvar de uma vidinha patética e ridícula!”. Eu não tenho pressa.


TODOS MERECEM UMA SEGUNDA CHANCE foi escrito por Simoes Lopes

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