domingo, 2 de dezembro de 2007

Maytréia 3: Conquistando Isaura


Isaura era a atração local. A jovem dançava em meio ao salão de festa, embalada pelo ritmo que se deslocava das caixas de som até o ambiente. Chamava a atenção dos homens pela sua beleza e alegria. Dançava sozinha, mais preocupada em curtir as músicas que em ser o centro das atenções.


Mas ela era o centro das atenções. O vestido leve se desenhava no bailado do vento, enquanto as pessoas em volta observavam com um misto de inveja e admiração. As conversas a sua volta eram interrompidas constantemente para uma espiadinha ocasional.


Isso não passou despercebido de Rafael. Ele observava a bela mulher com o mesmo ímpeto que os outros. A festa ocorria em um salão de condomínio, pois era aniversário de um amigo em comum aos dois. Rafael nunca havia dado muita atenção para Isaura, mesmo sabendo que ela era bem bonita. Só que ao ver ela dançando tão empolgada e solta, seu desejo aumentou. É claro que ele tinha uma vantagem em relação a todos os cobiçosos olhares em torno. E ele pensou em usar essa vantagem imediatamente.


Iniciado recentemente, Rafael ainda precisava aprender muito sobre os shiddis que estava estudando. Mas ele já sabia o suficiente para, como um bom estudante de medicina, conhecer exatamente quais hormônios produzir para gerar a reação desejada. Rafael acreditava que era perfeitamente possível se divertir um pouquinho com o que aprendeu até agora, ao contrário do que o seu Tutor mal humorado afirmava. Ele se perguntava de que adianta ter poder se não se pode usá-lo. Todo aquele papo de que o poder não pertencia ao Iniciado e que deveria ser usado para o bem coletivo apenas o deixava mais intrigado.


Ele esperou o momento certo. Infelizmente, ainda precisava tocar no seu alvo para atingir seus objetivos e não ficaria bem se aproximar e tentar tocar Isaura enquanto ela dançava. O momento surgiu quando a jovem resolveu fazer uma pausa para tomar um refrigerante.

Ela se afastou para o lugar onde se serviam as bebidas e Rafael tentou ir também da maneira mais discreta possível. Calculou o tempo de forma a chegar no instante em que ela pegava a bebida. Aproximou-se com um sorriso e disse:
- Tem uma cerveja aí?
- Tem sim! – Ela sorriu de volta e se virou para pegar a lata de cerveja.
- Valeu! – Rafael aproveitou o momento em que pegava a cerveja e resvalou na mão de Isaura, acionando o shiddi.


A reação da jovem foi imediata. Por um momento – um breve segundo – seus olhos se anuviaram. Rafael sabia o que era isso; o cérebro dela estava se adaptando a nova situação a que fora imposto. No instante seguinte o sorriso dela aumentou e seus olhos brilharam. Ele aproveitou e foi à carga:
- Sabe Isaura, você dançando ali estava realmente tentadora... tipo assim, você tava demais...
- Você achou...?
- Se achei...
- Você sabe dançar?
- Igual a um pedaço de mau caminho como você? Não. Mas não ficaria nem um pouquinho triste com um showzinho particular...


Ela sorri com um ar sacana:
- É mesmo?
Então, se aproxima suavemente do ouvido de Rafael para sussurrar:
- Nem nos seus sonhos, bobão...


Rafael é pego de surpresa. Ele não esperava por isso. O que havia acontecido? Ele tinha a certeza de que o shiddi funcionara perfeitamente...
“E funcionou” – disse a voz de Isaura na sua mente – “... estou morrendo de vontade de fazer sexo com você, seu covardezinho desgraçado!”
Ele ficou meio confuso por um instante e então... percebeu... ela estava falando dentro da sua mente! E continuou.
“Mas seu truquezinho sujo não vai funcionar comigo. Quer dizer que o rapazinho não se garante e apela para truques? Vou te ensinar uma liçãozinha...”


Enquanto ele tentava se recobrar da situação, ela aproveitou que ninguém olhava naquele momento e alisou a virilha do rapaz por sobre a calça. A momentânea surpresa e alegria que Rafael sentiu pelo gesto inesperado logo se transformou em profunda decepção. Ele sentia sua virilidade se esvaindo.


Novamente falando, Isaura sorri e pisca o olho para ele:
- Assim ficamos elas por elas. Eu vou ficar com vontade, sabendo de seu truque sujo e sentindo muita raiva e você vai ficar sem vontade nenhuma, sabendo que foi o meu truque sujo!


Isaura volta para o salão e recomeça a dança. A noite prometia. Imagine só, encontrar um Não-Doutrinado na festa... e logo o velho Rafael! Talvez seus superiores queiram saber mais sobre ele. Talvez ela consiga informações importantes sobre os Iniciados locais.


Ainda dançando ela se volta para ele. Seu ar de confusão, raiva e vergonha misturados estava engraçado. Isaura começou a pensar que talvez ele merecesse o tão cobiçado “prêmio” de ter sua companhia na cama esta noite. Ele era perfeito: bonito e idiota.


Ela só iria deixa-lo furioso e encabulado por mais um tempo, como uma lição. Depois, uma noite bem feliz.


E então, ele iria entender o que era se meter com uma Centriaria...

CONQUISTANDO ISAURA foi escrito por Danilo Faria

Rebelião 3: Gula



O anel em sua mão esquerda é de ouro branco, e sua face continha uma opala polida, com uma cruz argêntea engastada sobre ela - seus quatro braços terminavam em setas, apontando assim o norte, sul, leste e oeste ao mesmo tempo, representando equilíbrio de caráter. Sua base era levemente maior que os outros braços, mostrando uma tradição sólida e inquebrantável. A própria opala tinha um significado - era a noite, fria noite escondida nas asas de seus pais...


Ele caminhava com a graça e a beleza de uma pantera espreitando. Suas roupas eram feitas sob medida, e negras como sua pele. Usava os cabelos raspados, e no seu rosto nada chamava a atenção, a não ser o verde profundo de seus olhos, que atraiam o olhar de todos que a ele se dirigiam. Uma vez capturada por aquele olhar, qualquer vontade fraquejava. O rapaz caminhando atrás dele vinha bem vestido, com um bonito terno cinzento. Ele também tinha um anel em sua mão esquerda, representando seu matrimônio com a augusta confraria dos Precursores. Desde que fora entregue ao seu preceptor, dois anos atrás, Flávio prosperou como jamais sonhara - recolhido da imundice das ruas, foi lavado da sujeira e da mediocridade por seus irmãos maiores. Foi tratado com igualdade, e quem antes se desprezava, aprendeu a respeitar a pureza de seu sangue e de sua ascendência. E o poder...


Alfonsus senta-se em sua confortável cadeira, à cabeceira de uma mesa de carvalho sólido, cuja idade supera a do próprio Aurélius, O Primus. Flávio senta-se à sua esquerda, e a um pedido do cavalheiro que o presi-de, liga os monitores. A parede diretamente a frente de Alfonsus brilha e emite imagens dispares de ambientes diversos, pessoas se drogando, copulando, se matando. Numa das imagens, homens e mulheres bem vestidos apostam com galantaria enquanto dois homens se digladiam num ringue manchado de sangue.
- Aqueles que vão morrer te saúdam - diz Alfonsus ao seu discípulo, no sorriso suave em que a pan-tera mostra seus dentes alvos e mortais às suas presas. Os mais terríveis opiários de Hong Kong, as mais devas-sas fossas de Sodoma se fechariam à visão do que entretêm os nobres Precursores. Com um suspiro contido de enfado, Alfonsus fala:
- Estes homens e mulheres estão consumindo o que lhes ofereço, e eu só ofereço o que lhes sacia. Prazer, prazer pela dor, prazer pelo vício, pelo amor... - neste momento, um sorriso de maior interesse esboça-se mais em seus olhos que em seus lábios - não, certamente não pelo amor. Mas, de qualquer forma, sou infini-tamente complacente com suas fraquezas. Entretanto, não provo de nada do que lhes ofereço. Sigo intocado pelos prazeres simples do consumismo, apenas observando... por que, Flávio? O que me sacia?
Ele observa a face do jovem se contrair em pensamento, sua imagem manchada pelos fantasmas colori-dos projetados pelas telas. Por fim, ele responde:
- Eles. Enquanto consomem o que lhes oferece, o senhor os consome, avidamente, sem comedimentos, pois sabe que eles continuaram a vir em massa, um após o outro...


A pantera novamente exibe seus dentes num ronronar gutural, que tanto pode ser um sorriso de aprova-ção quanto o prenúncio do rugido. Eles voltam sua atenção para os monitores - um influente político, com uma expressão abobada de admiração suína, ajoelha-se aos pés de uma voluptuosa cortesã, cuja fantasia de couro insinua demais e esconde pouco.
"Promissor, meu jovem irmão. Devo tomar conta dele."
E os predadores continuam espreitando.

GULA foi escrito por Renato Simões

segunda-feira, 26 de novembro de 2007

Rebelião 2: Duelo de Gerações


Uma elegante moça de pele morena e dreadlocks volumosos andava pela parte mais sombria da cidade sem ser notada. Dhishani – era assim como se chamava - aproximava-se lentamente da parte mais escura de um beco, envolta numa densa neblina quase sobrenatural.

Nunca teve medo de nada e não teria agora. Seriam os chamados que recebera sérios ou mera brincadeira? Enquanto seus sentidos aguçados vasculhavam na escuridão, uma pesada mão se apoiou em seu ombro. Ela só iria se dar conta disso muito tempo depois, mas na hora não estranhou que alguém pudesse ter chegado de forma tão imperceptível . Dhishani se virou apontando sua faca afiada para a garganta do sujeito. O estranho era alto, seus ombros largos e o cabelo comprido. Uma barba vermelha com alguns fios amarelados cobria parte de seu peito. Seus olhos eram negros, e uma cicatriz cobria sua cara, da orelha esquerda até o canto do lábio.

Sem demonstrar a menor alteração, o homem começou a falar com uma voz baixa e rouca.
— Como pode uma Primal se vestir deste jeito? Será o que o futuro irá nos transformar em Guerrilheiros?
O tom calmo da voz só serviu para irritar ainda mais Dhishani. Com sua faca a ponto de matar o estranho, respondeu imediatamente num tom furioso.
– Quem é você para falar assim comigo? Eu me visto do jeito que bem entender...


O sujeito soltou uma gargalhada estridente que lembrava vagamente o grito de uma ave de rapina.
— Quem sou eu? Os Primais já se esqueceram dos antigos da Gênese?
A revelação quase fez Dhishani perder o controle, que tentou não hesitar. Tentou gritar algo, mas antes que alguma palavra mais fosse pronunciada, o homem desvencilhou-se e segurou Dhishani pelos pulsos, num aperto insuportavelmente forte.
– Sou Henokh, da Gênese, o Açor que paira sobre as planícies. Minhas palavras têm autoridade, menina !
Dhishani encarou profundamente o olhar de Henokh. O estranho ruivo não deixou que ela abrisse a boca.
– A Gênese é responsável pela força dos Primais ! Não me agrada vê-la vestida como se fosse uma garota de butique !


Ao dizer isso ele arrancou o piercing do umbigo de Dhishani . Dhishani não demonstrou nenhuma dor. Ameaçou um sorriso irônico, e seus dentes agora eram como presas, e suas unhas como garras aduncas.
Soltou um uivo furioso e golpeou Henokh com os punhos cerrados no nariz. Henokh foi atirado com violência de encontro ao muro. Dhishani gritou alguns palavrões e acertou um chute no queixo de Henokh.
– Ninguém fala assim com a líder do Bando Marfim! Todos os meus inimigos estão mortos, e não de morte natural! Nenhum inglês vai me ditar regras!


Henokh solta uma gargalhada, limpando o sangue que escorre dos dentes. Sua gargalhada irrita ainda mais a Primal, que num só movimento agarra uma lata de lixo, arremessando-a em seu desafiante. A lata se choca contra o muro num estrondo metálico desagradável. O outro Primal havia sumido.
Um violento golpe nas costas faz Dhishani cair, imobilizada. Henokh aproxima-se suavemente de seu ouvido e fala devagar — Eu nasci na África, menina. Antes de você nascer eu já havia mandado muitos nahash de volta ao Sheol.


Dhishani faz força, mas não consegue mover um músculo. Concentra-se então e sua mente torna-se um mosaico de sensações e em seus olhos brilham pupilas felinas douradas. Solta um miado agudo que é respondido nas sombras do beco. Henokh pára de rir, percebendo o que iria acontecer...
Lentamente, eles foram surgindo das profundezas do beco, as passadas silenciosas e elegantes. Em pouco tempo, uma multidão de gatos lotava o beco estreito. Uma avalanche carnívora de felinos frenéticos passa por cima de Dhishani e engolfa o seu oponente, com dezenas de pequenas garras e dentes afiados cortando, mordendo e retalhando. Henokh agitava os braços tentando se libertar, mas para cada animal que caía, dois novos surgiam.


Dhishani se levanta e observa de longe as dificuldades de Henokh.
— Que isto sirva de lição para você...
Um grito estridente faz os tímpanos de Dhishani quase estourarem de dor. Os corpos dos gatos desmaiados se amontoam ao redor de Henokh, e os poucos que restam afastam-se confusos. O primal volta a sorrir, e se dirige a Dhishani num inesperado tom amistoso .
— Foi uma boa lição... Eu gostei de você, garota . Você tem fibra. Estou feliz com o que vi, mas lembre-se de uma coisa...
Dhishani sente um súbito mal-estar, quando um silêncio sobrenatural envolve o beco durante um instante. Os ferimentos de Henokh começam a cicatrizar. Seus olhos começam a brilhar. A pele se empalidece, os cabelos começam a crescer. Os músculos se retesam e incham. Os poucos gatos restantes agora somem numa disparada medrosa. O corpo de Henokh cresce e vai assumindo uma forma leonina, de cor prateada, com um brilho quase metálico.
Dhishani que não pode ser considerada uma mulher baixa, mal atinge a altura do tórax do monstro. Henokh ergue o corpo da moça como se fosse um boneco. Aproximando-a de seu rosto, Henokh murmura laconicamente :
— Não subestime A Gênese...
Dhishani é largada no chão. Os músculos poderosos impulsionam o corpo monstruoso num salto que transpõe o muro, desaparecendo na escuridão. A primal inspeciona seus ferimentos, a partir deste dia se lembrará com respeito de seu adversário. Ela foi a primeira a ter um vislumbre do futuro, quando todos os Primais, antigos e novos, voltarão a andar juntos.


DUELO DE GERAÇÕES foi escrito por Simões Lopes.

Maytréia 2: Reconhecendo os seus


Eles eram em três ao entrarem no apartamento. O homem mais velho que conduzia os outros dois jovens aparentava ser mais jovem do que realmente era. Seu cavanhaque e seus cabelos o denunciavam, com sua alvura flagrante. Ele tinha feições abrutalhadas e era corpulento; apesar de tudo tinha um olhar inquisidor: parecia vasculhar todo o ambiente com suas íris cor de mel.


Os outros dois jovens que o acompanhavam eram de tez clara, magros e altos; fora isso eram bem distintos um do outro.

Um tinha os cabelos curtos e bem penteados, usava uns óculos com designe sóbrio, vestia calça social presa por um cinto preto e camisa de mangas compridas dobradas na altura dos cotovelos, devidamente enfiada nas calças. Seus sapatos estavam bem lustrados. Mantinha-se em posição respeitosa o tempo todo, um olhar assustado pelo encontro que se pronunciava. O outro, por sua vez, usava uma calça jeans rasgada, a camiseta preta presa apenas atrás tinha escrito em letras brancas bem grandes a palavra “pain”. Seus cabelos compridos teimavam em cair por sobre o seu rosto, criando o cacoete de afasta-los com as mãos. Tinha um piercing na orelha direita e debaixo da manga da camisa saía o final de uma tatuagem biomecânica, provocando a ilusão de engrenagens explodindo para fora da pele. Os tênis pareciam não ver limpeza a um certo tempo. Entrou também assustado e respeitoso, mas o sacudir constante do corpo mostrava que ele estava impaciente ou incomodado.


Na sala, uma cena cotidiana e paradoxalmente inesperada se desenrolava. Um homem idoso, com um certo ar oriental, vestindo um pijama de flanela, estava dando uma tremenda bronca em uma garota adolescente. Esta mantinha um certo ar de enfado, de quem já tinha ouvido toda aquela ladainha antes. Nas suas mãos um joystick de videogame esperava e ao fundo era possível ver a tv com um jogo de estratégia pronto para se iniciar.


- Você tem que manter a consciência e a concentração... – dizia o velho, zangado – ... essa porcaria de jogo não ajuda em nada...


Neste momento, ele percebeu a entrada dos três: - Ah! Entrem, entrem... sejam bem-vindos! – Sorriu um sorriso onde se entrevia um ou outro dente em meio às gengivas escurecidas.


O homem mais velho apresentou os outros rapazes. Eles permaneciam na postura mais respeitosa que poderiam, mas isso não impediu que eles percebessem que a garota aproveitou a distração do idoso e imediatamente se sentou de costas para todos, a atenção completamente voltada para o jogo.


O olhar do velho era severo. Ele observava de forma reprovadora os dois jovens a sua frente. Observa o jovem totalmente arrumado, solta um muxoxo de reprovação ao seu cabelo penteado e seu ar de disciplina e obediência. Solta um olhar enigmático em direção ao homem que os trouxe. Observa mais uma vez de cima a baixo e solta um resmungo.


Mas então ele vê o outro.


Seu olhar reprovador acentua drasticamente. Seu rosto vai se tornando uma espécie de máscara de nojo diante do que via:
- O que é isso, Wanderley? – Ele exclama na direção do homem que os trouxe – Esse... negócio... – Se aproxima comicamente para olhar melhor o piercing – Você usa brincos, meu rapaz?


Constrangido, este responde: - Não senhor, é um piercing...
- Um o quê? Deixa para lá... nem quero saber o que é. – Vira-se novamente na direção do homem que os trouxe – Esse é o tipo de... criatura... que você deseja tornar um Iniciado?


Volta-se para o rapaz novamente. Sua voz adquire um ar exasperado:
- Ele usa calças rasgadas! Rasgadas! Não considero homem um cara que usa calças rasgadas e brincos...
...piercing...
... brincos! Ta pendurado na orelha é brinco! Eu não sei, não...


Claramente, o constrangimento do rapaz foi se tornando uma fúria cada vez mais incontida. A vontade dele era de dar uma coça no velho. Mas então aconteceu o pior.


O velho reparou na tatuagem.


Seria cômico se a tensão não estivesse no ar. O velho parou de falar e – com a boca sem dentes ainda aberta – foi aproximando o rosto lentamente do braço onde a tatuagem se encontrava. Ainda devagar, foi levantando até ver o desenho por inteiro. O jovem tinha uma vontade profunda de recolher o braço, mais ainda tentava manter o controle. Ele realmente desejava ser um Iniciado. Só que era cada vez mais difícil manter o controle.
Isso... é... é... o que é isso?


A garota jogando, continuou concentrada no jogo, mas acabou dando uma risadinha. O gesto provocou uma reação igual no outro rapaz, que se conteve rapidamente. Foi o bastante. O rapaz da calça rasgada explodiu:
Quer saber? Vá a m&*(a!!! Não vou ficar aqui aturando isso!


Virou-se e saiu. O outro rapaz olhou assustado. Procurava uma indicação do que fazer da parte dos dois homens mais velhos. Aquele que os trouxe disse:


Vá lá... converse com ele e me esperem lá fora...


Ele se retira. Os dois homens observam enquanto ele vai embora. Quando ele sai se viram para a garota. Aquele que responde como Wanderley fala:
O que achou, Mestra?


A garota pára de jogar e se vira para os dois. Seu rosto tinha a sombra de um sorriso. Seus olhos transmitiam o conhecimento de eras guardados naquela alma. Sua voz era profunda e suave.
- Ele é perfeito. Dará um excelente Iniciado. Tem que aprender a controlar o gênio e prestar mais atenção ao que realmente ocorre ao seu redor, mas é ótimo. Se trilhar corretamente o seu caminho, poderá trazer muito à este mundo


- E o outro?


- O engomadinho? É perigoso. Faz-se de educado e respeitador. Inicie-o, mas ele carrega a sombra de ser um Cinzento no seu destino... – Fica então com um olhar triste – ...esperemos que ele não caia nela.


Os dois homens então agradecem e saúdam reverentemente sua Mestra. Saúdam-se mutuamente e Wanderley se vai. Após isso, ela volta a falar:


- Sabe qual é o maior mistério da existência neste momento, meu amigo?


O ancião sacode negativamente a cabeça. Ela sorri e se volta para a tela da tv.


- Saber como consigo passar para a próxima fase neste jogo...

RECONHECENDO OS SEUS foi escrito por Danilo Faria

quinta-feira, 22 de novembro de 2007

Maytréia 1: Tempo Passado, Tempo Futuro


Eu sei porque você está aqui. Eu sei que você quer descobrir o Entropista maldito que matou nossa noiva. Sei que você quer se vingar dele. E mais: sei como a vingança será. Era será violenta e lenta. Dolorosa e terrível. Então, aqui estamos nós. Eu, uma criatura que você não consegue definir bem, falando de coisas que ninguém deveria saber e você se preparando para me atacar. Devo avisar que seu ataque falhará fragorosamente, pois eu sei qual será ele e como – e sei exatamente o que fazer para evita-lo.

***

Você não pode dizer que eu não o avisei. E também não consegue imaginar como verificar que você atacou exatamente como eu sabia que faria e falhou exatamente como eu sabia que falharia me dói. De qualquer forma, enquanto tenta se recuperar, eu vou tentar por um pouco de juízo na sua cabeça.

O ódio lhe consome. Isso é ruim. Seria melhor se você me xingasse bastante. Talvez até tentasse me atacar de novo. Mas sei que tudo o que fará será me olhar com este ódio brilhando em suas órbitas. Divindade, como isso é triste!
Pense. Entrar aqui no plano mental, viajar no tempo para impedir que o homem que matou sua noiva a mate e tentar mata-lo antes disso não funcionará. Você sabe disso, no intimo. Tudo o que fará será criar uma realidade alternativa. Das milhões e milhões que existem.

Não estou dizendo que você fracassará em seu intento. Você conseguirá. Ou talvez não. Engraçado. Este detalhe eu não me lembro. Mas sei que algo de muito ruim aconteceu. Não se assuste de me ver falando no passado. Para mim, isto é passado, entende? Não. Creio que não. Ou você me ouviria e não faria o que fiz.

Estou confundindo você? Desculpe-me, é que as coisas são realmente confusas. Mas me ouça, algo muito ruim aconteceu. Eu não sei se foi o efeito do Eco, ou se entrei no Sono da Alma. Mas, se entrei no Sono da Alma, eu não deveria ser capaz de voltar no tempo e falar comigo mesmo, entende? Ou seria?

Talvez tenha sido o kharma, talvez tenhamos acumulado kharma negativo demais e nossa encarnação se perdeu em ficar procurando o ponto de retorno ao momento certo. Lembra? Quantas vezes um homem estranho falava conosco, nos ensinando a controlar a raiva, que o ódio poderia nos destruir. Lembra como, quando criança, as pessoas riam de nosso “amigo imaginário”?

Oh, pela Divindade, é claro que você não se lembra. Mas vai se lembrar. Sabe o motivo? Porque esse homem é você mesmo! Ou melhor, somos nós, já que eu e você somos o mesmo ser e venho de seu futuro/passado – que é o meu passado/futuro – para lhe alertar. Eu sou você ontem... ou amanhã? Chega a ser engraçado se eu não estivesse tão confuso, entende? Viajar para o passado e o futuro, sem saber qual é o presente é tão cansativo... tão cansativo. Eu esqueci como se sai do plano mental e preciso sair no momento certo. Se isso for o Sono da Alma, eu gostaria que acabasse.

E minha esperança de acabar está em convencer você a desistir, exatamente o que tentei antes quando eu estava aí onde você está e você estava no meu lugar... ou tinha outro no meu lugar? Seja como for, eu fiz acordo com uma entidade e consegui a chance de estar em duas parcelas de tempo diferentes no mesmo lugar. Engraçado, eu já fiz isso antes... mas eu estava aí. Será que perdi o momento de retorno? Por que não me lembro do aviso?

Ah, sim! Eu usei um shiddi para deixar o outro falando sozinho, quando vi que combate-lo não funcionava. (...) Vejo que fiz de novo... que pena! Pena eu não ter me reconhecido. Creio que a loucura de viajar no tempo e as coisas que vi – ah, Divindade, as coisas que vi! – devem ter me transformado mentalmente o que me torna literalmente irreconhecível para mim mesmo no passado... ou no futuro.

Vejo que falo sozinho novamente. (Acho que estou enlouquecendo. Talvez seja melhor assim). Virou um hábito estranho. Aqui estou eu, falando com uma miragem de mim mesmo no passado que parte para uma jornada que já conheço... acho!

Talvez eu deva voltar e tentar falar comigo mesmo no passado novamente. Em qual passado? Tanto faz. Eu só me lembro de quem sou quando me vejo no passado ou quando o futuro me encontra.

Gostaria de, pelo menos, lembrar do nome de minha noiva.

TEMPO PASSADO, TEMPO FUTURO foi escrito por Danilo Faria

Rebelião 1: Mestres e Aprendizes



O jovem aprendiz andava muito nervoso nas últimas semanas. Tantas descobertas o deixavam confuso. Ao ver seu velho mestre passeando pelo jardim, venceu com relutância a timidez habitual e aproximou-se do Mestre. Como se adivinhasse, o mestre lhe falou com largo sorriso nos lábios.
—Você parece transtornado, Isaiah.
— São muitas dúvidas, mestre... quantas coisas mais eu terei que decorar na primeira semana ?
— Você está aqui para saber e não decorar...
— Bem... quer dizer... é sobre a distinção de Asiah e Briah ? E o conceito...
O mestre o interrompe, gargalhando.
— Ora, jovem ! Vamos com calma ! Eu vou lhe explicar ... preste muita atenção...
O sábio ancião de barbas brancas respirou profundamente e começou a explicar
— Olhe o mundo à sua volta. Esse é o Universo. Mas o que podemos ver e sentir é apenas uma pequena parcela do que existe. O Universo verdadeiro, ou total, nós chamamos de Atsiluth. O que você vê é o chamado de Plano Físico ou Mundo Material. Ou continuum espaço-temporal, como os cientistas chamariam. Mas nós cabalistas preferimos chamá-lo de Asiah. Você o sente porque o seu corpo faz parte do Asiah.
— Meu corpo ?
— Sim, nós o chamamos de Nefesh. Mas isso não é apenas o corpo físico, pois o Nefesh também inclui o corpo astral. Mas do mesmo modo que os seres humanos não são apenas o corpo, o Universo não é apenas o Plano Físico. Além do Asiah, em outro plano de vibração existe o Yetsirah...
— Isto eu já entendi: o Yetsirah é o Plano Anímico, que é sede dos Elementais.
— Muito bem, jovem. Mas o Yetsirah também é o Plano a que pertence a Alma, que nós cabalistas chamamos de Ruach.
— Ruach... e Briah ?
— Bem, além desses Planos existe um mais elevado, Briah. Poderíamos chamá-lo de Plano Angélico ou Espiritual. O Espírito ou Neshamah situa-se nesse plano. Eu sei, você deve estar pensando por que tantos nomes complicados. Isso é a Cabala, Boaz !
— E além de Briah, mestre ?
— Calma, Boaz, vamos com muita calma. Em Briah existem três regiões bem distintas. Uma, Shamaim, são os Céus, o Lar dos Anjos do Senhor. Outra, Sheol, o Inferno, a sombria morada dos Anjos Caídos.

— Os Caídos ?
— Sim, jovem, os Caídos. Mas deixe-me terminar. Há uma terceira região, o Dedangim, onde as Grandes Feras estão cativas. Além deles existe o Aravoth, que os cristãos chamam Empyreus, ou Décimo Céu. É lá que está o Deus Altíssimo, assistido pelo Príncipe Arcanjo Mitatrom. Mesmos os outros Príncipes Arcanjos só podem ir a Aravoth raramente. Como você pode ver, Boaz, A Criação é realmente muito mais do que podemos perceber. Satisfeito ?
— Sim, mestre, quer dizer ... quase !
O incrível interesse do jovem não parava de empolgar o professor. Realmente era um aluno muito promissor.
— Quase ? O que mais deseja saber ? Pode perguntar ?
— Quem são os Nefilim ?
O mestre subitamente emudeceu. Seu semblante mudou drasticamente. Uma visível irritação e nervosismo tomaram conta do ancião.
— Por que essa pergunta ?
Tentando disfarçar o sobressalto, o mestre solta uma resposta curta e seca.
— Os Nefilim eram filhos dos Anjos Caídos de que já falei. Isso foi antes do Dilúvio. Mas eles não existem mais ! Não existem .

— Desculpe. Estou enchendo a sua paciência. Me desculpe.

— Não se preocupe, Boaz, eu não estou irritado. Apenas acho que você não deve se preocupar com assuntos sem importância. Cuide apenas do essencial...

E o professor se afastou, sumindo entre as árvores do jardim.

Boaz começou o caminho de volta a seu quarto, caminhando lentamente, arrastando os pés por entre os jardins. Então, por trás dos arbustos de flores vermelhas, uma voz o chamou.

— Você deseja saber sobre os Nefilim, garoto ?
— É...quem é você? De onde você surgiu ? O professor já me disse o que eu queria.
— Ah, seu mestre ... Você realmente acha que o velho sabe tudo ?
— Quem é você?
— E se eu lhe dissesse que os Nefilim ainda existem ?
— Você acha que eu acreditaria em você ?
O desconhecido deixou escapar um largo sorriso de ironia. Fechou os olhos.
- Acho.
E o desconhecido abriu seus olhos, que se tornaram como dois archotes flamejantes.
— Preste atenção na minha estória...
Depois deste dia o jovem Boaz nunca mais foi visto. Seus antigos mestres jamais entenderão o porquê de sua desistência.







MESTRES E APRENDIZES foi escrito por Simões Lopes.