domingo, 30 de agosto de 2009

Rebelião 90: Rebeka


O suor escorria pela testa. Já havia algum tempo que Rebeka vinha resistindo contra o cansaço. Lutar com aqueles dois homens não estava sendo fácil. Fora pega em uma armadilha, uma ação ardilosa. Foi um vacilo, e ela sabia muito bem disso, mas era tarde. Agora tinha que resolver tudo sozinha.

Rebeka tenta de todas as maneiras quebrar a defesa dos dois, mas eles são ágeis, exímios lutadores. Só tinha uma maneira de vencer, ir com tudo que tinha.

Ela se concentra por um momento. Encontra dificuldade, a dor e o cansaço do combate não a deixa ter foco. Mas teria que tentar, era a única salvação. Uma energia mística começa a nascer de dentro de Rebeka, dominando-a por inteiro. Seus olhos se irradiam. De suas costas nasce um par de asas com penas brancas. Era como se elevasse naquele momento. Mas algo deu errado, o resultado não fora alcançado. Rebeka sente seu corpo ser rasgado, de dentro para fora. Uma dor intolerável toma conta dela, e ela perde os sentidos.

Ao abrir os olhos, vê diante de si uma grande criatura demoníaca. Tenta fugir, mas é atraída por uma força maior que ela. A criatura penetra em sua mente. Rebeka não tenta resistir, deixa-se invadir por aquela força sobrenatural.

- Bem vinda minha pequena. A criatura sussurra em sua mente, mas Rebeka sente como que sendo violentada por aquela voz. – Finalmente você será nossa. É a melhor coisa a fazer. Nossas hostes estão se fortalecendo, o fim é certo. E o nosso lado será o vitorioso.

Ao terminar de falar, o demônio adentra mais na mente de Rebeka, transporta-a para um futuro próximo. E ela percebe isso, pois a cidade de Londres onde mora está totalmente destruída. O caos tomara conta de tudo e de todos. Anjos Celestiais empunhando espadas flamejantes lutam corpo-a-corpo com horrendos demônios sobre um mar de sangue e corpos. O fim que temera tinha chegado. E o que mais a assustava, estava lutando ao lado deles. Sim! Estava lado-a-lado daqueles que antes mais detestava, os Adoradores. Era membro das hostes infernais. Tinha se tornado uma escrava do inferno, um Diavolo.

Rebeka acorda assustada. Tinha mais uma vez tido aquele pesadelo. O mesmo.

Ela olha ao redor pelo quarto. Sente-se um pouco melhor, o susto diminuía. Estava em casa, “era só um sonho”, pensa.

- Rebeka, está na hora de ir para a escola. Uma voz feminina ressoa atrás da porta.

- Já vou mamãe. Ela responde, levantando e se arrumando.

Rebeka na mesa do café da manhã já não se lembrava mais do pesadelo, já estava entretida com outros pensamentos de sua própria idade. Ela tinha apenas 13 anos.

Rebeka foi escrito por Flauberth Carvalho

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quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Rebelião 91: Negro Gato


O temporal é intenso e já cai por mais quatro horas. Enrique Royo caminha com dificuldade pelo chão lamacento e pegajoso do pântano. Nuvens de mosquitos enxameiam sob a proteção de um enorme tronco disforme, cuja proteção garante uma área de terra seca suficiente para abrigar um pequeno exército. Protegido da chuva inclemente, o cadáver de um soldo fita o vazio com suas órbitas vazadas. Um enorme gato de pêlos inteiramente negros, com exceção de algumas marcas vermelhas específicas espalhadas pelo corpo. Para um bom conhecedor de símbolos místicos, cada mancha cor de sangue seria identificada como uma crux ansata invertida.
Cazador, o desencarnado está próximo?
Vestido com um longo manto negro, um homem mascarado acabava de atravessar a mata. Era ele quem gritava com uma voz rouca e sombria para o animal. O gato piscou os olhos brilhantes e fez alguns ruídos ríspidos.
Enrique Royo, o homem que trajava a máscara de caveira, compreendeu o que Cazador tentava lhe comunicar. O espírito do cadáver ainda estava por perto. O enorme gato negro, que Enrique chamava de “ocelote”, numa referência ao felino selvagem nativo de seu país natal, na verdade era um gato-selvagem africano, cuja vida corpórea transcorrera no Egito há milênios. Enrique seguiu as indicações do animal e conseguiu identificar o fantasma que pairava junto a uma enorme figueira. A silhueta imaterial translúcida guardava uma vaga semelhança com o cadáver putrefacto, e Enrique sabia tratar-se da alma de Nilo Arturo, militar porto-riquenho.
— Nilo Arturo, quem te matou? — inquiriu Enrique, com os olhos fixos no espectro que levitava.
— Matou? Eu... não morri... isto é um... pesadelo.
Enrique sabia como a morte era um trauma poderoso demais para qualquer ente, e compreendeu que Nilo ainda compreendera o que estava acontecendo.
— Sou amigo, não tenha medo — a frase não pareceu surtir o efeito esperado, pois o espírito de Nilo começou a levitar, numa espécie de impulso involuntário.
— Está...tá fri-o...fri-ooo... eu...
Negar a própria morte era uma reação esperada em mortes súbitas. Enrique mandou Cazador atrás do espectro. O felino arqueou sua coluna flexível e começou a galgar os galhos das árvores com uma agilidade sobrenatural. Por um breve instante, chegou a desaparecer no ar, reaparecendo metro adiante, no encalço do fantasma.
Cazador era o filho mais velho de um casal de gatos que haviam crescido no palácio de um faraó. Quando o Egito foi vítima de uma temível praga que exterminou todos os primogênitos, ele foi levado por Azrail, o Anjo da Morte. Como todas as vítimas inocentes daquela praga, tornou-se um up-en-khat, um celícola do Quarto Firmamento. Quando Enrique iniciou-se no ritos da sociedade mística conhecida como Golgotha tornou-se espiritualmente conectado ao celícola felino, que ganhou o nome batismal de Cazador.
Era este gato que agora perseguia pela floresta chuvosa a sombra diáfana de um espírito atormentado. O Golgotha estava investigando uma série de misteriosos assassinatos numa região obscura das florestas guatemaltecas. Cazador aferrou suas garras na perna etérea do fantasma, que gritou de agonia. Enquanto notava que o morto estava "capturado", Enrique corria apressado, ansioso em inquirir necromanticamente Nilo Arturo sobre a identidade dos assassinos em ação naquele recanto escuro.

Enrique apontou um amuleto em forma de cruz para a testa do fantasma, proferindo uma frase ritual em latim. O espírito balbuciou, e suas palavras não eram mais humanas. Enrique insistiu:

—O teu assassinado precisa ser punido. Quem é ele?

O corpo astral de Nilo Arturo ficou cada vez mais transparente, até desaparecer por completo. Enrique acabara de perder o contato necromântico que tentava manter. O gato soltou um miado longo e tristonho.

— O assassino continuará incógnito... que Deus tenha piedade da alma de Nilo, e que o Diabo receba em breve a visita de seu lacaio, quem quer ele seja!

Um barulho de galhos quebrando-se estourou por detrás dele. Em seguida, veio o som de algo pesado caminhando. Por fim, um grito horrendo, um misto de rugido e mugido.

Um pedaço de tronco—pesando mais de cem quilos—passou rente à cabeça de Enrique, que pôs -se em alerta. Cazador miou rispidamente e dissolveu-se no ar úmido tropical.

Um brutamontes mostrava os dentes amarelados em um sorriso animalesco de escárnio, sedento de sangue e violência. Os músculos inflados e o corpo artificialmente intumescido mostrava ser um Abominável, um lacaio dos Inferno, possuído por forças malignas mais antigas que a Terra.

Sua cabeça pavorosa devia chegar a uns 2,20m de altura. Ele brandia um matacão de pedra como se fosse um tacape. Ele gritou de novo.

Foi quando Cazador reapareceu, cravando suas garras no rosto do gigante.

Enrique não precisava mais investigar nada. O assassino acabara de aparesentar-se a ele, sem medo do confronto direto.

Chegara a hora do confronto tão esperado.


NEGRO GATO foi escrito por Simões Lopes


sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Rebelião 89: A Quarta Tentação


Um homem está sentado no chão pedrento. Seus olhos vidrados fitam o céu estrelado, como se buscassem enxergar através dele. A pele tostada pelo sol escaldante do deserto agora arrepía-se com o vento frio que sopra de noite. A fome e a sede o afligem, mas ele segue imóvel como uma estátua. As barbas longas e crespas, negras como carvão, estão salpicadas pela geada. Há quarenta dias ele peleja contras as mais duras provações, buscando no martírio uma forma de transcender as limitações daquele corpo frágil de carne e sangue.

Ele veio da distante Galiléia em busca de Deus mas não o encontrou. Em vão, buscou-o nas fontes, nas árvores, nos espinheiros e nos picos das montanhas. Gritou seu nome pelos vales, onde o som ecoou apenas como uma triste pergunta sem resposta. Ele sabe que uma grande missão espera por ele, mas sabe que os obstáculos serão os maiores possíveis.

Entorpecido por uma quarentena de flagelos e mortificações, ele busca no sofrimento a chave para abrir as portas do Reino dos Céus. O mundo inteiro parece mergulhado em guerras, pragas, morte e cobiça. O forte pisando o fraco, uns poucos guardando para si o que deveria ser de todos, e o Amor, a única lei de Deus, jaz como uma palavra vazia aprisionada em templos de pedra e rolos de pergaminho.

Aquele homem de cabelos longos sonha em salvar o mundo. Aquele nazareno sonha acordado, ignorando a dor em suas juntas cansadas, imerso numa atmosfera delirante. Ele escuta passos na areia à sua esquerda: os olhos injetados de sangue se movem lentamente na mesma direção.

Uma criança envolvida em trapos fita-o com olhos banhados em lágrimas. Sua pele, assim como os cabelos curtos, é negra da cor da noite. Negros também são os farrapos que cobrem-lhe o corpinho esquelético. Ela abre um sorrisinho tímido, e seus dentes tortos também estão inteiramente pretos.

— A fome está me matando, senhor. Transforma estas pedras em pão para que possamos comer.

O homem ergue-se, com sua sombra ao luar projetando-se sobre a criança famélica. Ele toma uma grande pedra na mão, e leva-a para junto de si.

Ele aperta a rocha com as mãos, fazendo-a brilhar como uma estrela. Quando brilho se apaga, a pedra fez-se pão.

O menino sorri, e arreganha os dentes numa bocarra semianimalesca.

— Vamos saciar nossa fome, agora, Filho de Deus. Este é o seu poder sobre a matéria. Os elementos te obedecem, o mundo ficará a seus pés.

O homem segura as mãos do menino, que cai de joelhos, chorando de dor.

Nem só de pão vive o homem, Lúcifer. Isto não é para mim, mas para teu escravo — o tom da voz é sereno, e ele faz com o que o menino esquálido coma um pouco daquele pão.

O homem torna a sentar-se na areia, e assiste ao garoto, agora livre do domínio demoníaco, desaparecer nas sombras.

O galileu respira fundo, sentindo no peito as palpitações de um coração que bate acelerado. O gosto de sangue na boca, o cheiro acre do suor seco de suas vestes, parecem cada vez mais acentuados. Fecha os olhos e ora mais uma vez. Clama pela proteção de seu Pai.

Quando abre os olhos, à sua frente, vê uma mulher trajando uma armadura de metal escarlate. O cabelo, vermelho como o fogo, é rapado curtíssimo, e tem o corpo elegante coberto por uma armadura de placas escarlates, cravejada de rubis cintilantes. Carrega duas enormes espadas, guardadas em suas respectivas bainhas.

Ela agarra-o pelo pescoço, arrastando-o com violência até a beira de um penhasco. O galileu não esboça a mínima reação.

— O Céu não vai escutar-te! O Deus Onisciente está dormindo e não vai te ajudar! Queres a ajuda das hostes celestes? Pois então clame por elas! Atira-te deste penhasco, e que eles te salvem com suas asas de luz!

A mulher brandiu as espadas, gritando com a voz possante.

— Tu desejas tanto o Reino dos Céus! Pois que venha a ti, agora! Lança-te, ou eu mesma irei derrubar-te!

Ele mergulhou no abismo, e sentiu o tempo congelar-se, enquanto o vento uivava em seus ouvidos. Em sua longa descida, e sentiu-se acompanhado por uma revoada de pombas selvagens. Ele podia ouvia as asas delicadas batendo, os arrulhos sinfonicamente preenchendo o silêncio das escarpas rochosas. Ele pensou nos anjos, e uma esfera de luz envolveu-o.

A mulher gargalhou triunfante: — Exerce teu poder sobre os anjos, e eles te obedecerão. O Reino dos Céus revelar-se-á, e tu será teu Rei Eterno.

A esfera de luz se apagou, e um horrível estalo foi ouvido quando o corpo bateu no chão.

O grito de fúria da guerreira mais pareceu o rugir de uma leoa, e ela desceu as escarpas íngremes com a agilidade de uma cabra dos montes. Alcançou o homem agonizante, com o sangue espumando em sua boca, as costelas partidas, e uma das pernas esmagadas.

Com os dedos ensanguentados, o nazareno marcou uma cruz na testa na guerreira infernal.

— Não tentará o Senhor Teu Deus, Samael. Pelo sangue derramado, eu liberto tua escrava.

A mulher lançou fora as placas de metal que cobriam seu corpo e ajoelhou-se perante corpo caído. Com suas espadas formou uma cruz, e fez com que dela emanasse uma jato de luz envolvendo e restaurando a forma original do corpo alquebrado. Os ossos partidos regeneraram-se, e os órgãos esmagados pulsavam agora com toda vitalidade. De seus olhos vermelhos rolaram lágrimas de sangue, e ela galgou as encostas escarpadas e também desapareceu.

O homem de barba crespa sabia que a batalha ainda estava longe de terminar, e orou pela misericórdia de Deus. Com suas mãos riscou o chão poeirento até que os dedos sangrassem. Chorou como um bebê faminto. A noite estava agora cada vez mais escura.

Mas então a luz apareceu, na forma de um ancião de cabelos branquíssimos como a neve, os olhos resplandecendo com o brilho do relâmpago. Uma túnica de linho cingia-lhe o corpo rotundo, e seu sorriso era terno e confortante.

— Meu filho único. Eu vim para tirar-te desta cova imunda e fétida. Libertar-te desta prisão.

Ele sentiu-se tomado em espírito, e viu-se voando por sobre o deserto, chegando a alturas impossíveis de calcular. A seu lado, o velho indicava-lhe, em tom paternal:

Tudo isso te darei se, prostrando-te, me adorares.

Ele viu palácios majestosos, e montanhas de riquezas, templos suntuosos repletos de adoradores em êxtase, e exércitos dos mais bravos guerreiros entoando seu nome, dóceis e a seu dispor.

Tudo isso te darei se, prostrando-te, me adorares”, a frase pareceu ser repetida muitas vezes.

Ele beijou a face do ancião, e fitou-o nos olhos.

— AFASTA-TE, SATHANAEL.

Um raio cortou ao céu, atingindo-os em cheio.

Um redemoinho de poeira envolveu-os, e o galileu se viu mais uma vez sobre a terra árida do deserto da Judéia. Ao teu lado, o corpo do velho estava reduzido a uma massa carbonizada.

— Adorarás o Senhor teu Deus e só a ele servirás. Não podeis servir à Riqueza e a Deus ao mesmo tempo.

O cadáver enegrecido reviveu, com as órbitas vazias emitindo faíscas de luz negra, que serpenteavam pelo ar como criaturas vivas. A pele recuperou sua brancura original, de um tom que lembrava o mármore dos palácios, e o Arqui-Demônio Sathanael bateu suas enormes asas infernais, zumbindo como um pavoroso inseto. Sua pele enrugada e encarquilhada acentuava suas feições decrépitas, e os dentes afiados, em carreiras múltiplas, rangiam com um barulho desagradável.

— Deus criou o Homem para ser um simplório jardineiro, mas eu sempre tive planos maiores! Veja o que esta inglória raça feita de barro tem feito ao redor do mundo: eles matam, eles roubam, eles mentem! Somente eu compreendo sua real natureza, e é por isso cada vez mais eles me seguem. As almas dos homens pertencem a mim, governa-os!

O Arc’Anjo tornou-se ainda maior, e à sua volta foram surgindo legiões de seguidores, homens e mulheres, soldados e sacerdotes, mendigos e príncipes. Eles gritavam o nome do nazareno.

— Sacia tua sede de poder, não em meu nome, mas em teu próprio! Somente o Criador exigia adoração exclusiva. Eu não tenho estes caprichos.

— Afasta-te, Sathanael.

— O teu Deus te abandonará.

— Afasta-te, Sathanael.

— Aqueles que te seguirem negarão conhecer-te ou preferirão vender sua fidelidade por um punhado de moedas.

— Afasta-te, Sathanael.

— Aqueles curados por ti ansiarão por vê-lo pregado em uma cruz. Até mesmo os Anjos celebrarão a tua morte, Filho de Deus.

— Afasta-te, Sathanael.

O demônio desapareceu, deixando em seu rastro uma pilha de ossos humanos espalhados ao redor do ermitão, como se formassem uma mandala gigantesca.

Ele virou-se para a direita, e ouviu um canto melodioso vindo de uma gruta, escondida nas sombras da noite.

Ele levanta-se cambaleante, sentindo os membros estremecerem. O suor escorre gelado, as pupilas dilatam-se.

— Amai-vos uns aos outros — dizia uma voz feminina, insinuante. — Meu amor é todo teu, Filho do Homem!

Uma mulher magnífica aproximou-se, os quadris largos balançando graciosamente, a pele bronzeada pelo ardor do sol mediterrâneo, os cabelos cor de ouro esvoaçando com a brisa noturna.

O homem tentou impedi-la de se aproximar, mas sentia-se indefeso diante de tamanha sensualidade.

— SHEMHAZAI, POLUIDOR DE ANJOS E HOMEM, EU POSSO SENTIR SUA PRESENÇA DIABÓLICA. Meus outros inimigos não prevaleceram, e tu não prevalecerás! — gritou ele, desviando os olhos da nudez sedutora daquela serva do Inferno.

— Eu sou sua inimiga, meu senhor? — sua voz era límpida e musical, mas era possível perceber um leve ruído difuso, como se vários seres invisíveis falassem ao mesmo tempo em que ela. — Ama a teu inimigo, como a ti mesmo, assim tu ensinarás.

Ele suava e tremia.

— Eu te ofereço o poder sobre o Inferno e sobre todos os demônios! — gritou ela, enquanto sombras ameaçadoras rodopiavam ao seu redor. Cada frase dela era reforçada por uma sutil cacofonia de sete vozes entrelaçadas. Em cada palavra pronunciada, ele captava diferentes timbres combinados. Às vezes, uma sílaba soava como um grito, outras vezes, o som era sibilante. Enquanto a mulher falava, pela atmosfera ecoavam impressões de urros, uivos, zumbidos, gargalhadas.

Ela sorriu mais uma vez, saboreando a vitória possível. As sete sombras infernais que emanam da fêmea aprisionam o macho numa câmara de trevas intransponíveis. Protegida e revigorada pela Escuridão a quem serve, a mulher prossegue em seu estranho ritual de acasalamento, onde os opostos se atraem. Macho e fêmea. Êxtase e Agonia. Céu e Inferno. Amor e Ódio. Luz e Trevas.

Três tentações. Três Arquidemônios derrotados.

A quarta tentação seria a mais difícil de todas.


A QUARTA TENTAÇÃO foi escrito por Simões Lopes

terça-feira, 28 de julho de 2009

Rebelião 88: O Heptáculo de Haniel

Rosemary Melgar ligou a lanterna apontando o facho de luz azulada para a fenda entre as placas de pedra cobertas pelo tapete de grama molhada. Jovilio, seu parceiro, estava imerso no lago até a altura do umbigo, alheio ao frio de outono. Era madrugada, e o orvalho cobria o tapete florido naquele recanto pouco visitado do Jardim Shukkeien da cidade reconstruída de Hiroshima. Angelina Kure, alta e de silhueta esquálida, observava a insólita com um palmtop freneticamente carregado com novos dados, vigiando o perímetro e confiante na proteção de seu talismã africano de conchas marinhas. Embora não duvidasse dos poderes mágicos do talismã, Rosemary sabia que o principal feito de Angelina Kure fora subornar os guardas-noturnos, “convencendo-os” a fazer a ronda numa praça bem distante dali, e utilizar seus contatos dentro da administração municipal para conseguir a interdição da ponte estreita que era a única forma de se alcançar aquela minúscula clareira quase oculta pelo pomar de cerejeiras.

Quem olhasse para Rosemary, aquela porto-riquenha de quadris voluptuosos e os cabelos crespos tingidos de um amarelo forte quase alaranjado, com seu ar eternamente blasé, jamais imaginaria que ela era uma pesquisadora ávida por mistérios arcanos desde a pré-adolescência. Rosemary tinha cerca de 12 anos quando seu avô assassinado em circunstâncias misteriosas deixou-lhe uma vasta biblioteca de obras raras, basicamente focadas nas áreas mais sinistras do conhecimento humano. Salvando o legado de seu avô Casiodoro do esquecimento, a menina dedicou os melhores anos de sua insípida vida tanto ao resgate daquelas teorias tão menosprezadas, como à criação constante de novas linhas de estudo, ainda mais obscuras. Fluente em hebraico, aramaico, grego bizantino, eslavo eclesiástico e nos dialetos regionais menos conhecidos do idioma arábico, a obstinada moça de olhos negros ainda arranjaria tempo para acumular graduações incompletas em Medicina, História, Psicologia e Arqueologia. Jamais quis diploma algum, e se não concluiu nenhum dos cursos, foi porque as informações absorvidas já eram o suficiente para seus objetivos. O casamento precoce com um oficial da Marinha de família abastada só serviu para conseguir o sustento necessário para prosseguir em suas linhas de pesquisa secretas. Entediada por casamento de conveniência, colecionou muitos amantes, enquanto gastava despudoramente a fortuna do esposo em viagens e presentes cada vez mais valiosos. Depois de um período relativamente muito curto de uma vida matrimonial morna e sem filhos, o marido de Rosemary - prestes a ser promovido a tenente-coronel - morreu vítima de um ataque terrorista no Iêmen, deixando sua jovem viúva inteiramente livre, e obscenamente rica.

Casiodoro Capistrano Melgar y Lluci, o nome completo do avô dela, fora um ex-bispo excomungado pelo Vaticano, e terminara seus dias como um anônimo funcionário aposentado de um cemitério público num vilarejo costeiro em Porto Rico. Seu único legado era uma compilação de estudos tortuosamente confusos e contraditórios sobre o que chamava de Heptagrama de Haniel, um signo cabalístico que cria ser um símbolo primordial que remontaria a milênios e milênios anteriores à existência do povo hebreu e de seus antepassados semíticos mais remotos. Aquele símbolo, escrevera Casiodoro, “era basicamente o mesmo que a seita maldita dos bogomilos da Bósnia chamava de Selo do Anjo Verde, na forma de uma estrela de sete pontas. Compilando uma série de tradições difusas, Casiodoro asseverava que a dita figura era conhecida pelo alquimista helvético Gruentallius como heptaculum smaragdinum, correspondendo à mesma Flor de Sete Pétalas dos teodoritas prussianos , um ramo renegado da franco-maçonaria, e à Cruz Sétupla pintada no teto da capela em ruínas dedicada a Santo Onofre, na Galícia polonesa, e reproduzida com perfeição nos glifos misteriosos de uma estela sem nome encontrada em 1902 por exploradores belgas nas profundezas do Congo.

O fascínio pelo sobrenatural fizera de Rosemary um verdadeiro ímã para temas heréticos, mas a principal tese de seu avô ficaria reduzida a notas de rodapé esporádicas em seus cadernos de anotações se não fosse a descoberta esterrecedora do filólogo galego Jovilio Mendoça ao traduzir as inscrições tirrenas em uma catacumba decorada com a Rosa de Fufluns, outro nome para a mesma misteriosa figura de sete pontas. Fufluns, o nome etrusco de Baco, é citado nas inscrições como "Pai e Mãe das Flores", e esta mesma frase estava reproduzida em um papiro copta do século III, mas associada a outra divindade, o Arcanjo Haniel. Movidos por interesses comuns, Rosemary Melgar e Jovilio tornaram-se colaboradores e amantes, e em sua sede por mais descobertas, viajaram ao redor do planeta, participando de forma volúvel e dissimulada das mais diversas sociedades secretas, desprovidos de qualquer escrúpulo que os impedisse de roubar até mesmo matar quando necessário. Enquanto participavam como espiões de uma seita orgiástica entranhada no baixo escalão da burocracia soviética, Rosemary foi a primeira a entender corretamente o símbolo marcado no fundo seco de um poço, ao redor do qual florescia um exuberante jardim de rosas de proporções anormalmente descomunais.

Quando essa mesma região veio a ser contaminada pelo acidente na usina nuclear de Tchernobyl, com toda área vizinha ao poço demolida e soterrada sob toneladas de concreto metal, o casal de ocultista estavam bem longe, aproveitando seus milhões de dólares com exibições de futilidade explícita nas mansões mais luxuosas de Miami, quando Jovilio terminara consumindo boa parte da fortuna da amante para impressionar alguns de seus mais recentes amigos de ocasião, pseudo-maçons pertencentes a uma minguante comunidade de alpinistas sociais frustrados. Foi justamente numa destas festas regadas a cocaína e vodka, em uma mansão à beira-mar em Boca Raton, que vieram a conhecer a talentosa Angelina Kure, uma professora de Linguística brasileira, que nas horas vagas dedicava-se a comparar mitologias e textos sacros de povos extintos.

Angelina, na época, frequentava as turbulentas festinhas na casa do político de raízes hispânicas Bonny Cabalete, cuja devassidão era escondida dos eleitores por meio de uma teia de influentes amigos na mídia local, que transformaram aquele corrupto e mentiroso deslavado em um dos ícones venerados da moralidade mais puritana. Sua meia-irmã, a paranóica e deprimida atriz bissexual Gypsie Cabalete, na época estava apaixonada pela exuberante Rosemary, que manipulava a carência afetiva da artista para amealhar contatos importantes na high society norte-americana, a fim de obter informantes poderosos em algumas novas seitas que teriam a chave para reabilitar o prestígio de seu avô. A aproximação com a nissei Angelina foi então mais do que natural, e assim que esta combinou sua poderosa inteligência com os esforços da dupla Rosemary e Jovilio, as pesquisas sobre o enigmático Heptagrama avançaram com grande progresso. Foi Angelina que trouxe a informação essencial de que o símbolo havia sido fotografado em um trecho aberto pelas obras de canalização em um jardim de em Hiroshima.

Jovilio ficou entusiasmado o bastante para partir para o Japão, e comentou com Rosemary sua contrariedade com fato de que uma galeria subterrânea relativamente rasa tinha sido capaz de resistir à explosão atômica que devastara por completo a mesma área há mais de cinquenta anos. Rosemary não seguiu de imediato — tinha assuntos financeiros a resolver em Nova Iorque — e desconfiava que o galego e a brasileira estavam escondendo um relacionamento de natureza mais sexual que intelectual. Não que ela se importasse: todos os seus relacionamentos afetivos não passavam de distrações passageiras que não lhe traziam o mesmo prazer que a busca pelo conhecimento do Oculto representava.

O homem saiu da água lamacenta carregando uma máquina fotográfica compacta apropriada a fotos subaquáticas. Assim que conferiu a imagem reproduzida no visor largo de cristal líquido, ajustando o brilho e contraste para tornar as linhas apagadas mais nítidas, soltou sua risada sincopada caractéristica.

Não restava dúvida de que aquele era o mesmo heptaculum, a mesma flor de sete pétalas, o mesmo símbolo talhado na capela de Santo Onofre. As sete pontas representavam o número sagrado associado ao Arcanjo Haniel, o protetor da Vegetação, segundo um versículo do herético Liber Joannis Sapientiae, e suas asas eram “verdes como a folha da tamareira", e seu hálito divino "preenchia os campos com o aroma candente das rosas silvestres", conforme escrevera o místico medieval Salomon Kordoba. Rosemary não tinha dúvidas que a presença de um símbolo difundido em locais e épocas tão díspares não se explicava por uma simples transmissão cultural ou por hipótese de inconsciente coletivo, tampouco se devia a uma coincidência fortuita em escala global. Salomon e seus escassos seguidores ensinaram que o Arcanjo Haniel passeara pelo mundo deixando sua marca em diversos locais sagrados, mas a natureza fragmentária do que restou de seus textos não deixava compreender mais nada.

O trio de ocultista continuava assim mergulhado no Mistério. Assim que deixaram Hiroshima, e recolheram-se provisoriamente em um luxuoso quartode hotel em Tóquio, Jovilio Mendoça divagou palpitando que como o número sete representa Haniel, deveriam haver sete locais sagrados ao redor do mundo marcados pelo heptagrama. Sete também eram as plantas sagradas, as sete primeiras citadas no Gênesis: a figueira, o espinheiro, o cardo, o trigo, o cipreste, a oliveira e a videira. Mendoça completou seu raciocínio afirmando que os seguidores do Arcanjo Verde zelavam pelos sete pontos místicos espalhados pelo mundo. Os arquitetos desconhecidos na capela polonesa de Santo Onofre com certeza estavam vinculados aos hereges que reuniam-se no poço ucraniano, cujo símbolo era uma duplicata perfeita do signo japonês. Acreditava Mendoça que grandes poderes zelavam pelos sete locais, mas que não era capaz de precisar quem eram os tais seguidores.

Rosemary deixou que seu namorado terminasse de falar, e esperou mais um pouco para que ele terminasse de dar sua desagradável risada. Não contestou as hipóteses dele, mas acrescentou alguns elementos novos à complexa equação ainda inconclusa.

“O mesmo símbolo apareceu em uma clareira no sul do Brasil. Meu avô esteve por lá nos anos cinquenta, e fez uma série de desenhos dele em um caderno. O local hoje jaz sob as águas de uma gigantesca hidrelétrica”, disse Rosemary, sob os ouvidos atentos da dupla. Angelina confirmou que tratava-se a usina hidrelétrica de Itaipu, na divisa entre Brasil e Paraguai. Entre um trago e outro de saquê, a brasileira soltou um gritinho de euforia, e parabenizou a porto-riquenha pelas informações. “Isto só confirma a virtual ubiquidade do signo do heptagrama.

Rosemary não demonstrava nenhuma alegria ou satisfação. A preocupação estava estampada em seus olhos cansados. “Prestem atenção num detalhe que não está sendo levado em conta”, disse ela, gesticulando como se desenhasse algo no ar. “O acidente nuclear na Ucrânia, a explosão em Hiroshima, o alagamento de Itaipu: não percebem o padrão?”, ela deixou o corpo cair no sofá, num gesto que combinava raiva e cansaço. Concluiu que se existia uma força agindo através dos heptagrama, que atribuímos a estes “servos” arcangélicos, existia outro poder misterioso em atuação, interferindo no sentido contrário, para destruir ou tornar aqueles nódulos de energia mística inacessíveis.

“Estamos no meio de uma guerra, de proporções cósmicas”, berrou Rosemary para uma Angelina já inteiramente embriagada de aguardente de arroz, e para um Jovilio absorto em cálculos numerológicos envolvendo o nome Haniel, e pensando nas vantagens que poderia obter com a manipulação destas informações.

Rosemary percebeu então que a partir daquele momento, seu caminho afastava-se cada vez mais dos de seus dois parceiros. Enquanto eles pensavam apenas numa simples aquisição de mais conhecimentos e recursos arcanos, ela despertara para uma nova realidade inteiramente assustadora. Via-se como um simples peão indefeso num xadrez de proporções cósmicas, onde dois exércitos travavam uma guerra eterna.

Uma guerra invisível, pois ela não sabia quem estava lutando.

Não sabia pelo que lutavam, e consequentemente não sabia qual lado apoiar, se é que deveria apoiar um deles.

Naquela noite, a neta de Casiodoro foi dormir sob o efeito de calmantes, pois seus olhos, ávidos por enxergar a face mais sombria do Mundo, haviam visto demais. Ela sonhou com anjos verdes e flores de sete pétalas. Sonhou que estava trancada em uma caverna, e que formas horrendas desenhavam-se nas sombras das paredes, mas ela não sabia de onde eram projetadas. Uma voz taciturna dizia que o Heptáculo de Haniel iria protegê-la, enquanto outra gritava que o símbolo traria a sua morte.

Na manhã seguinte, quando Jovilio e Angelina acordaram, encontraram Rosemary Melgar morta na cama, os olhos vidrados e vazios, a pele gelada, o coração em silêncio. No lençol ela deixara sua última mensagem: um heptagrama rudimentar, riscado no pano com as unhas afiadas de uma mulher que morreu sabendo demais.

O HEPTÁCULO DE HANIEL foi escrito por Simões Lopes

sexta-feira, 26 de junho de 2009

Rebelião 87: A Paixão do Deus-Alce

Ao ar livre, a temperatura devia chegar a uns vinte graus negativos, mas dentro do vestíbulo estreito, cujo chão era atapetado por peles felpudas, a temperatura era tão elevada, que as pessoas suavam em profusão. Um grupo de mulheres jovens, vestindo apenas um avental tosco de lã amarelada, fazia uma triagem na fila de visitantes.

Todos ali eram mulheres, e aquelas que ali chegavam traziam nos olhos embaçados sinais de um entorpecimento extremo. Elas gritavam, choravam e gargalhavam, e algumas delas jogavam suas roupas no chão, sem o menor pudor. Uma mulher pequena, de pele bronzeada e olhos miúdos esverdeados, com ar de intelectual, trajando um tailleur de griffe e óculos de aro fino, interpelava uma das zeladoras do recinto. Gritando agressivamente em francês (com um leve sotaque valão), ela tentava atravessar a barreira formada por quatro jovens altas de cabelos cor de palha, que impediam a passagem do mulherio irrequieto.

— Eu quero vê-lo agora! — gritava a executiva belga, no que foi interrompida por uma moça voluptuosa de feições africanas e vasta cabeleira tingida de louro. Gritou que chegara primeiro, e que a ordem tinha que ser seguida. A discussão espalhou-se pelo cômodo como uma faísca, provocando empurrões, xingamentos e tentativas de agressão entre as presentes. A mais alta das vigias, que tinha uma tatuagem azulada em forma de dragão no ombro nu, vestia um manto lanoso que deixava à mostra o mamilo esquerdo, e brandia uma espécie de bastão entalhado de forma acintosamente fálica, com relevos em forma de chifres de cervo. Acertou um tapa tão violento na mulher impaciente, que esta caiu sentada por cima de um japonesa gordinha que estava sentada num cavalete de madeira.

— O Deus-Alce se aproxima. Ele ama a todas, e com todas estará! — gritou Juditta Pernatson, uma ex-freira, que agora dedicava toda sua vida a um novo Senhor e Deus.

O anúncio só serviu para aumentar frisson lascivo do local. Quando o corpo musculoso do homem atravessou o túnel baixo escavado na pedra, algumas garotas já começaram a arrancar as próprias roupas, gargalhando.

A japonesa caída no chão tentou passar a mão nas coxas do homem, mas foi reprimida por um pontapé de uma das sacerdotisas do Deus-Alce. Karin Svartkvist, ex-diretora de uma empresa automobilística, com a autoridade de que se sentia imbuída, afastou as seguidoras com o brandir de seu bastão, traçando um círculo imaginário no chão. Trazia uma tiara em forma de galhada de cervo nos cabelos loiros, e lançou um olhar sensual na direção do homem nu.

O Deus-Alce era um homem de quase dois metros de altura, com a musculatura potente de um atleta, cujos cabelos e barbas eram de um tom marrom-avermelhado, com alguns reflexos dourados. Estava sem roupa e excitado, e a visão de sua nudez fez despertar uma força sobre-humana em algumas das fêmeas, que saltaram por cima uma das outras, atropelando as “sacerdotisas”, e e agarrando-se no corpo peludo do Deus-Alce.

Ele não pareceu se incomodar com o assédio feminino, e puxou a empresária belga — agora com a roupa já em frangalhos — para si, esfregando suas coxas nuas dando-lhe uma lambida úmida no pescoço. Outra mulher, um francesa de meia-idade, saltou nos ombros do homem-fera, cravando-lhe o peito peludo com as unhas postiças. Ele não emitiu som algum, e arrastou mais duas moças para junto de si, conduzindo-as para a câmara subterrânea de onde saíra. Entre beijos e carícias mais profundas, seus olhos alaranjados brilharam a medida que conduzia seu cortejo dionisíaco pelas sombras. Em sua testa, era visível um par de cornos protuberantes, como os de alce macho.

Enquanto isso, aquelas que foram deixadas para trás reclamavam com as clérigas do Deus-Alce, com algumas tão desesperadas que chegavam a um estágio convulsivo quase epiléptico. Karin e Juditta conseguiram conter o restante da turba, e de lá era possível ouvir os gritos orgásmicos das amantes do Deus-Alce abafados pelas paredes rochosas. À medida que a orgia prosseguia naquele covil sombrio, os gritos de prazer do Deus-Alce começaram a ecoar como um trovão rouco, com uma melodia animalesca que fez algumas das presentes desmaiarem. Bastante tempo depois — quando muitas já esperavam adormecidas, o ritual repetiu-se, com o deus chifrudo retornando para arrebatar mais um grupo de fêmeas em êxtase. Enquanto arrancava as roupas de uma loura de seios fartos — a filha rebelde de um nobre austríaco —, o Deus-Alce virou-se para a “sala de espera”, percebendo que restava ainda uma seguidora sentada, uma garota de uns dezessete anos no máximo. Vestia um casaco volumoso de várias camadas, e sua pele morena e olhos rasgados indicavam uma origem nos distantes Mares do Sul.

Ele estendeu seu braço forte na direção da moça — uma havaiana de nome Kelia —, fitando-a com suas pupilas flamejantes. As mãos calejadas, com unhas grandes e irregulares, agarram-na pela mão delicada, mas ele não conseguiu movê-la. Enquanto isso, suas outras “amantes”, impacientes, suplicavam por sexo, esfregando-se em seu corpo nu.

“Seu poder de atração não funciona em mim, Juda Eriksen”, era a mensagem telepática que parecia emanar da mulher impassível. O conteúdo da mensagem, provocou uma certa perturbação na criatura, que largou suas amantes no chão para concentrar-se no novo alvo irresistível.

Puxou-a com violência, arrancando o corpo da imobilidade teimosa com um safanão brusco. Quando tentou rasgar suas roupas, ela desapareceu no ar, desfazendo-se num redemoinho de poeira. “Sou uma Primal como você, Juda”, ela reapareceu uns metros adiante, para surpresa das sacerdotisas que não entendiam o que estava acontecendo. As mulheres rejeitadas pelo Deus tentaram agarrá-lo mais uma vez, mas este provocou nelas um sono profundo, derrubando-as inconscientes.

— Quem é você, “irmã”? — perguntou ele, num tom de voz surpreendentemente humano para um deus-animal.

— Kelia Luanalu, eu militei no Bando do Musaranho Venenoso — respondeu a havaiana, cujos olhos agora brilhavam com faíscas esverdeadas.

Ele olhou para suas sacerdotisas, por instante. Com um gesto de suas mãos, colocou-as em transe hipnótico, para que se esquecessem da cena.

— Eu fiz parte deste Bando, há muitas décadas atrás — disse ele, confirmando os detalhes da identificação.

— Mas abandonou seus irmãos...

— A solidão do nômade é uma etapa mais que necessária na preparação para a Caçada do Fim dos Tempos.

— Não estou condenando-o. Vim apenas cobrar uma colaboração com seus antigos companheiros.

— Deixem-me em paz.

— Misturando-se à carne podre das filhas de Eva? Passando-se por uma divindade fraudulenta? Isto é “paz”?

— Satisfaço meus desejos carnais, e ainda me divirto com a credulidade patética destas humanas sifilíticas. Mostro a elas o chamado orgiástico da Natureza, e as faço renegar suas crenças, abandonar seus bens terrenos e recusar as dádivas fúteis de sua civilização parasita.

— Os primeiros de nossa espécie estão retornando do exílio. Precisamos reunir os melhores — Kelia terminou sua frase com um tom de súplica.

— Mentira. Eles ainda estão longe, não voltaram ainda. Convença-me do contrário!

Kelia baixou os olhos, num claro sinal de desconsolo.

— Não posso obrigá-lo a concordar comigo. Só gostaria que considerasse a possibilidade de nos ajudar num futuro próximo.

Ela ajeitou as dobras do casaco, preparando-se para a longa jornada de volta. Enfrentar os rigores do inferno escandinavo, no entanto, era a menor de suas aflições.

Antes que ela fosse embora, ele pousou a mão quente no rosto da Nefilim, num gesto amistoso.

— Não posso deixar de oferecer minha hospitalidade. Você veio de muito longe, e deve estar exausta. Não recuse minha hospitalidade. Aqui tem comida, cama e...

— E... o quê mais? — Kelia esboçou um sorriso tímido.

Juda Eriksen retribuiu o sorriso.

— Ah. E sexo! — terminou a frase com um beijo na “amiga”.

O Deus-Alce fez com que as mulheres adormecidas recobrassem seus sentidos. Kelia não quis responder a “oferta”.

— Você não é obrigada... — disse ele numa tentativa desajeitada de parecer cordial. — Você será alimentada e terá seu repouso garantido e ...

— Tudo bem... eu aceito sua proposta — disse ela, pra surpresa do Nefilim, aplicando-lhe um beijo demorado nos lábios grossos. — Mas que fique bem claro que estou agindo por espontânea vontade. Nem ouse em tentar algum tipo de sugestão hipnótica ou sedução sobrenatural!

Ele tomou-a nos braços e adentrou no túnel, sob o olhar invejoso das mulheres caídas ao seu redor, ainda tontas com o despertar da hipnose.

— Não me olhem assim, todas vocês são especiais.

Ele soltou um bramido, para reforçar sua aura “bestial”, e desapareceu nas sombras com a havaiana. Ele sabia que estava mentindo. Nenhuma humana, filha degenerada dos macacos de barro, era tão especial quanto uma Nefilim como Kelia.
Ela, sim, era genuinamente especial.
A PAIXÃO DO DEUS-ALCE foi escrito por Simões Lopes

quinta-feira, 25 de junho de 2009

Rebelião 86: O Despertar do Rei


Eu podia sentir meu corpo sendo coberto pela terra fria e úmida. Meus sentidos, ao mesmo tempo, embotados e expandidos, traziam-me apenas o cheiro acre das ervas aromáticas e do incenso abrasador. Curvas de luz colorida serpenteavam num céu amarelo com raios púrpura e nuvens azul-marinho. Em um piscar de olhos, o céu transmuta-se num vermelho-sangue intenso, e sinto o gosto doce do mel fermentado em minha língua. Um cântico suave ecoa nas profundezas de meu cérebro — estarei sonhando?

Senti muito frio, antes de sentir um calor intenso que parecia cozinhar minha pele ressecada. Mergulhei nas trevas profundas, para ser desperto por uma explosão de luz que reverberou por cada poro de meu corpo. Vi as águas serem divididas, acima e abaixo de meu corpo esquálido e transparente. Ainda estou adormecido. Vi o sol, a lua e os planetas girando ao meu redor, e vi a terra seca cobrindo-se de vegetação. Nadei com os peixes prateados, ao mesmo tempo que voa num céu escuro com uma revoada de grandes pássaros vermelhos.

Fiz uma pausa para tomar fôlego.

Inspirei profundamente, e me percebi montado no dorso de um grande touro de chifres dourados, correndo por uma planície infinita com sua manada de bestas magníficas. Lançado no chão duro, perdi-me numa floresta silenciosa, e chorei copiosamente. Meu choro foi consolado por uma mulher nua, que beijou-me na face e ofereceu-me um verde figo suculento.

Mordo o fruto.

Uma vez.

Muitas vezes.

Quero devorá-lo por inteiro, mas paro horrorizado, vendo os vermes sanguíneos que brotam de sua cerne podre. Minha companheira grita e é tomada pelos vermes que assumem a forma de uma serpente de escamas escarlates.

A Natureza parece berrar, desaprovando nosso pecado. Vejo a floresta murchar e ser reduzida a um deserto de areias brancas. Nós choramos e cambaleamos pelo solo rachado e seco, os pés queimados pela areia fumegante, feridos por espinhos afiados.

Minhas lágrimas escorrem, meus dentes rangem de dor. Vejo a serpente crescer como um dragão que parece querer engolir o mundo. Vejo monstros de metal marchando à minha volta, o chão tremendo com aquelas passadas titânicas. Um rio de óleo negro irrompe do chão apodrecido, engolfando-me numa névoa de odor fétido e causticante.

Uma tempestade elétrica atravessa a atmosfera com o cheiro sulfuroso dos demônios triunfantes. Vejo minha amada ser carbonizada por uma descarga fulminante. O dragão sibila em sua lúbrica felicidade, as escamas rútilas brilhando em meio à escuridão que reina absoluta.

Eu sinto saudade do Paraíso.

Satanás captura-me entre suas garras.

Eu não choro.

Eu rezo.

Mais uma vez, uma explosão luminosa afasta as sombras.

Eu sinto a Vida renascer.

* * *

Meu corpo está formigando.

Não consigo, ver, nem ouvir nada. Sinto em meu rosto uma máscara rígida, e meus pulmões parecem sufocar. Meus braços e pernas estão atados. Quero gritar, mas não consigo.

* * *

Sinto um ardor correndo-me a face, e sinto a máscara de cera partir-se ao meio, libertando-me. Percebo um sacerdote trajando uma vestimenta de folhas munido de uma foice de prata, sorrindo para mim. À minha direita, outro sacerdote, coberto de peles animais, com uma crista de penas, solta as amarras de meu pulso direito com um machado de ferro. À minha esquerda, um homem alto, coberto dos pés à cabeça com uma túnica branca reluzente, parte as amarras do outro lado com um punhal de ouro. Ergo-me, e sozinho, arranco as fibras que prendem meus tornozelos feridos.

— Que a Luz mais uma vez guie teus passos, Gideon Ben-Leona Acebal, Rei do Jardim da Chama Celeste de Javé.

Ainda sinto náuseas, mas meu cérebro começa a funcionar no ritmo normal.

Sei onde estou.

Sei quem sou.

Sei o que faço.

“E plantou Javé um jardim no Éden, do lado oriental; e pôs ali o homem que tinha formado”, entoaram os sacerdotes em coro.

Estou pensando nela. Apenas nela.

— Onde está a Rainha? — senti minha voz tão forte que os clérigos estremeceram com o meu grito.

— Estou aqui, meu amor — reconheci a voz dela.

Seu pescoço estava ornado com uma grinalda de rosas tão vermelhas como seus cabelos cacheados. Ursula bath-Tamar Cordero, a Rainha do Jardim. Ela, assim como ele, tinha os cabelos ungidos com azeite bento.

Nós nos beijamos por um longo tempo, até ser interrompidos por um homem baixo de barba preta e áspera.

— As viajantes noditas já chegaram, ó Rei — aquele era Yordan ben-Leona, meu irmão. Ele nos guiou até o pomar de tangerinas, onde duas mulheres morenas nos aguardavam.

Aquele era o Jardim da Chama Celeste de Javé, uma comunidade agrícola situada numa escarpa montanhosa no Marrocos, onde todos levavam uma vida simples, baseada na agricultura, na criação de animais e na abolição de qualquer “modernidade” pecaminosa. Carpinteiros e ferreiros eram os únicos profissionais permitidos, pois assim ditava a regra dos Adâmicos. Em cada Jardim — aquele não era o único —, um casal era escolhido para se tornarem o Rei e a Rainha do povoado, e imbuídos do poder divino e alimentados por refeições sagradas que os tornavam incrivelmente vigorosos. Gideon era capaz de segurar um touro com as próprias mãos, e Ursula, não menos poderosa, era mais rápida que uma gazela. Todos os Adâmicos gozavam de uma saúde perfeita, e eram consideravelmente mais fortes que os humanos normais, ou como eles os chamavam pejorativamente, os “amigos da Serpente”.

As viajantes, que trajavam uma túnica rústica de lã, amarrada com cadarços de couro, se chamavam Eva bath-Águila Caballero e Tabatha bath-Sara Ovieja. As argolas de bronze nos pulsos e orelhas eram um adereço típico de sua função. As Noditas tinham a missão de viajar para além dos limites dos Jardins e estudar o mundo exterior, narrando o que presenciavam. Tiravam seu nome de Nod, a terra onde Caim se exilou.

— O Jardim da Alma Pura foi atacado — explicou Tabatha, com a voz trêmula. — Só dois sobreviveram.

—É a quinta comunidade a ser dizimada em dois meses! — gritou minha amada Ursula, com os olhos castanhos brilhando de fúria. — Ficaremos parados?

A origem dos Adâmicos era atribuída a judeus espanhóis expulsos da Península Ibérica no século XV, que se estabeleceram no norte da África, onde começaram a fundar comunidades agropastoris que abominavam qualquer um dos vícios da civilização urbana. Cultuavam os anjos Miguel, Gabriel e Haniel, e através do seu êxtase religioso, dotavam seus corpos de dons prodigiosos, que eram mais acentuados nos Reis e Rainhas, que eram tão poderosos, que precisavam passar uma espécie de hibernação a cada treze lunações, o que eles chamavam de a “Morte em Vida”. A língua de culto era uma forma modificada do judeu-ladino ibérico, e as principais famílias ainda traziam seus nomes de origem castelhana.

— Yoseph ben-Blanca Delmar era o Rei do Jardim da Alma Pura. Ele não conseguiu deter os ataques?

— Não, Rei Gideon, mas ele é um dos sobreviventes. Está cego e teve a perna esquerda amputada.

— Isso não é um problema, com leite e mel, ele rapidamente regenerará as mutilações — disse Ursula, com um certo desdém.

— A alimentação não está fazendo efeito, Rainha... — Eva retrucou com uma certa timidez.

— O quê?! — Ursula estava furiosa. — Que tipo de inimigo estamos enfrentando?

As noditas silenciaram. Estava claro que ninguém sabia o que estava atacando os Adâmicos. Deixei que elas se retirassem para seus aposentos, não havia nada mais a ser dito. Os casais reais dos Adâmicos não podiam deixar suas comunidades, e estavam obrigados a permanecer nelas e defendê-las. Isso nos tornava vulneráveis, já que não podíamos reunir vários de nós para ajudar os outros Jardins. É verdades que os aldeões adâmicos não estavam inteiramente indefesos, já que gozavam de uma saúde realmente sobre-humana. Mas mesmo este poderio incrível não foi capaz de protegê-los dos inimigos. O Jardim da Fidelidade, na Sicília, o Jardim do Fruto Bendito, na Espanha, e os Jardins da Glória de Adonai e da Nuvem dos Santos Anjos, no mesmo Marrocos, tinham sido invadidos por algum inimigo sobrenatural de absurdo poder. Corpos esmagados ou mutilados, casas demolidas, plantações incineradas ou congeladas, o que quer fosse o invasor, demonstrava um arsenal incrivelmente letal, mas não deixava nenhum vestígio. Os poucos sobreviventes não eram capazes de dar uma descrição exata do que acontecera.

Eu podia sentir por trás daquelas atrocidades a presença infernal da Serpente e seus consortes corruptos. Ursula com certeza pensava o mesmo que eu.

Este é o Jardim a que devemos proteger. É nossa missão. É nossa Vida.

O Demônio está próximo, nos espreitando com seu olhar oblíquo, contaminando o ar com seu hálito podre.

Ursula lança um olhar triste para mim. Eu a beijo com toda minha paixão imorredoura. A aflição dela é a minha. Nós, que somos os protetores do Paraíso, estamos nos sentindo desprotegidos.

Não sabemos o que fazer.

Que Haniel, Mikhael e Gabriel nos protejam.

O DESPERTAR DO REI foi escrito por Simões Lopes

Retornar ao Universo Germinante

terça-feira, 9 de junho de 2009

Rebelião 85: Fidelidade Canina

Todos dizem que me pareço demais com meu pai, e sou forçado a acreditar, já que nunca o conheci. Poucos dias após meu nascimento, ele partiu para a guerra e jamais o vimos de novo.
Minha mãe sempre me contava que no dia em que um soldado maltrapilho chegou ao vilarejo para trazer a nefasta notícia da morte de papai, um temporal desabou sobre o vale, enchendo o leito do rio e inundando os cafezais com uma torrente de lama preta. Coriscos cortaram o céu cor de chumbo, e uma chuva de granizo muito forte destruiu a cruz de madeira da capelinha de São Jorge. Na carta trazida pelo cadete estavam escritas as últimas palavras de papai, em uma singela frase, “A guerra vai durar, mas vocês não estarão indefesos”.
Eu já tinha quatro anos de idade, e as lembranças daquele dia sombrio ficaram gravadas em minha memória como uma espécie de filme. Minha mãe carregava-me nos braços, tentando chegar em casa, e usava um cesto de palha muito grande para proteger-me das pedras de gelo que caíam. Ao tentar atravessar o riacho esquálido que cortava o laranjal, mamãe tropeçou num galho e escorregou por um barranco e acabou me largando. Por um breve momento, senti-me voando no espaço, rodopiando como uma folha seca, até afundar nas águas barrentas de um charco que se formara na terra barrenta. Na tentativa desesperada de respirar, agitei os braços, mas não via mais nada ao meu redor. Não havia “acima” ou “embaixo”, e senti o gosto desagradável da água suja ardendo em meu nariz.
Tudo pareceu sumir numa grande mancha escura.
Minha mãe disse que eu sumi por mais de um minuto.
Quando abri os olhos, estava estirado na grama, com uma língua morna lambendo meu rosto. Foi nesse dia em que conheci Buridan.
Um canzarrão enorme, com a boca entreaberta mostrando as enormes presas amareladas. O pêlo branco e lustroso parecia cintilar sob a luz do lua, que aparecia timidamente por trás das nuvens. Tão rápido quanto começara, a tempestade estava se dissipando. O luar refletido nas manchas d’água parecia emoldurar a figura impressionante daquele cachorro de talhe gigantesco.
Numa espécie de gratidão imediata, minha mãe acaricia os pelos da nuca do animal, e eu sentia seus olhos vermelhos fixos em mim, emanando uma aura de calma e proteção. Quando voltamos para casa, eu passei a noite inteira na janela espiando. Ele postou-se à frente de nossa casa, e ficou ali, imóvel, impávido, como se nos guardasse.
O tempo foi passando e fui aprendendo as coisas do mundo. Entendi que meu pai não tivera um enterro porque nada restara de seu cadáver, despedaçado em uma explosão. Descobri que meu pai guardava uma pequena coleção de livros velhos de histórias de cavalaria e aventura, literalmente “mergulhei” naquele universo de fantasia. Quanto ao cachorrão, ele jamais foi embora, e acabamos por adotá-lo, embora eu desconfie que o mais correto seria dizer que ele é quem nos adotou. Desde os quatro anos, eu chamava-o simplesmente de “Todobranco”, mas quando já sentia os primeiros fios de bigode a coçar-me o beiço, decidiu rebatizá-lo de “Buridan”, do nome de um personagem de um dos livrinhos de meu pai. Deixei a vila para estudar, e quando voltei, muito tempo depois, para encontrar minha mãe em seu leito de morte, eu já era um erudito professor. Buridan continuava lá, impávido, com seus dentes enormes desenhando o que eu sempre entendia como espécie de sorriso.
Sem família, e sem maiores ambições na vida, fiquei no povoado, lecionando e, nas horas vagas, trancado em minha humilde biblioteca, a qual tive o cuidado de aumentar. Não casei nem tive filhos, e Buridan era a minha única companhia. Às vezes pensava em meus falecidos pais, e por vezes, ousava pensar na estranha morte de meu pai. Que guerra era aquela? Nosso país não tomara parte em nenhuma guerra, interna ou externa. Nenhuma revolução. Nenhum conflito civil. Com o passar do tempo, isto acabou não tendo importância. O quer que tivesse acontecido, estava enterrado num passado distante. Meus cabelos perderam o viço, e começaram a cair, e minha pele tornou-se seca e quebradiça. Era a velhice cobrando seu preço, e a meu redor via tudo definhando. A coleção de meu pai estava ficando em frangalhos, os livros amarelados reduzindo-se a pó; a casa, vítima de meu pouco zelo doméstico, era suja e deteriorada.
Apenas Buridan não mudava. Mesmo com muitas décadas de idade — algo incomum para sua espécie —, ele permanecia o mesmo mastim de olhar brilhante, altivo, com o latido alto a ecoar pelas noites frias. Aposentado, com a vista cada vez mais embaçada, passei a visitar a capela de São Jorge. Uma construção simples, de pedra, com detalhes em madeira sólida, onde minha mãe passara tantas manhãs rezando e chorando, enquanto esperava pelo retorno do marido. Não era muito antiga: na verdade, descobri, para minha surpresa, que havia sido construída uns oitenta anos antes pelo meu avô, um pedreiro caolho, cuja força prodigiosa tornara-se uma lenda no povoado. O frei responsável pela capela havia morrido há muito tempo atrás — acho que mais ou menos na mesma época que meu pai, e como nenhum substituto fora posto em seu lugar, a igrejinha dependia dos cuidados esporádicos de uns poucos beatos.
Eu entro na capela benzendo-me, num gesto meio automático que aprendi com minha finada mãe. Ajoelho-me, mais por cansaço do que por devoção, e fecho os olhos, como se buscasse um momento de relaxamento. O som de passos desperta-me de meu transe reparador.
As velas acesas lançam manchas avermelhadas nas paredes de rocha. Não me recordo de tê-las acendido, mas não tenho tempo para pensar mais no assunto. Duas silhuetas altas estão parada junto às portas de ferro. Os cabelos são loiros, e balbuciam algo ríspido numa língua estrangeira. Pode ser alemão ou algum dialeto holandês. Não importa. Um dos estrangeiros é gordo, e seu rosto enrugado é coberto por cicatrizes profundas. Ele chuta o primeiro banco, rachando-o ao meio, enquanto que o segundo, mais magro, com uma barba espessa emoldurando o queixo pontudo, saca uma espécie de punhal comprido do bolso.
Eu penso em gritar, mas não consigo emitir som algum. Meus pulmões parece estar sendo privados de sua força, e um pontapé me atinge em cheio na coxa direita. Bato com a cabeça no altar, e vejo os dois invasores dirigirem sua atenção à imagem tosca de São Jorge que decora a parede central. O velho robusto expõe os dentes numa espécie de careta, rangendo como uma dobradiça gasta. Seus olhos tornam-se negros e vazios, e percebo que seu companheiro movimenta os braços numa espécie de balé misterioso. A imagem é derrubada com violência, e uma labareda sai do punhal, derretendo a imagem de cavalo e expondo alguns objetos em seu interior. O homem abaixa-se com os dentes abertos numa risada sinistra, e enfia a mão naquela massa disforme em que a cerâmica derretida transformara-se, puxando uma espécie de crucifixo pesado de metal esverdeado, com um cordão de contas de alguma substância brilhosa. Os dois conversam algo que eu não compreendo, e brandem o objeto como uma espécie de troféu. O louro de ar esquálido estica a língua, que se estende num comprimento inumando, e baba uma espessa gosma sangrenta no altar, traçando com a unha uma espécie de sinal demoníaco no chão.
As chamas das velas bruxuleiam pelas paredes, lançando um restolho de luz pelo cenário sombrio. Eles então sorriem mais uma vez, agora em minha direção, e aproximam-se. Com uma força incomum, sou erguido do chão pelos braços magros do bruxo, e sinto seu hálito sulfuroso provocar-me engulhos. O bandido sopra nas velas, apagando-as, e mergulhando a capela numa escuridão quase completa.
A vela central, no castiçal maior, tremula, e insiste em ficar acesa. O outro homem cospe no chão, como se tentasse conspurca a santidade da capela, e balbucia uma frase num tom desagradavelmente fino.
Com os dedos enluvados, ele extingue a última chama, e a escuridão reina absoluta.
Mas apenas por um breve momento.
A vela que parecia apagada, torna a se acender, desta vez em uma labareda tão intensa e luminosa que incendeia o mais velho dos hereges. Um turbilhão de vento invade a igreja derrubando o seu companheiro, e lançando-o contra a fileira de bancos, num choque tão violento que escuto os ossos se partindo.
O homem de traços nórdicos ainda insiste em levantar-se, apesar da nítida fratura exposta em seu cotovelo. Seus olhos vazios fitam-me com um ardor demoníaco, iluminados pela chama central que arde no meio da igreja. Ele continua rindo.
Um uivo corta a noite, fazendo meus ouvidos doerem.
Sem compreender o que está acontecendo, eu cerro minha vista, e vejo Buridan em cima do altar.
O pêlo branco refulgindo em um brilho sobrenatural.
Seus olhos são duas enormes labaredas, e neste momento percebo que todas as velas incendeiam-se ao mesmo tempo.
O bruxo arremessa um punhal no cachorro, e ensaia uma fuga pela escada em caracol que leva à torre do sino. Buridan permanece imóvel. Limita-se a cuspir uma bola de fogo, derretendo a arma em pleno ar, e flexiona as pernas musculosas, com o olhar fixo no inimigo.
O pulo é tão rápido que não posso descrever a cena que se seguiu. Só ouvi os gritos animalescos do homem, e o medonho som de um corpo sendo despedaçado, antes de perder os sentidos.
Acordei em minha cama, sem saber quantos dias tinham se passado desde tudo aquilo, e nem me preocupei em descobrir. Não sei como meus ferimentos foram curados, e também não quero saber quem fez isso. Sinto que deve existir alguma ligação entre tantos eventos misteriosos: a morte de meu pai, a guerra da qual fez parte, os dois invasores, a tempestade e, naturalmente, o surgimento de Buridan. Mas estou velho demais para buscar a solução de enigmas que não serão de nenhuma serventia para este pobre professor aposentado em um povoado esquecido no fim do mundo.
Nunca mais fitei os seus olhos flamejantes, mas, às vezes tenho a sensação de ouvir seu uivo ecoando pelo vale, nas noites tristes e insones.
Sinto que ele continuará por perto, zelando por mim.
Minha saúde está péssima, meu corpo definha com rapidez, e minhas memórias estão cada vez mais confusas. Tenho quase noventa anos e estou próximo do fim.
Rezo todos dias a São Jorge para que meu fim chegue logo, e que assim, o meu querido protetor, o invencível Buridan, tenha também seu descanso merecido.
FIDELIDADE CANINA foi escrito por Simões Lopes