terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Rebelião 100: Trilha Ancestral

ECOS DE PRAGA V

Mesmo à noite, os majestosos afrescos da Igreja de São Nicolau brilhavam, refletindo a luz mortiça que iluminava o interior. Uma pequena e quase despercebida janela lateral deixava passar um fino raio de luar que incidia diretamente sobre a silhueta encapuzada do homem esquálido que estava parado junto ao altar. Dois sacristãos passavam apressados, carregando vasilhames com apetrechos litúrgicos, enquanto uma faxineira de origem albanesa varria os corredores. O homem esguio apoiava-se em uma robusta bengala prateada, e seus olhos sempre fechados sugeriam que se tratava de um cego. Ele bateu duas vezes com o objeto no chão, deixando um leve estampido metálico ecoando pelos corredores da nave central. Sentou-se no banco mais próximo, e sem precisar se virar, disse com uma voz fina e estridente:

— Duas horas de atraso. Já estava pensando que minha proposta não fora levada em consideração — o tom exprimia uma certa irritação. Por trás, um visitante acabara de chegar furtivamente, protegido pelas sombras projetadas na parede lateral.

— Problemas corriqueiros de trânsito. Estou aqui conforme o nosso trato, mas antes, preciso conferir o objeto.

— Paciência, meu caro Magnus! Se você fez tudo conforme eu orientei, o presente será seu... fique tranquilo — havia uma leve ironia na voz aguda. Mas não duvide de minha honestidade. Sinto-me ofendido.

— Eu segui todas as instruções, inclusive fornecendo as informações que os monges precisavam. Gastei duas porções de elixir salamândrico para capturar os meri’im, e meus braços ainda estão doloridos pela luta. Minha rótula direita também está seriamente prejudicada, e acho que vou precisar desta bengala mais do que você.
— Este histrionismo infantil não cai bem em você, um descendente do notório Conde Ferdinand. Não estou aqui para ouvir gracejos, sinta-se feliz por suas rótulas ainda estarem no lugar. Janus Wagenher extirpou os próprios rins na esperança de obter um simples fluido de levitação. Eu vi com meus próprios olhos as chagas malcheirosas de Massimiana di Parma, que morreu leprosa no Monte Carmelo buscando por relíquias
que nem eram verdadeiras.

— Massimiana? Você a conheceu? Quantos anos você tem?

— Muitos. Mas não estou preocupado com números, estou aqui para fechar um negócio.

A luz crepuscular incidiu no rosto do velho, revelando uma pele pálida e de aparência oleosa. Pêlos pontudos e prateados emolduravam o queixo com uma barba comprida. À medida que falava. os fios tremulavam como se tivessem vida própria.
Magnus Mladota de Solopysky era um longínquo descendente do Conde Ferdinand de Solopysky, aquele quem as lendas familiares atribuíam ter sido arrebatado pelo Demônio após um pacto malsucedido, e dedicara sua vida inteira a um resgate das supostas tradições sobrenaturais da família. Ao contrário da maioria dos bruxos quiméricos, que dedicam-se com afinco na compreensão do sobrenatural, acumulando conhecimentos e instrumentos de toda origem, seja ela celeste, infernal ou outra qualquer, Magnus tornou-se fascinado pela manipulação de poderes demoníacos. Sem qualquer pudor ou freio moral, conseguiu invocar as mais diversas espécies de demônios e através delas aumentar seus recursos místicos. De tanto buscar novos contatos, o descendente do conde acabou por descobrir aquele misterioso ancião num beco em Malá Strana. Prometendo uma dádiva há muito procurada, o Amuleto Kelley, o velho pediu em troca apenas sete espécimes de demônios capturados. Para isso, Magnus precisava encontrar-se com o negociante em sete igrejas diferentes, e em cada uma delas entregar um frasco contendo uma mistura de vinho, azeite, água benta e seu próprio sangue. Dois encontros anteriores já haviam ocorrido nas igrejas de São João Nepomuceno e de São Clemente, sempre seguindo o mesmo estranho ritual.

Magnus sentiu-se um pouco zonzo. “Consequência da perda de sangue”, pensou ele, enquanto revirava os bolsos do casaco pesado de lã. Puxou um pequeno cilindro de vidro fosco, envolvido por anéis metálicos de cobre. A tampa, também de cobre, trazia marcas azuladas de oxidação, e tinha entalhada quatro letras hebraicas entalhadas. Quando ele balançou o frasco, ouviu-se um silvo bem agudo, e um som estranho demais para ser definido. O velho arrebatou o frasco com impaciência e olhou-o contra a luz, tomando cuidado para não chamara a atenção das poucas pessoas que circulavam pela Igreja.

Ele sorriu pela primeira vez, expondo os dentes grandes e enegrecidos. Fixou os olhos no vidro escuro, como se pudesse enxergar através das paredes opacas.

— Perfeito — disse ele, satisfeito com o presente. Só restam mais quatro encontros, até lá.

— Espere. Não quero sair daqui de mãos vazias — Magnus reforçou sua frase retomando o frasco com violência. E se você não cumprir sua parte?

O velho franziu o cenho, e pela primeira vez abriu um dos olhos, inteiramente negro, como se fosse uma gema de ônix. Magnus sentiu um arrepio incontrolável de frio. Uma névoa gélida parecia emanar dos lábios do estranho homem, à medida que ele falava:

— Eu cumprirei minha parte, e tudo o que você tem é a minha palavra. Nada mais. Espere até o fim do ritual, e quando eu tiver meu sétimo demônio, na sétima igreja, você terá as respostas sobre o amuleto.

O frio tornou-se tão intenso que Magnus teve dificuldade em controlar os braços. O vidro escorregou de suas mãos, tão gelado que parecia queimar ao toque. O velho pegou o frasco com os dedos longos, e fez um leve afago nos ombro do bruxo.

— Nos vemos daqui a sete dias, no mesmo horário, na Capela de Belém.

Ele ergueu-se, batendo a pesada bengala contra o chão. Aproximando-se do ouvido de Magnus, que ainda tremia de frio, disse com um tom estranhamente cordial:

— Não sinta-se mal, meu amigo. Como sinal de minha gratidão, deixe-me pronunciar meu nome: MEFISTÓFELES — sussurrou, e Magnus sentiu a sensação glacial estancar subitamente. — Aceite isso como uma espécie de brinde, já que não são muitos os que conhecem meu nome.

Enquanto Mefistófeles, o ancião misterioso, desaparecia pela porta principal da Igreja de São Nicolau, Magnus de Solopysky, tentava se recompor. Tinha que se preparar para o próximo encontro, e o tempo era curto. Esfregou o dedo mínimo, revelando uma tatuagem minúscula na polpa do dedo. As linhas marcadas em vermelho-arroxeado formavam uma espiral de traços delicados, conhecida nos compêndios quiméricos como Espiral de Noviomagus. Estes mesmos compêndios, que acusavam a origem pré-céltica do glifo, ensinavam a sua utilização na detecção de forças do Outro Mundo. O bruxo olhou com atenção para o dedo, e viu que as pontas da espiral carmim estavam agora com um tom levemente amarelado. A mudança de cor comprovada a essência inumana de Mefistófeles, e Magnus sentiu-se tomado por uma vaidade indescritível, orgulhoso em seguir os passos de seu ancestral de séculos atrás. Fez o sinal da cruz, num sinal de devoção que os paroquianos jamais saberiam que era inteiramente falso, e deixou a igreja em passos rápidos. Cada vez mais ele aprofundava-se em seus conhecimentos arcanos, e ampliava seu controle sobre fontes de poderes infernais. Precisava voltar o mais rápido possível para casa, a fim de preparar mais armadilhas alquímicas para diabretes do Limbo. O próximo meri’im capturado precisava ser ainda mais poderoso que os anteriores. O Príncipe das Trevas era exigente.

Enquanto isso, longe de qualquer presença humana, o sinistro Mefistófeles esgueirava-se por uma viela escura e abandonada, às beiras de um barranco íngreme, onde jaziam as ruínas enterradas de um antigo templo, há muito destruído. O velho passou as unhas nas tiras de cobre velho, fazendo-as brilhar num clarão azulado intenso e rápido, dissolvendo-as à medida que pronunciava frases que nenhum ouvido humano seria capaz de traduzir. Com um golpe seco contra o muro, o frasco foi quebrado, revelando uma criaturinha abjeta que se contorcia e deixava uma gosma borbulhante nos líquido que escorria do vidro. Cinco olhos reptilianos vasculharam rapidamente todas as direções, no topo de pendúculos carnosos que ligavam-se a uma cabeça peluda, vagamente assemelhada à de um macaco em miniatura. Tentáculos rosados cercavam um corpo de lagosta, e quatro asas prateadas batiam sofregamente, ainda pegajosas com a mistura alquímica de vinho, sangue e azeite. Como se sentisse a presença de Mefistófeles, ela tentou um salto para longe, mas o velho agarrou-a em plena tentativa de vôo. Apertando o demônio com as mãos ossudas, ele olhou aquela massa disforme, e bafejou uma fumaça gélida nas asas membranosas.

— ASPEKALNAKES — disse ele com o tom professoral de um cientista estudando uma espécie de animal desconhecida. — Um meri’im de pequena grandeza, mas ainda assim com qualidades intrinsecamente únicas.

O velho abriu a bocarra, expondo os dentes negros e pontudos, e arrancou uma das asas com um puxão rápido. Aspekalnakes, o demônio, soltou um ruído estridente, parecendo ora como o borbulhar de uma panela de água fervente, ora como o miado de um filhote de gato. A boca simiesca cuspiu um jato avermelhado de ácido, que congelou em contato com a aura fria que emanava de Mefistófeles, adquirindo o formato bizarro de um galho ramificado, fino e de brilho oleoso, logo se pulverizando. O monstrinho pareceu inchar, crescendo até aparentar o tamanho de uma ratazana. Soltou mais um grito, uma horrenda mistura de mugido e gargalhada, antes de sentir seu ventre perfurado pela unha comprida do velho, que num movimento rápido demais para ser entendido, devorou a cabeça do meri’im, e envolveu-o mais uma vez com um bafo congelante, para impedir que a mutilação do corpo físico provocasse o seu desaparecimento. Com os dentes afiados, arrancava grandes nacos de ectoplasma carnoso, sempre recitando a sua estranha ladainha. Em poucos segundos, o demônio estava devorado, e os grandes olhos negros de Mefistófeles se abriram, mostrando pontos de luz que reluziam como estrelas no fundo negro que parecia preencher o âmago daquela estranha entidade inumana.

A atmosfera do beco ficou subitamente ainda mais fria, e Mefistófeles sentiu que as linhas energéticas invisíveis que atravessavam o éter ficaram subitamente supersaturadas. Reconhecendo o sinal característico de sua espécie, ele fixou os olhos num trecho do muro onde um filete de gelo parecia começar a se acumular. A umidade congelava-se rapidamente em uma reação em cadeia que acabou por delinear uma silhueta vagamente humana. No meio da bruma, materializou-se outro ser parecido com Mefistófeles, mas de traços nitidamente distintos. Era mais baixo, bem mais magro, com o andar bem curvado. Sua barba acabava em um ponta dupla.

Irmão Mothardis, que Ratsiel esteja conosco— saudou Mefistófeles o seu parente.

Irmão Mefistófeles, que assim seja — respondeu o assim denominado Mothardus, em um idioma inaudível para ouvidos humanos. — Desejo sucesso a teus planos.

Com a graça do Bom Ratsiel, o Adamita prossegue cada vez mais enredado em minhas urdiduras.

Sinto impurezas em tua aura, Irmão­ – disse em tom de alerta. Mefistófeles não se demonstrou abalado: — O descendente do Conde Ferdinand é engenhoso, e tentou surpreender-me com simulacros de magia noviomagiana. Um desconforto facilmente reversível. Ele sabe meu nome, mas não sabe que em EU SOU.

É fundamental que nossa trama prossiga incógnita, Irmão Mefistófeles­ ­— Mothardus alertou. À medida que a conversa prosseguia, as duas criaturas começaram a se dissolver nas sombras que cobriam o caminho abandonado.

Ela pensa estar negociando com um dos príncipes caídos do Sheol — a palavra foi realçada com um tom de asco pungente — e nem desconfia ser um títere nas mãos de um Celícola. Neste momento, um gato preto arisco atravessava o muro com pressa, na ânsia de perseguir uma gorda ratazana. Mothardus e Mefistófeles continuavam ali, mas num estado fantasmagórico, sua presença indetectável para qualquer mortal. Uma coruja sobrevoou a viela, não sentindo nada além de uma pontada quase imperceptível de frio.Quando o sol nascesse, dentro de um par de horas, os dois nadais não estariam mais ali.


ECOS DE PRAGA V: TRILHA ANCESTRAL foi escrito por Simões Lopes, inspirado no Netbook A CIDADE DE PRAGA, de Marcel Herrero e Flauberth Carvalho.


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