terça-feira, 17 de junho de 2008

Rebelião 79: Contrastes


Glenda Marques sentia-se mais uma vez entregue à solidão, em seu pequeno quarto no último andar do velho prédio em Copacabana. O minúsculo quitinete estava repleto de livros e cadernos de anotações, alguns deles bem mais velhos que ela mesma. A moça de traços delicados morava ali há mais de um ano, graças ao convite de sua amiga e “professora” Zu, que deixou que a jovem Acólita residisse naquele minúsculo apartamento, antes usado só como uma espécie de depósito informal.

Muitos metros abaixo, a discoteca de reputação duvidosa iluminava a noite quente de verão com suas letras enormes de néon. Alheia ao burburinho da rua estreita, Glenda cansou de folhear a esmo o velho livro empoeirado de capa escura e pousou-o sobre a mesinha do telefone. Era um compêndio de poesias góticas intercaladas com xilogravuras copiadas — supostamente — de antigos manuais de caça às bruxas. Trazia o título nada original de Bruxas, Demônios e Outras Criaturas Malditas, e era assinado por um desconhecido poeta gótico escocês Fred McLafer. Era um dos preferidos da coleção de velharias de Zuleica Silveira, a “Tia” Zu dos Acólitos, cujo pequeno apartamentinho mais parecia um sebo que um lar. Mesmo sem interessar-se por aquela insólita literatura, Glenda passava tanto tempo entre aqueles livros que sempre acabava lendo um ou outro para se distrair.

Uma lufada repentina de vento vinda da janela provocou um verdadeiro turbilhão nas folhas do livro entreaberto, para espanto da moça, que correu para fechá-la. “Estranho”, pensou ela ao perceber que a janela estava fechada. “De onde veio esse tornado?”, pensou Glenda. Quando o vento finalmente cessou — de forma tão misteriosa quanto havia começado — a Acólita percebeu que o livro ficara aberto na página 176, que trazia a gravura de um horrendo demônio, com chifres curtos e espiralados, e enormes asas escuras de morcego. A legenda no rodapé trazia escrito “Ganuvelis, anjo caído, outrora formoso querubim, transformado em nefasta criatura infernal. Prometia enriquecimento rápido a seus seguidores.

Glenda pensou em fechar o livro, mas acabou distraída pelas luzes do quarto, que passaram a piscar num ritmo frenético. Amaldiçoando a instalação elétrica da casa — não era a primeira vez que as lâmpadas na quitinete “pifavam” —, pensou em ligar para Zu, mas percebeu que todas as luzes da rua pareciam oscilar na mesma freqüência. O letreiro de cores berrantes da boate, os postes de iluminação na rua, até mesmo os faróis dos carros, tudo parecia tremeluzir num ritmo cada vez mais rápido. A Acólita começou a sentir-se ligeiramente tonta, e apoiou-se em sua cama para não cair no chão. Pressentindo algo fora do normal, agarrou-se ao objeto pontiagudo mais próximo como se fosse uma arma: um garfo.

As luzes piscaram cada vez mais rapidamente, até que tudo à sua volta parecia banhado em um brilho sobrenatural, como se estivesse aprisionada em um gigantesco caleidoscópio.

Quando pensou que ficaria cega com tanta luminosidade, todo aquele brilho apagou-se tão inesperadamente quanto começara, cedendo lugar à mais espessa escuridão que já sentira.

Em meio às trevas, ela ouviu uma gargalhada, seguida de um estalar de dedos.

Fiat lux! — uma voz masculina pronunciou a frase em latim, que Glenda — graças às aulas de catecismo na infância — compreendeu como sendo o “Faça-se a luz” bíblico.

As luzes voltaram ao seu estado normal, e Glenda viu-se apontando o garfo para um homem desconhecido, sentado calmanente à sua frente. Era baixo, de pele clara, e trajava um terno impecavelmente branco, combinando com todos os acessórios. Até mesmo os sapatos e as luvas eram de uma alvura absoluta.

Ela clamou por seus poderes manifestos, transformando o talher de alumínio numa mortífera adaga tridentada de luz celeste. Foi Zuleica a primeira a batizar Glenda com seu apelido de “Súbita”, pois ela sempre dizia que sua pupila Acólita “agia antes e pensava depois”. Com um movimento enérgico, ela apontou a arma na tentativa de acuar o estranho, mas bastou um simples sopro do homem, para sua adaga pulverizar-se numa miríade de pontos luminosos que esvoaçaram pelo quarto como um enxame de vagalumes.

— Meu bebê, acalme-se. Eu não pretendo fazer-te mal algum.

Súbita sentiu-se tomada por um inexplicado torpor: tentou mexer-se, mas não conseguia sequer mover as pernas. Parecia presa num filme em câmera lenta. Até mesmo suas palavras saíam arrastadas e quase incompreensíveis. Sentiu como se o tempo estivesse sendo gradualmente desacelerado. Somente o indesejável visitante parecia mover-se com agilidade em meio aquela cena de imobilidade mórbida. Ele aproximou-se com um largo sorriso — seus dentes brilhavam como diamantes —, e seus longos cabelos encaracolados, cujo matiz negro reluzia com reflexos azulados, deixavam no ar um perfume inebriante e indefinível. A Acólita sentiu-se inexplicavelmente mais calma, e assistiu paralisada ao homem de roupas brancas caminhar pelo quarto com um ar de curiosidade. Ele deteve seus olhos por um momento na página aberta do livro. Ele pareceu entretido com a ilustração da criatura, e a pausa prolongada indicava que ele estava lendo o texto com atenção.

Ele soltou mais uma gargalhada.

— Sempre me surpreende a ignorância da prole de Adão. Eu passei milênios aprisionado no Sheol, como poderia circular por Adamah prometendo riquezas?

A frase soou totalmente incompreensível para Glenda.

Ele folheou mais algumas páginas.

— Além disso, eu jamais tive chifres ou asas membranosas! Estes tolos medíocres sequer eram capazes de distinguir um Anjo Caído de um Baalim! E mais, bem... vejamos isso...hmmm...

O homem gargalhou mais uma vez, de forma tão escandalosa que Súbita temeu por seus tímpanos.

— Veja só o que disseram do bom e velho Karnah: “Os feiticeiros ansiavam pelos sortilégios de efeito afrodisíaco do demônio Carnas”. Ah, Karnah, um radiante Kerubim reduzido a um paliativo mágico para ermitões impotentes!

Ele interrompeu a gargalhada para voltar sua atenção para a mulher que o fitava quase paralisada. Os olhos dele brilharam como dois sóis.

— Não há tempo a perder — disse ele, e Glenda sentiu-se mais uma vez mergulhando na mais densa escuridão.

* * *

A Acólita acordou em sua cama, com a sensação de que passara vários dias dormindo. Levantou-se com certa dificuldade, e procurou em vão pelo misterioso visitante da noite anterior. O brilho do sol entrava pela janela com tamanha intensidade que até mesmo as embalagens vazias de refrigerante pareciam reluzir como prismas multicoloridos. Ela sentiu algo pequeno esfregando-se em suas canelas, e viu dois pequenos hâmsteres de pêlo dourado correndo pelo quarto. Eles moviam-se em círculos, e ela abaixou-se para tentar pegá-los, mas em vão: eram rápidos demais.

Foi quando sua memória começou a funcionar. Ela ganhara dois animaizinhos assim quando tinha uns oito anos de idade. Seus nomes ficaram sendo Zaca e Zoca, mas tinham morrido há muito tempo. Ela correu atrás daquele que parecia ser o Zoca — pelo menos tinha a mesma mancha branca no traseiro — e levou um belo tombo, após escorregar no assoalho liso. — Zoca! — gritou ela, sentindo-se um pouco infantil. Ela tentou levantar-se do chão, mas não conseguiu. O piso era escorregadio e mole, como se fosse gelatina. Não conseguiu endireitar o corpo. O roedor aproximou-se dela calmamente, e ergueu-se nas patas traseiras.

— Eu sou o Zaca, não o Zoca. O Zoca tem as patas pretas, não a mancha branca — falou o hâmster, para surpresa de Súbita..

— Zaca? Você fala? Vocês não morreram?

— Claro que falamos, Glenda — disse o outro ratinho, juntando-se ao companheiro.

— Por quê? — perguntou a Acólita, confusa demais para aperceber-se do que se passava.

— Porque isto é um sonho, sua imbecil! — gritaram os animaizinhos, em coro.

Glenda Marques foi erguida do chão como se fosse uma criança.

Era o mesmo homem da noite passada, ajudando-a levantar-se do chão.

— Desculpe-me, menina, mas aqui, oculto em seus sonhos, eu estarei seguro. Não posso perder mais tempo.

Os olhos dele reluziam com um brilho intenso, mas foi só quando ele abriu duas largas asas luminosas, que Glenda finalmente entendeu que estava na presença de um Anjo.

— Meu nome é Ganu’el, e por incontáveis eras fui um mensageiro celeste, como todos de minha estirpe, os Kerubim de Asas Brilhantes. Convocado a descer até Adamah para vigiar uma tribo de primatas estúpidos, cometi o erro de me afeiçoar àqueles animais incríveis. Os humanos jamais entenderão como seus dons são sublimes! Eu amei tanto aqueles seres primitivos que misturei-me a eles, mesclando minha aura sutil à carne sensual daquelas fêmeas lascivas. Cometi um pecado mortal — e não fui o único — e fui punido!

O semblante do Anjo alterou-se subitamente, numa metamorfose que mais parecia um processo de decomposição cadavérica. Suas feições tornaram-se distorcidas, enormes chagas abriram-se em seu corpo, os dentes deformaram-se em tamanho e aparência, marcas de pus e coágulo salpicavam sua pele alvacenta. Um dos braços reduziu-se a um toco, e pernas extra brotaram de seus flancos, como membros atrofiados. Os olhos mudaram de formato e tamanho, um deles migrando para o lado, enquanto que o outro inchava tomava parte do rosto. A aparência final era horrível: até mesmo seus trajes elegantes estavam reduzidos a trapos imundos. O contraste com a sua forma angelical não podia ser maior.

— A beleza faz-se feiúra. A luz torna-se trevas. Do Céu ao Inferno: meu prêmio por amar demais foi vegetar na mais implacável de todas as prisões por milênios e milênios. Enquanto os humanos escreviam bobagens e inventavam asneiras sobre mim e meus irmãos, visando apenas caçar e perseguir seus pares menos afortunados, eu jazia na floresta putrefata de Erebus, ansiando por um improvável perdão do Todo-Poderoso. Até mesmo no Sheol, onde a esperança não deve entrar, eu clamava ao Criador por uma nesga de misericórdia.

A voz do anjo assumia agora um tom lúgubre e trêmulo. Terminou seu discurso com um estridente berro em falsete, fazendo com que tudo ao seu redor tremesse. Glenda sentiu uma vontade incontrolável de chorar, e viu que o cenário parecia alterar-se mais uma vez. Tudo parecia fluido e mutável. Os dois roedores transformaram-se em dois pássaros de penas escuras e pernas compridas.

— Mas nem mesmo a Masmorra Eterna foi capaz de nos prender — disse o Anjo, recuperando o tom majestoso na voz. — Há cem anos atrás eu vim para a Terra, eu e alguns de meus irmãos. Dentre eles, o seu pai, Karnah.

— Meu pai? Ele jamais me procurou... — protestou Glenda, pensando em sua mãe, que a criou sozinha com tanta dificuldade. — Por quê? Ele sequer falou comigo! — nesse momento ela não percebeu que deixara de temer o Anjo. Dirigiu-se a ele como se falasse com um homem comum.

— Não é do feitio de Karnah aparecer de forma direta. Ele é discreto, dissimulado, quase como um fantasma — o Anjo acariciou os cabelos de Glenda, transmitindo-lhe uma sensação de paz e tranqüilidade inesperada. — Ele pode ver-te, assim como a todos seus filhos, criança luminosa. Ele age nas sombras, interferindo discretamente em momentos fugazes para favorecer sua prole. Eu asseguro-lhe, menina, que Karnah jamais pensou em te abandonar.

— O que você quer comigo? — Súbita resolveu esclarecer de uma vez por todas o que estava acontecendo.

— Preste atenção — ao dizer isso, o Anjo mais uma vez transmutou-se, retornado ao seu disfarce terreno de antes. — Eu preciso que guardes algo muito importante para os Acólitos. Um perigo tão grande paira sobre nossas hostes que nem um Kerubim ousaria pronunciar certos nomes. Somente aqui, na proteção destas paisagens oníricas, guardadas no íntimo de tua essência imortal, é que devo executar a missão que me foi confiada por meus irmãos.

— Por quê eu? — mesmo entorpecida pela aura de placidez emanada pelo anjo, Glenda sentia-se perdida em meio a tantos mistérios.

— Tu és uma filha admirável, bebê. Teu grande potencial reside justamente naquilo que você considera tua maior fraqueza. Acalma teu coração, não devo demorar mais, presta atenção no meu presente.

Ele meteu a mão no largo bolso lateral do terno, retirando um rolo de papel escrito, de aparência muito antiga. As bordas eram puídas, e as letras pareciam parte de algum estranho alfabeto extinto.

— Este é o Papiro Semiázico. Seu conteúdo é tão terrífico quanto maravilhoso. Por séculos circulou pelas mãos de bruxos, clérigos e filósofos das mais diversas espécies e tendências. Mas em mãos humanas, felizmente, seu real significado jamais pôde ser decifrado. Localizei-o quando vivi incógnito entre os homens, e obtê-lo não foi algo fácil. Desde então venho mantendo-o comigo, oculto em penumbras interdimensionais, mas Karnah e Iraiah, meus irmãos, instaram-me a revelar parte de seu conteúdo a nossos filhos Acólitos. O PAPIRO NÃO DEVE JAMAIS RETORNAR AO PLANO FÍSICO. Foi por isso que decidi ocultá-lo aqui, na camuflagem onírica de uma mente Híbrida.

Glenda parecia não entender nada do que o anjo falava.

— Se isso não pode mais ficar na Terra, como poderemos consultá-lo?

— PROCURA TUA FAMÍLIA, ELA SABERÁ AGIR — respondeu o Anjo, abrindo suas asas.

— Mas eu não consigo entender... como poderemos... — seu balbucio foi interrompido por um gesto de Ganu’el, silenciando-a: — Tua ignorância por ora é uma bênção, criança. Os mistérios estão protegidos, mas tua inteligência irá revelá-los, de forma gradual e segura.

O Anjo calou-se por um momento, e Glenda teve a nítida sensação de que ele estava com medo. A luz emitida pelas asas era tão radiante, que todo o cenário tornou-se uma espécie de tela branca.

* * *

A Acólita acordou em sua cama, e desta vez, consciente de que estava no mundo real, de volta. Nada de chão de gelatina, ratinhos falantes, ou anjos multiformes. Mas ela sabia que tudo fora verdade, e que precisava agir imediatamente.

“Zu. Ela vai saber o que fazer!”, pensou consigo mesma, e tentou telefonar para sua amiga.

Nada. Ninguém atendia.

Decidiu ir até ela. Quando se deu por si estava correndo pela rua, em plena madrugada, desesperada em chegar na casa de Zu, distante algumas quadras dali.

Tão absorta estava em suas preocupações que não olhou para os lados antes atravessar a avenida. Sentiu um braço forte puxando-a para trás, ao mesmo tempo em que um carro passava em alta velocidade, quase raspando em seu corpo.

Caiu no chão, meio desequilibrada, tomada pelo susto momentâneo, e viu um homem velho magricela, com barbas compridas e pele escura. Era um morador de rua, aparentemente embriagado.

— Cuidado com o carro, moça! — disse o homem caolho, mostrando um sorriso banguela. Segurava uma garrafa de pinga na mão.

Glenda endireitou o corpo, desta vez olhou para os lados, e recomeçou sua corrida desenfreada. Sequer pensou em agradecer ao velho por ter lhe salvo a vida. Continuou em seu ritmo acelerado, e desapareceu no quarteirão seguinte.

O velhote ajeitou o corpo esquálido, e ninguém estava por perto para ver que seu olho cego estava brilhando.

“CUIDADO, MINHA QUERIDA FILHA. NEM SEMPRE EU ESTAREI POR PERTO PARA SALVÁ-LA”, após este pensamento, ele aproximou a garrafa do rosto. Dentro dela, silhuetas vagamente humanas pareciam nadar num líquido translúcido. Ele sacudiu o objeto como se fosse uma espécie de troféu, e pareceu por um breve momento conversar algo com os minúsculos prisioneiros daquele insólito receptáculo.

Após isso, calou-se, e simplesmente desapareceu. Felizmente ninguém estava por perto para surpreender-se com isso.

Ganu’el tinha razão. O Anjo Karnah realmente era muito discreto.

Continua...

CONTRASTES foi escrito por Simões Lopes
Arte: Paula Dunguel

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