quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Rebelião 91: Negro Gato


O temporal é intenso e já cai por mais quatro horas. Enrique Royo caminha com dificuldade pelo chão lamacento e pegajoso do pântano. Nuvens de mosquitos enxameiam sob a proteção de um enorme tronco disforme, cuja proteção garante uma área de terra seca suficiente para abrigar um pequeno exército. Protegido da chuva inclemente, o cadáver de um soldo fita o vazio com suas órbitas vazadas. Um enorme gato de pêlos inteiramente negros, com exceção de algumas marcas vermelhas específicas espalhadas pelo corpo. Para um bom conhecedor de símbolos místicos, cada mancha cor de sangue seria identificada como uma crux ansata invertida.
Cazador, o desencarnado está próximo?
Vestido com um longo manto negro, um homem mascarado acabava de atravessar a mata. Era ele quem gritava com uma voz rouca e sombria para o animal. O gato piscou os olhos brilhantes e fez alguns ruídos ríspidos.
Enrique Royo, o homem que trajava a máscara de caveira, compreendeu o que Cazador tentava lhe comunicar. O espírito do cadáver ainda estava por perto. O enorme gato negro, que Enrique chamava de “ocelote”, numa referência ao felino selvagem nativo de seu país natal, na verdade era um gato-selvagem africano, cuja vida corpórea transcorrera no Egito há milênios. Enrique seguiu as indicações do animal e conseguiu identificar o fantasma que pairava junto a uma enorme figueira. A silhueta imaterial translúcida guardava uma vaga semelhança com o cadáver putrefacto, e Enrique sabia tratar-se da alma de Nilo Arturo, militar porto-riquenho.
— Nilo Arturo, quem te matou? — inquiriu Enrique, com os olhos fixos no espectro que levitava.
— Matou? Eu... não morri... isto é um... pesadelo.
Enrique sabia como a morte era um trauma poderoso demais para qualquer ente, e compreendeu que Nilo ainda compreendera o que estava acontecendo.
— Sou amigo, não tenha medo — a frase não pareceu surtir o efeito esperado, pois o espírito de Nilo começou a levitar, numa espécie de impulso involuntário.
— Está...tá fri-o...fri-ooo... eu...
Negar a própria morte era uma reação esperada em mortes súbitas. Enrique mandou Cazador atrás do espectro. O felino arqueou sua coluna flexível e começou a galgar os galhos das árvores com uma agilidade sobrenatural. Por um breve instante, chegou a desaparecer no ar, reaparecendo metro adiante, no encalço do fantasma.
Cazador era o filho mais velho de um casal de gatos que haviam crescido no palácio de um faraó. Quando o Egito foi vítima de uma temível praga que exterminou todos os primogênitos, ele foi levado por Azrail, o Anjo da Morte. Como todas as vítimas inocentes daquela praga, tornou-se um up-en-khat, um celícola do Quarto Firmamento. Quando Enrique iniciou-se no ritos da sociedade mística conhecida como Golgotha tornou-se espiritualmente conectado ao celícola felino, que ganhou o nome batismal de Cazador.
Era este gato que agora perseguia pela floresta chuvosa a sombra diáfana de um espírito atormentado. O Golgotha estava investigando uma série de misteriosos assassinatos numa região obscura das florestas guatemaltecas. Cazador aferrou suas garras na perna etérea do fantasma, que gritou de agonia. Enquanto notava que o morto estava "capturado", Enrique corria apressado, ansioso em inquirir necromanticamente Nilo Arturo sobre a identidade dos assassinos em ação naquele recanto escuro.

Enrique apontou um amuleto em forma de cruz para a testa do fantasma, proferindo uma frase ritual em latim. O espírito balbuciou, e suas palavras não eram mais humanas. Enrique insistiu:

—O teu assassinado precisa ser punido. Quem é ele?

O corpo astral de Nilo Arturo ficou cada vez mais transparente, até desaparecer por completo. Enrique acabara de perder o contato necromântico que tentava manter. O gato soltou um miado longo e tristonho.

— O assassino continuará incógnito... que Deus tenha piedade da alma de Nilo, e que o Diabo receba em breve a visita de seu lacaio, quem quer ele seja!

Um barulho de galhos quebrando-se estourou por detrás dele. Em seguida, veio o som de algo pesado caminhando. Por fim, um grito horrendo, um misto de rugido e mugido.

Um pedaço de tronco—pesando mais de cem quilos—passou rente à cabeça de Enrique, que pôs -se em alerta. Cazador miou rispidamente e dissolveu-se no ar úmido tropical.

Um brutamontes mostrava os dentes amarelados em um sorriso animalesco de escárnio, sedento de sangue e violência. Os músculos inflados e o corpo artificialmente intumescido mostrava ser um Abominável, um lacaio dos Inferno, possuído por forças malignas mais antigas que a Terra.

Sua cabeça pavorosa devia chegar a uns 2,20m de altura. Ele brandia um matacão de pedra como se fosse um tacape. Ele gritou de novo.

Foi quando Cazador reapareceu, cravando suas garras no rosto do gigante.

Enrique não precisava mais investigar nada. O assassino acabara de aparesentar-se a ele, sem medo do confronto direto.

Chegara a hora do confronto tão esperado.


NEGRO GATO foi escrito por Simões Lopes