domingo, 16 de dezembro de 2007

Maytréia 8: Caminho pelas Vias Estreitas


Caminho pelas vias estreitas, tocando levemente algumas lápides com as pontas dos dedos. Quando criança, vinha ao cemitério conversar com minha mãe — me sentava defronte à sua lápide e tagarelava as bobagens que aconteciam comigo na escola. Após minha iniciação, a primeira coisa que fiz foi vir ao cemitério, visitar a lápide de mamãe.

A coisa que vi se decompondo no mundo astral me fez vomitar meu almoço. E eu passara vinte e dois anos fazendo confissões àquilo.

Venho até aqui hoje por causa de meu melhor amigo. Não, ele não esticou as pernas. Ele está sentado defronte ao túmulo de sua esposa, tagarelando as coisas tenebrosas que passam por sua cabeça desde a morte dela. Sinto que ele quer se unir a ela. O tipo de sensação que atravessa a Maya e me acerta no fundo dos olhos, lá, onde vejo as coisas de verdade.

— Olá, Carlos.

Um zumbi. Se este fosse um filme Z, eu estaria procurando uma pá para acertar sua cabeça. Mas não é um filme Z, e não tem graça. Eu o vejo como um zumbi porque meus sentidos iniciáticos o estão percebendo no plano etérico, onde capto a vitalidade das pessoas, e vejo que ele está morrendo aos poucos.

— Eu estava falando com Estela... queria muito que me ouvisse... acha que ela me ouve...?

Pobre infeliz. Gostaria de dizer que nesta altura ela esta presa numa espécie de delirante mundo particular, onde os dois continuam fumando maconha e trepando todas as madrugadas após seus shows de rock. Que ela não vê diferença entre este delírio e o mundo “real”, e que quando este sonho bom acabar, ela volta ao mundo, para viver de novo, seja que merda for.

Mas acho que isso não vai consolá-lo. Como não me consolou ver o maldito cadáver etérico-astral da minha mãe, babando fragmentos de pensamentos entrecortados, ansiosa pela visita que esticava um pouco suas sensações de existência.

Caralho, se eu fosse Neo, mandava o Morfeu enfiar aquela porra de pílula vermelha no rabo.

— Sabe... você sempre dizia... não é? ... Que... a gente... hã?

Ele está quase tão morto quanto ela. Me arrependo do monte de besteiras que falava para ele nos meus tempos de Filosofista (malditos sejam os putos que me abriram estas portas de pesadelos!).

— Carlos, eu... claro, acho que sim...

— Sim o quê...?

— Acho que está tudo bem... você só não pode... sabe, estar com ela, digo, agora, mas está tudo bem.

Por baixo de toda esta merda de dor, abandono e mágoa, há um mar de tranqüilidade e blá, blá, blá. Uma pena que a maioria fique boiando no mar de merda.

— Não... não é o... como é...

— Carlos, você precisa parar com esta merda! A porra dos remédios, o pó, a bebida... você está se matando, seu panaca estúpido!

O idiota começa a chorar. E eu também. Porque ele não chora por si mesmo — chora por mim. Chora por minha imensa crosta de ignorância que me torna incapaz de compreender sua dor. Quando todas as minhas convicções caíram por terra ele esteve lá, me ajudando. Mais meu irmão que qualquer dos babacas que vestiam mantos brancos para entoar mantras comigo nas manhãs de sábado.

Cacete, amo demais esse pobre diabo para perdê-lo para seu pesar.

— Você... nem falava palavrão... o que é... que aconteceu com a gente?

As lágrimas escorrem pelo seu rosto magro, e eu estou me abaixando para abraçá-lo quando vejo com o canto dos olhos. É seu espectro.

O fantasma estúpido e surumbático de sua esposa. Ela está olhando para mim, como se pudesse me ver (quando você os vê, eles o vêem também, dizia o mestre), mas não tem aquele olhar parado e idiota. Ela está esperando algo.

— Olá, André. Estive esperando você.

Me agarro ao Carlos como uma criança assustada. Eles nunca falam assim. Eles nunca tomam a iniciativa numa conversa. E, meu Deus, eles nunca parecem tão reais!

— Desculpe, André. Não se assuste. Sei o que estava esperando, e lamento por sua desagradável experiência. Agora me ouça com atenção, porque eu o esperei por muito tempo, e minhas forças estão no final.

“Você é um tolo. E como todos os tolos, é um homem bom. Eu te amo, e o Carlos te ama também. Sabe o que ele me fala toda semana? Me fala que teme por você, mas que é só um idiota viciado que não consegue ajudar nem a si mesmo. Fala que você não tem mais metas, que é um cínico. Ele sente minha falta, é claro, mas também porque eu sabia como falar com você.”

“Você não sabe de tudo. Na verdade, não passa de um garoto assustado que fugiu da escola porque não conseguiu entender uma equação. Pare de olhar as coisas como acha que elas deveriam ser... olhe-as como elas são. Eu estive aqui... nós estivemos aqui, todo este tempo de pranto, apenas por você.”

Ela queria... sinto que ela queria falar mais, mas precisou partir. E era como se eu tivesse sido iniciado agora, e não há seis anos. Ainda estou abraçado a Carlos. Eu limpei sua corrente sangüínea de elementos nocivos umas vinte vezes, mas ele sempre voltava a se drogar. Porque eu não fazia a mágica de verdade.

— Sabe, Carlos, eu realmente acho que ela te ouve. E lamento que não tenha feito a mesma coisa. Vamos embora desse lugar... é hora de recomeçarmos.

Ele me olha como um incrédulo... mas um incrédulo feliz, um sujeito que acertou na loto. E se levanta sorrindo, mas não antes de depositar um beijo carinhoso na lápide de sua mulher.

Obrigado, Estela. Por baixo de toda a tristeza, dor e agonia há um mar de tranqüilidade, o lugar onde os sonhos nascem. Obrigado por me mostrar que a maioria de nós precisa de ajuda para nadar até ele.

Este fascinante mar de mistério que nos conduz a nós mesmos.


CAMINHO PELAS VIAS ESTREITAS foi escrito por Renato Simões

Maytréia 7: Vida Perdida

Sei que o que vou lhe dizer pode decepcionar você. Sei também que você discordará e tentará achar motivos diversos para mostrar que estou errado. Mas acredite, eu venho pensando nisso há meses e o que descobri ontem só serve para confirmar minha posição. Afirmo com uma tranqüila convicção que o melhor que pode me ocorrer agora é partir deste plano.

Sim, com isso eu quero dizer desencarnar. Enfim, morrer.

Por favor, não diga nada ainda. Eu tenho razões profundas para fazer isso. Na verdade, eu tenho uma única razão que é a suficiente para que esta posição seja assumida. Você sabe que nós Iniciados, vivemos em função do equilíbrio de nosso kharma e na intenção de cumprir nosso dharma. Um Iniciado que não consegue isso só tem duas opções: morrer ou tentar viver uma vida mais feliz seguindo a trilha comum já tantas vezes trilhada pelos Doutrinados. Quando se é um neófito, creio que esta última ainda é uma opção viável, mas depois de um tempo ou se tem tudo ou não se tem nada.

E eu já tenho muito tempo. E fracassei para com o cumprimento do meu dharma.

Isto significa que eu perdi a razão de viver. Entenda, eu praticamente abandonei minha vida “mundana” para que meu dharma fosse cumprido. Deixei para trás amores, sonhos e planos. Coloquei minha vida particular, minha família – tudo enfim – em segundo plano. Apostei literalmente minha existência na intenção de ser útil à humanidade.

Sabe, quando descobri meu dharma, foi um momento de glória inesquecível. Eu havia entendido a causa de minha existência neste mundo de dor e sofrimento. Ao contrário da maioria das pessoas que não sabem o que vêm fazer neste mundo, eu tinha noção plena do meu papel nos desígnios da Divindade. Eu me sentia... abençoado.

Posso lhe dizer qual é o meu dharma agora que sei que fracassei. Não, não se preocupe. Sei o que estou fazendo. Confio em você. Mas onde eu estava mesmo? Ah, sim. Meu dharma é o de ensinar as pessoas a descobrirem o caminho de sua Evolução. Lindo não? Bom, é claro que posso acha-lo tão belo por me identificar com ele. É o meu dharma, afinal.

Eu deveria descobrir e mostrar as pessoas os mais diversos Mestres e Mestras que contribuíram para o desenvolvimento da Humanidade. Não apenas Mestres místicos, muito pelo contrário. Cientistas, filósofos, políticos, artistas, escritores e homens e mulheres de negócios – entre outros – faziam parte da lista de pessoas que criaram idéias que eu deveria desvendar e tornar o mais claro possível para a maioria das pessoas. Eu não criaria nada de novo, infelizmente, mas seria o seu divulgador.

Eu nasci para ser um arauto.

Onde fracassei? Eu descobri meu dharma há 10 anos atrás. Nesta época, estava apaixonado. E como todo homem apaixonado, eu a achava perfeita. Sua pele era pura seda para mim. Seus olhos, negros como a noite, me prendiam ao mesmo tempo em que me encabulavam. Sua voz adocicava minha vida. Suas diversas formas de sorrir preenchiam meu dia – desde seu sorriso encabulado quando eu elogiava sua beleza até sua gargalhada franca de pura alegria quando eu brincava com ela. Até mesmo uma pequena marca de nascença que ela carregava era linda para mim.

Seu pai, obviamente, me detestava. Ela era filha única e ele um viúvo muito amargurado. Sua definição religiosa fazia com que eu me transformasse num demônio em pessoa. Aos seus olhos, eu havia saído das fossas abissais com o único objetivo de seduzir a filha dele.

Sei que isso é engraçado para nós. Sabemos que se existisse um demônio ele iria procurar almas mais... rentáveis. Nenhum ser de milênios de idade irá se preocupar em tentar um humano que não faz a menor diferença na existência. Eles devem estar mais preocupados em atrair para as suas fileiras Presidentes de países, donos de empresas, artistas de grande influência, grandes militares... ou até líderes religiosos. Por que perder tempo com qualquer pessoa comum, não é mesmo?

Mas, para o pai dela, isso era sério. Ele acreditava realmente num demônio pessoal. E acreditava que eu fora enviado por ele. Isto só piorou quando ele soube que eu estudava assuntos que não se encaixavam naquilo que sua religião considerava santificado. Devemos respeitar isso. Faz parte do momento de Evolução dele.

Eu não entendi isso na época. Quando ele pressionava e agia para destruir meu relacionamento com ela, eu “caia como um pato” nas suas armadilhas. Não entendia que quando nosso encontro acabava eu seguia para minha casa, enquanto ela ficava sozinha com um pai neurótico, que pressionava sua filha indefesa de todas as formas; desde a chantagem emocional até o terror psicológico. Tensa, ela me pressionava. E eu – covarde – não entendia o lado dela. Eu cometia o maior dos erros.

Eu a fazia sofrer.

Não, não estou sendo duro demais comigo. Em meu egoísmo, não percebia que a mulher de minha vida sofria e precisava de mim. Ao perceber que o único momento de alívio e felicidade dela era comigo, deveria saber levar tudo até as coisas se ajeitarem. Mas não, apavorado, pensando apenas em mim mesmo, tomei a pior das atitudes quando achei que não podia agüentar mais. Eu a dispensei.

Isso foi há 10 anos atrás. Eu passei 10 anos apostando que conseguiria encontrar o equilíbrio enquanto trabalhava meu dharma e tentava limpar meus kharmas negativos. Tinha certeza absoluta que voltaria a vê-la. E, quando isso acontecesse, estaríamos mais maduros e poderíamos tentar novamente.

Passei estes anos todos relegando minha vida pessoal para o segundo plano. Depois que me separei dela, o resto foi fácil. Fui me desligando do mundo como se fosse um arquivo sendo apagado da memória de um computador. E assim trabalhei em subempregos, perdi o contato com meus pais, não terminei a faculdade, me tornei um estranho para primos e tios, consegui apenas meia dúzia de amigos fiéis (você entre eles) e vivi amores superficialmente. Não tinha um futuro fora do meu dharma. Claro que imaginava que ela estaria neste futuro, mas depois que meu dharma fosse estabilizado.

Cerca de 8 meses atrás, entendi uma coisa. Ela fazia parte de meu dharma. Talvez eu devesse trabalhar com ela. Talvez tivesse que ser a minha principal aluna. Talvez tivesse algo grandioso a ensinar ao mundo e eu seria seu arauto. Ela não precisava ser uma Iniciada para que isso ocorresse. Exemplos assim existem aos montes. Ela simplesmente não havia adquirido kharmicamente o direito de ser uma Iniciada, mas isso não impede ninguém de ser grandioso. Ela poderia até mesmo ser apenas minha companheira, aquela que me daria a percepção da dimensão humana de que faço parte, daquilo que verdadeiramente sou. Todavia – na minha cegueira, no meu medo, no meu egoísmo – eu a dispensei. Como conseqüência, minha vida foi se desfazendo e eu virei uma sombra do que deveria ter sido. Vivi uma vida mais falsa e ilusória do que a dos Doutrinados, por minha própria criação.

Depois disso, eu simplesmente não consegui completar meu dharma. Bati cabeça em muros e paredes sem fim e simplesmente a coisa não deu certo. Quando percebi tudo 8 meses atrás, comecei a procurar por ela. Mas era tarde. Ela saiu de seu emprego, mudou-se e casou. Contudo, eu ainda tinha esperança. Acreditava que poderia consertar toda a besteira que fiz e – talvez com um pouco mais de esforço – ajudar a ela e a mim mesmo.

Até que ontem encontrei seu pai casualmente na rua. Ele ainda tinha uma raiva pulsante de mim e eu não entendia o motivo. Mas havia algo mais. Algo brilhava diferente nos seus olhos quando me reconheceu. E quando percebi o que era, meu estômago embrulhou e contraiu-se como se fosse desaparecer num buraco dentro de mim.

Ele sentia uma dor muito grande. E, na mesma hora que percebi isso, soube o porquê.

Com essa mistura de raiva e dor ele me contou das circunstâncias da morte dela. De como se suicidou por não agüentar mais apanhar do marido. De como passou 10 anos esperando que eu voltasse. De como passou estes mesmos 10 anos culpando o pai por ter me afastado dela. De como morreu achando que eu não a amava, se perguntando o que foi que tinha feito.

E, acima de tudo, ele me contou como soube de tudo isso através do bilhete suicida que ela deixou endereçado ao pai para que fosse entregue a mim, como um último desejo.

Não, não precisa do lenço, obrigado. Isso já passa. Eu passei a noite toda pensando sobre a grande besteira que fiz. Sobre como joguei duas vidas fora. Pensei em suicídio, sabe? Mas sabemos o que acontece aos suicidas e não pretendo fazer mais essa besteira. Eu sei, eu sei. Sei como ela está agora devido ao que fez... e sei de quem é grande parte da culpa. Pretendo ver se a encontro no plano astral. Ela deve estar sofrendo presa em algum Sono da Alma e o mínimo que posso fazer é tentar resgata-la.

Sei, sei, é perigoso. Posso ser engolido no pesadelo em que ela se encontra. Aliás, considerando-se que é uma suicida, é bem provável que isso aconteça. Mas não posso fazer outra coisa. O que de pior acontecer, eu serei merecedor.

Parto amanhã. Deixei tudo pronto. Estou aqui para lhe dar um abraço e dizer que acredito que você será capaz de completar seu dharma. Sim, eu acho que sei qual é, mas não vou dizer. Afinal, eu poderia estar errado e isso poderia estragar a encarnação de mais um. Sem contar que se eu estiver certo, aí sim terei estragado sua vida mesmo!

Mande meus agradecimentos a minha Tutora. Diga a ela que muito me honrou que ela fosse minha instrutora e mestra e que eu fiz o máximo para ser digno. Apenas errei numa curva do caminho. Sei que ela sentirá, mas tentará demonstrar que não para você. Por isso, apenas dê o recado, certo?

Hoje à noite darei um forte abraço nos meus pais. Pedirei desculpas a eles pelo estorvo que fui. Sei que dirão que se orgulham de mim, mas eles não podem esconder sua preocupação e dor de um Iniciado. Tentarei não criar um clima de despedida. Eles não merecem sofrer mais por minha causa. Acredito que você poderá criar uma imagem bem positiva de mim para eles. Não por mim, é claro. Mas por eles mesmos. Um prêmio de consolação pela decepção que fui na vida deles.

Vivo agora com a sensação de que esta encarnação acabou. Se a Divindade for misericordiosa, morrerei logo. Mas não creio que seja merecedor desta dádiva. É um kharma a mais para ser trabalhado. Adeus.

Mal posso esperar para mergulhar no esquecimento.
VIFA
VIDA PERDIDA foi escrito por Danilo Faria

Maytréia 6: Tempestade Astral


DormedosofrimentohorrorsolidãodortormentoinfelicidadedorsolidãotristezaferidaprofundasofrimentodorSOCORROMEAJUDEM


tristezahorrorabandonosolidãodesesperoinfelicidade...


Sua consciência estava mergulhada numa tempestade de sofrimento sem fim. Sua tormenta era tão grande que ela simplesmente não sabia quem era, não sabia como havia parado ali e não sabia o motivo.


Ela só sabia que desejava sair rápido.


Para onde, não sabia. Na verdade, não sabia dizer se havia alguma outra vida além daquela em que ela estava mergulhada.


Tudo se resumia a um sofrimento sem fim.


Mas havia algo mais por ali. Ela podia sentir. Era... outra consciência?



SofrimentosolidãomedodorpenaACABEMCOMISSOPORFAVORtormentovontadedemorrer...



Sim, outra consciência. Mas ao fazer contato, percebeu algo assustador. Essa consciência iria machucá-la... mais ainda?



MedomedomedomedomedomedomedomedoMEDEIXEEMPAZmedomedomedomedoMETIREDAQUIPORFAVORmedomedomedo


NÃOMEMACHUQUEMAISAINDAmedomedomedomedo...



Livre-se nesse medo” disse a outra consciência “use como âncora para firmar sua mente a lembrança de quem você é.”


Mas a voz que lhe falava era horrível e parecia que ia tortura-la com torturas maiores (como se isso fosse possível...o importante é que ela acreditava que sim.).



MedomedomedomedomedomedoNÃONÃOmedomedomedoEUSEREIBOAZINHAmedomedomedomedomedomedoFAREIOQUE


QUIZERmedomedomedomedoSÓNÃOMEMACHUQUEEEEE...



“Cláudia” rosna a voz “seu nome é Cláudia. Lembre-se disso e me siga. Eu não vou machucar você.”



MedomedomedomedomedoVOCÊPROMETEmedomedomedomedomedomedomedoNÃOMEMACHUQUEmedomedomedo


medomedoNÃOMEDEIXESOZINHAAQUImedomedo...



“Então venha, siga na minha direção.”


Mas a voz era assustadora. Era com certeza um grande e poderoso monstro que iria devora-la. Ela lembra de quando ouviu sobre uma história de uma coisa chamada “Bicho-papão” que a devoraria se ela deixasse. Ela não sabe de onde conhecia o Bicho-papão, mas sabia que ele era mau. Não, mais que isso – ele era o Mal.



MedodúvidamedodúvidamedodúvidamedodúvidaEUACHOQUENÃOACREDITOEMVOCÊmedodúvidamedodúvidaEUQUERO


QUEISSOACABEmedodúvidamedodúvidaVOCÊVAIMEMACHUCARRRR...



“Cláudia, não! Concentre-se no seu nome e siga na minha direção...”



MedodúvidapavorpânicohorrorNÃONÃONÃOsofrimentoperdiçãosozinhaMEMACHUCARMEMACHUCARmedodúvidasofrimento


medodúvidasolidãomedodúvidatemorMACHUCAMACHUCAMACHUCA...



“Claúdia, não! Sua consciência está naufragando nas vibrações negativas. Concentre-se. Lembre-se de quem você é. Venha na minha direção!”


Criatura parecia mais assustadora. Ela agora tinha certeza de que era o Bicho-papão. E ele parecia estar se aproximando!


Ela ia ser devorada. Podia sentir com antecipação sua estrutura sendo rasgada por mandíbulas feitas dos mais terríveis sentimentos de ódio e crueldade, se alimentando do medo dela.



TerrorpânicohorrorSOCORROdúvidamedodorsofrimentoantecipadohorrorSAIDAQUImedopavortristezasofriemtohorrorSAISAISAI


desilusãosofrimentomedohorrortristezadesânimoSAIIIIIIIImedoterrorterrorterrorterrorKKKKKKKKK...



A consciência dela sumia aos poucos. Enlouquecendo em meio ao tormento que atravessava, ela sentia que se “desfazia” no meio de um maremoto. A criatura parecia infernalmente próxima e disse uma única frase. Essa frase não foi pronunciada como o grito de alguém que parecia estar procurando outra pessoa numa tempestade. Não, ela foi dita quase que num sussurro...e foi isso que a tornou profundamente assustadora e decisiva para o que ocorreu depois.


“Cláudia, se você não vier até mim eu vou devorar você.”



MedomedomedomedoDEVORAR?medomedomedomedoDEVORARAMIM?medomedomedomedoDEVORARACLÁUDIA?


medoraivamedoraivamedoraivamedoraivamedoraivaEUSOUCLÁUDIAraivalutarraivalutarraivalutarEUSOUCLÁUDIAENÃOSEREI


DEVORADAlutarcoragemlutarcoragemlutarEU NÃO SEREI DEVORADA POR NINGUÉM!



Tudo estava calmo.


Cláudia lembrava de quem era. E lembrava de quem era aquele que flutuava a sua frente, que ela pensava ser o Bicho-papão. Ridículo, o Bicho-papão só existirá se ela quiser.


Quem estava na sua frente era o seu Tutor e ele sorria.


“A tempestade acabou?” ela perguntou, aliviada por se lembrar de quem era e por se livrar do inferno em que esteve até aquele momento.


“A tempestade só existia em você. Lembre-se de que neste plano, as coisas respondem ao seu estado de espírito. Se você fica com medo, o medo se acumula ao seu redor atraindo outros sentimentos negativos até que sua percepção da Maya seja obliterada e você veja apenas sofrimento. Daí para a perda completa da consciência é um pulo.”


“Aquilo foi horrível” Cláudia ainda tremia com a experiência “agora entendo como surgiu o conceito de inferno...”


“É mesmo?” seu Tutor faz aquela expressão misteriosa que a intriga tanto “Mas admito que grande parte da culpa foi minha.


Quando deixei você se transformar em corpo astral, eu devia perceber que seu medo estava muito forte. Isso provocou a bola de neve que vimos.”


“Eu acreditei que você era o Bicho-papão. Achei que você iria me devorar...”


“Sim, isso é possível. Enxergando o mundo através da lente do medo, tudo vira algo que pode lhe machucar.”


“Podemos ir embora, agora?” ela pergunta, ainda temerosa.


“Não deixe que o medo a domine novamente” o Tutor diz, tranqüilo “Além disso, uma experiência ruim não é garantia de que todas elas assim serão. Venha, eu conduzirei você.”


Ele sorri novamente.


“Afinal de contas, você nem viu ainda o mais interessante...”


Cláudia se prepara para seguir seu Tutor. Mas antes de partir, uma curiosidade surge e ela não consegue evitar a pergunta:


“Quantas horas você lutou para me tirar deste estado?”


Seu Tutor se virou devagar e soltou as palavras com muito cuidado, evitando chocar muito a sua pupila:


“Acho que cerca de meio minuto...”


Não adiantou. Cláudia se assustou profundamente ao pensar nas possibilidades. Temendo que ela voltasse a demonstrar algum descontrole, seu Tutor falou rapidamente:


“Bom, agora você sabe como a concepção de inferno foi criada em nosso mundo...” ele sorri para ela então “... assim como a de céu.”


Ela reflete um pouco e entende que era verdade. Se este lugar podia criar um inferno ele também poderia criar um céu.


Sorri de volta para o seu Tutor.


“Obrigada por me salvar... vamos?”


E eles partem, com Cláudia devidamente próxima de seu Tutor.


TEMPESTADE ASTRAL foi escrito por Danilo Faria

Rebelião 12: Reencontro


No alto da montanha havia uma velha choupana. Abandonada há anos, talvez até mesmo há décadas, oculta por trás das sombras dos carvalhos que a cercavam. Hoje ela não está vazia. Ao redor de um círculo pintado no chão, marcado com signos de um alfabeto obscuro, sentam-se duas pessoas, em silêncio absoluto.

O brilho da lua entra pelas frestas da madeira carcomida, iluminando os cabelos cinzentos de Rudrah, presos num coque. O taciturno indiano é alto, com nariz aquilino e tez de cobre. Uma barba rala decora seu queixo pontudo e em seu peito brilha um disco de prata. À sua frente, os olhos azuis de sua companheira de meditação cintilam ao luar como duas estrelas. Cabelos negros curtos e espetados, pele clara e um corpo sensual mal-disfarçado pela túnica violeta. Uma tiara dourada emoldura sua face juvenil. Só aqueles que conhecem sua verdadeira natureza a chamam de Stella Maris.

A operação é interrompida por barulhos vindos da porta. Um viajante de baixa estatura, porém robusto, de olhos orientais e pele dourada, nascido há muito tempo atrás nas areias do deserto de Gobi. Os cabelos são compridos e as roupas surradas. De um bolso empoeirado ele retira sementes que mastiga com voracidade. Baldan — este era seu nome — abre um largo sorriso, e de outro bolso ele retira uma flor, murcha e seca. À medida em que sorri a flor desabrocha em sua mão adquirindo uma coloração magnificamente sobrenatural. Ele a coloca entre os cabelos de Stella Maris e se senta junto aos dois amigos.

O silêncio prossegue agora com os três, até que a eles se junta uma quarta pessoa. Os três não podem ver o luxuoso carro que ficou estacionado muito abaixo, no início da trilha de pedras. Uma elegante mulher caminha em direção à cabana, com passos de uma maciez felina. Nenhum dos funcionários da pujante Corretora Silverstar seria capaz de imaginar Jessica McNicols, a onipotente presidente da empresa, passeando por uma cabana em ruínas neste momento.Ela se junta aos três peregrinos, tira cuidadosamente o pó do vestido, e se senta ao redor do círculo. Jessica já foi chamada por muitos nomes, mas neste momento, só deseja ser chamada pelo título que seus irmãos Precursores lhe conferiram: Episcopa Demetria.

Michel Marie corre vigorosamente pela trilha na montanha. Os olhos luzindo num demoníaco brilho escarlate contrastam com sua pele negra. O gigantesco corredor percorre a trilha com uma facilidade e velocidade que nenhum ser humano poderia sequer tentar. Michel Marie hoje teve uma visão de seu pai. Um anjo com asas de nuvens, cuja cabeça alcançava os céus, as trombetas ainda ressoando em seus ouvidos. Michel Marie sabe que nunca mais sentirá a brisa tropical do mar do Caribe de onde vem. Mas isto não o impedirá de fazer o que tem de ser feito.

O que restou da porta da velha choupana enverga-se até quase quebrar ante a pressão de seus punhos poderosos. Assim que entra, vê imediatamente surgir à sua frente uma chinesa vestida toda de negro, brincando com uma chama que se contorce entre seus dedos como um ser vivo. Huang Lu lança um olhar de desdém e profere uma frase curta e seca:

— O último acaba de chegar. Neste momento.

Um clarão cegante irrompe pela porta engolfando a todos. A claridade dura mais alguns segundos, em meio a ela vai se delineano a silhueta magra do último visitante.

— Muito bem, rapaziada. O nariz de contornos esculturais, o charme libertino dos faraós, a elegância de um chacal das dunas, e um senso de humor que faz os Céus e os Infernos tremerem! Adivinhem quem é? – brinca, numa risada contagiante.

Rudrah se levanta. Pela primeira vez esboça um sorriso, e dá um forte abraço em seu amigo de longa data. Então sua voz rouca e profunda como um rugido é finalmente ouvida:

— Que bom revê-lo, Velhinho.

Stella Maris também se ergue e cumprimenta seus hóspedes.

Eu mesma convoquei esta reunião. Vocês devem estar se perguntando o motivo. Não nos vemos há mais de trinta anos.

A chinesa extingue a chama com que se distraía e senta-se ao pé da extinta lareira.

— Só imagino que seja algo de grande magnitude. O primogênito dos Acólitos, uma Episcopa dos Precursores, um Patrono dos Paladinos, uma Venerável de Oitavo Patamar e um Guardião que participou da Primeira Congregação. Convocados por dois Visionários que são Escribas...

— É, só os figurões! Girando como planetas ao redor deste cuja luz é como o Sol!

— Sem gracinhas, Velhinho, pelo menos desta vez.

A Visionária de olhos azul-celeste, se levanta, posicionando-se no centro do círculo, e anuncia em voz alta:

— Decidi reunir nossa Congregação porque corremos grande perigo, uma grande ameaça paira sobre nós... e esta ameaça ... sou ... EU !

Todos, num silêncio quase sepulcral, olham para Stella Maris. Ela cai de joelhos. E chora. Chora copiosamente, durante alguns minutos que parecem ser horas. Ninguém ousa dizer uma palavra. Então, ela enxuga as lágrimas, se ergue e gira o corpo, encarando cada um de seus amigos. Ela está diferente. Uma diferença sutil, sutil demais. Rudrah é o primeiro a perceber...

... e a morrer. Um poder invisível captura seu corpo, e ele é catapultado com tanta força que atravessa as paredes, se chocando na parede rochosa que se ergue atrás da choupana. Crânio esmagado e ossos triturados. Sangue e vísceras escorrem pela pedra.

Stella Maris começa a levitar - O CHAMADO CELESTE... eu o sinto cada vez mais forte dentre de minha cabeça...NÃO HÁ COMO DETÊ-LO... estou perdendo a vontade própria ... não sei mais se fui eu quem os chamou aqui ... OU FOI A OUTRA PARTE DE MIM MESMA... Fujam! Ou me matem agora mesmo! Por favor... TENTEM ME MATAR, SE CONSEGUIREM... sinto uma voz me ordenando... ME COMANDANDO... OS PORTÕES DO CÉU ESTÃO SE ABRINDO... TORNO-ME UMA PARADISIA...pobre Rudrah...não queria...

Michel Marie tenta segurar Stella Maris pelos braços. A delicada holandesa de braços finos, parece sumir encoberta pelo enorme corpo do Paladino de pele escura. Todos assistem horrorizados quando Michel Marie é cortado ao meio como se fosse um boneco por um golpe fulminante da visionária. Ela agora brande uma lança de luz mágica.

TOLOS QUE TENTAM ME SALVAR...EU ESTOU ALÉM...

A flor que estava em seus cabelos incha, transformando-se num monstrengo vegetal cujos tentáculos espinhosos tentam estrangulá-la. Intuindo o estratagema do Guardião, o atinge com uma rajada de seu ferrão mental.

Velhinho tenta alguma magia para reverter a morte de Michel, mas a movimentação incansável da Paradisia não o deixa se concentrar. A luz serpeante que se projeta da testa da Visionária fustiga a todos como um chicote de fogo violeta. Huang Lu tenta mover uma onda de pressão telecinética contra a garota. Por um breve momento, Stella parece sentir o golpe, mas logo contra-ataca, repelindo com uma explosão que lança todos para longe.

Velhinho se vê estendido no matagal, com um braço amputado. Baldan está deitado vários metros atrás, um corte profundo no rosto. A choupana finalmente desaba, e acima dos entulhos paira o corpo nu e translúcido da Paradisia, braços abertos, com pernas e pés esticados num alongamento máximo. Acima dela, começa a se formar uma fresta luminosa.

A criatura celestial projeta um carrossel de luz e sombra pelo capim. De uma das faixas escuras, emerge uma sombra negra característica dos manifestos abissais. É Demetria, e está furiosa.

A fresta no céu se alarga assumindo a forma de uma cruz. Stella Maris começa a subir, seu corpo cada vez mais transparente, e, após lançar o derradeiro olhar para nosso mundo, é tragada pela cruz luminosa, que então some.

Os nefilim vão se recompondo aos poucos, todos feridos ou mutilados. Assistiram impotentes à destruição de dois de melhores amigos, e a presenciaram uma Ascensão. Levantam-se. As cicatrizes físicas serão curadas com o tempo, mas algumas marcas vão ficar para sempre.

REENCONTRO foi escrito por Simoes Lopes

Rebelião 11: As Três Marias

Eram quase seis horas da tarde quando a bonita moça jovem de expressivos olhos negros entrou na minha mercearia, perguntando pela casa de Maria Luciani. Ela se apresentou como sendo a filha desta senhora, e também se chamava Maria. Havia completado os estudos em Milão, e agora queria rever a mãe. Indiquei o caminho, tentando ser simpático. Enquanto ela circulava pela loja, remexendo no balcão dos queijos, não pude deixar de pensar na dita senhora. Dona Maria era um senhora bonita, de olhos negros como os da filha, e cabelos já com mechas grisalhas. Morava com sua a mãe, também Maria, ou Dona Maria Velha, como chamávamos. Moravam num casinha de tijolos vermelhos no sopé da montanha.

Dona Maria Nova vinha de vez quando ao povoado fazer compras. Era mulher de pouquíssimas palavras, e não gostava de fazer amizades. Ninguém a visitava. Meu avô uma vez me contou que a velha sempre morou naquela casinha. Era filha de uma condessa – ou algum desses títulos antigos de nobreza – italiana, que tendo engravidado muito jovem, foi expulsa de casa e deserdada. Veio morar aqui neste pequeno vilarejo alpino, onde teve sua filhinha, a quem chamou de Maria. Isto foi há muito tempo. Maria era garota hábitos muito reclusos. Seus únicos amigos – dizia meu avô – eram uns estrangeiros de roupas estranhas, que de tempos em tempos eram visto circulando por aqui. Após a morte de sua mãe, Maria foi embora .

Voltou muitos anos depois, de dizendo viúva e mãe de uma menina, a segunda Maria. Ela era uma bonita moça – muito parecida com a moça que esteve aqui na loja – e todos garotos da aldeia – o que incluía meu pai e meus tios - queriam muito namorá-la. Mas por algum motivo, ninguém tinha coragem de chegar perto dela. Ela parecia ter uma espécie de aura que os mantinha afastados. Com a filha fazendo visitas freqüentes ao comércio do povodado, sua mãe passou cada vez a sair menos de casa. Hoje em dia raramente é vista, mas meu primo - que mora não muito longe das Marias – me disse que um dia viu de longe a velha, sentada calmamente em sua cadeira de balanço em frente à porta.

Agora a história se repetia, e parece que teríamos uma terceira Maria. Engraçado, como a Maria Nova teve uma filha sem que ninguém soubesse? Estranho... tenho que me lembrar de falar com minha tia sobre isso...

- Quanto é o queijo? – perguntou ela com sua voz suave, interrompendo meus devaneios. Ela comprou dois queijos e foi embora.

Tento me lembrar no que estava pensando quando ela perguntou o preço, e não consigo. Esqueci. Nada de importante, imagino.

Já é noite. No seu quarto, na casinha de tijolos vermelhos. A velha Maria se olha no espelho. As rugas pronunciadas sulcando a testa e as bochechas, o corpo cansado e envelhecido, os cabelos brancos presos num coque. Ela olha para o espelho e sorri, satisfeita. Numa escrivaninha, anota estranhos caracteres num velho caderninho. Atrás da escrivaninha, pilhas de livros se ordenam uma estante de madeira escura. Numa prateleira, frascos com os mais diversos líquidos coloridos. Ela olha mais uma vez no espelho. As rugas desaparecem, a pele se estica, os cabelos brancos se reduzem a grandes mechas grisalhas. Maria ri, soltando os cabelos. Na parede, um quadro de moldura oval mostrava um retrato pintado de sua falecida mãe. Sua querida e saudosa mãe, a filha renegada de uma condessa, que perdera tudo por causa de um amor juvenil. Os grandes olhos negros piscam, enquanto ela dá uma nova olhadela no espelho. A pele continua se transformando, tornando-se cada vez mais lisa e rejuvenescida, os cabelos, agora negros como carvão. Os grandes olhos piscam, e quem está sentada escrevendo agora é a mesma jovem da mercearia. O fogo da lareira crepita, e as chamas amareladas lhe fazem lembrar do pai que nunca conheceu.

Seu segredo continuará intacto. Ninguém jamais saberá que as Três Marias sempre foram na verdade apenas uma.

AS TRÊS MARIAS foi escrito por Simoes Lopes

Rebelião 10: Quatro Mocinhas Indefesas

O vento açoitava os soldados com um frio cortante. Exaustos, eles seguiam marchando com dificuldade pela neve. Os quatro sobreviventos da tropa, liderados pelo sargento Kurt Krüger, prosseguiam em sua longa jornada rumo ao Oeste, de volta para casa. O ano de 1942 estava sendo péssimo para o Exército Alemão. A tentativa de invadir a Rússia, isolando-a de sua linha de suprimentos ao sul, revelara-se um fracasso clamoroso. A resistência incansável dos russos, aliada ao inverno rigoroso e falta de planejamento alemão, estavam impondo uma humilhante derrota aos nazistas. Com as tropas dizimadas e enfraquecidas, muitos soldados tentavam agora o árduo caminho de volta.

O soldado Ludwig estancou de repente. Custava a acreditar no que via. Esfregou os olhos, limpando os flocos de neve suja.

- O que foi, Ludwig? Quer ficar esperando pelos russos? – irritou-se o sargento Krüger.

- Sargento... garotas...no meio da neve...

- Está vendo miragens, Ludwig? Isto aqui não é o deserto! – gritou Helmut, com sarcasmo.

- São quatro! Quatro garotas sim! Não é miragem! Vejam!

Com desdém eles deram uma olhada...e viram. Era aquilo mesmo, quatro lindas moças, juntas, quase sumindo em meio aos torvelinhos de neve.

- É mesmo! Ora, ora, um presente dos céus! Há quanto tempo...

Rupert, o mais alto do grupo, um brutamontes de barba negra e dentes amarelos, disparou em direção às mulheres, gargalhando.

O gesto explosivo de Rupert foi como fogo num rastilho de pólvora. Neste momento, todos os soldados estavam em desabalada carreira pela neve. Já haviam esquecido o cansaço e o desânimo. O sargento ficou para trás.

As garotas esboçaram uma tentativa de fuga. Rupert agarrou uma pela perna e a jogou no chão. As outras foram encurraladas com mais facilidade ainda. Uma levou uma coronhada e desmaiou. As outras foram agarradas.

- O que vocês pensam que estão fazendo, soldados? – perguntou o sargento, ofegante, o último a se juntar ao bando. Os soldados trocaram olhares, a decepção estampada em seus rostos imundos.

- Não vão chamar o seu sargento para a festinha? – brincou o sargento, provocando uma explosão de gargalhadas lascivas. Somente agora eles podiam apreciar com calma suas presas. Eram belezas para todos os tipos e gostos. Uma, alta e loura, de olhos azuis, era agarrada pelos longos cabelos por Siegfried. Rupert beijava uma de cabelos negros crespos grandes olhos de um tom verde-escuro, com uma beleza de estilo grego. Caída na neve estava a vítima de Ludwig, com o sangue escorrendo pelos cabelos castanho-avermelhados, enquanto Helmut tentava sem sucesso rasgar as roupas de um belíssima morena de traços que indicavam sangue oriental.

- Vocês querem congelar aqui fora? Não estão vendo a casa?

Só agora eles perceberam que havia uma pequena casa rústica de tijolos, de onde elas certamente tinham vindo. Helmut entendeu o recado, e começou a arrastar a morena na direção da casa.

- Vocês vão ter o privilégio de provar um pouco de amor alemão.... considerem-se felizes. Você é muda, piranha? – sussurrava Siegfried ao ouvido da loura. Ela não dizia nada, indiferente a aperto doloroso e ao hálito fétido do alemão.

As garotas foram empurradas com violência através da porta de madeira. Lá dentro, a escuridão era iluminada por um lampião velho. O fedor do óleo impregnava o local. As mulheres foram jogadas no chão. Murros. Pontapés. Sem parar. Enquanto batiam, os soldados tentavam tirar as próprias fardas de forma apressada e desajeitada. O sargento afastou Helmut de sua presa, que jazia no chão frio, já praticamente despida, com um grosso filete de sangue escorrendo do nariz, a boca ensagüentada e dentes quebrados. Com um sorriso diabólico de triunfo, o sargento lambeu a face dela.

- Não estamos aqui somente para bater... Agora vem a melhor parte...

Como que paralisada, a grega o fitava com os olhos roxos e inchados.

- Não vai dizer nada, belezinha?

Com dificuldade, e arranhando um péssimo alemão, a moça balbuciou:

- Estão aqui todos?

- Sim, é claro, meu amor, relaxem e aproveitem...

- Aproveitaremos...

Ao dizer isto, o rosto machucado e deformado instantaneamente se transformou: feridas se fechavam, dentes surgiam perfeitos e inteiros, o sorriso de triunfo agora mudava de lado.

Antes que o sargento tivesse notado que em todas elas ocorria a mesma mudança, o lampião foi derrubado com um golpe veloz e potente. O brilho da chama se extinguiu, enquanto rolava pelo chão com um estridente barulho metálico.

A escuridão envolveu a todos. No meio das trevas, luziam agora quatro pares de olhos alaranjados.

Não houve testemunhas para ouvir os berros de dor que se mesclavam ao estalo de ossos se quebrando.

O barulho foi gradativamente parando. Durante alguns minutos, só se ouvia o lamento do vento invernal.

Quatro garotas saíam pela porta. Yolanta Serina, a única delas que era realmente russa, alisava os longos cabelos loiros com a mão. Logo depois, saía Agathe Leandridis, satisfeita, e mais atrás surgiam a francesa Geneviève de Provence, carregando dois fuzis enquanto dizia algo engraçado para a indiana Gandini, agora vestida com uma farda alemã. Já era hora de partir. Aquele não era um lugar adequado para um grupo de quatro “mocinhas” indefesas.

QUATRO MOCINHAS INDEFESAS foi escrito por Simoes Lopes

Rebelião 9: O Pai e o Filho


As ondas do mar batiam com força nos penhascos rochosos. O som ecoava pelas reentrâncias escavadas pela erosão. No mais alto dos rochedos, o corpo franzino de uma criança. Sentada, de pernas cruzadas, ela fitava o abismo. Estava lá há horas, sozinha, esperando. A noite era escura, de lua nova, mas agora ele via uma luz surgir no céu. De início, pequena como um vaga-lume, foi crescendo até assumir uma forma mais ou menos humana. Um anjo. Suas asas luminosas movimentavam-se em silêncio, fazendo-o pousar em frente à criança. Ela o abraçou com ansiedade. Ele colocou a mão sob a cabeça do menino.

- Como eu prometi, estou aqui para continuar a responder suas perguntas. Pode falar...

Os olhinhos brilharam de curiosidade, enquanto fazia força para não se esquecer de nada:

— Meus irmãos já falaram muita coisa sobre a Segunda Rebelião, mas... qual o papel dos anjos nela ? O que os Haioth Haqodesh fizeram ?

— Os Haioth Haqodesh, não, meu filho, O Haioth Haqodesh, já que havia apenas dois no Sheol. O rebelde era Aliel, pois o outro do Sheol era justamente o monarca Sathanael. Aliel queria uma rebelião que depusesse Sathanael e transformasse o Inferno num novo Céu.

— Conte-me dos Asas de Estrela...

— Ora, os Ofanim no Inferno sempre reclamavam do distanciamento de seu líder Lucifer, cuja loucura tornou-o inacessível a qualquer contato racional. Eles inventaram um código através dos quais podiam trocar informações e tramar secretamente, ardilosamente agregando o sentimento rebelde de outras classes. Os Ofanim se irritaram com a precipitação dos Sherafim, que provocaram um início prematuro da guerra. Mas provavelmente os Asas de Estrelas são os únicos que sabem como chegamos aqui.

— E os pais dos Paladinos ?

———— Bem, estes formavam a maioria dentre os Rebeldes, e de certa forma foram responsáveis por não sermos derrotados de forma arrasadora.Aderiram à Rebelião, mas não aceitaram seguir os planos dos Ofanim, pois tinham seus próprios. Quando deflagrada a guerra, foram obrigados a agir. Aqueles arrogantes acham que fizeram tudo sozinhos.

— Pai, o que fizeram os Hashemalim ?

— Bem, havia apenas três deles provenientes da Primeira Rebelião. Os Hashemalim sempre foram muito preocupados com a disciplina e o policiamento de outras classes, tornando sua posição rebelde muito hesitante. A condenação ao Inferno lhes trouxe um grande arrependimento, e um sentimento de melancolia que os fez sonhar em voltar ao Shamaim. Os dois hashemalim descontentes, Elitsabaoth e Netsachel, queriam uma rebelião no Inferno a fim de conseguir o perdão celeste. Seu erro foi buscar a ajuda de Azazel, que acabou os traindo. Azazel, justamente o mais poderoso, compensara seu remorso trocando sua devoção a Deus por uma obediência cega a Sathanael.

— Os Sherafim fizeram muita bagunça ?

— Bem, os Asas de Fogo demoraram a se adaptar aos Elementos abissais. Ressentiam-se do contato com os Quatro Elementos em estado puro, e isso gerou um estado de desespero intenso, o que os fez simplesmente adorar participar de uma rebelião. Já que não viam esperança nenhuma, não tinham medo em declarar abertamente sua vontade.

— Mas que papel tiveram os Elohim rebeldes no Sheol?

— Os Elohim haviam sido obrigados por Sathanael a abandonar os palácios de Dite, exilando-se nas planícies incandescentes de lava, onde educariam os Baalim filhos de Sathanael, enquanto seu líder, Amazarak, e uma pequena elite de bajuladores permaneceram na Cidadela abissal. Durante milênios os elohim odiaram seu líder, sem saber que ele estava tramando uma rebelião para fazer justiça a seus irmãos .

—Hmmm... o próximos da lista são os Beni Elohim. Como eles agiram ?

— Sempre rancorosos e vingativos, seu líder Samael já havia sido Rei do Sheol, antes de ser deposto por Sathanael de forma humilhante. Curiosamente o próprio ex-arcanjo não quis aderir à Rebelião. Mesmo sem sua participação os Beni Elohim foram de grande valor em nossa guerra, pois controlavam hordas gigantescas de nahash dragões. Apesar de seu grande número, poucos passaram pela Fenda.

— E vocês, Kerubim, o que fizeram ?

Ao contrário de nossos irmãos, nós, os Asas de Luz, sempre tivemos esperança na misericórdia divina, e aceitamos com humildade nosso castigo. Quando Aliel nos contatou e descreveu seus planos, vimos isso como uma prova de que o Destino estava nos dando um sinal positivo.

— Ah, eu pulei os Malakhim, eles...

— Não precisa completar. Apenas os próprios Malakhim sabem os motivos pelos quais participaram da Segunda Rebelião. Os Asas de Cristal não aceitaram juntar-se a nós, e só aderiram nos últimos momentos. Se quer saber por que fizeram isso, pergunte a um deles...

Já se passaram duas horas desde que o anjo foi embora. O garoto ainda lá em cima, no penhasco, fitando o abismo....

O PAI E O FILHO foi escrito por Simoes Lopes