segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Rebelião 98: Cinza e Azul


ECOS DE PRAGA III

Quando entrou na LAN House Khaos 99, Václava chegou a pensar que o sistema de calefação estava desligado, tamanho o frio que ali fazia. A luz mortiça envolvia tudo em uma penumbra ligeiramente azulada. Num salão que parecia vazio, dois adolescentes obesos com aspecto nerd pareciam mergulhados em um transe hipnótico. Se não fosse o nervoso piscar de olhos, ela podia jurar que os garotos estavam congelados. A silhueta esguia de Vladmir Palovek, o único funcionário da loja, podia ser vista por detrás do grosso vidro fumê que escondia o mezzanino. A altura, a magreza e a postura exageradamente curvada fizeram Václava lembrar-se de um louva-a-deus. Contendo o riso, dirigiu seus olhos para o lado oposto da sala, onde identificou a figura inconfundível de Kamila Fric, a atual proprietária da Khaos 99. Enormes alargadores perfuravam seus lóbulos, um azul e outro verde, combinando com a cor de suas longas unhas e de das mechas de cabelos tingidas e empasteladas de gel brilhoso. Um decote generoso expunha o volume generoso dos seios tatuados com linhas negras imitando arame farpado. Os ombros nus mostravam tatuagens da “Noiva de Frankenstein” em poses sensuais, enquanto as costas da mão esquerda ostentavam um enorme ENDZEIT — fim dos tempos, em alemão — gravado em caligrafia gótica. Na outra mão, havia outra palavra tatuada, mas Václava não se interessou em ler.

O contraste entre ambas não podia ser maior, ao contrário da exuberância de Kamila, Václava vestia uma roupa cinza-escura discreta, e os cabelos negros encaracolados sem brilho estavam cobertos por um gorro surrado de lã azul. Os olhos tristonhos castanhos vasculharam um bloquinho de anotações tirado do bolso do casaco em busca de algo importante. Antes que ela abrisse a boca, Kamila adiantou-se:

— Václava. Eu me lembro de você na Praça Velha. Pode chegar...

A moça de casaco cinzento e jeito tímido sentou-se ao lado da mulher tatuada, que operava um computador no fundo da sala, longe dos olhares vorazes dos nerds do outro lado.

— Estou aqui para fechar o trato. Eu...minha...eu representou alguém que... — as palavras saíam com dificuldade.

Kamilla limitou-se a apontar para a tela do computador, e abri um aplicativo de texto, onde digitou o que parecia ser um início de conversação:

ELIŠKA MANDOU VOCÊ AQUI. EU A CONHEÇO DE LONGA DATA. IMPORTA-SE DE EU RESPONDER ASSIM, POR PRECAUÇÃO?

Václava limitou-se a acenar positivamente com cabeça. Ela mostrou uma folha arrancada de seu bloco, onde havia o desenho de um estranho símbolo místico. Os dedos de Kamila correram pelo teclado, em resposta:

ENOQUIANO OU ALGUM ALFABETO CORRELATO. UM DOS SÍMBOLOS QUE DO ESPELHO DE JOHN DEE.

Václava aproveitou o mesmo teclado e digitou a resposta imediatamente:

ELIŠKA SABE ONDE O ESPELHO DOS QUATRO ELEMENTOS ESTá E QUER FAZER UMA TROCA.

Kamila franziu a testa e torceu o nariz. A mulher de cabelos vermelhos que passava boa parte de sua vida na LAN House era uma nefilim da Linhagem dos Guerrilheiros. Desdenhando da informação, respondeu secamente:

FICA NA CAPELA DOS ESPELHOS. EU SEI.

A outra mulher replicou:

AQUELE ESPELHO É FALSO. O VERDADEIRO ESTÁ BEM LONGE.

Kamila olhou fixamente nos olhos de Václava. Estava usando seus poderes para detectar mentiras. A serva de Eliška estava dizendo a verdade, ou pelo menos acreditava piamente estar dizendo a verdade. Não custava testar.

O QUE ELA QUER DE MIM? — digitou, apagando em seguida.

Václava pensou um pouco antes de responder:

AJUDA PARA COMBATER UM INIMIGO EM COMUM.

Kamila limitou-se a acenar, instando Václava a prosseguir.

VÍBORA PUSTULENTA, A SHEILIM, ACHOU UMA CRIANÇA HÍBRIDA NUM ACAMPAMENTO CIGANO. OS LACAIOS DELA ACHARAM O ESPELHO LEGÍTIMO.

Kamila abriu um sorriso. Václava digitou mais uma frase:

TRAGA-NOS O ESPELHO EM TROCA E NÓS INDICAREMOS O PARADEIRO DA CRIANÇA NEFILIM.

A Guerrilheira refletiu sobre o trato. Sua resposta tinha uma pontinha de ironia:

PORQUE NEGOCIAR COM UMA QUIMÉRICA? QUE GARANTIA EU TENHO DE QUE ELA VAI CUMPRIR SUA PARTE?

A resposta de Václava veio em voz alta:

— Você não tem escolha. Basta aceitar ou negar. Sabemos que você não recusaria um desafio tão tentador. Ou será que você está com medo? Kamila Fric é uma medrosa?

A Guerrilheira bufou de irritação. Inesperadamente, tascou um beijo na boca da emissária de Eliška, que recuou com um ar de nojo. Um dos garotos, que olhava a cena de soslaio, soltou um risinho libidinoso.

— Ofendida? – A garota tatuada abriu um sorriso de satisfação.

— É...isso..não... — Václava procurava as palavras, mas não as encontrava.

— Considere o beijo como um sim à sua proposta. Não pense que tenho algum interesse em você. Fui lésbica nos anos 90, mas enjoei, e agora prefiro algo do tipo hétero, entende? E mesmo que voltasse a gostar de mulheres, você não faz meu tipo.

Václava continuou balbuciando, sem conseguir falar algo.

Game over, baby, se manda! Diga à sua mestra que eu topo o desafio.

A serviçal quimérica saiu apressadamente da LAN House, enterrando o gorro felpudo na cabeça assim que sentiu a lufada gelada de vento nas orelhas levemente pontudas. Puxando um lenço do bolso, limpou a boca esfregando com tanta força que quase arranhou os lábios. Václava recolheu o lenço com cuidado guardando-o num saquinho plástico lacrado que sempre trazia consigo. Mais do que o beijo em si, o que mais lhe causara ojeriza fora o contato com a aberração cósmica que aquela nefilim simbolizava. Os bruxos quiméricos como ela e sua misteriosa mestra Eliška entregavam com uma devoção quase sacerdotal ao estudo dos mistérios do Universo, especialmente aqueles que ultrapassavam todos os limites estabelecidos pela Ciência ordinária. Os quiméricos eram os maiores conhecedores dos segredos mais sombrios da Criação, e nem mesmo os mais sábios dentre eles jamais haviam conseguido encontrar uma hipótese plausível para explicar a presença de seres híbridos caminhando por Adamah, e nem conseguiam entender se seus progenitores eram anjos do Sheol ou do Shamaim. Não eram seus dotes sobrenaturais que provocavam o sentimento de extrema repugnância nos quimérios, mas sim o fato de que sua real natureza não podia ser compreendida ou explicada. Enquanto Václava retornava para o esconderijo de sua senhora, sentia o lenço como uma espécie de trófeu. Nele estavam restos de saliva e de suor, — e com alguma sorte, preciosas células mortas de pele — de uma nefilim, um precioso — e inesperado — espólio a ser analisado e testado minuciosamente. Seus vastos conhecimentos em alquimia lhe seriam de grande valia, e ela esperava fazer algumas descobertas sobre as propriedades bioquímicas daquela criaturas.

Enquanto a mulher de casaco cinzento desaparecia na multidão que embarcava no trem, bem longe, a três quarteirões de distância, a Guerrilheira penteava as próprias mechas coloridas, e pensava nas consequências da inesperada aliança com os quiméricos de Eliška. Sabia dos riscos que corria, mas não podia permitir que aquela criança cigana, sua pequena “irmã”, caíssem nas garras dos inimigos dos Filhos da Segunda Rebelião. Só aceitara o trato, porque sabia — através de outras fontes de informação — que tal criança realmente existia, e que seu nome era Habriela. Ao beijar a quimérica, ela deixara em sua pele uma marca que poderia ser rastreada e detectada a distância, o que permitiria acompanhar os passos dos bruxos mesmo à distância. Kamila lembrou-se de contatar Benita Vernes, a Escriba, para verificar se esse Manifesto recém-manifestado era algo inédito ou já era algum dom catalogado pelos Escribas. Mas isso devia ser deixado para depois. No momento, sua real preocupação eram os dois clientes da loja que insistiam em não sair da loja. Kamila mandou Palovek comunicar aos dois nerds preguiçosos que o horário de funcionamento estava encerrado. Já acostumados com o tom de voz exageradamente arrastada do funcionário, os garotos insistiriam em uma prorrogação do prazo. Para mostrar que qualquer resistência seria inútil, Kamila simplesmente desconectou os cabos de rede. Um dos meninos tentou reclamar, mas a imponência dos 1,85m da dona da loja, associada a um tom de voz convicto e uma fisionomia furiosa, fez com que eles acabassem convencidos a se retirar.

Livre de seus inoportunos clientes, Kamila dispensou seu funcionário e foi para o seu escritório pessoal, para planejar suas futuras ações frente aos perigos que se anunciavam.

Enquanto as luzes azuis de neon do letreiro da Khaos 99 acabavam de ser desligadas, alheios ao frio congelante que afligia os transeuntes da rua, os adolescentes limitaram-se a um breve diálogo.

— A Nefilim não percebeu nada.

— Johana estava certa.

— Como sempre.

ECOS DE PRAGA III: CINZA E AZUL foi escrito por Simões Lopes, inspirado no Netbook A CIDADE DE PRAGA, de Marcel Herrero e Flauberth Carvalho.

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quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Rebelião 97: A Gema do Capricórnio


ECOS DE PRAGA II

Poucos são os frequentadores do Mosteiro de Strahov que conhecem aquele túnel estreito e comprido que se parece avançar rumo às profundezas da Terra. Dois vultos caminhavam devagar, os pés calcando no piso de rocha escura e coberta de limo. Um monge magro, de cabelos ralos e barba alourada, conduzia a outra pessoa através da densa escuridão, carregando um bastão luminoso que emana uma luz fria verde-azulada. O vulto esguio que o acompanhava, coberto por um manto branco com capuz, não trazia boas notícias para os moradores daquele mosteiro.

Aquele que os mendigos e necessitados das sarjetas de Praga conheciam simplesmente como o Irmão Pavel, agora apresentava-se como Pavel de Tharsus, o mais velho dos doze Cavaleiros da Cruz Resplandecente que residiam incógnitos entre as paredes do Mosteiro de Strahov, na capital da República Tcheca.

Quando a exaustiva descida parecia ter chegado a seu fim, um cômodo simples, de assoalhado de madeira, e onde uma pequena imagem sacra dos Reis Magos apoiava-se em uma coluna de ferro enegrecido. Assim que adentrou o recinto, Pavel fez o sinal da cruz, ajoelhou-se e trouxe o bastão junto ao peito, provocando um intenso clarão. À medida que a luz esmaecia, os contornos objetos moldavam-se plasticamente até se reduzirem a um grosso bracelete com aparência metálica que ele enfiou no pulso e escondeu sob as grossas mangas da túnica. Enquanto ele parecia conduzir este estranho ritual, seu acompanhante desceu as dobras do capuz, expondo um rosto feminino de longos cabelos ruivos e grandes olhos tão negros quanto a gema que carregava pendurada em um colar.

A mulher, que no território mundano dos homens era apenas Jolana Rozinova, voluntária em uma pequena igreja na parte leste da cidade de Bratislava, aqui era Jolana de Pathmos, uma das mais renomadas integrantes da Ordem da Cruz Resplandecente, como seu colega Pavel de Tharsus. Jolana nascera há cinquenta anos atrás na então Tchecoslováquia, mas ainda conservava praticamente a mesma beleza de sua juventude. A beleza daqueles olhos negros, terrível para as hordas de lacaios do Inferno, só encontrava rival em sua faiscante arma mística, a Gema Negra da Fênix. Jolana chegara naquela noite da Eslováquia para trazer mensagens preocupantes a seus irmãos de fé em Strahov.

Boatos circulavam pelas bocas mais sujas do submundo, contando histórias de monstros rastejando pelas docas no rio Vltava, de filhos de anjos caídos e de prodígios celestes e terrenos. A mais sombria indicava que o abjeto Antony Rothschild, monarca sem coroa de uma vasta legião de criminosos, assassinos e cafetões, estava de posse de objetos miraculosos, e incluía em sua vasta rede de contatos infames uma corja de satanistas e bruxos malditos, recém-chegados das terras geladas da Polônia e Rússia. Da distante terra ensolarada da Espanha chegavam notícias agourentas, anunciando a morte do virtuoso Estéban de Tartessos.

Quanto mais Jolana narrava os acontecimentos, mais contrito ficava Pavel em suas orações aos Santos Reis Magos. Era preciso avisar o Abade Ferdinand de Mênfis, o mais velho dentre os cavaleiros do mosteiro, e aguardar pelas suas ordens. Pavel escoltou Jolana até a saída, concentrado em proteger aquela passagem secreta que se escondia atrás da dispensa vazia da velha cozinha abandonada. Ao contrário de outras Ordens celestes, a Cruz Resplandecente possuía muitas mulheres em suas fileiras, e nem todas precisavam dissimular-se de freiras ou monjas. Jolana escondia-se sob a anônima e quase invisível máscara de pacata voluntária em uma secretaria de igreja, mas à noite, livre dos grilhões sociais, era uma ativa combatente do Mal, e circulava incógnita sob mil disfarces pelos mais perversos recantos da cidade.

Pavel imediatamente tentou procurar pelo Abade Ferdinand, mas o frei Miroslav — um pacato ermitão antissocial que sequer desconfiava que aquele mosteiro era o esconderijo de guerreiros eclesiásticos — respondeu que o abade não era visto desde a noite de anteontem. O Irmão Pavel optou por sentar em um dos bancos do templo. Sua gema verde-azulada, a Pedra do Capricórnio, fonte de seu poder resplandecente, agora transmutada em um tosco bracelete de metal escuro, pulsava suavemente em contato com sua pele pálida. Ele tentou, com a máxima concentração, buscar um contato com seu mestre, mas foi em vão. As energias emanadas do cristal eram capazes de deste tipo de proeza sensorial, mas naquele momento, algo estava impedindo o contato. Talvez Ferdinand estivesse por demais distante, ou talvez Pavel estivesse muito cansado para conseguir o grau de focalização suficiente.

Derrotado pelo desânimo, o cavaleiro-monge de cabelos claros retornou ao seu humilde quarto, de cuja janela estreita era possível divisar as águas distantes do Rio Vltava. Quanto sentou em seu leito, sentiu um odor estranho, semelhante a ferrugem, com um leve toque de enxofre. Um calor intenso passou a emanar de seu bracelete e, de prontidão, olhou ao seu redor, percebendo que o vidro da janela estava rachado de cima a baixo, e que uma grande mancha escura borrava o canto da parede, espalhando pelo chão de tábuas largas. Seguindo o rastro de sujeira, descobriu um embrulho ensanguentado, junto à escrivaninha. Do bracelete agora pulsava uma luz bruxuleante, indicativo de que os fluxos de energia sutil no recinto estavam perturbados.

Cutucou o embrulho com cuidado, e antes de abri-lo, seu bracelete já se transmutara em uma longa adaga radiante. Envolvido nos panos ensanguentados, coberto de uma trilha de gosma amarelada, havia uma mão humana decepada. Em sua palma, gravada com profundas incisões podia-se ler em letras minúsculas: O ABADE VIVE. Virando-a, Pavel leu nas costas da mão: CATIVO E MUTILADO.

“Cativo e mutilado”, os pelos da nuca de Pavel se arrepiaram. Deixou que sua arma celeste vasculhasse os arredores com sua luz mística, não encontrando mais traço algum de presenças ocultas. Se algum inimigo esteve por ali, não estava mais presente. Para piorar a situação, a Gema do Capricórnio confirmara a identidade do braço ao ler sua aura residual. Pavel só tinha duas certezas: o invasor era alguém muito poderoso, capaz de desmembrar um Cavaleiro e de penetrar em seu santuário sem ser detectado; o invasor sabia onde os Cavaleiros residiam.

A guerra não estava começando, pois ela jamais terminou. Entretanto, o início de uma nova batalha já se anunciava.

ECOS DE PRAGA II: A GEMA DO CAPRICÓRNIO foi escrito por Simões Lopes, inspirado no Netbook A CIDADE DE PRAGA, de Marcel Herrero e Flauberth Carvalho.

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terça-feira, 3 de novembro de 2009

REBELIÃO 96: Vitória ou Morte

ECOS DE PRAGA I

Sua presença no restaurante provocava um indisfarçável desconforto nos clientes. A enorme figura, de quase dois metros de altura, com os ombros larguíssimos cobertos por um casaco negro, e um chapéu da mesma cor realçava ainda mais seu porte imenso, passou silenciosamente por entre mesas e cadeiras, alheio aos olhares fugazes e comentários abafados.

Um homem jovem, de cabelos castanhos, comia avidamente um prato de carne de porco com molho de aspargos e purê de batatas. Os talheres cortavam grandes nacos de pernil que eram enfiados goela abaixo com uma pressa inexplicável. Ele percebeu que o rabino vinha em sua direção, e respondeu com uma saudação curta:

— Salve, rabino.

O homem de barbas de porte titânico nada falou, limitando-se a puxar a cadeira e sentar-se. Sua barba ainda era bem negra, apesar da idade avançada.

— Este porco está delicioso, mas lamento que sua religião o impeça de juntar-se a mim...

O rabino continuou sem esboçar nenhuma reação.

— Não se ofenda. Perdoe-me, mas estou faminto — deu mais uma garfada, enfiando mais uma fatia gordurosa pela boca. Tomou um gole de vinho tinto.

— Considere-se meu convidado, peça o que quiser — tentou um gesto amistoso, esperando agradar seu companheiro de mesa.

— Obrigado, Nepomuceno, mas isto não é uma visita festiva. A voz era tão rouca que mais parecia um trovão abafado.

— Mais um cemitério judaico foi violado, e a duas sinagogas em Brno foram incendiadas — disse ele, num esforço tremendo para que o tom fosse de um sussurro.

— Os neonazistas andam agitados ultimamente. Esta cidade está com muitas cabeças ocas circulando por aí, e temos muitos idiotas para preencher o espaço vazio com idéias simplórias — João Nepomuceno continuou sua refeição, alheio ao tom sombrio do rabino Joab. Encheu a colher com purê de batata.

— Kalaew está envolvido.

— Ele está morto, Joab. Os próprios nazireus de Viena me garantiram isso.

— O maldito sobreviveu, encontre-me amanhã na Sinagoga Pinkas, após o pôr do sol, e eu explicarei melhor.

O rabino Joab ben-Abraham ben-Saul levantou-se e deixou o restaurante em ritmo acelerado. João Nepomuceno conhecia o rabino há muito tempo, e sabia que aquele homem mantinha-se sempre muito bem informado.

Na tarde seguinte, quando o sol poente tingia as vidraças dos prédios de vermelho, um carro velho, mas de lataria impecavelmente branca, estacionava na viela lateral que margeava a Sinagoga Pinkas. Aquele veículo, que poderia ser considerado uma relíquia, remontava ao tempo das indústrias comunistas, e ainda rodava incólume ao tempo graças aos talentos em mecânica de seu dono.

João Nepomuceno fechou a porta do carro, e dirigiu-se à entrada principal da sinagoga, já quase totalmente coberta pela sombra do espigão vizinho. O atendente, um jovem rapaz de barbas ruivas encaracoladas, levou-o até os aposentos do Rabino Joab.

Após a quarta batida, o velho de barba escura abriu a porta, recebendo seu hóspede com seu ar taciturno característico.

— O Profanzeichen está agindo em toda a Europa Central. Kalaew retornou à República Tcheca, e virá atrás de nós.

— Seus confrades austríacos garantiram...

— Os Nazireus de Viena se enganaram! — o impacto do grito foi completado por um soco na mesa tão forte que a tábua de madeira reforçada rachou. — Absalon ben-Ludwig está morto. Josef ben-Caius está agonizante. Os aliados do nazista intervieram e salvaram o maldito.

João Nepomuceno limitou-se a fechar os olhos, como se entoasse uma prece silenciosa. Joab ben-Abraham interpretou a mudez como um sintoma de perplexidade, e preferiu traçar uma estratégia de ação.

— Devemos evitar o confronto direto com os soldados de Satã. Os redutos do Profanzeichen em Praga são bem conhecidos. Vamos buscar um refúgio seguro, e planejar a melhor defesa!

— NÃO.

O tom da voz do jovem guerreiro estava inteiramente modificado. Ele não parecia mais o rapaz descontraído do dia anterior. Seu olhar parecia vidrado, como se fitasse dimensões invisíveis além dos sentidos humanos.

— Devemos aguardar por eles. Eu sei que Kalaew virá atrás de mim.

— Você não pode enfrentá-lo sozinho!

— Talvez não possa. Mas não posso deixar que o medo me impeça de agir.

— Isto é uma sandice. Não posso permitir.

A mão pesada do Nazireu pousou sob o ombro de João, imobilizando-o com a força de um torno mecânico. Nepomuceno não esboçou nenhuma esquiva.

— Você pode ter vários séculos de vida, mas nem mesmo você pode enfrentar sozinho os ubermenschen!!!

Nepomuceno continuava imóvel, incapaz de se livrar do abraço sobre-humano do rabino. Joab ben-Abraham era um nazireu, cujo estilo de vida ascético e extremamente regrado garantia habilidades físicas sobrenaturais. Jamais cortara o cabelo, e mantinha uma dieta pontuada por diversas restrições. Era um legítimo continuador da linhagem de Sansão.

João, ao contrário, era um Triunfante, e o Rabino Joab pouco sabia sobre as origens daquele misterioso rapaz. Mas sabia que há quase oitenta anos atrás, quando era apenas uma criança, sua vida fora salva pelo mesmo João Nepomuceno, que mantinha as mesmas feições joviais de quase um século atrás. Nepomuceno abaixou a cabeça, e relaxou o corpo, capitulando diante da força irresistível do nazireu.

— Eu salvei sua vida, Joab, deixe-me ir, você me deve isso... — suplicou o Triunfante.

— Justamente em prol de nossa longa amizade é que eu não devo deixá-lo ir. Seria suicídio esperar pelas bestas-fera de Kalaew. Perdoe-me.

Os dedos nodosos do gigante envolveram o pescoço de João, pressionando-o para interromper o fluxo sanguíneo. O corpo do Triunfante relaxou, os braços pendendo inertes. Joab sustentou o corpo do amigo, com cuidado, e preparou-se para carregá-lo para o outro quarto, onde colocaria seus dois aprendizes, também nazireus, para vigiá-lo.

O súbito descuido foi o suficiente para que João Nepomuceno, despertando de seu fingido torpor, se desvencilhasse do abraço hercúleo, e com uma pirueta, abrisse caminho até a janela. Joab, igualmente dotado de uma agilidade sobrehumana, alcançou o amigo com um pulo, mas antes que pudesse agarrar com o Triunfante pelo calcanhar, sentiu-se a vista nublar-se, como se coberta por um véu. Os cacos minúsculos de vidro no assoalho indicavam que Nepomuceno lançara alguma cápsula no chão, libertando algum tipo de substância gasosa, inodora e incolor. Antes que o metabolismo imune do nazireu neutralizasse o efeito de cegueira, João Nepomuceno já fugia pela viela, em desabalada correria.

Já em seu carro, o Triunfante seguia para a mina de prata abandonada, em cujos túneis residia. Pressentia que os guerreiros demoníacos do Profanzeichen já conheciam seu paradeiro, e que não tardariam em encontrá-lo. Contava com a Sorte Divina para guiá-lo, e não havia bênção maior do que colecionar adversários invencíveis.

“Vitória ou Morte”, era o lema dos Triunfantes. João Nepomuceno era um soldado em uma guerra sem fim. Não lutava para garantir a própria segurança, mas sim para mantê-la eternamente sob risco.

Por seiscentos anos, ele foi feliz em viver sob este lema.

Por mais seiscentos ele lutará, se for preciso.


ECOS DE PRAGA I: VITÓRIA OU MORTE foi escrito por Simões Lopes, inspirado no Netbook A CIDADE DE PRAGA, de Marcel Herrero e Flauberth Carvalho.

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sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Rebelião 95: Dando Milho aos Pombos


Os pombos aglomeravam-se ao redor do sujeito vestido como um frade franciscano, rodopiando como se presos a uma hélice invisível. Os grãos de milho jogados no chão de cimento despareciam muitas vezes antes de tocar no solo. O som dos arrulhos era tão alto que sufocava até o barulho do alto-falante da pracinha que anunciava vendas na loja de móveis da cidadezinha.

Elísio Paulino, 27 anos, sergipano, tinha o topo da cabeça calva coberta por um penacho avermelhado de cabelos ralos, uma barba rala, e enormes dentes amarelados. Os olhos caídos, de cor de jerimum, chamavam a atenção dos passantes, pelo seu aspecto incomum. Alheio à chuva fina que começava a molhar a rua, continuava atirando punhados de grãos aos pássaros que esvoaçavam de alegria diante do banquete.

Um homem alto e magro se aproximava, e Elísio reconheceu o velho amigo de uma extinta Congregação na distante cidade do Recife. Leutério Jaguarana, o Venerável, com seu farto bigode e os longos cabelos negros e encaracolados que o tornavam inconfundível. Os enormes óculos escuros escondiam ajudavam a dissimular a verdadeira expressão do homem.

— Elísio, os Jórgios estão vindo em seu encalço. Rosilene está desaparecida, acho que pode ter sido capturada — as palavras eram cuspidas, quase sem pausa.

— A Congregação está terminada, Jaguarana, não tenho mais vínculos com vocês. Uma mistura de arroz e milho foi arremessada no chão, junto às raízes de um enorme jacarandá. As aves corrigiram seu vôo e se atiraram enlouquecidas atrás do jantar. A resposta de Elísio soou insuportavelmente gelada. Ele ainda completou, em tom de despedida:

— Sinto muito.

Leutério respirou fundo, pensando em algum trunfo na manga para dobrar a vontade férrea do Primal. Sabia que o amigo era teimoso como um jegue.

— Você não pode se defender sozinho, precisa de seus amigos por perto.

— Eu não tenho amigos.

Leutério cuspiu no chão, num tom de irritação. Chegou a pensar em arrastar Elísio pelos braços, mas sabe que não conseguiria. Resolveu optar por uma estratégia mais sutil.

— Nós estaremos por perto, amigo. Vou chamar Cenira e Mattione, e...

— CHEGA! — os pombos voaram para bem longe ao ouvir o grito que reverberou pela praça quase deserta. O sol já começava a se pôr no horizonte, fazendo com que os dois Nefilim mergulhassem na sombra projetada pela torre única da igreja.

Eu posso sentir seus pensamentos, Jaguarana, eu consigo captar seus planos de ficar rondando e esperar que outros venham aqui fazer o mesmo”, a frase telepática brilhou na mente perturbada de Leutério.

— Apenas me deixem em paz... — suplicou o Primal, que tornou a cobrir o chão de grãos de milho. Os pássaros criaram coragem e retornaram.

— Seu recado já foi dado, Jaguarana, pode ir embora... POR FAVOR.

Leutério percebeu que era inútil insistir. Deu meia-volta e foi embora, sem falar mais nada. “Por que você afasta todos os poucos amigos quem tem?”, pensou ele, com uma sensação mista de raiva e compaixão.

Pare de bancar o anjo protetor, Jaguarana. SUMA!” O Venerável acelerou o passo, vencido. “E isso vale pra você também, Cenira! Não pense que que não percebi você invisível!”. Leutério pôde ver o vulto esguio e ainda etéreo de Cenira deslizando pela copa florida do jacarandá, enquanto o efeito de seu Manifesto Repouso de Haniel diluía-se aos poucos.

Quando Elísio Paulino finalmente sentiu-se confortavelmente sozinho, estirou-se no velho e enferrujado banco da praça e tirou uma soneca. As ameaças de Leutério não o assustavam. A chuva começa a parar.

Já passa da meia-noite quando Elísio abre os olhos. Basta um pouco de focalização e ele percebe que três pessoas aproximam-se sorrateiramente. Ele não consegue ler os pensamentos com clareza, mas percebe que há forças espirituais envolvidas. Ele não demonstra o menor temor. Limita-se a sentar no banco, e esperar pelos misteriosos visitantes.

Os três homens altos, trajando roupas escuras, parecem um pouco surpresos pela inexplicável calma de sua vítima. Um deles puxa uma adaga. À medida que a lâmina move-se no ar, parece desenhar uma linha de luz escarlate no ar. Elísio percebe alguns símbolos místicos gravados no metal brilhante. O seu companheiro, bem mais alto, traz um pingente cristalino em volta do pescoço. O terceiro inimigo, um anão de barbas grisalhas, entoa um cântico em grego bizantino. O Primal não consegue entender nenhuma palavra, mas sente com seus dons sobrenaturais que uma energia muito poderosa está sendo emanada. Ele sente o corpo tomado gradativamente por uma paralisia cada vez mais intensa. Tenta mover-se mais não consegue. O mais alto dos três chega mais perto. Sem tom de voz é insolente, e traz um sotaque afrancesado.

— Os solitárrios são prresas bem mais fáceis. Seus amigos não estão aqui para defendê-lo, abominação.

— O ritual vai exaurir o maná da criatura para que possamos prendê-lo — disse o homem com a adaga, pressionando a ponta afiada no peito de Elísio até que um filete de sangue começasse a escorrer. O ancião de baixa estatura permanecia concentrado em sua ladainha extática.

Eu não estou sozinho, senhores”, os três Cavaleiros de São Jorge estavam ouvir a mesma mensagem telepática do Nefilim, que permanecia imóvel, com os olhos bem fechados. “Tenho muitos amigos e eles estão aqui”, os guerreiros jórgios se entreolharam, e começaram a notar uma algazarra de arrulhos ao seu redor.

Elísio Paulino, filho do anjo Nasrel, abriu os olhos, que brilharam com um fogo alaranjado. Neste exato momento, dúzias de olhos abriram-se por toda parte, repetindo o mesmo brilho mágico.

Todos os dias eu os alimento com os melhores grãos...”, a voz do Primal parecia retumbar dentro das cabeças do trio de cavaleiros, que oraram pelos seus proterores.

MAS NESTA NOITE, ELES VÃO MUDAR A DIETA”.

Uma nuvem de bicos e garras furiosas envolveu a praça, transformando as orações em gritos de agonia.

Elísio podia ser uma pessoa de poucos amigos, mas os poucos que tinha eram extraordinários.

AMIGOS DE LONGA DATA foi escrito por Simões Lopes


terça-feira, 22 de setembro de 2009

Rebelião 94: Amigos de Longa Data


A Catedral de Nossa Senhora Madre de Deus estava vazia, como de costume naquela hora do dia. Umas poucas pessoas rezavam em silêncio, e um trio de senhoras acendia velas do lado de fora. Um homem impecavelmente barbeado e de têmporas raspadas, com uma enorme cicatriz na metade esquerda do rosto escuro, olhava fixamente para a imagem do Cristo crucificado no altar, enquanto esperava por alguém. Já fazia mais de uma hora que tinha chegado, e seu amigo de longa data ainda não aparecera.

— Chico!!! — gritou uma voz possante, vinda de fora da Igreja.

—Chico!!!! — a voz de trovão era insistente.

Antes que os paroquianos começassem a reclamar do súbito importúnio, "Chico" decidiu ir ao encontro daquela voz que lhe soava cada vez mais familiar.

Um homem baixo mas incrivelmente robusto, com a barba espessa de um castanho muito escuro e olhos azul-celeste, acenava com os braços musculosos e um tom de alegria quase frenética no semblante.

— Chico, há quanto tempo! Você não sabe como foi difícil localizá-lo, guerreiro!

— Ildebrando? — disse Francisco Xavier, em tom de reconhecimento.

— Claro que sim... Quem mais poderia ser?

Enquanto recebia um abraço forte o bastante para fraturar costelas, o capitão Francisco Xavier da Luz se lembrou de quando conhecera Ildebrando, há mais de um século e meio atrás, nos dias sangrentos dos Farrapos. Ildebrando Carraro acabara de chegar da Itália, acompanhando Giuseppe Garibaldi, em busca de emoções fortes e combates sem fim.

— Por onde andas? — perguntou Francisco, trocando a alegria por um ar mais compenetrado.

— Antes de tudo, há muito que não sou o "Ildebrando". Hoje em dia ando sendo chamado de Márcio Martins, ou Alex Monte, dependendo da situação.

— Situação? — estranhou Francisco.

— Isto não vem ao caso, velho amigo... Para você, eu continuo sendo o mesmo Ildebrando de sempre.

A conversa com o amigo começava a provocar um bombardeio de memórias na mente de Francisco. Ele se viu novamente em 1840, quando era Chico Luz, o melhor dos Lanceiros Negros do coronel Teixeira Nunes, e lutava ferozmente ao lado do rebelde florentino (acusado às vezes de ser um anarquista enrustido) Ildebrando Carraro. As tropas imperiais perderam muitas vidas pelas armas daqueles dois homens. Chico e Carraro eram Triunfantes, e embora Chico já fosse bem velho para os padrões dos mortais, com 172 anos, seu colega italiano era bem mais antigo, e nem mesmo o ex-Lanceiro sabia ao certo quanto anos ele tinha na verdade. Deveria já passar dos seiscentos anos, o que era bastante até mesmo para um Triunfante. Um sinal de que sua missão em Adamah estava longe de terminar, ou que seu prazer em guerrear conseguia se traduzir em uma vitalidade inesgotável.

— Faz muito tempo, heim? — disse Ildebrando, evitando arriscar um palpite.

— Desde a Revolução Constitucionalista de 32... — completou Chico.

— É. Alistei-me na década seguinte e fui lutar na Europa, você também?

— Fui, atuei como mercenário, lutei em ambos os lados.

— Com teu passado anarquista e carbonário, não imaginaria tu ao lado dos fascistas...

— O Vaticano estava com eles!

— Não oficialmente!

— Estar do lado “errado” pode render uma boa gama de ótimos inimigos. Há muito tempo que não me prendo a ideais ou bandeiras. Fui à guerra pelo prazer de lutar, sentir o gosto de escapar da sombra da Morte a cada instante.

— Enquanto isso, acabei engajando-me em uma nova identidade como policial, e graças a isso, ganhei esta cicatriz.

— Só voltei ao Brasil para me juntar aos grupos armados no Araguaia. Ajudei a desencarnar muitos soldados e oficiais, mas hoje não caço mais humanos — explicou Ildebrando, num tom quase professoral.

— Eu estou no BOPE, e continuo "caçando humanos", e diversas vezes o “caçador” quase tornou-se a "caça" — pigarreou Francisco.

— Na Europa conheci alguns Triunfantes que viraram justiceiros, caçando criminosos sem distintivo ou farda. Porque se ligar a uma instituição? Não se sente tolhido pelas “leis” que jura defender?

— Claro que sinto. E são justamente estas limitações que tornam minhas guerras mais emocionantes e arriscadas.

— Entendo...

— Por que quiseste marcar este encontro?

— Quero fazer uma proposta... digamos.... de "emprego"...

— Ahn?

— Como já disse, não caço mais humanos. São presas fáceis demais. Estou caçando Nefilim, não para destruí-los, mas para capturá-los. É tão difícil que se torna uma proeza de grande renome.

— Sucessos?

— Alguns.

— Derrotas?

Ildebrando não falou nada. Limitou-se a mostrar a mão esquerda espalmada. Dois dedos tinham suas pontas mutiladas. Sorriu, escancarando três dentes de ouro. Desabotoou um pouco a camisa, mostrando uma enorme marca de queimadura no peito, meio encoberta pelo tecido.

Chico Luz coçou a cabeça, e sentiu o celular o tocando. Não atendeu.
— Os malditos são quase invencíveis, Chico. Tu não imaginas do que são capazes... Aceita o desafio?

— Sempre em busca do triunfo mais improvável, velho amigo. Assim vivemos e assim morreremos...

O aperto de mão foi forte e caloroso.

— Pode contar com o velho Chico Luz!

Ildebrando sorriu.

— O que tu fazes com os Nefilim após capturados?

O sorriso sumiu da face barbuda.

— Tudo a seu tempo, meu amigo. Tudo a seu tempo. Primeiro vamos comemorar nossa longa data. É uma pena que tenhamos mais o vinho forte do Bar do Figueiró.

— O Figueiró morreu em 1892. Se tivermos sorte, os descendentes talvez tenham mantido o bar.

— Sorte é o que jamais falta a um Triunfante, amigo! — soltou uma gargalhada, que assustou as colegiais que atravessavam a rua.

— Com certeza, Ildebrando, com certeza. Se lembra em qual rua ficava?

O sorriso decorado com dentes de ouro indicava que sim.

Ele se lembrava.


AMIGOS DE LONGA DATA foi escrito por Simões Lopes

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quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Rebelião 93: A venerável trilha da solidão


Satyabhama é muito mais velha do que aparenta. Quando ela nasceu, morena e coberta de cabelos negros bem espetados, recebeu seu nome em homenagem à princesa indiana, filha do Rei-Urso e uma das esposas de Krishna. Órfã de pais, foi criada numa comunidade espiritualista da Califórnia liderada por um grande mestre indiano, que a considerava como sua melhor aluna.
Satyabhama descobriu antes da maioridade que não era uma pessoa comum, mas a filha de um anjo em forma feminina com um amante humano. A real identidade de seu pai, desconhecida para ela, não atraiu seu interesse por muito tempo, até que ela soube, através de sua “mãe”, o anjo de asas cristalinas Makiel, que era filha daquele a quem chamava de “mestre”. Sua concepção foi o fruto de uma breve noite de amor que para o grande guru não passara de um fugaz sonho erótico, e assim, ele sequer desconfiava de que aquele bebê abandonado às portas de sua comunidade fosse sua própria filha. É verdade que a semelhança entre ambos era notável – o que muitos de seus seguidores já haviam percebido – mas o professor jamais desconfiaria de algo tão improvável.
A menina deixou a comunidade e correu o mundo, com suas convicções reforçadas pelos próprios ensinamentos de seu pai-professor, de que “nenhuma organização ou credo era o caminho para se chegar até a verdade, mas sim a própria busca espiritual e intelectual. Acolhida por um grupo de irmãos, sobre-humanos como ela, ascendeu às mais altas hierarquias da linhagem dos Nefilim Veneráveis – os Filhos de Makiel espalhados pelo mundo – mas quando estava prestes a atingir o mais alto Patamar, Diamante, preferiu partir mais uma vez, ávida em desbravar uma nova trilha, mais uma vez preferindo a solidão.
Quando completou 38 anos de idade – com a mesma aparência imortal de uma jovem de vinte e poucos anos —, Satyabhama já havia participado de várias Congregações ao redor do mundo, e ficou sabendo que seu pai padecia de um câncer terminal. Foi a única vez que desejou contar a verdade a ele, e partiu para os Estados Unidos. Quando chegou à Califórnia, soube telepaticamente que ele já falecera, e não teve coragem de falar com ninguém de sua antiga comunidade, partindo com a alma em frangalhos.
Satyabhama tem agora 61 anos, e como sempre faz em todos os aniversários da morte de seu pai, ela realiza um ritual silencioso, um réquiem particular que a faz pensar em sua própria imortalidade. Seu pai ensinava que o tempo era o grande inimigo dos humanos, e que os pensamentos faziam deles escravos do passado.
A moça de cabelos nigérrimos está sentada na posição do lótus, em um estado profundo de relaxamento que já dura quase o dia inteiro. Ela medita em tudo que aprendeu em sua longa vida, nos ensinamentos de seu pai humano, nos mistérios revelados por sua mãe incorpórea, na experiência de seus irmãos híbridos, e em si mesma.
“O Tempo é inimigo do Homem”, pensa ela, inspirando o ar com força, “mas por não ser humana, eu aprendi a enfrentar e derrotar o Tempo, e faço isso a cada dia”.
Ela pensa em tudo o que aprendeu ao longo de seis décadas, e expira.
“Derrotar não é o bastante. Tenho que fazer do Tempo meu aliado, mas como?”, inspira de novo.
Ela abre os olhos, luminosos como diamantes gêmeos.
“Como?”, a pergunta permanece sem resposta.

A VENERÁVEL TRILHA DA SOLIDÃO foi escrito por Simões Lopes

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Rebelião 92: Invocação (Parte 1 de 2)

Já há muitos dias a tempestade se tornava cada vez mais causticante; o ar estava pesado, saturado de fluidos pestilenciais que dificultava a respiração. O zimbório celeste era de um negrume horripilante. A noite castigava, raios voejavam em todas as direções se chocando com os edifícios. Qual não foi o espanto quando o relógio já marcava próximo do meio-dia e a luz do sol não dava mostras de sua presença beatífica.

Pessoas andavam por todos os lados não entendendo o que estava ocorrendo. Apesar de amanhecer apenas no relógio a escuridão ainda era total. Não se ouvia o gorjear dos pássaros, somente a turba de transeuntes que ocupavam as ruas em discussões estéreis sobre o que estava acontecendo. Já no final do dia a tempestade diminuía consideravelmente, o tempo oferecia uma tranqüilidade momentânea.

Enquanto isso, do outro lado da cidade alguém caminhava por um beco escuro, poças de água eram espirradas a cada passo, e por onde passava a escuridão era ainda maior. Ratos deslizavam pelos cantos do beco passando por cima de mendigos que se protegiam do frio e da chuva que já cessara.

Um mendigo que acabava de acordar deu uma pequena espiada sobre seus trapos imundos. O que ele vê deixou-o estarrecido, todos os seus pelos se eriçaram, fazendo com que seu coração parasse de bater, deixando o corpo inerte. A visão congelada em sua íris era de um ser envolto em nuvem negra a ponto de não ser possível ver nada além de seus pés.

No subúrbio um grupo de homens guardavam alguns símbolos místicos e saiam encapuzados por corredores secretos para a via pública, deixando naquele ambiente um corpo mutilado por algum ritual maléfico.

Horas mais tarde em uma galeria nos subsolos, o mesmo grupo, se reunia a espera de alguém. A impaciência era visível pelo tempo que estavam ali. Era possível observar as tochas tremulando e as sombras dos presentes dando um ar mais terrível. De forma irresistível, todos lançaram-se ao chão, gritando de forma lacinante, como que sentindo uma dor imensurável. Rolavam e debatiam-se estrepitosamente.

Apenas o que parecia ser o chefe permanecia de pé sem nenhum sintoma aparente. Olhando para a porta, onde estava parado a estranha figura, disse:

- Pare com isso, não foi por isso que eu te trouxe.

Nada se podia ver dela, a não ser uma escuridão que o envolvia.

- Você terá que me obedecer. Disse o chefe tentando parecer firme.

A figura de escuridão, abriu a boca e dela saíram sons guturais, como que de trovões, gritos lancinantes de dor ou coisa pior. Porém, uma frase foi inteligível, como expressando sua intenção.

- Você me trouxe, mas eu tenho meus próprios propósitos, e um deles é o seu fim.

INVOCAÇÃO foi escrito por Marcel Herrero

Iniciativa RAQ

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